Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Livro de acordar o leitor: “A vizinha das sete cordas”

Todos os textos de Hugo Almeida, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral

O recente livro de Hugo Almeida, A vizinha das sete cordas (São Paulo: Sinete, 2026), é composto de 15 contos, distribuídos em três partes: Dentro de Casa, Fora de Casa e Além – Tributo a três eternos. Nessa última parte, o tributo é dedicado a três grandes escritores brasileiros: Osman Lins, Clarice Lispector e Manuel Bandeira.

Em verdade, todos os textos de Hugo, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral. Há uma rede de epígrafes, começando com Lima Barreto, Lord Bulwer Lytton e Ivan Lins, abordando crimes, erros, desgraça e perdão, e se espalham praticamente em cada conto, ocorrendo, inclusive, uma epígrafe (ou hipógrafe?) no final do texto “Ponto cego”, com versos de Jorge de Lima: “surdo-mudo/ cegara. / Agora vê”.

Creio que esses versos e o título do conto indicam bem a sensação que uma primeira leitura vai despertar nos leitores dessa coletânea (que conta com o lúcido prefácio de Eltânia André). A obra é repleta de pontos cegos, assim como se o autor valesse de um palimpsexto sentido para captar movimentos, sensações, lugares, crueldades e afetos disseminados ao longo das narrativas.

Em termos de afeto, sinto-me honradamente contemplado, pois, em meio a tantas dedicatórias, Hugo Almeida lembra-se de meu humilde nome no final de “Assim de touca e máscara?”, conto que recebe epígrafe de belo verso do poema “Maçã”, de Manuel Bandeira e sua intricada trama joga com antiguidade romana, reminiscências bíblicas, Chopin, Mallarmé, Dalí, Lorca, Tasso e taça de vinho, sem omitir um pintor de origem espanhola, seria Carlos Alonso? O que gosto desse e de demais textos é a força poética que insufla as narrativas, pois o autor põe a poesia em bom lugar, daí “verso, poema, pedra preciosa” são elementos estruturantes, irrigando de lirismo, mas sem evitar os impactos desumanizantes que são denunciados. No conto alusivo a Manuel Bandeira, “O poeta e a estrela da manhã”, lê-se que, na esteira de Mallarmé, “escrever poesia é fazer música com a dor” (p.144).

O leitor não pode dormir de touca: há muitos toques intertextuais, paratextuais e outros que tais. Por exemplo, em “O casal do farol”, Hugo toca em tema que sempre me atraiu, desde que li “Os faroleiros”, conto de Urupês, de Monteiro Lobato. E não costumo perder filmes ambientados em faróis. No conto de Hugo, com epígrafe do recorrente Osman Lins, que empresta nomes de suas personagens para os protagonistas são designados por dois nomes: Alex (fora da lei) e Sóstrato (que remete ao arquiteto e engenheiro que projetou o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do Mundo Antigo). O casal é formado por ele e por Nancy, que também é chamada de Bárbara. Nomes tirados de textos de Osman, o mentor de Hugo. Nesse conto, em que o homem é ilha e mulher é arquipélago, dramatizam-se amor, isolamento, desencontro.

O número sete assinala a trama do conto que dá título ao livro, curiosa história das vizinhas Elvira e Mira, nomes que remetem ao olhar e ao comportamento humano, em sua ordem e desordem. A epígrafe de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos dá o tom irônico que pontuará o texto: “Sim, está tudo certo. / Está tudo perfeitamente certo”.

Uso de uma expressão de José Miguel Wisnik para afirmar que Hugo Almeida é dos escritores que dão “pérolas aos poucos”, uma vez que sua erudição e prodigalidade em saltos de longa distância de um texto para outros não dão vida fácil para leitores muito acomodados. E o leitor tem todo o direito de gostar mais de um conto do que de outro. Por exemplo, além dos já citados, entre os quinze contos impressionou-me “Nas nuvens”, primor de minimalismo, pegada para uma narrativa fantástica, simbologia bíblica com a Estrela de Belém, os nove meses da gravidez de Maria (as datas 22 de março e o Natal), o casal que sai da casa para um apartamento e é atraído pela maquete.

Em tempos de Copa do Mundo, é de se ler e de se rir de “Influxologia alemã”, neologismo criado para referir-se ao absurdo de um juiz que decide invalidar os impiedosos 7 x 1 que os alemães aplicaram no selecionado nacional, no Mineirão, em 2014. O humor também pontua “Dona Justina”, em que aparece pela segunda vez um personagem chamado Túlio, não sei se Hugo pensou num personagem de Avalovara, de Osman, ou se viu no seu significado de “o que cria ou dá origem às coisas”. Como sou chegado a um trocadilho, prefiro brincar com “entulho”, levando para uma metáfora dos fragmentos que povoam nossa memória, nosso inconsciente, que abruptamente surgem na criação ou na fruição da ficção.


Vale a pena acordar para os textos desse admirável escritor mineiro, nascido em Nanuque (nome de morador da serra) em 1952, mas saiu de lá ainda bebê, viveu nove anos na Bahia e 22 em Belo Horizonte. Mora em São Paulo desde 1984. A vizinha das sete cordas é o seu 17º livro e 5º de contos. Hugo Almeida é autor dos romances Mil corações solitários (5ª edição) e Vale das ameixas (2ª), e do ensaio livre A voz dos sinoso sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, todos também publicados pela Editora Sinete.  Caio J. Maciel – Brasil

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A vizinha das sete cordas (contos), de Hugo Almeida, Editora Sinete, 152 páginas, R$ 60,00. Disponível nos sites da editora e na Amazon.

https://link.amazon/B0gvagtCi

e www.editorasinete.com.br

E-mail: editorasinete@gmal.com. Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Caio Junqueira Maciel, professor e escritor, é mestre em Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor, entre outros, dos ensaios A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota e O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula, dos poemas Pele de jabuticaba e do romance Um estranho no Minho, sobre o período em que viveu em Portugal.




1 comentário:

  1. É, Maciel, Hugo merece os excelentes elogios que você fez. Li, lerei, relerei, para aprender muito sobre a vida e sobre tudo. Um abração.

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