Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Portugal - Os grandes desafios do Antropoceno em debate

Debater os grandes e complexos desafios da era do Antropoceno, a era em que vivemos, é o objetivo de um projeto curatorial lançado por Gonçalo Santos e Ana Luísa Santos, investigadores do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em parceria com a Fundação de Serralves e com a rede de pesquisa Sci-Tech Asia, o Centre for Functional Ecology—Science for People and the Planet e o Departamento de Ciências da Vida da FCTUC.


A primeira iniciativa no âmbito deste projeto materializa-se num ciclo de seis conferências e debates, designado “Pluralizando o Antropoceno: Reimaginando o Futuro do Planeta no Século XXI”. Entre 15 de fevereiro e 10 de maio, reputados especialistas vão partilhar reflexões importantes sobre «esta nossa condição plural de viver num mundo cheio de incertezas. Este ciclo contará com a presença de influentes pensadores das humanidades e ciências contemporâneas comprometidos com uma visão mais plural do Antropoceno e das grandes questões de resiliência, adaptação, e luta pela justiça ambiental», afirma Gonçalo Santos.

O ciclo arranca, no dia 15 de fevereiro, entre as 18h00m e as 19h30m, com a palestra de Tim Ingold, um dos mais conceituados antropólogos contemporâneos, que vai abordar o que ele chama “sustentabilidade de tudo.” Para a sustentabilidade da nossa economia se tornar uma realidade, nós teremos de pensar numa sustentabilidade que não seja sustentável apenas para algumas espécies ou algumas populações humanas. Nós teremos de começar a pensar na sustentabilidade do planeta.

Contextualizando o projeto curatorial agora lançado sobre o Antropoceno, Gonçalo Santos observa que «o mundo em que vivemos é muito diferente daquele em que os nossos avós e bisavós cresceram: mais quente, mais seco, mais poluído, mais incerto. O sistema de produção linear da sociedade de consumo trouxe muitos benefícios para um número significativo de pessoas e populações em todo o mundo mas também levou a uma devastação ambiental sem precedentes e gerou uma conjuntura de alterações climáticas com efeitos preocupantes».

«Olhando apenas para factos básicos em Portugal, como a redução da precipitação geral e o aumento acelerado da temperatura desde a segunda guerra mundial, as previsões mais conservadoras não são nada otimistas, apontando para um aumento significativo no número de incêndios e de secas nas próximas décadas. A presente década — a terceira do século XXI — será decisiva para começarmos a planear um pouco melhor o nosso futuro (e o futuro do nosso planeta) antes que seja tarde demais e tenhamos caído num ambiente de caos e confusão ainda mais perturbador do que aquele que estamos a viver no âmbito da atual pandemia de COVID-19», destaca o investigador da FCTUC.

O responsável pelo projeto curatorial sublinha ainda que «mesmo as pessoas que estão a negar este problema não podem ignorar os debates em curso sobre a destruição do ambiente, as alterações climáticas e o futuro da vida humana no planeta. Estes são os grandes desafios da era em que vivemos: a era do Antropoceno, ou a idade dos humanos. O Antropoceno não é apenas uma idade de crescentes incertezas ambientais resultantes do impacto destrutivo cumulativo das atividades humanas; é também uma idade de importantes desafios e escolhas civilizacionais no sentido de ultrapassar esta situação de crise e desastre iminentes e criar novas visões de esperança e de justiça».

O especialista em antropologia social-cultural lembra que «existem muitos lugares diferentes e muitas populações diferentes dentro do planeta. Os desafios que os portugueses ou os chineses estão a experienciar na idade do Antropoceno são diferentes dos desafios enfrentados pelos povos da Amazónia. O uso do termo Antropoceno para denominar esta nova era de incertezas antropogénicas crescentes abriu todo um novo campo de conversas multidisciplinares sobre as relações dos seres humanos com o ambiente no século XXI, mas também gerou um entendimento monolítico do Antropoceno como uma experiência humana unificada». Universidade de Coimbra - Portugal



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Portugal - Estudo fornece novos dados para a interpretação de contextos socioculturais da época pós-medieval

Um estudo desenvolvido por investigadores da Universidade de Coimbra, do Instituto Universitário Egas Moniz e da Universidade Nova de Lisboa fornece novas pistas para a compreensão das dinâmicas sociais e culturais da época pós-medieval em Portugal.

A equipa, coordenada pelos antropólogos Francisco Curate, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e Nathalie Antunes-Ferreira, do Instituto Universitário Egas Moniz, estudou as consequências funcionais e sociais de várias lesões esqueléticas sofridas por um indivíduo do sexo masculino encontrado durante uma escavação arqueológica realizada em 2018 no adro da antiga Capela do Espírito Santo de Bucelas, perto de Lisboa.

Na altura, foi descoberta uma necrópole com esqueletos dos séculos XVII – XVIII, tendo sido exumados 98 adultos - 59 homens, 33 mulheres e 6 de sexo desconhecido – e 59 não adultos. No entanto, um esqueleto chamou a atenção da equipa responsável pela escavação, por apresentar evidências de lesões múltiplas com sequelas importantes, destacando-se de forma clara dos outros indivíduos encontrados.

Por isso, este estudo focou-se apenas nos restos esqueléticos deste indivíduo, que foram analisados através de uma abordagem de reincidência de lesão, abordagem que avalia a experiência vivida por indivíduos que sofrem múltiplos incidentes traumáticos, transmitindo uma contextualização diferenciada do sofrimento individual dentro de um reticulado de processos sociais e culturais.

As análises realizadas permitiram concluir que este homem de meia-idade «sofreu traumatismos e lesões em diferentes momentos da sua vida, sendo por isso um caso de lesões recidivas que sugere diferentes interpretações», indica Francisco Curate.

Por exemplo, detalha o investigador da FCTUC, «a possibilidade de este homem ter sido alvo de cuidados médicos e pessoais por parte da comunidade: a severidade das lesões, incluindo infeção pós-traumática, prejudicou seriamente a sua qualidade de vida, limitando a sua capacidade motora e tornando-o inapto para realizar uma série de tarefas, incluindo a alimentação, a higiene e o trabalho».

Segundo o antropólogo, os resultados deste estudo, que foi publicado no International Journal of Osteoarchaeology, sugerem «a existência de uma associação entre a atividade ocupacional, provavelmente ligada à agricultura, e estas lesões graves e reiteradas. Além disso, e no contexto da época em questão, apontam para um reticulado de fatores sociais e culturais próprios de uma sociedade onde a violência estrutural era prevalente, nomeadamente através dos acidentes de trabalho, do alcoolismo e da pauperização dos trabalhadores agrícolas».

Numa perspetiva mais positiva, os dados obtidos «sugerem que a comunidade em que este homem vivia cuidou dele possibilitando a sua sobrevivência. No fundo, um único caso demonstra que o passado não é unidimensional, e que a história tanto se centraliza na experiência do indivíduo (e na sua agência) como na sociedade onde este viveu e morreu (e na sua coerção estrutural)», acrescenta.

Francisco Curate nota ainda que a quantidade de fraturas, a sua severidade, e a sua distribuição pelo esqueleto estudado «são ímpares, muito raras no registo arqueológico. E, fazendo um paralelismo com casos clínicos atuais, sugerem uma ligação a um mundo rural, de trabalhos agrícolas, e também a adição de substâncias, nomeadamente o alcoolismo».

«Claro que são hipóteses de trabalho, não é possível reconstituir fielmente a história de vida deste indivíduo, mas são propostas lógicas e fundamentadas», esclarece. Os restantes indivíduos encontrados na necrópole estão a ser estudados e em breve os resultados serão também publicados.

Este estudo dá contribuições importantes para a interpretação de «contextos bioculturais no passado, abordando questões como violência interpessoal, idade e género, desigualdade social e violência estrutural, estratégias de subsistência, procedimentos cirúrgicos ou assistência médica e a prestação de cuidados, entre outros», conclui o investigador. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

México - Reivindicadas peças pré-colombianas que vão a leilão em França

O México mantém a sua luta para recuperar o património pré-colombiano exibido em acervos europeus, mas até agora obteve poucos resultados. Após tentar reaver o cocar de Montezuma, na posse de um museu austríaco, o país agora reivindica 33 objectos que a firma Christie’s leiloará no próximo dia 9 em Paris


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O Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) solicitou ao Ministério Público mexicano que tome medidas legais contra a venda das peças e à Secretaria de Relações Exteriores (SRE) que empreenda acções diplomáticas para recuperar os objectos. “Determinou-se que o catálogo do leilão inclui peças que correspondem a culturas originárias do México, razão pela qual fazem parte do património da nação”, disse o Instituto em comunicado.

As peças correspondem a uma série de colecções exibidas no último século em países da Europa. Há esculturas, vasilhas, máscaras, pratos e estatuetas das culturas asteca, maia, tolteca, totonaca, teotihuacana e mixteca, provenientes de diversos Estados mexicanos. A maioria foi esculpida em pedra ou feita de barro.

A Christie’s denominou o leilão de Quetzalcóatl, Serpente Emplumada, oferecendo suas peças por valores iniciais que variam de 4000 a 900 mil euros. A Christie’s garantiu a autenticidade dos lotes divulgando os arquivos aos quais pertenciam as peças do catálogo.

No leilão, destacam-se dois objectos com o maior lance inicial. Por um lado, está uma máscara de pedra teotihuacana de 15 centímetros, do período clássico (450-650 d.C.), que foi chamada de Quetzalcóatl e cujo lance inicial deve se situar entre 350 mil e 550 mil euros.

A Christie’s informa que a máscara pertenceu a Pierre Matisse, filho mais novo do pintor francês Henri Matisse, e foi exibida em duas ocasiões: em 2012, no Museu Quai Branly-Jacques Chirac, em Paris, e em 2018, no Palazzo Loredan, em Veneza.

Não se sabe como a peça chegou à Europa. “Chamam-na Quetzalcóalt provavelmente porque acreditam que assim se venderá melhor. Esta venda é pouco ética, ilegal e muito sórdida”, escreveu no Twitter o arqueólogo Michael E. Smith, da Universidade Estadual do Arizona (EUA).

Também há uma escultura de pedra de Cihuatéotl, a deusa das mulheres que morrem no parto, achada no sítio arqueológico de Zapotal, em Veracruz (sul do México). A estatueta de 87 centímetros pertenceu à cultura totonaca no período clássico (600-1000 d.C.). A casa de leilões pede como preço inicial da disputa entre 600 mil e 900 mil euros.

A peça foi encontrada com outros 13 exemplares num altar votivo. A Christie’s diz que foi exibida ao público em duas ocasiões, em 1976 e 1982, em Bruxelas.

Há alguns anos, o México iniciou uma cruzada para recuperar o património histórico que se encontra em acervos privados no mundo. A França constantemente tem-se negado a devolver as peças ao Governo mexicano, e a secretária de Cultura do país latino-americano, Alejandra Frausto, argumentou que a legislação francesa é “muito hostil” e impede a recuperação do património mexicano.

Em Setembro de 2019, a diplomacia mexicana procurou deter a venda de 95 objectos pré-hispânicos leiloados pela casa francesa Millon. A Secretaria, através da Embaixada em Paris, reivindicou as peças, sem sucesso. Um mês mais tarde, a casa Sotheby’s ofereceu 44 peças pré-hispânicas que também foram reclamadas pelo Governo mexicano.

A legislação mexicana estabelece que os achados de objectos das culturas antigas em território mexicano pertencem à nação, mas, uma vez que saem do país de forma ilegal, as autoridades perdem o seu rasto.

Contudo, nem todos os casos terminaram sem solução – uma excepção foi o baixo-relevo de Xoc, achado em Paris em 2015, num leilão da firma Binoche et Giquello, e que foi devolvido ao México dois anos mais tarde. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências Internacionais”


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Internacional – Estudo sobre a má nutrição em idade escolar

Má nutrição em idade escolar pode ter provocado uma diferença de altura de 20 centímetros entre nações, conclui estudo com participação da Universidade de Coimbra


Uma equipa da Universidade de Coimbra (UC), liderada por Cristina Padez, participou num estudo que avaliou a altura e o peso de crianças e adolescentes em idade escolar em todo o mundo, bem como o Índice de Massa Corporal (IMC), publicado este mês na revista The Lancet.

Liderado pelo Imperial College London, o estudo, que utilizou dados de 65 milhões de crianças dos 5 aos 19 anos de 193 países, conclui que a má nutrição em idade escolar pode ser responsável por uma diferença média de altura de 20 centímetros entre nações. A altura e o peso das crianças em idade escolar são indicadores da sua saúde e qualidade da sua dieta e preditores da saúde e desenvolvimento ao longo da vida.

«Ter uma estatura baixa para a idade e pouco peso para a estatura aumenta o risco de morbilidade e mortalidade, está associado a um baixo desenvolvimento cognitivo, menor probabilidade de uma boa performance escolar e consequentemente uma baixa produtividade profissional na vida adulta. Um IMC elevado, muito peso em relação à estatura, está associado a um risco elevado de incapacidade física, morte prematura, atrasos cognitivos e deficiências no grau de instrução», explica Cristina Padez, do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), da Faculdade de Ciências e Tecnologia a Universidade de Coimbra (FCTUC).

A análise, que relata dados de 1985 a 2019, revela que as nações com os jovens de 19 anos mais altos em 2019 situavam-se no noroeste e centro da Europa e incluíam a Holanda, Montenegro, Dinamarca e Islândia.

Os países com os jovens mais baixos em 2019 estavam principalmente no sul e sudeste da Ásia, América Latina e África oriental, incluindo Timor-Leste, Papua Nova Guiné, Guatemala e Bangladesh.

Os maiores crescimentos na altura média das crianças durante o período analisado foram observados na China e Coreia do Sul. Por exemplo, rapazes de 19 anos na China em 2019 eram 8 cm mais altos do que em 1985, com a sua classificação global a mudar da posição 150º em 1985 para 65º em 2019.

Em Portugal, no que respeita à altura, aos 5 anos de idade as meninas passam do lugar 38º para o lugar 70º e os meninos do 49º para o 77º. Ou seja, «afastam-se dos países “mais” altos. Aos 19 anos de idade as raparigas passam do lugar 88º para o 90º e os rapazes do 128º para o 87º. Isto significa que, no período de 1985 a 2019, quem mostra uma evolução positiva são apenas os rapazes de 19 anos de idade, que se aproximam dos países com estatura mais elevada», refere Cristina Padez.

«Bastante problemático é o facto de, no período 1985-2019, aos 5 anos as crianças portuguesas se terem afastado dos países com “maior” estatura», afirma a especialista, referindo que isso significa que, «possivelmente tiveram lugar carências nutricionais, especialmente de vitaminas e minerais, que não permitiram um crescimento adequado. Isto indica uma deterioração das condições de vida das crianças com repercussões graves para o seu desenvolvimento futuro enquanto cidadãos inseridos no mercado de trabalho».

Quanto à relação peso-estatura (IMC), aos 5 anos de idade as meninas passam do lugar 40º para o 89º e os meninos do 51º para o 117º, isto é, distanciam-se dos países com “mais peso”, o que é muito positivo.  Aos 19 anos de idade, raparigas e rapazes passam, respetivamente, de 117º para 157º e 58º para 100º.

De uma forma global, os resultados referentes a Portugal permitem concluir que «apesar dos bons resultados relativamente aos valores de obesidade, no caso da estatura das crianças aos 5 anos, estas parecem não estarem a crescer adequadamente, já que se afastam cada vez mais dos grupos de maior estatura. Isto é muito preocupante pelas consequências na saúde das crianças, no curto e a longo prazo.   Possivelmente, as condições de vida na infância têm-se deteriorado com uma alimentação deficiente, o que estará a comprometer um adequado desenvolvimento físico destas crianças, com consequências para a sua saúde e grandes repercussões na vida adulta». Universidade de Coimbra - Portugal



 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Internacional – Estudo revela novos dados sobre a história genética das ilhas do Mediterrâneo

Daniel Fernandes, do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e do Departamento de Antropologia Evolutiva da Universidade de Viena (Áustria), é o principal autor de um estudo internacional, publicado na revista Nature Ecology & Evolution, intitulado “The spread of steppe and Iranian-related ancestry in the islands of the western Mediterranean”, que apresenta novas descobertas sobre a história genética das ilhas do Mediterrâneo, mostrando que as migrações marítimas do norte de África começaram muito antes da era das civilizações marítimas do Mediterrâneo oriental e, além disso, ocorriam em várias partes do Mediterrâneo.

O mar Mediterrâneo tem sido uma rota importante para migrações marítimas, além de palco de frequentes trocas comerciais e invasões durante a pré-história, porém a história genética das ilhas do Mediterrâneo não está bem documentada, apesar dos recentes desenvolvimentos no estudo de ADN antigo.

O estudo agora publicado, que envolveu mais de meia centena de cientistas das universidades de Viena (Áustria), Harvard (EUA) e Florença (Itália), preenche as lacunas existentes com o maior estudo até hoje da história genética de populações antigas da Sicília, Sardenha e ilhas Baleares, aumentando a análise do número de indivíduos de 5 para 66.

Os resultados revelam um padrão complexo de imigração da África, Ásia e Europa, variando em trajeto e época para cada uma dessas ilhas. «Por exemplo, vimos que a expansão comercial da civilização micénica em direção ao oeste durante o Bronze Medio incluiu também eventos de imigração para a Sicília. Também identificámos movimentos de indivíduos provavelmente originários da Península Ibérica para a Sicília, levando consigo uma nova ancestralidade, com origem na estepe pôntico-cáspia (acima do Mar Morto), que poucos séculos antes por sua vez tinha sido introduzida na Península Ibérica por populações do centro da Europa. Estes movimentos originários na Península podem também ter influenciado a colonização das ilhas Baleares, visto que o indivíduo mais antigo identificado na ilha de Maiorca possuía grandes quantidades desta ancestralidade» relata Daniel Fernandes.

No caso da Sardenha, surpreendentemente, a história é diferente, diz o autor principal do artigo científico: «apesar dos intensos contactos comerciais com outros povos durante o Calcolítico (ou idade do Cobre) e a idade do Bronze, não detetámos nenhuma influência genética externa significativa, ou seja, os antigos sardenhos conservavam um perfil de ascendência neolítica predominantemente local até o final da idade do Bronze».

A exceção foi «um indivíduo do Calcolítico com ancestralidades ligadas ao norte de África, demonstrando claramente que existiram migrações marítimas pré-históricas através do mar Mediterrâneo do norte de África para locais no sul da Europa, afetando mais de 1% dos indivíduos descritos na literatura ancestral de ADN dessa região até hoje», observa.

Outra conclusão relevante do estudo é o facto de, apesar da presença de diferentes grupos a partir da idade do Ferro, «os habitantes modernos da Sardenha mantiveram entre 56% a 62% de ascendência dos primeiros agricultores neolíticos que chegaram à Europa há cerca de 8000 anos. É a percentagem mais elevada de ancestralidade neolítica identificada em qualquer população europeia», destaca Daniel Fernandes.

Para David Reich, coautor sénior da Universidade de Harvard e também investigador no Broad Institute do MIT, «uma das descobertas mais impressionantes foi sobre a chegada de ascendentes das estepes do norte dos mares Negro e Cáspio a algumas ilhas do Mediterrâneo. Embora a origem definitiva dessa ascendência tenha sido a Europa oriental, nas ilhas do Mediterrâneo a mesma chegou pelo menos em parte do oeste, principalmente da Península Ibérica».

«Provavelmente foi esse o caso das ilhas Baleares, nas quais alguns habitantes iniciais tinham provavelmente pelo menos parte da sua ascendência na Ibéria», acrescenta Daniel Fernandes.

Ainda segundo o investigador português, as conclusões deste estudo ajudam «a entender e enquadrar os movimentos de indivíduos no Mediterrâneo ocidental durante períodos de alta intensidade comercial, como foram as idades do Bronze e Ferro. Tais movimentos não envolveram apenas comércio bidirecional, mas também casos de imigração para algumas das ilhas com variadas origens».

Além disso, conclui, «o nosso artigo publicado abre caminho para futuros estudos se debruçarem em ainda maior detalhe nos movimentos dos períodos como as expansões gregas, fenícias, e mesmo romanas». Universidade de Coimbra - Portugal

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Croácia - Cientistas descobrem esqueletos de adolescentes do período das invasões bárbaras na Europa de Leste

Uma equipa de cientistas da qual faz parte o português Daniel Fernandes, do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e do Departamento de Antropologia Evolutiva da Universidade de Viena (Áustria), descobriu três esqueletos que datam do período das migrações bárbaras, também conhecido como o período das grandes migrações (século V d.C).



As ossadas, que foram descobertas numa vala em Osijek, cidade do leste da Croácia, correspondem a três adolescentes do sexo masculino com idades compreendidas entre os 12 e 16 anos. Eles estão associados à presença de vários povos nómadas, como os hunos e / ou tribos germânicas (designadamente gépidas e ostrogodos), nesta zona da Europa.

O estudo dos restos esqueléticos encontrados, cujos resultados foram publicados esta quarta-feira (21 de agosto) na revista científica PLOS One, permitiu identificar «diferentes tipos de deformações cranianas artificiais (ACD, na sigla inglesa) em dois indivíduos e diferentes afinidades genómicas, apesar das semelhanças na idade à morte, sexo, saúde e dieta dos três adolescentes», revela Daniel Fernandes, primeiro autor do artigo intitulado “Cranial deformation and genetic diversity in three adolescent male individuals from the Great Migration Period from Osijek, eastern Croatia”.

A deformação craniana artificial é um ato intencional realizado em crianças com o objetivo de obter uma forma de crânio desejada. Há registos da prática deste fenómeno em várias culturas antigas em todo o mundo para demonstrar identidade de grupo e / ou individual, por exemplo, evidenciar o estatuto, nobreza ou afiliação de uma determinada classe ou grupo.

Os cientistas verificaram também que os adolescentes apresentavam desnutrição severa e patologias que indicam uma experiência prolongada e grave de stress, mas a observação «mais surpreendente é que eles tinham grandes diferenças na sua ancestralidade genética. Os resultados das análises genéticas com base em dados nucleares de DNA indicam que um dos indivíduos com deformação craniana artificial apresenta maioritariamente ancestralidade do leste asiático, e é, até onde sabemos, o primeiro indivíduo do período das migrações bárbaras geneticamente asiático a ser encontrado na Europa», afirmam os líderes da investigação, Ron Pinhasi, da Universidade de Viena, Áustria, e Mario Novak, do Instituto de Investigação Antropológica de Zagreb, Croácia.

Os resultados deste estudo, conclui Daniel Fernandes, sugerem «a possibilidade de que diferentes grupos interagiam em proximidade uns com os outros nesta região durante o período das grandes migrações, mas também levanta algumas questões que só futuros estudos com muitas mais amostras nos ajudarão a compreender, como, por exemplo, perceber se é possível associar um tipo de deformação a um grupo específico».

Para a análise dos padrões alimentares, sexo e afinidades genéticas dos três indivíduos descobertos durante as escavações realizadas em 2013, os cientistas combinaram métodos bioarqueológicos, isotópicos e DNA. O artigo está disponível: aqui. Universidade de Coimbra “Faculdade de Ciências e Tecnologia” - Portugal

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Portugal - CADOES, o programa informático que vai facilitar o trabalho de antropólogos e arqueólogos

Os investigadores Francisco Curate, do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e João d’Oliveira Coelho, da Universidade de Oxford, desenvolveram um programa informático que vai facilitar o trabalho de antropólogos e arqueólogos no processo de identificação e caracterização do sexo de esqueletos humanos, quer em contexto forense quer em contexto arqueológico.

O designado “CADOES: Classificação Automatizada de Dados Osteométricos para Estimar o Sexo” resulta de uma investigação, cujos resultados foram publicados na revista “Forensic Science International”, que partiu dos dados de um trabalho realizado em 1938 pelo cientista José Antunes Serra - uma descrição antropológica clássica do complexo pélvico de uma amostra de restos esqueléticos portugueses do final do século XIX ao início do século XX, que incluiu 256 indivíduos (131 mulheres e 125 homens) da Coleção de Esqueletos Identificados da Universidade de Coimbra.



Com base nesses dados, refere Francisco Curate, «desenvolvemos diferentes algoritmos de classificação que geram modelos osteométricos de elevada precisão, sendo possível analisar 38 variáveis do complexo ósseo pélvico (altura da bacia, ângulo púbico, ângulo sacro-pélvico, conjugata obstétrica, etc.), ou seja, com os dados em bruto fornecidos no trabalho descritivo de 1938, criámos novas abordagens para a estimativa de sexo com base em características morfométricas do complexo ósseo pélvico».

Os investigadores centraram-se na região pélvica pelo facto de esta ser a região do corpo humano que apresenta maior grau de dimorfismo sexual e por assumir grande importância na identificação do sexo, que por sua vez é um passo fundamental para estabelecer o perfil biológico de esqueletos humanos, como, por exemplo, saber a idade que o indivíduo tinha à data da morte ou a sua estatura.

A principal mais-valia do CADOES, disponível gratuitamente no sítio responsivo “osteomics.com”, onde é possível aceder a outros sistemas desenvolvidos por investigadores do Laboratório de Antropologia Forense da FCTUC, «é a flexibilidade, permitindo efetuar um conjunto alargado de análises de forma rápida. É um sistema user friendly (amigo do utilizador) que pode ser usado por qualquer investigador em qualquer parte do mundo», salienta Francisco Curate.

«É uma ferramenta credível, que simplifica processos e minimiza o grau de erro. Disponibiliza ainda ilustrações que indicam a forma mais adequada de efetuar as medidas dos ossos e caminhos para explorar os dados fornecidos», acrescenta.

Este programa permite também trabalhar com pequenos fragmentos de ossos, o que representa um avanço na identificação de esqueletos, dado que, «infelizmente, a pélvis é uma região que se preserva menos bem, que se fragmenta muito», esclarece o também investigador do Laboratório de Antropologia Forense da FCTUC.

Além de facilitar o trabalho da comunidade científica da área, este novo programa informático tem um grande potencial como recurso pedagógico, «podendo ser utilizado em sala de aula para explorar a anatomia da região pélvica, por exemplo em escolas secundárias», finaliza Francisco Curate.

O artigo publicado na revista Forensic Science International está disponível: aqui. Universidade de Coimbra “Faculdade de Ciências e Tecnologia” - Portugal