Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Internacional - O método japonês de “microfloresta” está a transformar as cidades

As nossas cidades estão poluídas e superlotadas, mas plantar árvores em espaços urbanos pode aumentar a biodiversidade e criar espaços para a vida selvagem no futuro



Entre as ruas movimentadas, parques e centros comerciais, uma transformação verde está silenciosamente em andamento, trazendo a natureza de volta à expansão urbana das cidades. Microflorestas, pequenas áreas de árvores florestais densamente plantadas, estão a ser plantadas em todos os lugares, de Londres a Los Angeles. 

Mas o que são elas e como podem melhorar as nossas metrópoles construídas? 

O que são microflorestas e por que precisamos delas?

Mais de 420 milhões de hectares de floresta foram perdidos para outros usos desde 1990, de acordo com o Relatório sobre o Estado das Florestas do Mundo de 2020 da ONU.

Com mais de 85% da população mundial vivendo em áreas urbanas, as microflorestas nas cidades oferecem uma oportunidade essencial para combater o desmatamento.

A Técnica da Floresta Miyawaki, inventada pelo botânico e especialista em ecologia vegetal japonês, professor Akira Miyawaki, na década de 1970, é a inspiração para microflorestas em todo o mundo. 

Estas pequenas florestas orgânicas e diversas podem ser criadas em locais tão pequenos quanto nove metros quadrados, e usam apenas espécies nativas que, de outra forma, cresceriam naturalmente na área de plantio. Elas crescem até 10 vezes mais rápido do que florestas de monocultura, em apenas duas a três décadas.

Desde que o trabalho de Miyawaki começou, mais de 280 microflorestas foram plantadas.

A ONG Earthwatch Europe plantou 285 pequenas florestas desde 2022. Os seus lotes, compostos por 600 árvores, podem atrair mais de 500 espécies de animais e plantas nos primeiros três anos. Os locais incluem um campo desportivo e um parque em Haringey, no norte de Londres. Enquanto isso, o 'SUGi', um programa de plantio de árvores que visa restaurar a biodiversidade e reintroduzir espécies nativas, criou 230 'florestas de bolso' em 52 cidades ao redor do mundo, de Toulouse, França, a Saint George, na Roménia, e Madrid, Espanha.

Como as microflorestas beneficiam o meio ambiente?

Em áreas urbanas poluídas, as microflorestas podem ajudar a restaurar a qualidade do solo, da água e do ar, de acordo com o Woodland Trust . 

O seu pequeno tamanho permite o plantio em espaços urbanos relativamente limitados, muitas vezes aproveitando espaços não utilizados, como playgrounds de escolas, cemitérios e perto de estações de metro. Eles também podem ajudar a reduzir o impacto de chuvas pesadas e a manter cidades e vilas mais frescas.

As microflorestas podem criar mais meios para a vida selvagem nas cidades, como melros ou ouriços. Quando plantadas em camadas distintas, elas também podem desenvolver comunidades de plantas de arbustos e ervas menores, o que permite que as microflorestas se tornem autossustentáveis após apenas três a cinco anos de crescimento. 

“As nossas florestas de bolso oferecem uma infinidade de benefícios”, diz Elise Van Middelem, fundadora e CEO da SUGi.

“Talvez o mais importante, elas podem apoiar o bem-estar positivo das comunidades. De uma perspectiva psicológica, interagir com a natureza reduz o estresse físico e pode melhorar os sintomas de problemas de saúde mental, incluindo ansiedade ou depressão.”

“Elas tornam-se ímãs para a conexão humana . As pessoas descansam durante o calor do dia ou visitam para ler um livro; noutros momentos, a floresta torna-se um lugar de dança, aprendizagem, discussão e lazer. Elas são autossustentáveis em 2-3 anos de um ponto de vista ecológico, mas num nível muito mais profundo, os membros da comunidade tornam-se administradores da própria terra.”

Ela acrescenta: “Elas também impactam positivamente crianças e jovens. 140 das nossas florestas de bolso foram plantadas em escolas junto com quase 80.000 crianças. Plantar florestas de bolso oferece às crianças uma oportunidade única de se envolverem com a natureza e ver que as suas ações podem ter resultados ambientais tangíveis. Envolver a próxima geração com a natureza é essencial, porque para que queiramos proteger e cuidar da natureza, precisamos sentir uma conexão com ela”.

Quais são os desafios do plantio em áreas urbanas?

Apesar dos benefícios das microflorestas urbanas, também há problemas envolvidos no cultivo nas cidades. 

A exposição a poluentes, altas temperaturas e seca pode impedir o crescimento profundo das raízes e aumentar a probabilidade de doenças, de acordo com a Cities4Forests, uma aliança global que apoia a natureza nas cidades. 

Van Middelem também destaca o desafio de ganhar o apoio das comunidades no crescimento de microflorestas: “É necessário envolver efetivamente as partes interessadas na comunidade e obter a adesão dos residentes. Uma floresta de bolso não pode ser plantada sem a aprovação deles”, diz ela. “No entanto, nenhum desses desafios é intransponível.” 

Todas estas são questões devem ser consideradas, mas, com o tempo, as microflorestas podem ajudar a reduzir a poluição nas cidades, além de torná-las lugares mais agradáveis para se viver. Euronews.green


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Europa – Universidade de Coimbra recebe apoio financeiro para monitorizar a biodiversidade de organismos terrestres em paisagens agrícolas

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) recebeu 2 milhões de euros para monitorizar a biodiversidade em paisagens agrícolas representativas do espaço europeu e contribuir com informação relevante para aumentar o realismo da avaliação de risco de pesticidas na Europa.


José Paulo Sousa, docente do Departamento de Ciências da Vida (DCV) e investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE), é o coordenador na UC do projeto internacional “EESE – EU Environmental scenarios for ERA of non-target organisms”.

«Este projeto pretende obter dados sobre a biodiversidade de diferentes grupos de organismos terrestres a nível europeu (organismos de solo, artrópodes, auxiliares, vertebrados e plantas), bem como contribuir para melhorar e tornar mais realista a avaliação de risco de produtos fitossanitários (PFs). Na União Europeia (UE), os documentos-guia que orientam a aprovação e o registo de PFs estão ultrapassados para alguns grupos de organismos, nomeadamente ao nível dos ecossistemas terrestres. Há assim a necessidade de atualizar esses documentos por forma a tornar o esquema de avaliação de risco mais robusto e mais realista», afirma o especialista.

De acordo com José Paulo Sousa, para atingir esse objetivo é necessário saber o que proteger quando um pesticida atinge o ambiente ou que riscos são ou não aceitáveis do ponto de vista ecológico, ou seja, há que definir objetivos de proteção. Nesse sentido, «é preciso definir os cenários ecológicos de determinada área de paisagem agrícola ou agroflorestal em que se utilizam pesticidas ou produtos farmacêuticos, bem como conhecer a biodiversidade em termos de fauna e flora, particularmente as espécies vulneráveis», considera.

Assim, a equipa da FCTUC vai iniciar os trabalhos de campo já no próximo ano. «Vamos monitorizar os ecossistemas terrestres na primavera, verão e outono, incluindo organismos do solo, invertebrados, vertebrados e plantas e obter dados de riqueza e/ou biodiversidade que, juntamente com a composição e estrutura das paisagens a amostrar, possamos contribuir para a construção dos referidos cenários ecológicos representativos que serão utilizados no processo de avaliação de risco do PFs», conclui o investigador.

Para além de liderarem toda a parte da monitorização e avaliação da biodiversidade de diferentes grupos em campo, em áreas de paisagem/cenários espalhados por toda a Europa, os especialistas vão também avaliar a sensibilidade de diferentes espécies de organismos terrestres seguindo uma nova abordagem de avaliação de efeitos ao nível das comunidades de organismos do solo.

O projeto EESE irá decorrer nos próximos quatro anos e integra uma linha estratégia da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar que pretende destacar a relevância ecológica na avaliação de risco de pesticidas. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Internacional - Estudo da Nature mostra que plantas em zonas secas adotam estratégias de adaptação diferentes

Um estudo internacional em que participam Alexandra Rodríguez, Helena Castro e Jorge Durán, investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), mostra que as plantas em zonas secas adotam muitas estratégias de adaptação diferentes e que, surpreendentemente, essa diversidade aumenta com os níveis de aridez.


Acabado de publicar na prestigiada Nature, este estudo envolveu 120 cientistas de 27 países com o objetivo de entender como as plantas encontradas em terras áridas se adaptaram a esses habitats extremos. Durante oito anos, os cientistas recolheram amostras de várias centenas de parcelas de terras áridas selecionadas em seis continentes.

De acordo com Helena Castro «o isolamento dessas plantas em zonas mais áridas parece ter reduzido a competição entre as espécies, permitindo que elas expressem uma diversidade de formas e funções que é globalmente única, exibindo o dobro da diversidade encontrada em zonas mais temperadas».

«Este estudo lança uma nova luz sobre a nossa compreensão da arquitetura vegetal, adaptação vegetal a habitats extremos, colonização histórica de plantas em ambientes terrestres e a capacidade das plantas de responder às mudanças globais atuais», considera a Alexandra Rodríguez.  

Os cientistas recolheram e processaram amostras de 301 espécies de plantas encontradas em 326 parcelas representativas de todos os continentes (exceto a Antártida) para caracterizar a diversidade funcional das zonas, gerando um total de 1347 conjuntos completos de observações de características para análise.

Inicialmente, pensava-se que a aridez reduziria a diversidade de plantas por meio de seleção, deixando apenas as espécies capazes de tolerar extrema escassez de água e stress por calor. No entanto, os especialistas descobriram que nas zonas mais secas do planeta as plantas exibem uma ampla gama de estratégias de adaptação.

«Por exemplo, algumas plantas desenvolveram altos níveis de cálcio, fortalecendo as paredes celulares como proteção contra a dessecação. Outras contêm altas concentrações de sal, reduzindo a transpiração. Embora sejam observadas menos espécies em escala local comparativamente a outras regiões do planeta, as plantas em zonas áridas exibem uma extraordinária diversidade de formas, tamanhos e funcionamento», garante Jorge Durán.

Esse aumento na diversidade de características ocorre abruptamente no ponto em que a quantidade de chuva diminui do limite anual de 400 mm. Este é também o limite para um declínio pronunciado na cobertura vegetal e o surgimento de grandes áreas de solo descoberto. Para explicar esse fenómeno, os autores do estudo sugerem que a perda da cobertura vegetal leva à síndrome da solidão vegetal, na qual o aumento do isolamento e a redução da competição por recursos produzem altos graus de singularidade de características e diversidade funcional que são globalmente excecionais.

«Este estudo revela a importância das terras secas como um reservatório global de diversidade funcional das plantas, fornecendo uma nova lente através da qual podemos ver a arquitetura vegetal, a adaptação das plantas a habitats extremos, a colonização histórica de plantas em ambientes terrestres e a capacidade das plantas de responder às mudanças globais atuais», concluem os especialistas. Universidade de Coimbra - Portugal




quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Portugal - Relatório sobre o estado das plantas e fungos no mundo publicado pelo Jardim Botânico Real de Kew tem participação da Universidade de Coimbra

 


O relatório “Kew’s State of the World’s Plants and Fungi 2020” do Jardim Botânico Real de Kew (RBG, Kew), no Reino Unido, publicado hoje, tem a participação da investigadora Susana C. Gonçalves, do Centro de Ecologia Funcional (Centre for Functional Ecology – Science for People & the Planet), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

Este relatório de referência internacional, que vai já na quarta edição, é um mergulho profundo no estado atual do reino das plantas e do reino dos fungos à escala global. Os novos dados, resultado de uma vasta e inédita colaboração internacional entre 210 cientistas de 42 países, mostram como nós atualmente utilizamos plantas e fungos, quais as propriedades úteis que nos faltam explorar, e o que corremos o risco de perder.

Segundo o documento, «plantas e fungos são os blocos de construção da vida no planeta Terra. Têm o potencial de resolver problemas urgentes que ameaçam a vida humana, mas esses recursos vitais estão a ser comprometidos pela perda de biodiversidade». O relatório alerta para a necessidade premente de «explorar as soluções que as plantas e fungos podem fornecer para lidar com algumas das pressões que as pessoas e o planeta enfrentam».

Este relatório apresenta, pela primeira vez, uma síntese de novas espécies para a ciência compilada tanto para plantas como para fungos. Os autores descobriram que 1.942 plantas e 1.886 fungos foram nomeados como novos para a ciência em 2019. Entre essas, estão espécies que podem ser valiosas como alimentos, bebidas, medicamentos ou fibras (ver documento SOTWPF press FINAL).

A cientista Susana C. Gonçalves participa em dois capítulos do relatório: um dedicado à importância das colaborações para assegurar um futuro sustentável para todos e outro que avalia o risco de extinção de plantas e fungos.

No capítulo que realça a importância das colaborações para assegurar um futuro sustentável para todos, a investigadora partilha o trabalho de conservação que está a ser desenvolvido em São Tomé e Príncipe no âmbito do projeto “Tesouros d’Obô”. A par da inventariação da diversidade de cogumelos, o projeto trabalha com as comunidades locais para valorizar e gerir de forma sustentável estes recursos, melhorando simultaneamente a sua qualidade de vida. «Esta abordagem centrada nas comunidades, só possível com as parcerias existentes, está a abrir caminho para uma solução duradoura na conservação da floresta e dos fungos em São Tomé e Príncipe», conta Susana C. Gonçalves.

No que respeita à avaliação do risco de extinção de plantas e fungos, que enfatiza as lacunas e enviesamentos no conhecimento atual e que comprometem medidas de conservação eficazes, a investigadora da UC, que também é avaliadora do risco de extinção de fungos para a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), indica o muito trabalho ainda por fazer: «Apenas 285 das 148,000 espécies conhecidas de fungos foram avaliadas para a Lista Vermelha da IUCN, correspondendo somente a 0,2 %». Por isso, salienta que a «Ciência Cidadã e ferramentas como a modelação e a inteligência artificial podem contribuir de forma determinante para acelerar este processo».

Quando questionada sobre as ações que podem ser dinamizadas pelos cidadãos individualmente para proteger a biodiversidade fúngica do planeta, Susana C. Gonçalves contextualiza: «se quisermos trazer a conservação dos fungos para o primeiro plano, temos de desmistificar conceitos errados que persistem em toda a sociedade, por exemplo, os fungos ainda são muitas vezes confundidos com plantas ou retratados erroneamente como inimigos, e precisamos de desafiar a indiferença em relação aos fungos. Em última análise, só nos preocupamos em proteger o que amamos».

Mais informação sobre o “Kew’s State of the World’s Plants and Fungi 2020” aqui. Universidade de Coimbra - Portugal

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Portugal - Equipa da FCTUC identifica processo chave na clonagem de plantas

A clonagem de plantas através de embriogénese somática - ferramenta para a rápida clonagem de espécies - apresenta-se como uma técnica muito promissora mas a sua aplicação em larga escala ainda não é possível em muitas espécies com interesse económico e florestal, sobretudo em plantas lenhosas (árvores e arbustos).

Um estudo liderado pelo Laboratório de Biotecnologia do Centro de Ecologia Funcional do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e publicado na revista científica Frontiers in Plant Science, deu mais um passo na complexa tarefa de perceber o que acontece no processo de clonagem in vitro por embriogénese somática (capacidade que de obtenção de plantas a partir de embriões que não têm origem na reprodução sexuada, mas sim em células do corpo), de forma a permitir a exploração comercial da técnica.

Usando como modelo o tamarilho, uma espécie arbórea da família do tomateiro e da batateira, com elevada capacidade de regeneração e interesse comercial, os investigadores descobriram que uma proteína, designada NEP-TC, assume um papel fundamental neste método de clonagem ao regular alterações do RNA, material genético que medeia a síntese proteica, influenciando assim as taxas de propagação.

A informação agora obtida, após um longo estudo que se iniciou há vários anos sob coordenação do professor Jorge Canhoto, representa «uma importante peça do intricado puzzle que controla a clonagem de plantas. Identificámos um dos caminhos de um imenso labirinto de vias e interações que ocorrem neste sistema de propagação», afirma Sandra Correia, investigadora do projeto.

A seguir, refere a investigadora, «é necessário estudar e compreender a funcionalidade desta proteína em diferentes estádios de desenvolvimento da planta e em diferentes etapas do processo de clonagem, bem como analisar e validar a sua funcionalidade quando interage com outras proteínas envolvidas na mesma via de regulação».

Só depois de decifrar todos os percursos desta difícil encruzilhada, «conhecendo todos os modeladores que interferem neste processo de clonagem, se poderá caminhar para soluções que permitam ultrapassar as dificuldades de clonagem noutras espécies arbóreas», observa a investigadora da FCTUC.

A grande vantagem da propagação através de embriogénese somática «é o número de plantas que permite obter face a uma multiplicação convencional. A partir de uma ínfima fração de tecido vegetal da planta mãe, por exemplo da folha, consegue-se obter centenas de embriões somáticos idênticos, ou seja, é possível manter as características originais com interesse e garantir uma produção rápida e consistente», explica a bióloga Sandra Correia. Universidade de Coimbra “Faculdade de Ciências e Tecnologia” - Portugal