Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 19 de junho de 2026

São Tomé e Príncipe – Empresários dos Camarões projectam ligação marítima para integrar o país no comércio com África

De costas voltadas para o emergente mercado da África Central, com mais de 400 milhões de consumidores, o arquipélago são-tomense recebeu na última semana um novo impulso dado por empresários dos Camarões.


«Falamos da ligação marítima. Há um armador que poderá colocar um barco à disposição para lançar oficialmente a ligação marítima entre São Tomé e Príncipe e os Camarões. Acreditamos que esta ligação vai ajudar as trocas comerciais entre os dois países», declaração de Etienne Desiré, chefe da delegação empresarial camaronesa.

Até à década de 90 do século XX o porto da cidade de Douala no vizinho Camarões era muito frequentado pelos comerciantes de São Tomé e Príncipe. As trocas comerciais entre os países vizinhos eram asseguradas pelos navios Pagué e Elizabete, ambos propriedade do Estado são-tomense.

A II República que nasceu em 1991 fez desaparecer os dois navios, e cortou as trocas comerciais com os países vizinhos. A actividade comercial do passado, com o continente africano contribuiu bastante para a balança de pagamentos de São Tomé e Príncipe.

«Em parceria com o nosso cônsul honorário nos Camarões e mais a Agência de Promoção de Comércio e Investimentos (APCI) realizou-se um fórum de investimentos nos Camarões, que recomendou a visita de prospecção do mercado nacional, pelos dos empresários camaroneses», afirmou Gika Simão, o director de Planeamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A delegação empresarial camaronesa foi informada sobre os benefícios fiscais que o país oferece aos investidores africanos, e foram identificadas algumas áreas de investimento. «A parceria está em curso, esta é uma fase, e alegra-nos constatar que os resultados começam a aparecer», acrescentou o director do planeamento do ministério dos negócios estrangeiros.

À luz do Fórum de Investimentos que o governo realizou na capital da União Europeia, Bruxelas, os empresários camaroneses pretendem seguir algumas pistas abertas por São Tomé e Príncipe em Bruxelas.

«Eles também podem optar por financiar um dos projectos. Passos estão a ser dados para que a breve trecho possamos ter aqui em São Tomé e Príncipe investidores camaroneses», assegurou Gika Simão.

Por sua vez, o chefe da delegação empresarial dos Camarões garantiu que a abertura da ligação marítima entre os dois países vai estimular o investimento privado do seu país em várias áreas de actividade económica do arquipélago do golfo da Guiné. 

Note-se que o capital camaronês está presente no mercado financeiro de São Tomé e Príncipe através do Banco privado Afriland First Bank, e da seguradora SAAR. Abel Veiga – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”


sexta-feira, 3 de abril de 2026

África - Preços do cacau afundam 65% em apenas dois anos

A Costa do Marfim e o Gana continuam a dominar largamente a produção global, assegurando mais de metade da oferta mundial, seguidos por países como Nigéria e Camarões. Esta concentração geográfica confere à região um papel determinante na formação dos preços internacionais


A evolução recente do preço do cacau nos mercados internacionais tem sido marcada por uma forte correcção, com quedas acumuladas na ordem dos 65% em cerca de dois anos, depois de um período de máximos históricos que alimentou expectativas de escassez prolongada. Depois de um pico de 11.675 USD/ton que aconteceu em Dezembro de 2024, o preço nos mercados internacionais tem vindo a cair até ao mínimo de 2798 USD/Ton em Janeiro deste ano, tendo no I trimestre de 2026 valorizado ligeiramente. Esta inversão reflecte, em primeiro lugar, um ajustamento entre oferta e procura, após um ciclo de forte valorização impulsionado por choques climáticos na África Ocidental e por constrangimentos logísticos globais.

Com a normalização parcial das colheitas, sobretudo na Costa do Marfim, e a reposição de stocks por parte das grandes indústrias transformadoras, os preços começaram a ceder, num movimento também influenciado pela desaceleração do consumo em mercados-chave, como a Europa e EUA, pressionados por inflação e perda de rendimento disponível. A isto junta-se a componente financeira, com investidores a reduzirem posições especulativas em commodities agrícolas, acelerando a trajectória descendente das cotações. É neste contexto de volatilidade que se reafirma a centralidade da África Ocidental no mercado mundial do cacau.

A Costa do Marfim e o Gana continuam a dominar largamente a produção global, assegurando mais de metade da oferta, seguidos por países como Nigéria e Camarões. Esta concentração geográfica confere à região um papel determinante na formação dos preços internacionais, mas também expõe o mercado a ciclos de instabilidade, dado que qualquer perturbação climática ou fitossanitária nestes países tem impacto imediato na oferta global.

Apesar deste domínio africano, começa a desenhar-se uma reconfiguração gradual do mapa produtivo, com a América Latina a ganhar protagonismo. O Equador destaca-se como o principal produtor fora de África, consolidando uma estratégia assente na qualidade, nomeadamente no segmento de cacau fino e de aroma, destinado a nichos premium da indústria do chocolate. Peru, República Dominicana e Colômbia seguem o mesmo caminho, ainda que com volumes mais modestos, mas com maior incorporação de valor. Esta aposta evidencia uma tentativa de fugir à lógica tradicional de exportação de matéria-prima, procurando capturar uma fatia mais significativa da cadeia de valor.

Já a Indonésia, que no passado ocupou posições cimeiras no ranking mundial, enfrenta actualmente uma trajectória mais errática. Continua a ser o maior produtor asiático, mas tem perdido competitividade devido ao envelhecimento das plantações, à menor renovação tecnológica e a problemas de produtividade, factores que têm limitado o seu peso relativo no mercado global.

Apesar da diversidade crescente de produtores, o destino do cacau mantém-se altamente concentrado. A esmagadora maioria da produção mundial é exportada para a Europa, onde se localizam as principais indústrias de transformação e fabrico de chocolate. Este desequilíbrio estrutural evidencia uma clivagem persistente: os países produtores, maioritariamente em África e na América Latina, continuam dependentes da exportação de cacau em bruto, enquanto o valor acrescentado é capturado nas economias industrializadas, perpetuando uma relação desigual numa das cadeias agroindustriais mais relevantes à escala global. Hermenegildo Ferreira – Angola in “Expansão”


quinta-feira, 5 de março de 2026

Guiné Equatorial - Escritor Jorge Abeso Ndong Nneme apresentará a epopeia Fang na 4ª edição do Grande Fórum Africano de Publicações, nos Camarões

O evento vai realizar-se de 11 a 14 de março de 2026 na esplanada do Museu Nacional de Yaoundé (Camarões), sob o lema "O livro versus a inteligência artificial"


O escritor, editor e jornalista guineense-equatorial Jorge Abeso Ndong Nneme foi oficialmente convidado a participar da quarta edição do Salão Internacional da Indústria do Livro de Yaoundé (SILLY 2026), um dos eventos mais importantes do setor editorial africano. O evento realizar-se-á de 11 a 14 de março de 2026, na esplanada do Museu Nacional de Yaoundé (Camarões), com o tema O Livro Diante da Inteligência Artificial.

A cada ano, o SIILY reúne escritores, editores, investigadores, livreiros e promotores culturais de diversos países africanos, consolidando-se como um espaço de reflexão sobre o futuro dos livros no continente, os desafios da indústria editorial e o impacto das novas tecnologias na produção e circulação do conhecimento.

Nesta edição, a Guiné Equatorial será representada pela primeira vez por Jorge Abeso Ndong Nneme, que participará como convidado especial no dia 14 de março. Durante o evento, o autor apresentará a sua obra "Sobre a Epopeia Fang", um ensaio vencedor do primeiro Prémio de Ensaio da AEGLE, que analisa a tradição épica Fang como um dos pilares da literatura oral africana. Ele também fará uma apresentação intitulada "O Setor Editorial e de Livros na Guiné Equatorial", na qual abordará o estado atual da indústria editorial do país, os seus desafios estruturais, a promoção da leitura e as perspectivas para o desenvolvimento dos livros guineenses no contexto africano.

A relevância desta pesquisa é ainda mais reforçada por um momento significativo para a cultura Fang. Em 2025, a UNESCO reconheceu oficialmente o Nvet Oyeng, inscrevendo-o na Lista do Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente. Neste contexto, diversos investigadores consideram a obra "Sobre a Epopeia Fang" um dos estudos mais abrangentes dedicados ao Nvet Oyeng e à tradição épica Fang na Guiné Equatorial, abordando sistematicamente as suas origens, estrutura narrativa, simbolismo filosófico e dimensão cultural. É também a primeira pesquisa a examinar este tema de forma abrangente no país.

A participação da Abeso Ndong Nneme neste fórum internacional representa uma oportunidade para apresentar o património cultural da Guiné Equatorial e fortalecer a diplomacia cultural do país, bem como abrir novos caminhos para a publicação e a cooperação académica com outros países africanos, num momento em que o debate sobre a relação entre livros e inteligência artificial ocupa um lugar central na esfera cultural global.

Abeso Ndong Nneme recebeu inúmeros prémios nacionais e internacionais por ensaios, narrativas e poesia. O seu estilo inspira-se na tradição oral, na história e na identidade cultural africana. Entre as suas distinções, destacam-se três Prémios AECID de Narrativa (2007, 2008 e 2011), o Prémio AECID de Poesia (2008) e o Primeiro Prémio AEGLE de Ensaio (2019) pelo seu estudo sobre a poesia épica Nvet e Fang. As suas obras mais conhecidas incluem romances como O Devorador de Homens, o Filho das Sombras e Correntes e Pólvora, uma antologia de poesia e um ensaio sobre a poesia épica Fang (2022).

A sua presença nestes fóruns internacionais ajuda a posicionar a literatura e o pensamento da Guiné Equatorial no diálogo cultural africano contemporâneo, dando visibilidade ao património intelectual do país e permitindo que a epopeia Fang tenha voz num dos mais importantes centros editoriais da África. Após a sua participação em Yaoundé, o escritor guineense também foi convidado para outro evento internacional que será realizado em abril em Libreville, Gabão, para o qual conta com o apoio do Ministério da Informação, Imprensa e Cultura, que já iniciou os preparativos necessários para viabilizar a sua participação. Benjamin Eyang – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”

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Jorge-Abeso Ndong Nneme, nasceu na Guiné Equatorial, em 20 de dezembro de 1984. Trabalhou no Centro Cultural Ecuatoguineano como editor da revista Ilusión, Chefe do departamento de investigação e estúdio de projetos, e Coordenador Geral.

Possuí formação universitária como professor diplomado em ciências da educação, licenciado em ciências da informação e comunicação, e vários diplomas de antropologia e história de África.


sábado, 13 de dezembro de 2025

Guiné Equatorial - A UNESCO reconhece o "Nvet Oyeng" e o regista como Património Mundial

A decisão representa uma vitória histórica para o povo Ekang e para os países onde esta tradição ainda está viva, como a Guiné Equatorial, Camarões, Gabão e Congo


Assim como fez anteriormente com o Ntonobé (uma dança cultural bantu específica do povo Fang, usada para o culto divino durante homilias), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) inscreveu oficialmente o Nvet Oyeng na Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade que Necessita de Salvaguarda Urgente. Esta decisão representa uma vitória histórica para o povo Ekang e para os países onde esta tradição permanece viva, como Camarões, Gabão, Congo e Guiné Equatorial.

O reconhecimento internacional oferece um apoio crucial aos esforços de conservação desta prática ancestral, considerada um dos pilares de identidade mais emblemáticos da comunidade Ekang.

Nvet Oyeng é uma manifestação artística de natureza musical e narrativa que combina canções épicas, histórias mitológicas, danças e a execução de um instrumento de cordas tradicional.

A UNESCO explica que esta arte engloba as histórias, o contador de histórias, o instrumento e o músico, constituindo um sistema cultural completo.

Durante as apresentações, o público participa ativamente com palmas, cantos e tambores, criando uma interação constante entre o artista e a comunidade. Existem duas variações principais: a forma sagrada, reservada para eventos importantes e transmitida por meio de um rigoroso processo de iniciação; e a forma popular, mais acessível, apresentada em celebrações públicas e desempenhos contemporâneos. Ambas as expressões compartilham uma função essencial: garantir a continuidade da memória coletiva do povo Ekang.

A organização internacional também destacou a importância de outros sítios culturais na região, como Guruna, um retiro tradicional e centro de aprendizagem comunitária utilizado pela comunidade Massa, localizado em ambas as margens do rio Logone, entre o Chade e os Camarões. Este reconhecimento reforça o valor do património vivo de África e a necessidade de preservar as suas expressões mais vulneráveis.

Na Guiné Equatorial, a inscrição da arte Nvet Oyeng reviveu a memória de grandes mestres que dedicaram as suas vidas a esta tradição. Entre eles, destaca-se o célebre trovador Eyi Muan Ndong, considerado um ícone cultural e um dos mais profundos conhecedores de Nvet na região. O seu legado, ainda vivo na memória coletiva, é hoje um símbolo de orgulho para o país e um ponto de referência essencial na história artística da África Central.

A decisão da UNESCO agora apela aos Estados envolvidos para que reforcem os seus mecanismos de proteção cultural, a fim de garantir que Nvet Oyeng continue sendo transmitido às novas gerações e mantenha o seu lugar como património vivo da humanidade. Benjamin Eyang – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”


quarta-feira, 25 de junho de 2025

Camarões - Coligação da sociedade civil pede a Presidente há 42 anos no poder que desista da recandidatura a novo mandato

Uma coligação de professores universitários, membros da sociedade civil e líderes tradicionais lançou um apelo público instando o Presidente dos Camarões, Paul Biya, no poder desde 1982, a não se recandidatar — ou a ser destituído caso o faça. Defendem que, aos 92 anos, a permanência de Biya no poder simboliza um sistema político estagnado, inadequado para lidar com crises urgentes como o conflito anglófono, as dificuldades económicas e a corrupção endémica

Estas vozes colectivas desencadearam um novo debate: enquanto alguns autarcas locais e chefes tradicionais insistem que Biya personifica a estabilidade, outros — incluindo líderes religiosos — descrevem a sua candidatura como «irrealista» e alertam que ameaça o progresso democrático.

A Human Rights Watch e outros observadores também criticaram o regime por reprimir a oposição e os grupos independentes antes da votação, alegando detenções e restrições à actividade política. In “Jornal de Angola” - Angola


sábado, 4 de janeiro de 2025

Camarões - Biólogo luta para salvar peixes-boi africanos

Desde as suas primeiras observações no lago Ossa, em Camarões, o doutor em biologia marinha Aristide Takoukam Kamla luta para proteger os peixes-boi da África, uma espécie desconhecida e ameaçada, presente nas águas doces da costa oeste do continente



Para poder observar estes discretos mamíferos marinhos, é preciso esperar o amanhecer, quando a superfície do lago está plana como um espelho, seguir o rastro de bolhas e aguardar o animal subir para respirar.

Há mais de 10 anos, quando era estudante e investigador na Universidade de Dschang, em Camarões, Takoukam teve que remar por um longo tempo antes de conseguir ver estes habitantes das profundezas do lago.

“Esperava vê-los como no YouTube: em águas claras, saltando como golfinhos… uma ideia totalmente surrealista” vinda dos vídeos de peixes-boi da Flórida, muito diferentes dos africanos, explica o doutor em biologia de 39 anos com um sorriso no rosto.

Foi graças aos pescadores locais que ele aprendeu a avistar esses mamíferos, também conhecidos como vacas marinhas, nos 4500 hectares de águas sombreadas do Lago Ossa, localizado num parque natural no sudoeste de Camarões.

Agora, o peixe-boi africano é “seu animal favorito” e o tema do seu doutoramento na Universidade da Flórida, que em 2024 lhe rendeu o Prémio Whitley, a mais alta distinção no campo da conservação da biodiversidade.

Mistérios

Ao retornar de uma expedição com Takoukam, a investigadora americana Sarah Farinelli foi às lágrimas ao avistar cinco espécimes, incluindo uma fêmea acompanhada do seu filhote.

“É muito! Há alguns lugares na África onde é impossível vê-los”, explica a cientista que estuda estes animais na Nigéria.

Essa indefinição envolve estes animais em mistério: quantos Trichechus senegalensis existem nos Camarões, qual é a expectativa de vida deles, quando e para onde eles migram?

Eles habitam a costa oeste da África, entre a Mauritânia e Angola, mas “é uma espécie muito pouco estudada, em torno da qual ainda há muitos mistérios”, diz Takoukam.

Considerado “vulnerável”, este grande herbívoro marinho está na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Takoukam Kamla, fundador de uma organização de proteção de mamíferos marinhos na África (AMMCO), acredita que essa classificação da IUCN subestima “o status real desta espécie, que é alvo de caça ilegal” e cujo habitat está “constantemente ameaçado”.

No Lago Ossa, o único predador do peixe-boi é o homem. Há alguns anos, o peixe-boi ao molho era um prato comum em Dizangué, a cidade que reúne as vilas de pescadores nas margens do lago.

Agora a sua pesca é proibida, o prato desapareceu dos cardápios e uma estátua de gesso azul celebra a existência do animal. No entanto, as ameaças persistem.

Navegando por um rio local, Aristide aponta para uma refinaria artesanal de óleo de palma que despeja resíduos diretamente na água e polui o lago.

Pouco depois, ele discute indignado com um pescador que estendeu uma rede que poderia pegar um pequeno peixe-boi.

“Somos moradores locais, vivemos disso e nunca tivemos que suportar proibições em nossa casa”, protesta o pescador idoso sentado numa canoa. “Se quiserem nos impor proibições, terão que nos pagar todo mês”, insiste ele.

Unidos contra uma planta invasora

A relação entre cientistas e comunidades locais com práticas ancestrais de pesca não é fácil. No entanto, uma catástrofe em 2021 aproximou os dois mundos.

Uma planta invasora, a salvínia gigante, foi descoberta no meio do lago e o tornou inabitável tanto para os peixes quanto para os peixes-boi.

Os cientistas iniciaram uma “batalha biológica” usando gorgulhos “cyrtogabous salviniae”, um inseto microscópico que se alimenta apenas de salvínia, e pediram ajuda aos pescadores.

“Eles pegavam a salvínia infestada de gorgulhos e a espalhavam pelo lago”, lembra Thierry Aviti, pesquisador da AMMCO, a organização fundada por  Takoukam.

Depois de três anos, a planta praticamente desapareceu. “Chegou um momento em que não aguentávamos mais, mas eles mantiveram as suas promessas”, diz Thierry Bossambo, um pescador de Dizangué, ainda traumatizado pelos longos períodos sem pesca.

Aristide baseia-se nessa “relação de confiança” com os pescadores para evitar uma “ciência de paraquedas”, desvinculada das realidades locais.

Ele também quer desenvolver um circuito de ecoturismo para deter os caçadores ilegais. Para Gilbert Oum Ndjocka, guarda-florestal do parque nacional Douala-Edea, essa é uma “prioridade” para que “todas as partes interessadas sejam aliadas na conservação”. In “Plataforma” - Macau


segunda-feira, 8 de abril de 2024

Camarões - Investigador da Universidade do Porto estuda papel dos morcegos na produção do cacau

Diogo Ferreira (FCUP/BIOPOLIS/CIBIO-InBIO) estudou o papel dos morcegos no controlo das pragas de insetos nas plantações de cacau em África


Quando comemos chocolate, não é propriamente em morcegos que pensamos. Mas, na verdade, é também graças a eles que o temos. No âmbito do doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), Diogo Ferreira estudou o papel dos morcegos no controlo das pragas de insetos nas plantações de cacau em África.

O jovem investigador apaixonou-se, há 10 anos, por morcegos e, quando surgiu uma oportunidade de liderar uma equipa de investigação para um trabalho de campo nos Camarões, com estes animais, não hesitou. Em 2018, candidatou-se a uma bolsa de doutoramento na Fundação para a Ciência e Tecnologia e começou uma aventura que terminou em fevereiro deste ano com a defesa da sua tese na FCUP.

“Apesar de todos ouvirmos falar de cacau e amarmos chocolate, a verdade é que sabemos muito pouco sobre o assunto. Por exemplo, poucas pessoas sabem que grande parte do cacau que consumimos, quase 70%, vem de África”, conta o investigador que desenvolveu o seu trabalho em colaboração com o BIOPOLIS/CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos).

“As pragas do cacau podem custar à volta de 700 milhões de euros anualmente aos agricultores e, tendo em conta que os morcegos podem consumir até dois terços do seu peso em insetos por noite, o papel que têm nas plantações de cacau pode ser enorme”, salienta.

Gestão da paisagem e das plantações para ajudar os morcegos a “proteger” o cacau

Em dez meses de viagens aos Camarões, Diogo Ferreira estudou as populações de morcegos insetívoros em 38 plantações de cacau. Realizou também, durante um ano, uma experiência de exclusão. O objetivo foi, através de uma rede de pesca à volta de algumas árvores de cacau, bloquear o acesso dos morcegos às árvores.

“A ideia era tentar perceber se, quando os morcegos não conseguiam consumir os insetos presentes nestas árvores excluídas, haveria uma quebra na produção dos frutos do cacau devido ao aumento de pragas”, revela.

Os resultados obtidos foram divulgados num estudo publicado em abril de 2023. “Descobrimos que os morcegos estavam realmente a contribuir para o aumento do número de frutos de cacau, à volta de 450 euros por hectare, e por ano, mas isso só acontecia quando havia plantações com muitas árvores de grande porte a fazer sombra”, conta.

Para além disso, Diogo estudou também o número e a diversidade de espécies de morcegos insetívoros, frugívoros e nectarívoros, montando redes para captura e voltando a libertá-los após a sua identificação. Os resultados sugeriram uma maior diversidade de morcegos insetívoros em plantações com mais sombra e com árvores de sombra de grande porte, e floresta à sua volta.

“Como plantações com mais sombra são mais semelhantes às florestas nativas, vão ter mais insetívoros e portanto maior potencial para suprimir pragas”, destaca.

Decidiu, assim, adicionar à sua tese sugestões para a gestão das plantações de cacau para serem “bat-friendly”. “Propus medidas de gestão para tentar maximizar a diversidade de morcegos e os serviços de supressão de pragas que eles efetuam nas plantações”. E é por aqui que devem seguir os próximos passos de Diogo Ferreira após a conclusão da sua tese. Diogo quer testar, por exemplo, alternativas a árvores de grande porte para fazer sombra, como “a construção de abrigos artificiais onde os morcegos possam dormir durante o dia”.

Certificados bat-friendly e ações para ajudar os agricultores

Tendo convivido com os agricultores e com a realidade de quem vive das plantações de cacau, Diogo Ferreira conheceu de perto a importância dos morcegos e também o impacto das escolhas do consumidor. Regressou a Portugal com um sonho: “estabelecer um certificado Bat-Friendly para conseguir preços melhores para o cacau vendido por estes agricultores e assim reconhecer todo o sacrifício que eles têm que fazer para manter estas plantações sustentáveis”.

Segundo o investigador, “os agricultores de cacau recebem uma pequena fração do preço dos chocolates: apenas entre 3% e 6% do valor final”. Defende, por isso, que tenham acesso a preços premium que considerem uma margem maior de lucro, uma realidade que só é possível através da certificação do cacau.

Enquanto o sonho não se realiza, Diogo Ferreira deixa um apelo aos apreciadores de chocolate. “Todos nós podemos tentar comprar chocolate certificado que seja feito com comércio justo (fair-trade), e que mostre rastreabilidade e transparência em todas as etapas. Assim podemos aproveitar o chocolate na sua plenitude”, defende. Universidade do Porto - Portugal

sexta-feira, 5 de março de 2021

Portugal - Conquista primeira medalha de ouro europeia em lançamentos

A portuguesa Auriol Dongmo conquistou a medalha de ouro do lançamento do peso nos Campeonatos da Europa de atletismo de pista coberta, que se estão a disputar em Torun, Polónia


Dongmo venceu na final com um arremesso de 19,34 metros, num concurso em que atirou sempre a mais de 19 metros, tirando o primeiro e o último, que foram nulos.

A medalha de prata foi para a sueca Fanny Roos, com 19,29, e a de bronze para a alemã Christina Schwanitz, com 19,04.

O triunfo de Auriol Dongmo em Torun eleva para 24 as medalhas que Portugal já conquistou em Campeonatos da Europa em pista coberta, sendo a primeira de sempre em lançamentos.

A maioria de medalhas de ouro fica ainda mais reforçada, com 13, contra nove de prata e somente duas de bronze.

O meio-fundo curto (800, 1500 e 3000 metros) ainda domina, com 13 medalhas, seguido pelos saltos, com oito. Uma medalha apenas para a velocidade, com Francis Obikwelu, uma para as provas combinadas, através de Naide Gomes, e agora uma para os lançamentos, com Dongmo.

O único atleta português com três títulos continentais é Rui Silva, mais um do que Fernanda Ribeiro, Nelson Évora e Naide Gomes, que contribuem com dois cada para o total luso de ouro.

Estes quatro atletas e Carla Sacramento são os mais medalhados de sempre nesta competição, assegurando mais de 70 por cento dos pódios a que Portugal chegou: Rui Silva e Naide Gomes com quatro cada, Carla Sacramento, Nelson Évora e Fernanda Ribeiro com três.

Sara Moreira, com duas medalhas, João Campos, Carlos Calado, Francis Obikwelu, Patrícia Mamona e Auriol Dongmo completam a lista de 11 atletas que já trouxeram para Portugal medalhas em Campeonatos da Europa em pista coberta.

Em 1990 há ainda a registar a conquista de uma medalha de bronze no triplo salto feminino, através de Ana Oliveira, mas a prova era de exibição, porque a modalidade ainda não fazia parte do calendário oficial para as mulheres. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Camarões - Peixe-boi em risco de vida devido a planta invasora no lago Ossa


O peixe-boi africano (Trichechus senegalensis) é uma espécie que se encontra em estado vulnerável, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), existindo apenas 10 mil indivíduos da espécie em todo o continente africano.

A população que vive no lago Ossa, situado na República dos Camarões, encontra-se em perigo de vida devido a uma planta invasora, revela o Euronews. A espécie Salvinia molesta apareceu em 2016 e está a provocar o asfixiamento do lago, ocupando de momento um quarto da superfície.

A sua presença impede que o peixe-boi possa vir respirar ao cimo da água e, ao mesmo tempo, está a prejudicar a pesca local, que é o sustento da população.

Como não é possível livrarem-se da planta apenas retirando-a da água, a ONG African Marine Mammal Conservation Organization (AMMCO) encontrou agora uma solução natural, um inseto que se alimenta da salvínia. “Vai levar algum tempo” mas “é muito mais eficaz”, afirma Aristide Takoukam Kamla, diretor da ONG, citado pelo canal televisivo. In “Green Savers Sapo” - Portugal


 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Austrália - Donzela-de-barbatana uma espécie de peixe coral que domestica camarões

 


Cientistas australianos descobriram que uma espécie de peixe coral utiliza camarões para ajudar a fertilizar as suas fazendas de algas. Segundo esta equipa esta é a primeira evidência de um animal não humano a domesticar outra espécie.

A donzela-de-barbatana (Stegastes diencaeus) é conhecida por defender agressivamente as fazendas das quais dependem para se alimentar – mas não, ao que parece, contra os camarões misídeos planctónicos (Mysidium integrum).

“Descobrimos que as donzelas-de-barbatana mantêm camarões misteriosos nas suas fazendas, proporcionando-lhes um refúgio seguro contra predadores”, indicou Rohan Booker da Universidade Deakin da Austrália, principal autor de um artigo na Nature Communications.

“Estes camarões, em troca, nadam naquela fazenda o dia todo e bombeiam passivamente o lixo. Todo esse lixo extra atua como fertilizante, melhorando as algas cultivadas e, por sua vez, a condição do agricultor, a donzela-de-barbatana.”

Esta parceria é conhecida como “relação domesticador-domesticado”, um arranjo mutuamente benéfico em que uma espécie fornece suporte contínuo a outra em troca de benefícios previsíveis, como peixes limpadores a apanhar parasitas de outros peixes ou insetos a polinizar flores.

Os humanos têm tido esse tipo de relacionamento com muitos animais diferentes desde que domesticaram os cães, há cerca de 10000 anos, criando-os seletivamente para certas características atraentes.

Outros exemplos de domesticação não humana são mais conhecidos em insetos que domesticam plantas, como formigas cultivadoras de fungos. Este estudo mostra que vertebrados não humanos também domesticam outros animais e sugere que pode ser mais comum do que se conhecia anteriormente, indicou Booker.

Na espécie não humana, observa ele, o processo de domesticação provavelmente ocorre sem intenção consciente, mas sim através da coevolução ao longo de milénios. Suspeita-se que as relações humanas com outros animais se originaram da mesma maneira.

Acredita-se que a domesticação humana de lobos cinzentos (Canis lupus), por exemplo, tenha começado quando os lobos foram atraídos para acampamentos humanos; à medida que as duas espécies coexistiram e se acostumaram, os humanos começaram a obter benefícios como uma caça mais bem-sucedida.

“Acho que a coisa realmente empolgante que fomos capazes de fazer foi utilizar as relações peixes-camarões para testar experimentalmente a via comensal, que é uma das maneiras como as relações humanas com animais surgiram pela primeira vez”, diz Brooker.

“O comportamento territorial dos peixes criou um nicho totalmente novo no recife do qual os camarões poderiam aproveitar oportunisticamente para se abrigar, semelhante a como galinhas ou gatos podem ter aproveitado assentamentos humanos para se alimentar, levando a uma melhor sobrevivência.

Estas afiliações têm ramificações ecologicamente importantes, dizem os autores, à medida que benefícios mútuos evoluem ao longo das gerações, moldando o comportamento, a adaptação e a sobrevivência, e até mesmo as paisagens e a biodiversidade. In “Green Savers Sapo” - Portugal


sábado, 5 de dezembro de 2020

Gabão – Linha de fibra óptica vai conectar o país com a Guiné Equatorial e Camarões

 

A Agência Nacional de Infraestrutura e Frequências Digitais do Gabão (ANINF) anunciou a conclusão das obras de expansão para conectar Boué (norte do Gabão) com interconexões físicas em Camarões e Guiné Equatorial, através de Bitam & Oyan-Bifoun-Lambarene ao longo de uma linha de fibra óptica de 528 km.

O plano de extensão faz parte do projeto Central Africa Backbone (CAB4), que é uma das 11 realizações integradas para os quais foram levantados fundos durante a Mesa Redonda de Investidores em Paris, de 16 a 17 de novembro de 2020.

A ANINF explica que o próximo passo será o colocar em funcionamento da linha de 528 km que permitirá aos moradores das regiões abrangidas o acesso à internet banda larga. O CAB4 vai interligar os países da CEMAC com internet banda larga, conforme sugerido pelos Chefes de Estado em 2016. O projeto foi desenvolvido para aumentar a capacidade e qualidade, bem como reduzir o custo dos serviços de telecomunicações na região. Os principais patrocinadores são o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).

O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e a Agência Nacional de Infraestrutura Numérica e Frequência do Gabão (ANINF) assinaram acordos para um estudo de viabilidade para a componente do país do projeto backbone da África Central (CAB). O projeto é uma infra-estrutura integrada que compreende 901,8 km de conectividade de fibra óptica para cobrir quatorze ligações que faltam no backbone nacional do Gabão.

O projeto irá melhorar a integração regional na região da África Central, permitindo a troca de interconexão transfronteiriça com os vizinhos Congo, Camarões e Guiné Equatorial. Serão abertas oportunidades que integrarão o Gabão à comunidade de informação e comunicação, entre outras iniciativas destinadas a eliminar a exclusão digital, especialmente nas áreas rurais, e empoderar as comunidades marginalizadas.

O custo total da preparação do projeto é de 480 milhões de F.CFA fornecidos pelo banco através do Fundo Especial do Fundo de Preparação de Projetos de Infraestruturas da NEPAD (NEPAD-IPPF). Isso permite que os países africanos preparem projetos de infraestrutura regional financiáveis ​​para promover a integração e apoiar a transformação socioeconómica. In “Guinea Infomarket” – Guiné Equatorial


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Ambazónia – A região anglófona dos Camarões que luta pela independência



Os separatistas da Ambazónia, regiões de língua inglesa dos Camarões, lançaram a sua própria criptomoeda chamada "AmbaCoin".

Pretendem criar um estado independente chamado Ambazónia, e a moeda é o último símbolo da nação que os rebeldes adoptaram, com a sua bandeira azul e branca e o seu hino. Uma ideia que a Casamansa no exterior está explorando há vários meses.

Um AmbaCoin está-se vendendo por 25 cêntimos correspondendo a 160 CFA, e está actualmente em pré-venda antes da "grande emissão inicial de moedas programada para 24 de Dezembro".

O AmbaCoin foi projetado e construído por um grupo anónimo de académicos, tecnocratas e estrategas separatistas de língua inglesa.

A moeda oficial dos Camarões é o franco CFA das colónias francesas de África, que está totalmente vinculada ao Tesouro francês.

Para garantir a sua economia e soberania, muitos países africanos há muito pedem o abandono desta moeda colonial sem sucesso. Pierre Coly – Casamansa in “Journal du Pays”

sábado, 23 de dezembro de 2017

Cabo Verde - 2018 vai ser o ano da Economia Azul

Aquacultura: Ministro da Economia garante que 2018 vai ser o ano da produção de camarões em São Vicente

Cidade da Praia – O ministro da Economia e Emprego garantiu hoje que 2018 vai ser um ano em que vão resolver as questões dos transportes marítimos inter-ilhas e da produção de camarões em São Vicente, no âmbito da aquacultura.

José Gonçalves falava hoje, na Cidade da Praia, à margem da assinatura do protocolo entre a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e o Ministério da Economia e Emprego, em que a FAO disponibiliza um milhão de dólares ao Governo de Cabo Verde para a elaboração do Plano Nacional de Investimentos e preparação para a promoção da Economia Azul.

Segundo José Gonçalves, 2018 vai ser o ano da Economia Azul em muitos aspectos, não só em pôr em funcionamento o Ministério da Economia, que vai ficar reforçado com um secretário de Estado adjunto, Paulo Veiga, para que possa ter uma maior eficácia na implementação dos projectos.

Apontou ainda que, 2018 vai ser um ano em que vão resolver as questões dos transportes marítimos inter-ilhas e há toda uma nova dinâmica na área de aquacultura.

“Brevemente, segundo os promotores, pela primeira vez na história vamos ter produtos como camarões produzidos em Cabo Verde na zona de Calhau, em São Vicente, previsto para o primeiro trimestre”, sublinhou.

José Gonçalves, que a partir de 05 de Janeiro, passa a desempenhar o cargo de ministro do Turismo, Transporte e o ministro da Economia Marítima, terá a sede dos seus ministérios na Ilha de São Vicente.

O primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, justificou essa mudança da sede para São Vicente, por ter nesta ilha tudo que é administração relacionada com a economia do mar, designadamente a Direcção Geral da Economia Marítima, o Instituto Nacional de Desenvolvimento da Pesca e pelo facto de ter um “forte empenho” no desenvolvimento do projecto da criação da Zona Económica Exclusiva para a economia marítima nesta ilha. In “Inforpress” – Cabo Verde

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Internacional – Produção de super-camarões

O camarão de rápido crescimento é a prioridade, mas também precisa conter níveis extraordinariamente elevado de ómega 3 e ganhar uma atractiva tonalidade rosa ao ser preparado. O produto final será livre de antibióticos, pode ser maior que o punho de um homem e pesar 50 gramas - várias vezes mais do que um camarão congelado comum. Um projecto de 1,5 mil milhões para produzir super-camarões

Algures nas vastas zonas de pesca ao largo da costa norte da Austrália está aberta a caça pelos Adãos e Evas necessários para criar uma super-raça de camarões.

Os escolhidos serão a chave do sucesso de um plano de 1,5 mil milhões de dólares da Seafarms Group para construir a unidade de produção de camarões do mundo desenvolvido. O maior desafio não é cavar 1.000 lagos num lugar quase tão grande como a Disney World, na Flórida, nem transportar os camarões de uma das regiões mais remotas da Austrália para os mercados da Ásia.

A viabilidade do projecto Sea Dragon está na criação em laboratório, dentro de alguns anos, daquilo que séculos de evolução natural não foram capazes. Os cientistas estão a tentar mapear o genoma do camarão-tigre-gigante para produzir um super-invertebrado que crescerá mais rapidamente, combaterá doenças de forma mais efectiva e terá um sabor melhor do que os seus irmãos que circulam livremente.

"Trata-se de uma selecção natural acelerada", diz Dean Jerry, professor da Universidade James Cook, em Townsville, na região norte de Queensland, que lidera uma equipa que trabalha no projecto com recursos da Seafarms e do governo australiano. "O que estamos realmente a tentar é um camarão que cresça o mais rapidamente possível."

O projecto Sea Dragon, que está a tentar angariar financiamento de investidores estrangeiros, também representa um teste à capacidade da Austrália de emergir do boom da mineração, do tipo que ocorre uma vez a cada 100 anos, e oferecer mais alimentos às populações crescentes da Ásia.

Os alimentos produzidos pela aquicultura terão de duplicar até 2030 para responder à procura global, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

"Temos um desafio real, globalmente, de alimentar o mundo", diz o director da Seafarms, Chris Mitchell, em entrevista. "Os humanos fizeram isso com o frango, com a vaca e com a ovelha. Não é magia, apenas princípios científicos muito bons aplicados de forma rigorosa."

Uma desova

As habilidades reprodutivas do animal coincidem com a escala do projecto - que quando estiver totalmente finalizado, será o sétimo maior produtor do mundo. Uma fêmea de camarão-tigre produz até 400.000 filhotes numa única desova, dando aos exigentes cientistas um amplo leque de candidatos para avançar para a geração seguinte.

É notório que peixes e crustáceos criados em cativeiro são frágeis. Cerca de 40% são perdidos em todo o mundo devido a doenças antes que possam ser consumidos, segundo Jerry. Em algumas partes da Ásia, morreram populações inteiras de camarões criados em cativeiro.

O camarão de rápido crescimento é a prioridade, mas também precisa conter níveis extraordinariamente elevads de ómega 3 e ganhar uma atractiva tonalidade rosa ao ser preparado. O produto final será livre de antibióticos, pode ser maior que o punho de um homem e pesar 50 gramas - várias vezes mais do que um camarão congelado comum. In “Jornal de Negócios” com Bloomberg - Portugal