Aos 90 anos – prestes a completá-los em julho – Maria Celestina continua a pintar “porque precisa”. Não por ambição, não por carreira, não por mercado. Pinta porque a pintura lhe preenche “qualquer coisa cá dentro”, diz ao LusoJornal, pousando a mão no peito. Uma necessidade espiritual, quase física, que a acompanha desde que deixou Portugal, ainda jovem fisioterapeuta, rumo a Lourenço Marques.
“Tirei o curso de fisioterapia no Hospital de São João,
no Porto”, recorda. Tinha 22 anos, dois filhos pequenos e uma coragem tranquila
que a levou a atravessar continentes. Primeiro Moçambique, depois Angola.
Trabalhou no Hospital Miguel Bombarda e mais tarde no Maria Pia, em Luanda,
onde integrou um dos primeiros centros modernos de medicina física e
reabilitação. “Havia muito dinheiro em Luanda nessa altura, fizeram um centro
muitíssimo bom”, conta com um sorriso que mistura memória e espanto.
Foi durante umas férias em Portugal que o destino mudou
de rumo. O Ministério do Ultramar enviou-lhe bilhetes para regressar a Angola
no dia… 25 de abril de 1974. Supersticiosa com datas, decidiu adiar a viagem.
“No dia 25 não vou. Vou meter um atestado médico”, disse à amiga. Na manhã
seguinte, a amiga abriu-lhe a porta aflita: “Tu não podes sair daqui. O governo
caiu”. E assim ficou. Nunca mais voltou a Angola.
Seguiram-se anos de trabalho no Hospital de Gaia e em
clínicas privadas. A filha, impedida de entrar na universidade portuguesa
devido ao caos pós-Revolução, partiu para Bordeaux. Mais tarde para Paris. E
quando nasceu a primeira neta, Maria Celestina fez o que sempre fez: avançou.
“O que é que eu estou aqui a fazer sozinha?”, perguntou a si mesma. Vendeu tudo
e mudou-se para França.
A descoberta da pintura
Em Ville d’Avray encontrou o centro cultural Le
Colombier, com cursos artísticos. Começou pela pintura “para ter um sítio onde
pintar”, porque a pintura ocupa espaço. Experimentou também pintura de
porcelana, mas foi a tela que a conquistou.
“A pintura não cansa. Eu não tenho cansaço físico. Ao fim
estou vazia”, confessa ao LusoJornal. Pinta com pincéis, com espátulas,
com as mãos… Não pinta casinhas, nem flores, nem paisagens. “Para mim são as
cores. As cores e o movimento”. Abstrato, intuitivo, visceral.
Nunca vendeu um quadro. Não quer. “Tenho muito respeito
por quem estudou Belas-Artes. Eu pinto porque quero. Não me sinto bem a
vender”. As obras circulam pela família: a filha leva, a neta leva, o filho em
Portugal recebe malas cheias de telas. Algumas viajam até ao Canadá, para a
neta que vive em Montreal. Outras ficam em Ville d’Avray, oferecidas a amigos.
Uma vida feita de arte, livros e movimento
O dia de Maria Celestina começa com ginástica. “Todos os
dias. Musculação, ginástica, piscina”. A pintura chega ao fim da tarde, quando
a luz é mais suave. “A luz das quatro e meia às cinco horas é ideal”, explica
com a precisão de quem observa o mundo através das cores.
Lê muito. Adora Manuel Vilas, Richard Zimler, poesia,
literatura brasileira… Fala de António Lobo Antunes com admiração e
perplexidade: “É difícil. Não é fácil. Mas fascina-me”.
Portugal continua presente. As amigas de sempre, as idas
ao Algarve, as escapadelas a Vigo para comprar roupa “que os outros não têm”.
Mas a vida está em França, perto da filha, da neta, da família que construiu.
Em breve mudará de casa: deixará o pequeno estúdio onde
hoje pinta e instalar-se-á no rés-do-chão da casa da filha. “Vamos fazer um
atelier lá em baixo”, diz a filha. “Quero pintar com ela. É um momento
simpático de estarmos juntas”.
Aos 90 anos, a cor continua a chamar por Maria Celestina
Maria Celestina não quer galerias, não quer mercado, não
quer carreira. Quer pintar. “Eu tenho necessidade de preencher qualquer coisa
dentro de mim”, repete. E talvez seja isso que torna a sua obra tão íntima: não
nasce para ser vista, nasce para ser vivida.
Mesmo assim, teve quadros expostos na galeria do Festival
de cinema português, Olá Paris!
Aos 90 anos, continua a entrar nas cores como quem entra
num lugar sagrado. E sai de lá “vazia”, mas inteira.
Mas, ao LusoJornal, foi confessando que tem outros
projetos. Um livro? Conferências? Sobre a energia que cada um de nós tem dentro
de si… Mas disso, falaremos mais tarde! Prometido. Carlos Pereira – França in “LusoJornal”
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