Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Portugal – O Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental une-se à defesa do Oceano como domínio estratégico da ciência portuguesa

Cinco centros de investigação nacionais apelam ao reconhecimento do Oceano como um dos Domínios Estratégicos da futura política nacional de investigação e inovação


O CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto uniu-se ao MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, ao Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro (CESAM), ao Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR) e ao Instituto de Investigação em Ciências do Mar da Universidade dos Açores (OKEANOS) na assinatura de um manifesto que defende o reconhecimento do Oceano como um Domínio Estratégico da ciência e inovação em Portugal.

A iniciativa surge numa altura em que a Agência para a Investigação e Inovação (AI²) está a definir as áreas estratégicas que irão orientar o investimento público em investigação e inovação nos próximos anos. Os cinco centros consideram que o Oceano deve assumir um papel central nesta estratégia, refletindo a importância científica, ambiental, económica e geopolítica do mar para o país.

Portugal possui uma das maiores áreas marítimas da Europa, com cerca de 97% do seu território sob jurisdição marítima e uma Zona Económica Exclusiva de aproximadamente 1,7 milhões de quilómetros quadrados, à qual se soma a proposta de extensão da plataforma continental. Para os subscritores do manifesto, esta realidade torna evidente a necessidade de uma aposta continuada na investigação marinha, capaz de apoiar políticas públicas, promover a inovação e responder aos desafios colocados pelas alterações climáticas, pela conservação da biodiversidade e pelo desenvolvimento sustentável da economia azul.

O texto do manifesto foi apresentado durante o Encontro Ciência 2026 e defende que o reconhecimento do Oceano como domínio estratégico permitirá reforçar a capacidade científica nacional e consolidar o papel de Portugal como país de referência na investigação marinha.

Entre os argumentos apresentados estão o contributo da ciência para a gestão sustentável dos recursos marinhos, a segurança alimentar, a conservação dos ecossistemas, a soberania marítima e a competitividade da economia azul.

Leia abaixo o conteúdo do manifesto.

O Manifesto: O oceano como domínio estratégico na ciência e na inovação

Se hoje tivéssemos de decidir quais os domínios que deveriam ser designados como «Domínios Estratégicos» no âmbito da IA², muitos de nós faríamos uma pergunta muito simples:

Que outro domínio reúne, tudo ao mesmo tempo, soberania, segurança, clima, energia, biodiversidade, alimentação, recursos geológicos, dados, património cultural, inteligência artificial, telecomunicações, economia, diplomacia e inovação?

Só há uma resposta: o oceano.

Portugal não é apenas um país com litoral. É um país definido pelo mar. Gerimos uma Zona Económica Exclusiva de cerca de 1,7 milhões de km², com uma extensão proposta da plataforma continental que ultrapassa os 4 milhões de km². Cerca de 97 % do nosso território é mar. Essa responsabilidade de governação não se exerce através de discursos. Exerce-se através da ciência, da tecnologia e da inovação.

Mas há uma segunda razão.

O AI² está a ser criado para ligar a investigação, a inovação e o impacto. O AI² define os domínios estratégicos como aqueles que respondem aos principais desafios da sociedade, integram diferentes áreas científicas e transformam o conhecimento em valor económico, social, cultural e ambiental.

Nenhuma área representa melhor essa integração do que o oceano.

O oceano exige que reunamos a biologia, a engenharia, a inteligência artificial, a robótica, a ciência de dados, os materiais, a energia, a economia, o direito, a saúde, as políticas públicas e as ciências sociais. É um verdadeiro laboratório de interdisciplinaridade e um acelerador da inovação.

E há uma terceira razão.

Portugal já dispõe de uma massa crítica extraordinária, como demonstrado pela Declaração de Aveiro. Os cinco principais centros de ciências marinhas (MARE, CESAM, CIIMAR, CCMAR, OKEANOS) reúnem mais de 900 investigadores de doutoramento integrados, mais de 10 500 publicações em cinco anos, mais de 700 projetos e cerca de 206 milhões de euros em financiamento competitivo, participando simultaneamente nas principais infraestruturas científicas europeias.

O problema não é a falta de excelência.

O problema é que esta excelência continua demasiado fragmentada, dependente de financiamento a curto prazo, travada por infraestruturas insuficientes, emprego precário e uma interface entre ciência e política que ainda é demasiado frágil.

É precisamente aqui que a AI² pode fazer a diferença.

Ao reconhecer o oceano como um domínio estratégico, a AI² não estaria a favorecer um único campo científico. Estaria a criar uma plataforma nacional para integrar conhecimentos, impulsionar missões orientadas para o impacto, mobilizar investimento público e privado, desenvolver tecnologias digitais e de inteligência artificial, reforçar uma economia azul sustentável e apoiar decisões políticas baseadas em dados concretos.

Numa altura em que a Europa está a debater a Lei Europeia dos Oceanos no âmbito do Pacto Europeu para os Oceanos e a investir em «gémeos digitais» oceânicos, na observação dos oceanos e na inteligência artificial aplicada ao mar, Portugal tem uma oportunidade única de liderar, em vez de se limitar a seguir.

Assim, a questão já não é se o oceano deve ser um domínio estratégico da AI².

A verdadeira questão é:

Como poderíamos construir uma estratégia nacional de investigação e inovação para Portugal sem colocar o oceano no seu centro?

Porque investir no oceano não é investir apenas num único domínio científico.

É investir na soberania, na competitividade, na segurança, na sustentabilidade e no futuro de Portugal.

Portugal pode voltar a ser uma potência marítima através do conhecimento.

Autores

Pedro R. Almeida, Diretor do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Universidade de Évora, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, Universidade de Coimbra, Universidade da Madeira, Politécnico de Leiria, Politécnico de Setúbal, ISPA e ARDITI)

Amadeu Soares, Diretor do CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Universidade de Aveiro

Vítor Vasconcelos, Diretor do CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, Universidade do Porto

Adelino Canário, Diretor do CCMAR – Centro de Ciências do Mar, Universidade do Algarve

Gui Menezes, Diretor do OKEANOS – Instituto de Investigação em Ciências do Mar, Universidade dos Açores. Universidade do Porto - Portugal




quarta-feira, 1 de abril de 2026

Portugal - Investigadores da Universidade de Coimbra alertam que a avaliação da saúde dos rios em Portugal está incompleta e propõem um método complementar

Um estudo coordenado pelo MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em colaboração com o laboratório Rede de Investigação Aquática (ARNET), alerta que a avaliação da saúde dos rios em Portugal está incompleta e propõe um método complementar baseado na decomposição da matéria vegetal.


O trabalho, intitulado “Moderators of Organic Matter Decomposition in Portuguese Streams: A Field Study and Literature Review” e publicado na revista Freshwater Biology, envolveu 23 investigadores de sete instituições nacionais. A equipa analisou a decomposição de folhas e madeira em 37 ribeiros do continente e da Madeira, e realizou uma revisão de 61 estudos prévios sobre decomposição de detritos vegetais em rios portugueses.

Segundo os investigadores, medir a taxa de decomposição da matéria vegetal permite avaliar a integridade funcional dos ecossistemas aquáticos, um aspeto que não é considerado na avaliação oficial, que se baseia quase exclusivamente em indicadores estruturais, como as comunidades aquáticas ou a qualidade da água.

“Mesmo entre ribeiros praticamente intactos, observamos grande variabilidade nas taxas de decomposição”, afirma Verónica Ferreira, coordenadora do estudo. “Só conhecendo as taxas naturais de decomposição é possível identificar desvios que indiquem perturbações, mesmo antes de serem visíveis nas comunidades aquáticas.”

O estudo revela, ainda, que fatores como o tipo de detrito vegetal, a presença de macroinvertebrados fragmentadores, a temperatura da água, o regime hidrológico, a estação do ano e a composição química da água influenciam a velocidade de decomposição. Ribeiros permanentes e intermitentes apresentam dinâmicas distintas, refletindo diferenças na disponibilidade de água e na atividade biológica ao longo do ano.

Os autores defendem a padronização dos métodos de medição das taxas de decomposição - incluindo o tipo de detrito a usar, a duração da incubação e o acesso dos invertebrados - como ferramenta robusta para avaliação funcional e comparações entre diferentes ecossistemas.

“Este trabalho estimula a integração de indicadores funcionais na avaliação da saúde dos rios, permitindo uma visão mais completa e realista da condição destes ecossistemas”, concluem os investigadores. Universidade de Coimbra - Portugal


sábado, 18 de outubro de 2025

Portugal - Campanha oceanográfica termina no Funchal

As equipas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), do Instituto Hidrográfico (IH), do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), levam a cabo a campanha oceanográfica “Áreas Marinhas Protegidas Oceânicas 2025” a bordo do NRP D. Carlos I, navio hidrográfico da Marinha Portuguesa.


Focando-se no monte submarino Coral Patch, no complexo geológico Madeira-Tore e montes submarinos adjacentes, a missão contemplou uma primeira fase de manutenção operacional da estação de observação oceanográfica IbMa-CSV, instalada ao largo do Cabo de S. Vicente, no âmbito da Iberian Margin Regional Facility, nó regional do consórcio europeu European Multidisciplinary Seafloor and Water Column Observatory - European Research Infrastructure (EMSO ERIC).

A campanha começou a 10 de outubro na Base Naval do Alfeite e termina hoje, dia 18, no Funchal, após a execução de diferentes trabalhos no monte submarino Coral Patch, como a realização de estações de amostragem visual com o veículo submarino EVA do INESC TEC e o lançamento de três flutuadores Argo, contribuição de Portugal para o Programa Mundial Argo, que permitem medir a temperatura, salinidade, oxigénio dissolvido, pressão e outras varáveis biogeoquímicas, até aos 2000 metros de profundidade, e estimar as correntes oceânicas aos 1000 metros, transmitindo os dados via satélite, em tempo quase real.

O IPMA coordena o projeto “Planos de gestão e monitorização de Áreas Marinhas Protegidas Oceânicas: Caracterização ecológica de montes submarinos do Complexo-Geológico Madeira-Tore e adjacentes (AMP Oceânicas)”. Financiado pelo Fundo Azul, este projeto procura contribuir para o desenvolvimento do Plano de Situação do Ordenamento do Espaço Marítimo Nacional (PSOEM), nomeadamente para a implementação da Rede Nacional de Áreas Marinhas Protegidas (RNAMP).

As campanhas do projeto são determinantes para a caracterização da biodiversidade, dos habitats e processos biofísicos associados em zonas oceânicas com elevado valor ecológico, permitindo identificar as áreas de elevado interesse para a conservação e constituir a base científica, que servirá de suporte à gestão das atuais e futuras áreas classificadas. In “Instituto Português do Mar e da Atmosfera” - Portugal


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Portugal - Cientistas descobrem que algas marinhas são um poderoso reservatório de carbono nas florestas marinhas

Cientistas alertam que as alterações climáticas estão a ameaçar a capacidade das algas de armazenar carbono e sustentar a biodiversidade


Cientistas descobriram que florestas marinhas na costa norte de Portugal desempenham um papel importante na captura e armazenamento de carbono.

A pesquisa pioneira vem do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) e do Centro de Ciências Marinhas e Ambientais (MARE) de Portugal.

Pela primeira vez, investigadores mediram a quantidade de carbono sequestrado por algas marinhas nesses ecossistemas subaquáticos.

Mas eles alertam que as alterações climáticas estão a ameaçar a sua capacidade de armazenar carbono e sustentar a biodiversidade.

As florestas de algas marinhas de Portugal demonstram uma notável capacidade de armazenamento de carbono

O estudo, publicado na revista Scientific Reports, concentra-se nas duas espécies de algas predominantes ao longo da costa norte de Portugal: Laminaria hyperborea e Saccorhiza polyschides.

As florestas de algas marinhas são fundamentais para sustentar a biodiversidade marinha e a produtividade dos ecossistemas na área.

"Esses habitats são comuns na costa norte de Portugal, onde existem condições únicas para o seu desenvolvimento, e representam a fronteira mais meridional para algumas das espécies aqui encontradas", explica Francisco Arenas, do CIIMAR, que coliderou o estudo.

A pesquisa marcou a primeira análise quantitativa das reservas de carbono nos habitats de algas do norte de Portugal por meio de pesquisa de campo abrangente, medindo distribuição, densidade de biomassa, padrões de crescimento e composição de carbono.

"Foi a primeira avaliação do valor do carbono azul associado às florestas de algas em Portugal", diz Arenas.

As descobertas revelam que esses ecossistemas armazenam aproximadamente 16,48 gigagramas (Gg) de carbono em 5189 hectares — uma área equivalente a mais de 5000 campos de futebol.

Apesar de ocuparem um território relativamente modesto em escala global, essas florestas de algas marinhas podem capturar carbono numa escala semelhante ou maior do que ecossistemas mais extensos.

A quantidade de carbono armazenada por esses habitats de algas representa 14% do inventário de carbono azul documentado de Portugal, anteriormente limitado a pântanos salgados e pradarias de ervas marinhas.

As florestas marinhas de Portugal estão em risco devido às alterações climáticas

Estima-se que essas florestas de algas marinhas capturem um terço de todo o carbono sequestrado anualmente pelos habitats de plantas marinhas de Portugal.

Apesar disso, os cientistas por trás do estudo dizem que a contribuição das florestas marinhas para os esforços de mitigação climática tem sido historicamente negligenciada.

Eles são "frequentemente desconhecidos e subvalorizados, apesar do seu valor ecológico e económico extremamente importante na costa norte de Portugal", diz Arenas.

Além disso, essas florestas marinhas estão sendo ameaçadas pelas alterações climáticas.

“Já foi detetado um processo de tropicalização nas águas portuguesas , que coloca em risco a biodiversidade associada, bem como os serviços ecológicos que estas florestas prestam, incluindo a capacidade de capturar e armazenar carbono, conhecido como carbono azul, contribuindo para a mitigação das alterações climáticas”, acrescenta Arenas.

A tropicalização é um fenômeno ecológico global em que o aquecimento das temperaturas do mar está permitindo que espécies tropicais e subtropicais expandam seu alcance em direção aos polos.

A pesquisa propõe políticas direcionadas para vigilância, proteção e potencial restauração dessas zonas, enfatizando sua dupla importância como repositórios de carbono e habitats marinhos críticos.

Dada a emergência climática atual, os investigadores defendem a incorporação de florestas de algas marinhas em estruturas de proteção marinha e carbono azul como prioridades nacionais e internacionais.

"Com a Lei de Restauração da Natureza da União Europeia nos seus estágios iniciais de implementação, é urgente desenvolver e implementar técnicas eficazes de restauração ecológica, particularmente em habitats que são altamente vulneráveis, mas também têm alto potencial para fornecer serviços ecossistémicos, como florestas marinhas", diz Arenas. Euronews.green


terça-feira, 10 de junho de 2025

Internacional - Estudo mostra benefícios de monitorizar gigantes dos oceanos para a conservação marinha

Uma equipa de cientistas internacionais acompanhou mais de 12 mil indivíduos de 110 espécies de megafauna marinha, durante 30 anos, identificando os locais mais críticos nos oceanos globais para reforçar os esforços de conservação marinha. A investigação, na qual participa a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), faz parte do projeto “MegaMove”, liderado pela Universidade Nacional da Austrália (ANU) e financiado pela Organização das Nações Unidas (ONU).


Este estudo envolve cerca de 400 cientistas de mais de 50 países e mostra onde pode ser implementada proteção específica para a conservação da megafauna marinha. André Afonso, Filipe Ceia, Jaime Ramos, José Xavier e Vítor Paiva, investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) e Centro de Ecologia Funcional (CFE) da FCTUC, são cinco dos coautores desta investigação, publicada na revista Science.

Atualmente, as áreas marinhas protegidas cobrem apenas 8% dos oceanos do mundo, sendo que o Tratado das Nações Unidas para as Águas Internacionais visa aumentar essa proteção para 30%.

A investigação concluiu que os objetivos do atual Tratado – assinado por 115 países, mas ainda por ratificar – representam um passo na direção certa e serão fundamentais para apoiar a conservação. No entanto, estes objetivos são insuficientes para cobrir todas as zonas críticas utilizadas por espécies ameaçadas da megafauna marinha, sugerindo que são necessárias medidas adicionais para mitigar as ameaças.

A megafauna marinha inclui aves marinhas, tubarões ou baleias, que são normalmente predadores de topo com papéis essenciais nas cadeias alimentares marinhas, mas enfrentam ameaças crescentes resultantes do impacto ambiental humano. Segundo os autores, este estudo teve como objetivo identificar as áreas utilizadas pela megafauna marinha para comportamentos importantes como alimentação, descanso e migrações – áreas que só podem ser detetadas com base nos seus padrões de movimento rastreados.

«Descobrimos que as áreas utilizadas por estes animais se sobrepõem significativamente com ameaças como a pesca, o tráfego marítimo, o aumento da temperatura das águas e a poluição por plásticos. Por exemplo, a cagarra, uma ave marinha que se reproduz nos arquipélagos dos Açores, Madeira e Berlengas, migra anualmente até à costa sul do Brasil, África do Sul ou Moçambique, demonstrando uma capacidade extraordinária de explorar o ambiente marinho, estando, por isso, exposta a diversas ameaças em diferentes bacias oceânicas», revela Vítor Paiva, investigador do CFE.


«O mesmo ocorre com inúmeras espécies de tubarões, que percorrem milhares de quilómetros ao longo da sua vida e atravessam múltiplas áreas marinhas com regimes jurídicos distintos, dificultando a sua conservação devido à heterogeneidade das políticas de gestão e proteção desses recursos», declara André Afonso, investigador CFE.

«O objetivo de proteger 30% dos oceanos é visto como útil, mas insuficiente para salvaguardar todas as áreas importantes, o que significa que são necessárias estratégias adicionais de mitigação para aliviar pressões fora das zonas protegidas», consideram os especialistas. A investigação está também ligada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, nomeadamente o Objetivo 14 sobre a vida marinha, e especificamente ao Objetivo A da Estrutura Global para a Biodiversidade de Kunming-Montreal, que visa travar a extinção provocada pelo ser humano de espécies ameaçadas.

«O MegaMove reúne uma rede internacional de investigadores para fornecer investigação inovadora que promova a conservação global da megafauna marinha e seus habitats. A nossa investigação mostra que, para além das áreas protegidas, a implementação de estratégias de mitigação, como a alteração de artes de pesca, a utilização de diferentes luzes nas redes e esquemas de tráfego para navios, será fundamental para aliviar a pressão humana atual sobre estas espécies», afirmam.

De acordo com os investigadores, foram identificadas 30% das principais zonas para a proteger, classificando-as com base na sua utilização pelas espécies de megafauna marinha. «A nossa análise identifica quais as zonas do oceano global que estas espécies utilizam como áreas de residência ou corredores migratórios. Demos prioridade às zonas utilizadas para estes comportamentos importantes por um maior número de espécies», declaram.

«No entanto, em última análise, mesmo que os 30% de proteção fossem implementados nas zonas-chave utilizadas pela megafauna marinha, não seriam suficientes para as conservar», concluem. Universidade de Coimbra - Portugal

 



terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Internacional - Estudo da Universidade de Coimbra mostra que a qualidade ecológica dos rios pode ser inferior devido à presença de espécies exóticas

Um estudo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) concluiu que poucos índices biológicos usados na monitorização dos rios contemplam a análise das espécies exóticas e que a abundância de espécies exóticas está associada à degradação dos rios, tendo um efeito significativo na abundância e presença das espécies nativas.


  

Esta investigação internacional, liderada por Maria João Feio, com a participação de Janine Silva e Sónica Serra, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da FCTUC, está publicada na revista científica Journal of Environmental Management

«Este estudo teve como objetivo compreender, a nível mundial, se a avaliação da qualidade ecológica dos rios reflete a presença de espécies exóticas (não-nativas de uma região) nos ecossistemas ribeirinhos. Em Portugal, assim como em toda a Comunidade Europeia, e em vários países do mundo, existem índices baseados nas comunidades aquáticas de peixes, invertebrados, microalgas e plantas aquáticas, considerados bioindicadores de qualidade ecológica», explica Maria João Feio.

No entanto, de acordo com a especialista, quando muitos destes índices foram desenvolvidos não existiam ou não eram conhecidas tantas espécies invasoras aquáticas. «Desta forma, tentamos perceber quais destes grupos biológicos têm mais espécies exóticas reportadas e conhecidas, se os índices existentes contemplam a avaliação específica de espécies exóticas e se, contemplando ou não, os índices refletem o efeito das espécies exóticas na qualidade do ecossistema», revela. 

Além disso, os autores concluíram ainda que, em 17 países dos seis continentes, as espécies exóticas mais reportadas dentro dos grupos de bioindicadores aquáticos são os peixes, devido ao seu tamanho, valor comercial e maior conhecimento histórico das espécies nativas. No que respeita às microalgas exóticas, são as menos conhecidas, seguidas dos invertebrados bentónicos. 

«Em Portugal, temos situações distintas conforme o elemento biológico utilizado na avaliação da qualidade dos rios. O índice usado para as comunidades de peixes já inclui uma métrica que avalia a presença e abundância de espécies exóticas. Já o de plantas aquáticas, inclui uma avaliação parcial dessas espécies, e, no caso dos invertebrados, o índice oficial não contempla uma avaliação das espécies exóticas. Assim, podemos ter avaliações que sobrevalorizam a qualidade biológica dos rios nestes últimos casos. Embora isso dependa da influência que uma dada espécie tenha no ecossistema, que não é sempre a mesma», termina Maria João Feio.

Perante estes resultados, os especialistas recomendam a inclusão de métricas específicas para espécies exóticas nos índices de qualidade biológica utilizados na avaliação ecológica dos rios; o aumento da investigação da taxa de exóticos de grupos de organismos aquáticos mais pequenos; a necessidade de investir na identificação taxonómica ao nível da espécie em programas de monitorização, de forma a reconhecer espécies exóticas; e a  necessidade de incentivar comportamentos que previnam invasões aquáticas nos rios, entre outras medidas. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Portugal - Estudo da Universidade de Coimbra avalia impacto das plantações de eucalipto nos animais invertebrados

Um estudo liderado por investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) avaliou os impactos das plantações de eucalipto nas comunidades de invertebrados do solo à escala global, comparando esses efeitos com os observados noutras utilizações do solo.


 

Esta investigação, que contou com a participação de investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE), do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) e da Universidade Estadual de Santa Catarina (Brasil), está publicada na revista científica Land Degradation & Development

«Os resultados do estudo mostram que as plantações de eucalipto têm uma densidade de invertebrados inferior à das outras plantações florestais, mas superior à das pastagens e sistemas agroflorestais. A diversidade de invertebrados é menor nas plantações de eucalipto em comparação com as florestas nativas, mas maior do que em outras plantações florestais. Além disso, os impactos variam conforme o tipo de plantação e fatores climáticos, como temperatura e precipitação», revela Raquel Juan-Ovejero, investigadora do CFE e da Universidade de Vigo. 

Para alcançar os objetivos deste estudo, os especialistas realizaram uma meta-análise global que integrou evidência científica de 26 estudos publicados, permitindo a comparação dos impactos das plantações de eucalipto com os de outros usos do solo, incluindo florestas nativas, outras plantações florestais, pastagens, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta e áreas invadidas por acácias. Além disso, a investigação procurou identificar fatores que influenciam esses impactos, como o tipo de plantação e as variáveis climáticas.  

A líder do estudo considera «crucial a integração de informação em futuros estudos sobre as propriedades físico-químicas do solo, a idade das árvores, os métodos de amostragem e as práticas de gestão florestal, para melhorar a compreensão dos efeitos das plantações de eucalipto sobre os invertebrados, o solo e a biodiversidade em geral. Os resultados que obtivemos têm um impacto significativo tanto no avanço do conhecimento científico como na prática da gestão florestal». 

De acordo com os especialistas, os invertebrados desempenham um papel fundamental nos ecossistemas, como a decomposição de matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes. «Ao compreender melhor os impactos destas plantações nestes organismos, os gestores florestais podem adotar práticas que minimizem os efeitos negativos nos invertebrados e, consequentemente, promovam a saúde do solo e a manutenção das funções ecológicas», acredita. 

«Desta forma, o estudo contribui para o desenvolvimento de estratégias de gestão mais equilibradas, que procurem reduzir os impactos ambientais das plantações de eucaliptos e garantir a sustentabilidade dos ecossistemas a longo prazo», conclui. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Portugal - Descobertas duas novas espécies de coníferas do Cretácico

Mário Miguel Mendes, investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), descobriu mais duas novas espécies de coníferas atribuídas à extinta família Cheirolepidiaceae, recolhidas na região de Juncal.


 

De acordo com o cientista, a primeira das novas espécies corresponde a um cone masculino, denominada Classostrobus doylei, no qual se observam pólenes de tipo Classopollis triangulus. «Estes pólenes nunca haviam sido reconhecidos dispersos nas nossas palinofloras e estamos convictos de que, após a sua libertação assumiam uma forma esférica, não sendo possível detetar as pontes de exina», revela Mário Miguel Mendes. 

Esta nova espécie, descrita e publicada na revista científica Cretaceous Research, foi dedicada a James Doyle, professor da Universidade da Califórnia (EUA). A realização deste trabalho envolveu a combinação de técnicas de microtomografia computadorizada de raios X (microCT), microscopia ótica, microscopia eletrónica de varrimento e microscopia eletrónica de transmissão. 

A segunda espécie, denominada Frenelopsis callapezii, foi descrita com base nos caracteres morfológicos dos eixos caulinares da planta e nas suas características cuticulares, tendo sido dedicada a Pedro Callapez Tonicher, professor da FCTUC. «Ao contrário de outras espécies do mesmo género, esta não possui longos tricomas, apenas papilas, e apresenta um tipo de ramificação pouco usual nos frenelopsídeos», descreve o investigador. 

As coníferas da família Cheirolepidiaceae foram extremamente abundantes durante o Mesozoico, predominando em várias regiões do globo, incluindo aquelas que hoje correspondem à América do Norte e à Europa. Os primeiros membros desta família datam do início do Triásico Superior e, ao longo de 160 milhões de anos, continuaram a diversificar-se, entrando em declínio no final do Cretácico. 

«Acredita-se que os últimos representantes do grupo tenham resistido na América do Sul até ao início do Paleogénico, sobrevivendo à extinção em massa do Cretácico/Paleogénico (K/Pg). A descrição das novas espécies portuguesas demonstra que a diversidade deste grupo é muito maior do que se pensava e salienta também a importância destas plantas nos ecossistemas do Cretácico», considera o especialista do MARE/FCTUC. 

Segundo Mário Miguel Mendes, a paleoecologia destas plantas é bastante variável. «Acredita-se que tenham ocupado ambientes de estuário, planícies aluviais de água doce e locais mais elevados, sob influência de clima quente a temperado e, sazonalmente, com humidade significativa. A plasticidade morfológica e ecológica destas plantas pode explicar o seu grande sucesso evolutivo e a resistência a condições ambientais extremas. Além disso, há evidências de que a poliploidia pode ter sido crucial para a especiação dentro das Cheirolepidiaceae», revela. 

Os estudos das Cheirolepidiaceae têm permitido reconstruir a sua evolução em termos de diversidade e riqueza de espécies, história biogeográfica e inferir sobre as causas da sua extinção. «Estas plantas têm sido modelos fantásticos, pois o seu estudo tem contribuído, sem dúvida, para compreender como as coníferas se diversificaram e adaptaram ao longo dos tempos», conclui. 

Estes trabalhos foram realizados em colaboração com investigadores da República Checa, Rússia e Holanda, tendo recebido financiamento da Czech Grant Agency e do MARE/FCTUC.

O artigo científico “Classostrobus doylei, a new cheirolepidiaceous cone with in situ pollen from the Figueira da Foz Formation (lower Aptian e upper Albian), western Portugal” pode ser consultado aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Portugal - Estudo da Universidade de Coimbra conclui que ribeiras urbanas estão poluídas por fármacos

Um estudo liderado por investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em colaboração com a Faculdade de Farmácia da UC (FFUC), concluiu que as ribeiras urbanas estão poluídas por uma grande diversidade de fármacos, afetando organismos aquáticos e processos ecológicos.

 

«A revisão de literatura mostrou que ribeiras urbanas, para além dos rios, são um ecossistema de água doce crítico quando se trata da ocorrência de fármacos. Estas atravessam zonas muito urbanizadas e dado o seu pequeno volume de água e fraca capacidade de diluição podem ficar altamente poluídas, levando depois esses poluentes para os rios principais», alerta Maria João Feio, investigadora do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da FCTUC e do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE). 

Esta investigação, publicada na prestigiada revista Water Research, teve como objetivo perceber o estado de contaminação de ribeiras urbanas por fármacos e os seus impactos no ecossistema e nos organismos aquáticos. Assim, os especialistas realizaram uma revisão bibliográfica de estudos científicos realizados em todo o mundo.

«Neste trabalho registámos, em 49 ribeiras urbanas, a presença de 139 fármacos, pertencentes a dez grupos terapêuticos, em 13 países de quatro continentes, com predominância de anti-inflamatórios e anticonvulsivos. Metabolitos dos fármacos foram também detetados, mas mais raramente analisados», revela Fernanda Rodrigues, estudante de doutoramento em Engenharia do Ambiente. 

A equipa de investigação detetou fármacos como diclofenaco, ibuprofeno e paracetamol (analgésicos, anti-inflamatórios, antipiréticos e anestésicos); claritromicina e eritromicina (antibióticos, antifúngicos e antipruriginosos); fluoxetina e citalopram (psicofármacos); estrona, 17β-estradiol e etinilestradiol (hormonas); e genfibrozila (reguladores lipídicos).

Em Portugal, foram estudadas três ribeiras urbanas tendo sido detetado nas águas o total de oito fármacos. Observou-se ainda, numa das ribeiras, um alto risco para os invertebrados aquáticos devido a um antidepressivo, a fluoxetina.

De acordo com as especialistas, «os efeitos nos organismos aquáticos e processos ecológicos foram variados, desde bioacumulação, desregulação endócrina, crescimento deficiente, inibição de reprodução, aumento da mortalidade e distúrbios de eclosão até alterações morfológicas e diminuição da produção primária bruta e de biomassa».

Este estudo trouxe uma visão global sobre a questão dos fármacos em ribeiras urbanas. A investigação mostrou ainda a necessidade de investir em novos estudos, nomeadamente em Portugal e na Europa, onde a equipa está a investigar esta questão. «Perceber como chegam estes fármacos aos ecossistemas ribeirinhos, de forma a minimizar a sua entrada, e conseguir eliminar estes poluentes da água é essencial para salvaguardar a saúde dos ecossistemas e organismos aquáticos, mas também a saúde humana, numa abordagem One Health (Uma Só Saúde)», terminam.

O artigo científico “Pharmaceuticals in urban streams: A review of their detection and effects in the ecosystem” contou ainda com a participação dos investigadores Luísa Durães, Nuno Simões, André Pereira e Liliana Silva. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 25 de março de 2024

Portugal - Investigação da Universidade de Coimbra conclui que invasão por acácias afeta as comunidades aquáticas nos ribeiros

Uma investigação liderada pela Universidade de Coimbra (UC) concluiu que a invasão das florestas ribeirinhas por acácias afeta as comunidades aquáticas nos ribeiros. Os detalhes deste estudo podem ser consultados na revista Freshwater Biology.


Como indica o mais recente relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços do Ecossistema, a invasão por espécies exóticas é uma grave ameaça à biodiversidade e ao funcionamento dos ecossistemas. A mimosa (Acacia dealbata), árvore exótica originária da Austrália, é uma das principais espécies invasoras na Região Centro de Portugal, especialmente na bacia do rio Mondego, onde ocupa já áreas significativas.

De acordo com Verónica Ferreira, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), «este estudo mostra que as invasões biológicas num ecossistema terrestre podem ter efeitos em ecossistemas adjacentes, como os ribeiros, pelo que é importante considerar a interdependência entre ecossistemas na avaliação dos efeitos destas invasões».

Esta investigação concluiu ainda que «a diversidade de microrganismos decompositores e de macroinvertebrados são mais baixas em ribeiros que atravessam acaciais, comparativamente a ribeiros associados a floresta de espécies nativas, muito em resultado da menor diversidade dos detritos vegetais que entram nos ribeiros em acacial e que são dominados por detritos de mimosa. Por outro lado, os ribeiros em floresta de espécies nativas recebem uma grande diversidade de detritos vegetais, resultado da maior diversidade de plantas», constata a coordenadora do estudo.

«Estas alterações na diversidade dos organismos aquáticos nos ribeiros em floresta invadida são preocupantes, uma vez que comunidades menos diversas estão menos preparadas para lidar com alterações ambientais que possam ocorrer, como as associadas a mudanças climáticas, e podem ser menos eficazes a desempenhar funções no ecossistema, como a reciclagem dos nutrientes», alerta.

Dada a difícil gestão de espécies invasoras na floresta ribeirinha, devido há existência de grandes áreas, ao difícil acesso, à necessidade de controlo continuado e às sementes transportadas de zonas invadidas a montante, Verónica Ferreira acredita que «a melhor opção é proteger as zonas ribeirinhas nas zonas altas das bacias hidrográficas, que estão geralmente em melhor estado de conservação, o que pode implicar a limitação do acesso humano e a monitorização contínua para eliminar presença de indivíduos de mimosa isolados».

Para avaliar os efeitos da invasão da floresta ribeirinha por mimosa na diversidade e abundância de microrganismos decompositores e de macroinvertebrados, e ainda na decomposição de detritos vegetais, os investigadores da UC realizaram amostragens e medições mensais, ao longo de um ano, em seis ribeiros na Serra da Lousã, uma área grandemente invadida por mimosa, três ribeiros em floresta de espécies nativas e três ribeiros em floresta invadida por mimosa.

Este estudo foi realizado no âmbito do projeto “EXSTREAM - Effects of EXotic tree species on STREAM communities and processes: the case of invasion of native forests by Acacia spp.”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e coordenado por Verónica Ferreira, contando também com a colaboração do professor e investigador Albano Figueiredo do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) da Faculdade de Letras da UC (FLUC). Universidade de Coimbra - Portugal

quarta-feira, 13 de março de 2024

Portugal - Universidade de Coimbra convida cidadãos de Coimbra a refletir sobre a importância das ribeiras urbanas

Maria João Feio e Sónia Serra, investigadoras do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) e da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), convidam os cidadãos de Coimbra a refletir sobre a importância das ribeiras urbanas já no próximo dia 16 de março, sábado.

A iniciativa, organizada no âmbito do projeto OneAquaHealth, terá lugar na margem esquerda do Parque Verde do Mondego, junto à ribeira (zona das piscinas e do Exploratório), pelas 15h.

Nesta data, em que se comemora o Dia Nacional da Consciencialização sobre as Alterações Climáticas, os cidadãos terão a oportunidade de refletir e discutir, conjuntamente, sobre o tipo de experiências que têm habitualmente próximo das ribeiras urbanas.

O objetivo deste evento é, essencialmente, conhecer as perceções gerais dos cidadãos de Coimbra sobre as ribeiras urbanas, a sua importância funcional para a sustentabilidade das cidades e a mitigação dos efeitos das alterações climáticas, e enquanto locais que contribuem para a conservação da biodiversidade.

Haverá ainda espaço para conversar sobre o interesse dos participantes e de que forma podem contribuir para a monitorização regular da qualidade das ribeiras urbanas e dos seus ecossistemas.

As inscrições no evento são gratuitas, mas obrigatórias até dia 15 de março, sexta-feira, através desta ligação. Universidade de Coimbra - Portugal




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Internacional - Estudo evidencia que a melhoria da qualidade ecológica dos rios pode não se refletir na recuperação da biodiversidade

Um estudo internacional com a participação de Maria João Feio, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), publicado na Nature Ecology & Evolution, concluiu que o progresso observado na qualidade ecológica de alguns rios europeus, entre 1990 e 2010, não se reflete consistentemente na melhoria da biodiversidade, medida pela riqueza das espécies.


«A riqueza de espécies é uma métrica que, em geral, traduz impactos antropogénicos dos rios. No entanto, à escala europeia, observamos respostas mistas, como situações em que o aumento da riqueza não se traduz necessariamente numa melhor qualidade ecológica», explica Maria João Feio, coautora do estudo, revelando que «tal pode acontecer quando há, por exemplo, um aumento de espécies tolerantes e também de espécies não nativas, que levam a um aumento da riqueza, mas refletem degradação antropogénica». 

Por esta razão, a também docente do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da FCTUC, considera «necessário investir numa monitorização regular e padronizada das comunidades aquáticas dos rios (bioindicadores), por peritos, que contemple uma boa identificação das espécies de invertebrados, a análise detalhada de um grande conjunto de métricas e aspetos da composição das comunidades, abundâncias de cada espécie, assim como as suas funções no ecossistema, para que mais tarde, seja possível examinar de forma efetiva como evoluíram as comunidades em função dos efeitos das alterações antropogénicas, climáticas ou medidas de recuperação».

Nesta investigação, após a organização de uma base de dados comum à escala europeia, foram analisadas 1365 comunidades de invertebrados aquáticos de mais de duas dezenas de países europeus.

«Estudámos a evolução das alterações antropogénicas ao longo do tempo, usando diferentes métricas, que são normalmente utilizadas para avaliar a biodiversidade e a qualidade ecológica dos rios, nomeadamente a abundância, riqueza de taxa (ou espécies), equitabilidade ou composição das comunidades e índices de qualidade biológica (Rácios de Qualidade Ecológica), estes últimos padronizados na Comunidade Europeia e usados pelas agências oficiais do ambiente e água na monitorização dos rios», conclui a investigadora do MARE. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Portugal - Estudo sugere que grupo de invertebrados aquáticos explora macroplásticos como “campo de alimentação”

Um estudo de Verónica Ferreira, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), sugere que um grupo de invertebrados aquáticos, os raspadores, utiliza os macroplásticos como “campo de alimentação”, já que este substrato suporta o crescimento de algas das quais se alimentam.

Esta investigação, publicada na revista Environmental Pollution, tem como foco os efeitos da poluição por macroplásticos nos rios e ribeiros e reúne 18 estudos sobre a decomposição de detritos vegetais, mas também a analise de resultados na perspetiva do plástico.

«A poluição ambiental por lixo antropogénico é uma preocupação global, mas são escassos os estudos que abordam especificamente a interação entre macroplásticos e macroinvertebrados em riachos. Através de uma meta-análise, que consiste na compilação da evidência científica, comparei a colonização do plástico e de detritos vegetais por estes organismos», explica a investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) do Departamento de Ciências da Vida (DCV).  

Inicialmente, «pensava-se que o plástico não seria colonizado da mesma forma que as folhas, apenas como habitat e não como alimento. No entanto, curiosamente, o plástico pode ser um substrato muito interessante para os raspadores, que o colonizam da mesma maneira que as folhas», revela a investigadora.

Os raspadores raspam as algas da superfície das folhas e das pedras e podem fazer o mesmo no plástico, pois este permite o desenvolvimento de algas à sua superfície, podendo ser um substrato muito mais duradouro/permanente, uma vez que as folhas acabam por se decompor.

Ao contrário, este estudo mostrou que a maioria dos invertebrados aquáticos, principalmente aqueles de dependem de folhas como recurso alimentar, coloniza o plástico em menor número que as folhas.

«Apesar da presença dos plásticos nos rios e ribeiros continuar a ser negativa e prejudicial para a maioria dos organismos que ali habitam, alguns grupos conseguem adaptar-se à presença do plástico e tirar partido do mesmo», considera a investigadora. No entanto, destaca, «mesmo no caso dos raspadores, esta questão pode ter efeitos negativos para a decomposição das folhas caso estes organismos não façam distinção entre as folhas e os plásticos como “campo de alimentação”».

«Ainda que não comam diretamente as folhas, ao rasparem a superfície para retirar as algas, estes animais acabam por facilitar a sua decomposição. Porém, se os raspadores preferirem o plástico, por ser mais duradouro e permitir um maior desenvolvimento das algas, tal pode levar a uma retardação na decomposição das folhas, que é um processo fundamental para a circulação do carbono e dos nutrientes», alerta.

Verónica Ferreira observa ainda que esta meta-análise orienta futuros estudos empíricos. «Essas investigações deverão ter em consideração as áreas geográficas mais afetadas pela poluição por macroplásticos e os tipos de plástico mais frequentemente encontrados nos cursos de água», conclui. Universidade de Coimbra - Portugal

 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Portugal - Universidade de Coimbra procura cidadãos para testar nova aplicação de mapeamento das ribeiras urbanas de Coimbra e sua biodiversidade

O Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) está à procura de cidadãos que contribuam para a investigação científica, testando uma nova aplicação para mapeamento das ribeiras urbanas de Coimbra e da sua biodiversidade.


No próximo dia 20 de janeiro, pelas 15h, na Ribeira da Arregaça, em Coimbra, aqueles que se inscreveram terão a oportunidade de testar a APP Citizeen, ferramenta desenvolvida no âmbito do projeto PHArA-ON, Pilots for Active and Healthy Agein. As inscrições decorrem até ao próximo dia 17 de janeiro. 

A aplicação criada pelo MARE, Cáritas Diocesana de Coimbra (CDC) e Our Watch Leads

(OWL) tem como um dos objetivos potenciar a utilização de ambientes verdes e azuis urbanos (rios, ribeiros e suas margens) pelos cidadãos.

Para participar no evento basta preencher este formulário. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Internacional - Estudo publicado na Nature conclui que recuperação da biodiversidade dos rios europeus estagnou na década de 2010

Um estudo internacional com a participação de Maria João Feio e Manuel Graça, investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), publicado na revista Nature, concluiu que, apesar das tendências positivas dos anos 90, a partir de 2010, a recuperação da biodiversidade dos rios estagnou.


Na Europa, nas últimas três décadas, e principalmente após a publicação da Directiva Quadro da Água, em 2000, têm vindo a ser implementadas diversas medidas de mitigação para combater a degradação dos rios e dos seus ecossistemas. No entanto, o número de fatores que ameaçam estes ecossistemas continua a aumentar em todo o mundo.

Assim, «este estudo pretendeu analisar se, ao longo das últimas décadas, tem havido efetivamente uma recuperação da biodiversidade aquática dos sistemas ribeirinhos ao longo do tempo, em resultado das medidas de mitigação implementadas na Europa, e quais os fatores que a determinaram», explica Maria João Feio, acrescentando que foi possível concluir «que houve realmente um pequeno aumento do número de espécies (0,73% por ano), riqueza funcional (2,4% por ano) e abundância (1,7% por ano) nas comunidades de macroinvertebrados aquáticos».

No entanto, prossegue a investigadora, «apesar destas tendências positivas, o número de espécies ainda diminuiu em 30% dos locais. Os ecossistemas ribeirinhos onde se verificou menor recuperação foram os localizados a jusante de barragens, em áreas urbanas e terrenos agrícolas. Além disso, as comunidades de invertebrados localizadas em zonas com taxas de aquecimento mais rápidas tiveram menor recuperação, o que mostra os impactos das alterações climáticas, nomeadamente o efeito do aumento da temperatura», alerta.

De acordo com os especialistas, os aumentos verificados na biodiversidade ocorreram principalmente antes da década de 2010 e, desde então, estagnaram. Os ganhos em biodiversidade nas décadas de 1990 e 2000 refletem a melhoria da qualidade físico-química da água, devido à implementação de sistemas de tratamento mais eficazes e projetos de reabilitação ou restauro ecológico. Já a desaceleração na recuperação da biodiversidade ribeirinha da década de 2010 mostra que as medidas atuais não são suficientes, traduzindo-se cada vez menos em resultados positivos na recuperação da biodiversidade.

Esta estagnação, refere ainda a investigadora, «ocorreu porque surgiram também novas ameaças, nomeadamente poluentes emergentes, como fármacos e microplásticos, alterações climáticas e espécies invasoras. De facto, o número de espécies não-nativas (encontradas em 69 % dos locais analisados) tem vindo a aumentar de forma acentuada (4% por ano)», afirma.

Perante estes resultados, os investigadores consideram «urgente continuar o restauro ecológico baseado na renaturalização e recuperação das espécies, não meramente estético, ou focado no escoamento, ou na remoção de nutrientes da água, mas também de um novo planeamento focado nos novos impactos, tais como poluentes emergentes, alterações climáticas e espécies invasoras. Além disto, a investigação mostra também a importância da continuação da monitorização ecológica dos rios de forma que se possam fazer estudos que abordem as evoluções temporais», concluem.

Esta investigação, que envolveu 96 investigadores europeus de 70 instituições, foi coordenada por investigadores do Senckenberg Research Institute e Natural History Museum Frankfurt, Alemanha. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 7 de junho de 2023

Portugal - Investigadores da Universidade de Coimbra distinguidos nos Prémios Verdes Visão + Grupo Águas de Portugal

Dois investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) acabam de ser distinguidos nos Prémios Verdes Visão + Grupo Águas de Portugal (ADP) pelo papel que têm desempenhado no quadro da atual emergência climática.


Jorge Paiva, professor catedrático jubilado da FCTUC, foi galardoado com o “Prémio Personalidade”. Verónica Ferreira, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da FCTUC, foi distinguida com Menção Honrosa na categoria “Investigação”.

O professor catedrático jubilado da FCTUC foi galardoado pelo trabalho que tem vindo a desenvolver no campo do ativismo ambiental, mas também no científico. Durante o seu percurso, Jorge Paiva ou “grande Senhor do Ambiente”, como é apelidado pela revista Visão, identificou e classificou várias espécies de plantas e participou em expedições científicas um pouco por todo o mundo, mas é a sua defesa intransigente da biodiversidade e floresta autóctone que o tornou conhecido e admirado fora da comunidade científica.


Verónica Ferreira destacou-se na área da investigação devido ao estudo dos ribeiros. A investigadora do MARE tem focado o seu trabalho principalmente na avaliação dos efeitos das alterações ambientais nas comunidades e nos processos aquáticos. As alterações ambientais, às quais tem dado mais atenção, incluem o enriquecimento dos ribeiros em nutrientes, o aquecimento da água, e as alterações da floresta nativa (por exemplo, substituição por monoculturas de eucalipto, invasão por espécies exóticas, doenças resultantes da infeção por agentes patogénicos).

Os Prémios Verdes são promovidos pela revista Visão em parceria com o Grupo Águas de Portugal e têm o Alto Patrocínio do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Esta iniciativa, que já vai na segunda edição, visa reconhecer, divulgar e premiar as boas práticas e os exemplos de excelência que se destacam pelo contributo para o ambiente e desenvolvimento sustentável no quadro da atual emergência climática. Universidade de Coimbra - Portugal