Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Brasil - Amazônia: cactus em lugar de árvores?

A primeira página do jornal suíço Le Temps, sobre uma foto mostrando fumaça e chamas queimando árvores, pergunta: Na Amazônia, os cactus suplantarão as árvores?

Essa pergunta decorre de um estudo publicado esta semana, na revista Nature Communications, revelando as desastrosas consequências climáticas da desflorestação da região, acompanhadas de uma diminuição constante das chuvas e da umidade. A consequência será uma gradativa passagem para o clima semi-árido do Nordeste, com a substituição das árvores frondosas por moitas de cactus, areia e poeira.

O desmatamento tinha mostrado uma ligeira diminuição na região amazônica, logo depois da eleição de Lula, mas voltou a crescer desde a metade do ano passado, com o retorno de queimadas criminosas com o objetivo de conquistar e preparar o terreno para imensas pastagens para gado. A alimentação desse gado exige também vastas áreas de plantio de soja, uma parte destinada à exportação.

Um outro estudo já havia sido divulgado, no ano passado, no qual se previa o risco de um ponto de não retorno, por volta de 2050, em grande áreas da região amazônica, com desequilíbrio do ecossistema e mudança climática. Assim, a região amazônica deixará de ser uma importante reguladora climática e perderá sua condição atual de preservadora da reserva da biodiversidade.

Faltando dois meses para a COP 30, a Conferência internacional de Belém, organizada pela ONU, sobre as mudanças climáticas, essas notícias preocupam, pois o desmatamento coincide com outros sinais preocupantes: o visível derretimento das geleiras no alto das montanhas em todo mundo, seguido por deslizamentos de encostas de montanhas, provocado por tempestades com chuvas em excesso, mais a tendência de aumento do nível dos mares com borrascas e temporais nas orlas marítimas.

De acordo com RTBF (televisão belga) a Floresta Amazônica não é mais o pulmão do mundo do mundo há dez anos, pois ela emite mais carbono do que absorvia, tendo perdido mais de 11 mil km2 de sua superfície arborizada nos últimos três anos, cerca de 17% da área nativa. À medida que avança o desmatamento, a área vai sendo ocupada por savanas e aumenta a temperatura por falta da umidade antes gerada pelas chuvas nas florestas. Assim, a previsão é a de que até 2035, haverá um aumento de 2,6 graus na temperatura da região, gerando seca e uma vegetação de cactus e caatinga, parecida com a do Nordeste.

Essa situação de seca se estenderá também às regiões vizinhas, diminuindo o volume de água nos rios, podendo afetar o fornecimento de água potável nas cidades próximas. O centro e o sul do Brasil também serão afetados com temperaturas mais elevadas. Já existem cidades paulistas onde os criadores de gado têm problemas com a água necessária para seus rebanhos. Para impedir o agravamento dessa situação só há uma solução: parar com o desflorestamento na Amazônia. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

Brasil - A desflorestação é responsável por quase 75% da redução das chuvas na Amazónia

 

terça-feira, 1 de julho de 2025

O estranho mundo amazônico

Em nova obra, “Lá, Seremos Felizes”, Nicodemos Sena reconstitui o drama dos marginalizados através de personagem neopícaro

                                                                

                                                           I

A missão da história e da crítica literária consiste num trabalho permanente de revisão do passado, com vistas a uma avaliação mais correta da sua herança para as gerações futuras, como observa o professor Massaud Moisés (1928-2018) em Machado de Assis: Ficção e Utopia (São Paulo, Editora Cultrix, 2007, p. 21). Nesse sentido, o romance , Seremos Felizes (Curitiba, Kotter Editorial, 2025), de Nicodemos Sena, é um exemplo bem-acabado para a reavaliação por que passa a história literária que tem a Amazônia como fulcro, consolidando o nome do seu autor como um dos principais escritores que tomaram aquela região como tema para suas obras, ao lado de Euclides da Cunha (1866-1909), Dalcídio Jurandir (1909-1979), Luiz Bacellar (1928-2012), Aníbal Beça (1946-2009), Márcio Souza (1946-2024), Milton Hatoum e Eliane Brum.

, Seremos Felizes conta a trajetória de Lázaro, um jovem de 17 anos, “órfão de pai aos oito meses de idade, sem estudo”, que “cresceu largado por esse mundão de meu Deus”, “comendo o pão que o diabo amassou”, abandonado na Amazônia das décadas de 1930 e 1940. E que vivia “nessa porra de vida, rolando de um lugar para outro, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem coisa nenhuma”, ou seja, “não era de nenhum lugar”.

Ao contrário de obras mais antigas, a narrativa se afasta dos estereótipos coloniais e exóticos ligados à Amazônia, criados especialmente por aventureiros, naturalistas, viajantes e exploradores sempre ávidos por suas riquezas. E mais importante: dá voz a seus habitantes, a partir da utilização de seu linguajar comum, seus hábitos e visão do mundo. Ou seja, a visão que se tem é de quem nasceu e viveu na Amazônia e não a de quem a olha de fora.

Um exemplo significativo está neste trecho em que Lázaro encontra Raquel, que era “branquinha e loura, magra como uma vara de pescar”, mas que fora criada por uma “caboclona morena e atarracada” e comunicava-se numa “língua estranha”, o tupi antigo falado pelos maués, etnia indígena, cujas mulheres haviam sido proibidas de falar a língua dos portugueses invasores: (...) Che rori catu nde rurari (...) Arêp arêpe tuérut / Quiát oiquêt-ta-capêi / Arêt arêpê tuérut (tradução: Estou muito contente com a tua vinda (...) Vim cantando / De onde durmo vim cantando / Eu vim cantando).

  

                                                  II

De fato, como observa no texto de apresentação o escritor, tradutor e editor Salvio Kotter, Sena, desde o seu livro de estreia, A Espera do Nunca Mais: Uma Saga Amazônica (1999), “vem construindo um painel ao mesmo tempo extraordinário e estarrecedor de uma região saqueada e vilipendiada em seus bens naturais e culturais”. E neste seu novo romance mostra uma Amazônia bem diferente daquela que se vê em obras de outros autores, já que permeada por termos do dialeto dos povos originários, como Noçoquem (paraíso), iporanga (bonito), Guaraci (sol), Iaci (lua), tajasú (porco do mato), Cicantá (inferno) e outros, que eram falados por Raquel, mas desconhecidos de Lázaro, embora aquela fosse a língua dos antepassados que corria em seu sangue.

Dessa maneira, o autor consegue recriar um universo mítico, mas, ao mesmo tempo, realístico, pois não deixa de assinalar as marcas da violência dos mais fortes sobre os mais fracos, característica, aliás, da própria sociedade brasileira em que os ricos e super-ricos mantêm os pobres e remediados sob a tacão da opressão, manipulando-os, agora favorecidos pela tecnologia oferecida pelas redes sociais que os induz a votar em seus opressores.

 

                                                 III

A partir do nome do personagem principal, o anti-herói Lázaro, não há como evitar que se classifique este romance pelo menos como neopicaresco, pois seria impossível recusar a sua comparação com Lazarillo de Tormes (1573), de autor anônimo, uma das obras-primas da literatura espanhola e universal. Sem contar que Sena no capítulo 14, “Um pobre feliz”, reproduz como epígrafe um trecho daquela narrativa espanhola anônima: “A cada manhã, ia o infeliz com aquele ar de felicidade e andar altivo a engolir vento pelas ruas”.

Ocorre que este livro não é conduzido por um narrador-personagem, em tom pseudo-autobiográfico como o Lazarillo de Tormes, condição sine qua non para que fosse enquadrado no gênero picaresco. Pelo contrário, o narrador, ocasionalmente, escreve em primeira pessoa, mas sempre discorrendo sobre as aventuras de Lázaro, embora, a certa altura, no capítulo 11, “Tempo de guerra”, admita que “a história do pequeno Lázaro” também é a sua história, ou seja, o narrador aqui parece funcionar como alter ego do autor.

Seja como for, o texto autobiográfico do Lazarillo é um recurso, um achado ao tempo de sua criação, mas que hoje constitui uma técnica limitadora, embora nem por isso ultrapassada. Além do mais, não haveria sentido em se repetir o esquema clássico da picaresca para contar fatos que teriam ocorrido na primeira metade do século XX.

Em outras palavras: a picaresca clássica é irrepetível e só tem sentido se associada aos séculos XVI e XVII, como se pode constatar em outras obras precursoras do gênero: La Vida del Buscón (1626), de Francisco de Quevedo (1580-1645), e Guzmán de Alfarache (1599-1604), de Mateo Alemán (1547-1614).  Aliás, deve-se ressaltar que esta última obra estabeleceu definitivamente as características esboçadas em Lazarillo de Tormes, mostrando o pícaro por completo, ou seja, um tipo que vive à margem da sociedade, procurando escapar da miséria.  

Portanto, ao tentar se filiar a recente obra de Sena a esse gênero, não se pode deixar de comparar o seu Lázaro moderno ao modelo ancestral, ou seja, a sua origem infame, a sua tendência a não se fixar em lugar nenhum, a luta pela sobrevivência e o tema da fome, que poderia levar o protagonista até a cometer atos reprováveis. Mas este não é o caso de Lázaro, que sempre se sujeita aos piores serviços, sem se revoltar.

Afinal, como nas sociedades injustas de hoje, a nobreza espanhola ao tempo do pícaro era responsável pelos desníveis sociais que levavam à delinquência urbana e rural. Quer dizer: aos nobres tudo era permitido, pois, dificilmente, alguém daquela classe social era processado, muito menos punido, já que a justiça dos homens sempre o protegia. E a repressão era feita somente contra os não-privilegiados.

Mas isso não significa que, por outro lado, esta obra seja tributária do realismo socialista que fazia dos pobres sempre pessoas boas e dos ricos eternos vilões. Enfim, seus personagens, com todas as suas limitações, são humanos. E isto resume tudo. Portanto, o que mais se pode dizer é que , Seremos Felizes constitui uma recriação da picaresca clássica, adaptada aos padrões dos séculos XX e XXI, ou seja, um belo e certeiro exemplo do gênero neopicaresco, conforme definido pelo ensaísta argentino-brasileiro Mario Miguel González (1937-2013), ex-professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), em Novela picaresca iberoamericana: la neopicaresca brasileña (México, Instituto Panamericano de Geografia e Historia, 1993). Está dito tudo.


                                                 IV

Nascido em 1958 em Santarém, no Pará, Nicodemos Sena passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de divisa com o Estado do Amazonas. Em 1977, seguiu para São Paulo, onde teve seu primeiro emprego numa indústria têxtil no bairro do Ipiranga, vivendo num cortiço, onde conheceria “seres da noite” semelhantes ao que povoariam seus futuros romances.

Formou-se em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Direito pela Universidade de São Paulo (USP). Depois de passar pelas redações de vários órgãos da imprensa paulista, no início de 2000, recebeu convite para dirigir a redação do jornal A Província do Pará e a principal editora de Belém, a Cejup, trabalhando na capital paraense até o fim daquele ano, quando retornou ao Estado de São Paulo, mais especificamente à cidade de São José dos Campos. Em 2007 criou a editora LetraSelvagem.

Sua carreira literária teve início em 1999 com o romance À Espera do Nunca Mais:  Uma Saga Amazônica, obra contemplada com o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos pela União Brasileira de Escritores, seção Rio de Janeiro (UBE-RJ), que recebeu nova edição em 2020 pela Kotter Editorial, de Curitiba, com posfácio do escritor Ronaldo Cagiano. Desde então, publicou diversos romances e se consolidou como um autor de referência na literatura amazônica.

Em 2003, saiu à luz o seu segundo romance, A Noite é dos Pássaros, publicado em formato de folhetim no jornal O Estado do Tapajós, de Santarém, e na revista digital portuguesa TriploV. Ainda em 2003, a obra saiu pela Editora Cejup, conquistando o Prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras e, em 2004, a menção honrosa do Prêmio José Lins do Rego, da UBE-RJ. 

Já o terceiro romance, A Mulher, o Homem e o Cão (Taubaté, LetraSelvagem, 2008), não só confirmou o seu talento como se tornou obra de referência para o estudo temático da vida das populações marginalizadas da Amazônia. Por sua obra, é hoje nome reconhecido fora da Amazônia, tendo se tornado verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional e Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001).

Em 2017, publicou pela LetraSelvagem, com prefácio deste articulista, Choro por Ti, Belterra!,  obra escrita em prosa poética e formada por 19 episódios, em que reconstituiu o dia em que fez viagem de retorno às origens, em companhia de seu pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia Santarém-Cuiabá, até entrar num caminho de terra que leva à Estrada Um e, enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra, onde funcionou nos anos 40 uma unidade de Ford Motor Company.

É de se lembrar que esta empresa do magnata norte-americano Henry Ford (1863-1947), à época da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tratou de plantar seringueiras à beira do rio Tapajós e produzir borracha para a fabricação dos pneus dos veículos dos exércitos aliados, depois que o seringal da Inglaterra na Malásia caíra em poder do Japão. Em , Seremos Felizes, esse cenário é revisitado com a presença do personagem Lázaro naquela região.

Em 2018, Sena publicou Ladrões nos Celeiros: Avante, Companheiros!. longo poema escrito no calor da luta política que irrompeu no Brasil a partir do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 31 de agosto de 2016, e da prisão do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018.  É membro da UBE-SP, da Academia de Letras e Artes de Santarém (ALAS) e da Academia Taubateana de Letras (ATL). Adelto Gonçalves - Brasil

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Lá, Seremos Felizes, de Nicodemos Sena. Curitiba: Kotter Editorial, 220 páginas, 2025,  R$ 54,61. E-mail: contato@kotter.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial – 1709-1822 (São Paulo, Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo - 1788-1797 (São Paulo, Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br




sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Brasil - Degradação da Amazônia ameaça o clima global e a biodiversidade

O relatório internacional “Dez novas percepções sobre o Clima”, com a contribuição do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), destaca que a Amazônia está perdendo sua capacidade de regular o ciclo da água e remover carbono da atmosfera, o que pode ter impactos catastróficos em escala global.



A degradação da floresta, impulsionada por fatores como fogo, extração de madeira, expansão agrícola, construções e eventos climáticos extremos, reduzem a resiliência do bioma.

Perda de capacidade de remoção de carbono:

A Amazônia, que em 2022 acumulava 47,2 bilhões de toneladas de carbono em sua vegetação, já perdeu mais de 10,6 bilhões de toneladas devido à degradação. A diminuição da capacidade da floresta de absorver CO2 contribui para o aumento do aquecimento global. Estudos apontam que áreas de floresta impactadas pelo fogo de forma reiterada têm uma redução de até 68% na capacidade de conter dióxido de carbono (CO₂) na biomassa da vegetação. Queimadas únicas já reduzem em cerca de 50% o estoque de carbono nas áreas afetadas.

Impacto no ciclo da água:

A Amazônia regula 16% da água do planeta. A degradação da floresta afeta sua capacidade de influenciar os padrões de chuva na América do Sul por meio da evapotranspiração, prejudicando o clima regional. A fumaça das queimadas, por sua vez, pode reduzir a umidade liberada pela floresta, impactando os “rios voadores” que levam umidade para outras regiões.

Risco de colapso e savanização:

A continuidade da destruição da Amazônia pode levar a um ponto sem retorno, transformando-a em uma savana empobrecida. A perda de resiliência da floresta a torna mais vulnerável à seca, que se intensifica com o aquecimento global. Pesquisadores observam que, em vez de se transformar em uma savana, a floresta amazônica está se tornando uma floresta secundária, mais pobre e com menos estoque de carbono. As espécies florestais, mais sensíveis, são as mais afetadas pelo fogo, com risco de extinção local.

Ameaças à biodiversidade:

A Floresta Amazônica abriga uma diversidade única de espécies, e a perda de resiliência coloca em risco essa rica biodiversidade. O empobrecimento da floresta causado pelo fogo compromete serviços ecossistêmicos cruciais, como a regulação da chuva, o sequestro de carbono e a polinização.

Fatores de degradação e urgência de ação

Os principais fatores que contribuem para a perda de resiliência da Amazônia incluem a extração de madeira, queimadas, a proximidade a atividades humanas e secas. A combinação de extração de madeira e queimadas causa estresse na floresta, diminuindo sua capacidade de recuperação. As áreas mais próximas a estradas e assentamentos humanos são mais vulneráveis.

A realidade no Brasil é de um enfraquecimento das leis ambientais e da fiscalização, favorecendo a exploração ilegal de terras e o agronegócio predatório. O desmatamento, combinado com o fogo, torna-se um processo irreversível.

Medidas necessárias

O relatório e outras pesquisas apontam para a urgência de ações para proteger a Amazônia. É fundamental:

  • Fortalecer leis ambientais para combater a degradação em todos os países da Amazônia.
  • Continuar financiando programas de monitoramento e rastreamento de commodities.
  • Apoiar povos indígenas e comunidades locais no desenvolvimento de uma economia sustentável.
  • Priorizar a proteção da Amazônia com medidas robustas de preservação.
  • Promover uma economia que valorize os serviços ecossistêmicos da floresta, incentivando cadeias produtivas sustentáveis.
  • Limitar o desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa.

Apesar da gravidade da situação, ainda há tempo para reverter a tendência de degradação da Amazônia. A colaboração internacional é essencial, pois o colapso da Amazônia afetaria não apenas o Brasil, mas o mundo todo.

A pergunta não é apenas quão perto estamos do colapso, mas o que estamos dispostos a fazer para evitá-lo. InEcoDebate” - Brasil


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Brasil - Inundações: evento inesperado ou crime ambiental?

As chuvas e inundações no Rio Grande do Sul permitem, com suas repercussões nas redes sociais, uma avaliação do nível de conscientização das mudanças climáticas em setores diversos da população face ao negacionismo de muitos influenciadores da opinião pública, alguns com função executiva.

Bem ilustrativo foi o debate proposto pelo canal Youtube Opera Mundi, sob o título Desastre ambiental ou catástrofe, reunindo especialistas, cujo ponto forte é o momento em que Valério Arcary, professor no Instituto Federal de Educação, Ciência e  Tecnologia de São Paulo, se refere às declarações do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, de que as atuais inundações no Rio Grande do Sul são consequência de um "evento inesperado".

Essas declarações, diz o professor, são de um grau de "irresponsabilidade imperdoável", citando o Primeiro relatório de avaliação nacional do painel brasileiro de mudanças climáticas de 2013, ou seja previsões feitas há onze anos, alertando para a incidência de um excesso de chuvas no sul do Brasil, em consequência das mudanças climáticas. Não se trata, portanto, de um evento inesperado ou imprevisível.

A irresponsabilidade do governador é também decorrente, segundo o professor, do fato de ignorar uma situação mundial e alertas constantes de estudos divulgados há mais de três décadas e constantes de uma conferência da ONU no Rio de Janeiro. Não se trata, portanto, de algo lamentável e imprevisível. O aquecimento global é uma tragédia provocada pela forma que assumiu o capitalismo contemporâneo.

O Brasil já vive, portanto, uma situação de transição climática responsável por secas na região amazônica e por chuvas torrenciais na região sul do Brasil, com consequências devastadoras que atingem a vida de milhões de pessoas. Impossível agora continuar com o discurso negacionista do governo anterior e atribuir ao acaso, uma situação para a qual países europeus já estão se prevenindo.

Não é mais o momento de tranquilizar a população, enfatiza o professor, mas de se alertar para o risco da vida civilizada ser ameaçada se continuar o mesmo sistema. A acusação é importante, muita gente talvez comece a pensar ter sido possível prevenir a atual catástrofe, porém é capaz de ser inócua a admoestação para se evitar que tudo se repita dentro de alguns meses ou a cada ano.

A prevenção não é o forte das administrações brasileiras, muito menos no que se refere às mudanças climáticas ignoradas ou negadas pela maioria dos dirigentes executivos desde o presidente Temer ao fim dos quatro anos bolsonaristas, interessados num aumento constante da produção e lucros, agredindo a natureza, sempre que fosse preciso. O exemplo maior tem sido o desflorestamento na Amazônia para a plantação de soja e criação de gado para exportações.

Ainda agora com a catástrofe sulina, capaz de tornar inviável a habitação, durante algumas semanas ou meses, em muitos municípios, é prematuro se imaginar os grupos agropecuaristas, petrolíferos, imobiliários, petroleiros, automobilísticos aceitarem diminuir sua expansão.

Ao contrário, as informações do prof. Valério Arcary são de que o governador Eduardo Leite reduziu para 10% o total das dotações antes destinadas à proteção do meio ambiente gaúcho, restringindo a apenas 16 funcionários o setor encarregado de garantir e supervisionar o equilíbrio ambiental e de planificar obras necessárias para se contrapor ao excesso de chuvas com temporais decorrentes da mudança climática.

A responsabilização do governador Eduardo Leite pela catástrofe no Rio Grande do Sul é corroborada pelo diretor da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, Francisco Milanez - o governador destruiu o Código Ambiental, informou a Rede Brasil Atual. Já no primeiro ano como governador, segundo um levantamento feito pela Folha de São Paulo, Leite alterou cerca de 480 normas do Código Ambiental estadual em consonância com a política de afrouxamento da política ambiental brasileira incentivada pelo ex-ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, Ricardo Salles, hoje deputado federal.

Leite autorizou também a construção de barragens e açudes em áreas antes protegidas para proporcionar alternativas de armazenamento de água destinada à agricultura e pecuária em períodos de estiagem, medidas que afetam o fluxo natural da água, segundo Francisco Milanez. Como se não bastasse, de acordo com Márcio Astrini, do Observatório do Clima, 22 deputados federais gaúchos votaram, em 2021 na Câmara Federal, por uma lei, no governo Bolsonaro, que flexibiliza normas e dispensa da obtenção de licenciamento ambiental para diversas atividades, aplicada, sem dúvida, no Rio Grande do Sul, em favor de certos grupos.

Houve um desmatamento intensivo da vegetação nativa do pampa gaúcho. De acordo com Mapbiomas, entre 1985 e 2022, as plantações de soja avançaram de 2,1 milhões de hectares e as de pinus e eucalipto tiveram um aumento de 720 mil hectares. Segundo Tales Tiecher, da UFRGS, o bioma gaúcho é o mais degradado do Brasil, mais que o da Amazônia e o do Cerrado. Isso está provocando uma arenização do pampa.

Ainda de acordo com Márcio Astrini, o governador Leite ignorou alertas de desastres." Além das inundações do ano passado, o Rio Grande Sul sofreu com secas severas entre 2021 e 2022. Se o governador não acreditar agora nessa questão de mudança climática, não sei quando acreditará". Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Brasil - Passou no vestibular da ONU?

Com as más notas tiradas nos últimos quatro anos, o Brasil seria certamente reprovado nesse vestibular da ONU com as piores notas! Porém, os exames ou sabatinas pelas quais passaram os representantes do Brasil na ONU, em Genebra, não são eliminatórios. O objetivo da ONU, sabendo onde o aluno Brasil é fraco, indisciplinado e repetente, é o de questionar quais medidas estão sendo adotadas para melhorar suas notas.

O momento é propício, pois a vitória da oposição contra o governo de extrema-direita, reincidente a cada ano nos erros condenados pela comunidade internacional, abre perspectivas de mudanças. Em todo caso, uma boa avaliação do cumprimento pelo Brasil do Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais pelo governo Lula só será possível nesta mesma época, no último ano do seu mandato.

Os resultados das atuais avaliações feitas, em Genebra, nos dias 27 e 28 de setembro por 18 peritos internacionais da ONU, durante as quais não faltaram duras críticas às precárias situações ainda existentes em setores diversos do Brasil, só serão conhecidos mais tarde.

Entretanto, e isso deve ter impressionado os examinadores, a delegação brasileira chefiada pela secretária-executiva do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, Rita Oliveira, acompanhada de associações e ativistas, chegou corrigindo e rabiscando os posicionamentos do governo Bolsonaro e mostrando os novos rumos fixados pelo presidente Lula. Porém, nem tudo quanto foi denunciado pela ONU o Brasil poderá solucionar até fins de 2026.

As exigências dos examinadores

O exame ao qual foram submetidos os representantes do novo governo brasileiro, após nove meses de mandato do presidente Lula, mereceu um atento resumo, publicado pelo Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU.

Foram bem recebidas as primeiras iniciativas planificadas pelo novo governo e a criação de novas instâncias dedicadas às mulheres e à população negra.

As críticas vieram logo a seguir sobre o desmatamento da Amazônia, a exploração mineira ilegal e a violação dos direitos à terra dos povos autoctones que ali vivem.

Durante o governo Bolsonaro houve assassinatos de índios e centenas de invasões de áreas indígenas e a desativação da FUNAI.

Os técnicos da ONU criticaram a insegurança jurídica em que vivem os indígenas, diante do avanço de grileiros, garimpeiros e dos agropecuaristas armados. Foi mesmo lembrado o assassinato de Maria Bernardete Pacífico, líder do Quilombo Pitanga dos Palmares, na Bahia, agora cobiçado por agentes imobiliários.

Foram mencionados também os assassinatos, ataques e ameaças aos defensores dos direitos humanos, ocorridos já no primeiro semestre do governo Lula.

A seguir, vieram as críticas ligadas ao vasto setor de exploração do trabalho informal, já constituindo 40% do mercado de emprego brasileiro. Enquanto choviam críticas sobre discriminação salarial, persistência da pobreza, das inegalidades econômicas e sobre os 10 milhões de jovens sem emprego. Alguém da equipe do Comitê aliviou a tensão existente durante os questionamentos e críticas, ao lembrar que o atual governo quer reverter as políticas regressivas adotadas por seus antecessores de 2016 a 2022.

Michael Windfuhr, relator do grupo de trabalho a cujo exame o Brasil foi submetido, enfatizou que a comunidade negra é também alvo de ataques nas terras ou quilombos que lhes pertencem. Por isso a necessidade de uma rápida entrega de títulos de propriedade às comunidades Quilombolas.

Foi lembrado o retorno do Brasil ao "Mapa da fome" do Programa Mundial de Alimentação, do qual tinha saído em 2014, havendo atualmente cerca de 64 milhões de pessoas vivendo a insegurança alimentar.

Outra técnica da ONU acentuou a existência, em certas regiões brasileiras, de uma precariedade nas infraestruturas escolares e indagou sobre o valor dos salários dos professores e sobre o total dos meios financeiros dedicados ao ensino.

Foram também mostradas preocupações com a população LGBT+, alvo de discriminação e violências, assim como o grande número de descendentes negros vivendo na miséria, inclusive mulheres sem acesso à saúde.

Outro tema levantado nessa sabatina foi a do uso de produtos químicos contra pragas e de fertilizantes na agricultura, lançados do alto por drones. Segundo denúncia apresentada, muitos cereais exportados para a Europa só são utilizados na alimentação de suínos, embora esses mesmos cereais sejam comercializados, sem qualquer controle, para o consumo pela população sem controle no Brasil. Rui Martins – Suíça

  •   Rui Martins  também está em versão sonora no Youtube, em seu canal:

https://www.youtube.com/@rpertins

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

domingo, 21 de março de 2021

Brasil - Lançada cartilha para conscientizar alunos da Amazônia sobre queimada


O governo federal lançou hoje (21) uma cartilha para conscientizar a população da Amazônia sobre os riscos e prejuízos das queimadas para a saúde das pessoas e para a economia do país. O público alvo da publicação são os alunos do Ensino Fundamental 2. O lançamento ocorre no Dia Internacional das Florestas, comemorado neste domingo.

O assunto foi um dos temas da entrevista que o vice-presidente Hamilton Mourão concedeu ao programa A Voz do Brasil, na última sexta-feira (19). Mourão disse que a escolha de alunos para direcionar o conteúdo foi feita porque esse público já iniciou os estudos sobre os biomas brasileiros e compreendem essa realidade: “Acreditamos que jovens conscientes vão atuar como multiplicadores do tema, passando essa mensagem a frente, para seus familiares e seus amigos”.

A cartilha Diga Sim à Vida e Não às Queimadas será distribuída aos jovens pelo Ministério da Educação e também por outros ministérios que integram o Conselho da Amazônia Legal, assim como pelos governos e secretarias do Meio Ambiente dos nove estados que fazem parte da Amazônia Legal. O conteúdo, em um formato diferente, também estará disponível nas mídias sociais.

“Nós sabemos que [rede social] é um dos principais instrumentos que os jovens usam para sua comunicação, e também [vamos usar] veículos de comunicação nacionais e regionais. Destaco que o conteúdo da cartilha busca apresentar os riscos que as queimadas oferecem e estimular o uso de métodos alternativos e mais seguros no preparo do campo e também visa a orientar as medidas de proteção à saúde, que pode ser abalada em função da fumaça” disse Mourão.

Durante a entrevista, Mourão também comentou sobre a Operação Verde Brasil 2, implementada para o combate ao desmatamento e às queimadas ilegais na Amazônia. “Viemos obtendo sucesso hoje em dia com redução de 23% do desmatamento ilegal”, disse.

A cartilha é um reforço à campanha de mesmo nome, lançada no ano passado, que contou com uma série de peças de conscientização sobre o tema. In “Agência Brasil” - Brasil




 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Brasil - Primeiro satélite totalmente feito no país tem lançamento agendado

Amazônia 1

O primeiro satélite artificial completamente projetado, integrado, testado e operado pelo Brasil será finalmente lançado ao espaço.

O satélite Amazônia 1, cuja principal missão será a observação e monitoramento da Terra, é fruto de um desenvolvimento conduzido pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em parceria com a AEB (Agência Espacial Brasileira).

O lançamento será no próximo dia 28 de fevereiro, às 10h24 da manhã, horário local da Índia - à 01h54 da manhã no Brasil.

As atividades de montagem, integração e testes do Amazônia 1 foram realizadas no Laboratório de Integração e Testes (LIT), situado no INPE em São José Campos (SP).

Depois de finalizado e testado, os módulos de serviço e de carga útil do satélite foram separados, acondicionados em seus contêineres e transportados para as instalações da base de lançamento em Sriharikota, na Índia.

Já nas instalações da Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO), o satélite foi remontado e integrado ao veículo lançador PSLV-C51.

Sem apoio

A proposta inicial era que o Amazônia 1 fosse lançado em 2010, mas a falta de priorização do setor espacial pelos diversos governos gerou adiamentos sucessivos.

Embora já vá ao espaço defasado tecnologicamente, o lançamento Amazônia 1 deve ser comemorado por ser fruto do esforço de uma pequena equipe que tenta fazer ciência espacial sem o suporte necessário. No mesmo período, países como a China e a Índia fizeram missões à Lua e à Marte.

O Amazônia 1 é um satélite de órbita polar que irá gerar imagens do planeta a cada 4 dias. Para isso, ele será dotado de uma câmera de campo amplo, capaz de observar uma faixa de 720 km com 40 metros de resolução.

Sua característica de revisita rápida aos mesmos locais permitirá a melhora nos dados de alerta de desmatamento na Amazônia em tempo real, maximizando a aquisição de imagens úteis diante da cobertura de nuvens na região. O Amazônia 1 também fornecerá imagens frequentes das áreas agrícolas brasileiras. In “Inovação Tecnológica” - Brasil

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Nicodemos Sena e a reconstrução do mundo amazônico

                                                                              I


A Espera do Nunca Mais – uma saga amazônica, de Nicodemos Sena, romance publicado pela primeira vez em 1999 pela Editora Cejup, de Belém, chega, em 2020, a sua quarta edição em volume de 1112 páginas lançado pela Kotter Editorial, de Curitiba.  Livro de estreia, o romance, que recupera lendas e mitos, permeadas por mistério e sortilégio, matas e rios, igarapés e igapós da região amazônica, rendeu ao seu autor, em 2000, o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 anos, da União Brasileira de Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro. E foi tema de tese de doutoramento defendida na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em 2018, por Iza Reis Gomes Ortiz, professora de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Rondônia (Ifro).

Resultado de muita pesquisa, esta obra, com muita imaginação e criatividade, reconstitui o mundo amazônico e se torna um documento-denúncia que ganha cada vez mais importância na medida em que aquela região é assaltada e destruída por grupos de predadores nacionais e estrangeiros que precisam colocar sua vegetação abaixo para dar espaço ao agronegócio, especialmente às plantações de soja, principal produto de exportação brasileiro, responsável por quase 30% do total das vendas ao exterior feitas em 2019. E que, não raro, acabam por cooptar autoridades para o seu trabalho de destruição da floresta e do meio-ambiente, a partir da exploração da mão de obra semiescrava, tudo em favor do grande capital.

Dividido em três longas partes, o romance começa por levar o leitor a conhecer o mundo mágico e primitivo da floresta entre a década de 1950 e a época conturbada do regime militar (1964-1985); depois, penetra nos meandros  do mundo político-econômico marcado pela ganância dos exploradores que não hesitam em destruir o pouco que resta das culturas primitivas, desde que haja cada vez mais espaço para plantações e pastagem; e, por fim, a especulação do que será a Amazônia em breves anos, com perda total de sua identidade e as consequências que a sua destruição deverá causar ao meio ambiente de todo o planeta.

                                                                II

O romance começa em tom triunfal com a presença do caboclo Gedeão, resultado da chegada do sertanejo Silvestre Bagata à região amazônica em outros tempos para se tornar o primeiro morador branco do rio Maró. A exemplo do seu inspirador bíblico, Gedeão teria sido escolhido pelas forças divinas para resgatar a Amazônia das mãos daqueles que tramam a sua destruição. Ele tem de lutar contra Estefano Alves Barbosa, seu “padrinho”, o vilão da obra, representante das forças do mal, que seria a reencarnação do explorador e militar português Bento Maciel Parente (1567-1642), que, em 1639, comandou as chamadas ‘tropas de resgate’, que tinham por objetivo “libertar da escravidão  e salvar da morte certa os infelizes índios aprisionados por outras tribos, subjugando-os, porém, a uma nova e mais atroz escravidão”. E que fez fama pela crueldade com que dizimava as tribos indígenas.

De notar é que neste romance há também personagens femininas de grande significado: Diana, uma espécie de reencarnação das qualidades e mistérios da população amazônica; e Dora, a fazendeira que mandou construir uma escola em sua propriedade para que ela mesmo desse aulas aos tapuias e aos caboclinhos da vila de Aritapera, semeando sonhos. 

Profético, este romance a cada dia se torna mais atual, já que muitas de suas disfarçadas previsões começam a se confirmar, a partir da chegada ao poder de velhos representantes dos chamados “porões da ditadura” e seus prosélitos, que insistem em esvaziar os cofres das instituições governamentais que se dedicam à educação e à pesquisa para fomentar, através da distribuição de migalhas entre as massas famélicas, a troco de votos de cabresto, a perpetuação de uma sociedade injusta e cada vez mais ágrafa que, assim, nunca haverá de se organizar para defender os seus direitos.

É o que se deduz das palavras que encerram este livro e que, portanto, merecem ser transcritas aqui para que o leitor tenha pelo menos uma pálida ideia do estilo mítico e iconoclasta do autor: “(...) Enquanto mastigava o delicioso beiju que Matilde fizera para ela, Dora pensou que Tainacã, a estrela grande, dera aos tapuios a semente da mandioca, do milho e de outros grandes plantas que eles não conheciam. Mas de quê adiantou? Os brancos vieram e roubaram o futuro dos índios. Ela faria a diferença; daria algo que ninguém ia poder tomar. Ensinaria  as crianças tapuias a lerem e escreverem, a se defenderem no mundo hostil que estava para vir, mas também contaria as histórias antigas que os velhos gostariam de esquecer, plantando, assim, na mente das crianças, a semente dos sonhos, para que elas, ao crescerem, não ficassem como seus pais: À ESPERA DO NUNCA MAIS”.

Enfim, como observa no posfácio que escreveu para esta obra o escritor Ronaldo Cagiano, sem demérito para Márcio Souza, Dalcídio Jurandir (1909-1979), Thiago de Mello e Ferreira de Castro (1898-1974), que produziram obras antológicas sobre a Amazônia, Nicodemos Sena conseguiu “formular um diálogo com a natureza desafiadora de uma região muito explorada (e agredida) pelo homem e pouco visitada pela literatura”. É obra que veio para ficar. 

                                                               III

Nascido em 1958 em Santarém do Pará, Nicodemos Sena passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de fronteira entre os Estados do Pará e Amazonas. Em 1977, seguiu para São Paulo, onde teve seu primeiro emprego numa indústria têxtil localizada no bairro do Ipiranga, vivendo num cortiço, onde conheceria “seres da noite” semelhantes ao que povoariam seus futuros romances. Estudando à noite, formou-se em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Direito pela Universidade de São Paulo (USP). Depois de passar pelas redações de vários órgãos da imprensa paulista, no início de 2000, recebeu convite para dirigir a redação do jornal A Província do Pará e a principal editora de Belém, a Cejup, trabalhando na capital paraense até o fim do ano, quando retornou ao Estado de São Paulo, mais especificamente à cidade de São José dos Campos.

Em 2003, saiu à luz o seu segundo romance, A Noite é dos Pássaros, igualmente recebido com entusiasmo pela crítica, publicado em forma de folhetim, em dezoito episódios semanais, de 3 de abril a 31 de julho, no jornal O Estado do Tapajós, de Santarém, e na revista eletrônica portuguesa TriploV, editada pela escritora Estela Guedes. Ainda em 2003, A Noite é dos Pássaros foi publicado em formato de livro (Editora Cejup), conquistando neste mesmo ano o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras e, em 2004, a menção honrosa do prêmio José Lins do Rego, da UBE, seção do Rio de Janeiro.  Já o terceiro romance de Sena, A Mulher, o Homem e o Cão (Taubaté, LetraSelvagem, 2009), não só confirmou o talento do escritor como se tornou também obra de referência para o estudo temático da vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos).



Nicodemos Sena é hoje nome reconhecido fora da Amazônia, tendo se tornado verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional e Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001). Em 2007, criou a editora a LetraSelvagem, que tem como objetivo incentivar o gosto pela leitura e promover a linguagem literária, além de desenvolver atividades que estimulem a tomada de consciência pelas populações, povos e etnias submetidos a qualquer tipo de dominação.

Em 2017, publicou pela editora LetraSelvagem, com prefácio deste articulista, Choro por Ti, Belterra!,  obra escrita em prosa poética e formada por 19 episódios, em que reconstituiu o dia em que fez viagem de retorno às origens, em companhia de seu pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia Santarém-Cuiabá, até entrar numa estradinha de terra que leva à Estrada Um e, enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra, que, na década de 1940, foi dirigida pela Ford Motor Company, empresa do magnata norte-americano Henry Ford (1863-1947), que, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tentaria fazer da extração da borracha uma atividade lucrativa, fornecendo os pneumáticos para movimentar os veículos militares. Adelto Gonçalves – Brasil

 

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A Espera do Nunca Mais: uma saga amazônica, de Nicodemos Sena, com posfácio de Ronaldo Cagiano. Curitiba-PR: Kotter Editorial, 1112 páginas, 2020. E-mail: contato@kotter.com.br

 

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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de são Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; LetraSelvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 

domingo, 19 de julho de 2020

Brasil - Há esperança para o maior golfinho de água doce do mundo



No Brasil, há pescadores que os caçam e matam ilegalmente, transformando-os em isco para um peixe-gato a que chamam piracatinga. Isto está a pôr a espécie numa situação de extrema vulnerabilidade. Em Janeiro deste ano, deixou de estar em vigor uma moratória contra a pesca de piracatinga. Ambientalistas e investigadores têm apelado à sua renovação. “São criaturas muito especiais, extremamente inteligentes e podem demonstrar um conjunto de comportamentos semelhante ao dos humanos”, disse Natanael dos Santos, da Reserva Mamirauá, dirigida pelo instituto de investigação Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia (INPA), citado pelo site científico Mongabay.

Depois de meses de impasse, a Secretaria de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura prorrogou, este mês, a medida por mais um ano. A decisão vale em todo o Brasil e vai permitir avaliar a recuperação das espécies usadas como isca da piracatinga. Além do boto-cor-de-rosa, eram vítimas também o boto tucuxi (Sotalia fluviatilis) e algumas espécies de jacarés.

É um novo fôlego – ainda que, mais uma vez, com prazo de validade. Os especialistas estavam a alertar que deixar de prorrogar a moratória poderia levar à extinção do maior golfinho de água doce do mundo. Assim, a moratória foi agora prorrogada até junho de 2021, mas os investigadores argumentam que seriam necessários mais cinco anos para avaliar se a medida dará resultado.

“Nem todos os objectivos da moratória foram cumpridos”, alerta Vera da Silva, investigadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia (Inpa), que estuda os botos-cor-de-rosa há mais de 30 anos. “Precisamos de melhores informações sobre as práticas de pesca. As leis não são fortes o suficiente para obrigar os pescadores a relatar o que capturam”, disse a cientista, citada pelo site Mongabay.

De todas as espécies de golfinhos de rio, o boto-cor-de-rosa da Amazónia é a maior: os machos podem chegar a medir 2,5 metros de comprimento e pesar até 200 quilos. As fêmeas, um pouco menores, chegam a medir 2,2 metros e a pesar 150 quilos. O corpo é flexível, visto que precisam de ser ágeis para se desviarem de obstáculos, como troncos caídos na água, e para capturar as suas presas. Além de peixes, eles podem comer também moluscos e crustáceos.

O que distingue estes golfinhos de outros é a lenta transformação de cinzento para cor-de-rosa, à medida que vão envelhecendo. O seu comportamento e exposição à luz solar também têm influência na mudança de tom do boto cor-de-rosa — ou “boto vermelho”, como é conhecido no Brasil. Apesar de todos os esforços por parte de investigadores e ambientalistas para impedirem o seu desaparecimento, este mamífero encontra-se “em perigo de extinção” na lista vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). In “Green Savers Sapo” - Portugal

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Brasil - Responsável por um terço da perda de florestas virgens no mundo em 2019, diz relatório

De janeiro a dezembro de 2019, o Brasil perdeu cerca de 1 361 000 hectares (13610 km²) de floresta tropical virgem — um terço do que foi perdido em todo o planeta, segundo um relatório do Global Forest Watch, organização que mantém uma plataforma online de monitoramento de florestas



As florestas primárias, ou virgens, são aquelas que se encontram em seu estado original — não afetadas, ou afetadas o mínimo possível, pela ação humana. Por serem mais antigas, elas têm mais diversidade de espécies, armazenam mais carbono e são consideradas essenciais no combate à mudança climática. Especialmente as tropicais.

Em 2019, segundo o novo relatório da Global Forest Watch, o mundo perdeu 3,8 milhões de hectares de florestas primárias tropicais — uma área quase do tamanho da Suíça, ou o equivalente a um campo de futebol a cada 6 segundos.

O Brasil, que tem 33% das florestas primárias tropicais do mundo, foi responsável por 36% do total perdido no ano passado. E 95% desta perda ocorreu na Amazônia de acordo com a organização, que utiliza dados do monitoramento por satélite feito pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, em parceria com o Google, a Nasa e o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Analistas do Global Forest Watch apontaram, como principais razões da perda, para o desmatamento por ação humana (criação de pastos, especulação de terra) e incêndios. Camila Costa – Reino Unido in “BBC News Brasil”

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Brasil – “O maior depósito de coronavírus do mundo” está na Amazónia

A intervenção humana em áreas protegidas pode gerar desequilíbrios ecológicos e contribuir para o salto de vários vírus dos animais para os seres humanos



A próxima pandemia poderá vir a ter origem na Amazónia, onde a penetração humana no habitat de outros animais gera desequilíbrios ecológicos e contribui para o aparecimento de doenças zoonóticas. É o alerta dado pelo ecologista brasileiro David Lapola numa entrevista à AFP sublinhando que "a Amazónia é um grande depósito de vírus" e, ao eliminá-la, "estamos a pôr a nossa sorte à prova".

Formado em ecologia, Lapola recorda que nas décadas anteriores o mundo já sofria de VIH, ébola e dengue. "É uma relação histórica, todos eles eram vírus que se propagavam muito largamente com base em desequilíbrios ecológicos".

Lapola afirma que, segundo estudos, esta transmissão ocorre mais frequentemente no sul da Ásia e em África, onde se encontram certas famílias de morcegos, mas que a diversidade amazónica pode caraterizar a região como "o maior depósito de coronavírus do mundo".

Contudo, adverte que “a culpa não é dos morcegos e não é para sair e matá-los", sublinhou o investigador brasileiro do Centro de Pesquisa Meteorológica e Climática Aplicada à Agricultura da Unicamp.

Lapola assinala que a situação actual, com o avanço do coronavírus, que no Brasil já matou 12 400 pessoas, torna ainda mais difícil a monitorização da já ameaçada floresta tropical. Nos primeiros quatro meses de 2020, foram abatidos 1202 km quadrados de floresta, segundo dados de satélite do Instituto Nacional de Investigação Espacial (INPE). É um aumento de 55% em comparação com o mesmo período em 2019, quando o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro enfrentou duras críticas dentro e fora do Brasil por minimizar o avanço dos incêndios que consumiam quantidades recorde de floresta.

Bolsonaro, um ex-capitão que defende a abertura da Amazónia à exploração mineira e agrícola, enviou esta semana um contingente militar para combater a desflorestação.

Os números vão mostrar se esta foi uma estratégia bem sucedida. "A questão mais grave é a utilização do exército para qualquer problema no Brasil. Isto mostra uma certa crise institucional e o desmantelamento do Instituto Brasileiro do Ambiente (Ibama)", considera.

"Ficou provado que o avanço da desflorestação depende de quem nos governa. A boa notícia é que os governos são temporários. Espero que na próxima administração tratemos com mais cuidado este enorme tesouro biológico, talvez o maior do planeta".

O investigador defende que é necessário "restabelecer a relação entre a sociedade e as florestas". Lapola salienta que, embora a propagação de novas doenças a partir do coração da floresta "seja demasiado complexa para prever, é melhor usar o princípio da precaução e não testar a nossa sorte". In “Contacto” - Luxemburgo