É
o que apresentam os poetas Zuca Sardan e Floriano Martins em livro que
surpreende o leitor por suas inovações
I
Durante
mais de uma década, os poetas Zuca Sardan e Floriano Martins, sem se conhecerem
pessoalmente, encetaram uma aventura dramatúrgica que passaram a chamar de Theatro
Automático, uma série de peças supostamente de teatro escritas a quatro
mãos em infinitos encontros virtuais, mediada por hipotéticos entrevistadores. O
Iluminismo é uma baleia (Fortaleza, ARC Edições,
2016) traz três dessas peças, que o próprio Floriano Martins não garante que
sejam exatamente de teatro, “já que os gêneros se perderam em meio ao rufar dos
tambores das vanguardas”.
Foram escritas dentro do mesmo espírito anárquico que
sempre caracterizou o fazer poético dos dois poetas. Em todas, o leitor irá
encontrar também uma série de colagens e vinhetas de autoria de Floriano Martins
e desenhos de Zuca Sardan. O encontro
desses dois excepcionais criadores oferece ao leitor experimentos de pura
sátira, experiência um tanto rara na história da poesia e da literatura
brasileiras.
Na primeira das peças reunidas, Circo
Cyclame, os intervenientes estão disfarçados por outros nomes ou
apelidos, mas pode-se extrair algumas observações curiosas e igualmente
pertinentes, como as declarações que são atribuídas ao personagem Mago Kefir,
que, de certo modo, definem o momento que vivemos em que legiões de crianças vivem
hipnotizadas pelas imagens de um aparelho celular ou telemóvel e crescem sem
aprender a escrever direito e sem saber pensar:
“(...) O Uruguai não é uma
sociedade deformada pelo agrotóxico. Hoje seu maior dilema é o elogio da
pobreza. Aqui caímos no conto de que a esperança é imortal. Já na Promise
Land, a devastação pela overdose virtual e sonora castrou de uma paulada
só lucidez e percepção, daí que certo tipo de criminoso – sobretudo aqueles
criados em meio ao turbilhão fanático dos jogos de guerra – mereça mais um
sanatório do que a cadeia. No Pa-tro-pi, não, aqui ainda
somos casos de xilindró. Porque o espalhafato da imagem e do ruído gera uma
mescla suicida de tolice e esperteza. Somos um povo barbarizado pela
malandragem e o besteirol”.
II
Em Trem Carthago, a segunda
peça, lê-se o diálogo em que um personagem de nome Xavier Chavigny diz que os
ufólogos, com o desaparecimento dos discos voadores, foram perdendo seu
prestígio.
“Mas conviria saber por que os
discos voadores de repente deixaram de aparecer. Duas hipóteses se levantam: a
primeira, de natureza comercial, é a de que a fábrica de discos foi à falência.
A segunda, pouco favorável ao nosso prestígio no Cosmos, é a de que os
extraterrestres se desencantaram com nossa ignara empáfia e o espírito
destrutivo, e acharam que não havia maior interesse em aproximarem-se duma
espécie que está destroçando aceleradamente o próprio planeta”.
Trata-se de uma observação que, feita há
pelo menos uma década, torna-se a cada dia mais vaticinadora nestes tempos em
que um político desvairado, como Donald Trump, que nada fica a dever a um Adolf
Hitler (1889-1945) ou a um Josef Stalin (1878-1953) e seus holocausto e
holodomor, parece disposto a destruir o mundo inteiro.
Ainda nesta segunda parte, Floriano
Martins, num diálogo com Zuca Sardan, relembra sua infância, uma época em que
não existiam atrações virtuais:
“(...) Sair das páginas de um
livro para as varandas da história e logo em seguida vadiar pelas ruas, tudo
isto me interessava na medida em que podia fazê-lo sem a guarda de fronteiras
da razão. O romance era a grande aventura da infância e recordo que costumava
embaralhar os personagens das diversas narrativas, e que não me detinha em seus
autores. Uma atenção muito particular em alguns deles – José de Alencar, por
exemplo, porque em casa tínhamos praticamente tudo dele, ou o Stevenson da Ilha
do Tesouro e o estranhíssimo caso de Hyde & Jekyll
–, mas, em geral era comum embaralhar tudo como se fosse um roteiro único e
delirante que me atiçava a imaginação”.
A resposta de Zuca Sardan segue na mesma
linha saudosista, mas enfática:
“Na infância eu gostava dumas
revistas de comics americanas, porque o colorido me
fascinava e achava os personagens mais interessantes porque falavam palavras
misteriosas… O inglês era para mim tão indecifrável quanto o sânscrito ou o
hindu… Então as histórias ficavam muito mais misteriosas e interessantes que as
dos comix brasileiros… de que os enredos eram óbvios e sem graça… Acho
que vem daí minha poesia, com essa ideia de que as palavras devem criar OUTRA ztória,
que paira secretamente sobre a ztória que ztá no livro”.
Depois de ler estas observações, a
pergunta (sem resposta) que se impõe é se a atual geração de infantes terá do
que se lembrar quando já estiver adulta e pretender criar contos, romances ou
poemas. E se terão capacidade intelectual para os criar.
Por fim, na terceira parte, Cine Azteka,
o leitor vai se deparar com “uma explosão do palco dos pensamentos alternativos
operados pela inteligentzia da seriedade e empenho civil das
Peruas-Chiques e Carecas-de-Cartola”, na definição bem-humorada de Zuca Sardan.
Aliás, o título já é uma referência jocosa ao antigo Cine Asteca, que vicejou
no Rio de Janeiro nas décadas de 1950 a 1970 e que se tornou marco da cultura
carioca, mas que foi destruído para o surgimento de um centro comercial, o que,
para Floriano Martins, funciona como um “oportuno paradigma de um país que
sucessivamente se desfaz de sua história”.
III
Nascido em Fortaleza, no Ceará, onde vive,
Floriano Martins (1957), poeta, editor, ensaísta, artista plástico e tradutor,
tem se dedicado, em particular, ao estudo da literatura hispano-americana,
sobretudo no que diz respeito à poesia. Foi editor do jornal Resto do
Mundo (1988/89) e da revista Xilo (1999). Em janeiro de 2001,
criou o projeto Banda Hispânica, banco de dados permanente sobre
poesia de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de
Poesia.
São de sua autoria também o projeto Atlas
Lírico da América Hispânica, tradução de poesia,
que realiza nas páginas virtuais da revista Acrobata, do Piauí; e a
Coleção Livros Impossíveis, e-books distribuídos gratuitamente,
em parceria com a poeta salvadorenha Juana M. Ramos.
Em 1999, criou a Agulha Revista
de Cultura e o selo ARC Edições, com mais de uma centena de
livros publicados de autores de diversos países. Um dos maiores estudiosos do Surrealismo
na América, é autor de dois livros de ensaios nessa área: Um novo continente
– Poesia e Surrealismo na América (Fortaleza, ARC Edições, 2016) e Escritura
conquistada – Poesia hispano-americana (Fortaleza, ARC Edições, 2018).
Entre as suas obras mais recentes,
destacam-se: Sombras no jardim (Natal-RN, Sol Negro
Edições, 2023); Tríptico da agonia, em parceria com Berta
Lucía Estrada (Natal, Sol Negro Edições, 2021); A grande obra da carne (Fortaleza,
ARC Edições, 2017); Un poco más de Surrealismo
no hará ningún daño a la realidad
(ensaio, Universidad Autónoma de la Ciudad de
México, 2015); Antes que a árvore se feche
(Fortaleza, ARC Edições, 2020); Naufrágios do tempo, novela,
em parceria com Berta Lucía Estrada (Fortaleza, ARC Edições, 2020); El frutero
de los sueños (poesia, Wilmington, EUA, Generis
Publishing, 1997), e A volta da baleia Beluxa
(Fortaleza, ARC Edições, 2017-2020), também em co-autoria com Zuca Sardan. Com
Leontino Filho, organizou Confissões de um espelho:
Cruzeiro Seixas (Fortaleza, ARC Edições, 2016).
Traduziu livros de César Moro (1903-1956),
Federico García Lorca (1898-1936), Guillermo Cabrera Infante (1929-2005),
Vicente Huidobro (1893-1948), Enrique Molina (1910-1997), Jorge Luis Borges
(1899-1986), Aldo Pellegrini (1903-1973) e Pablo Antonio Cuadra (1912-2002),
entre outros autores espanhóis e hispano-americanos.
Esteve presente em festivais literários
realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República
Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal
e Venezuela. Foi curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil,
2008) e membro do júri do Prêmio Casa de las Américas (Cuba, 2009), do Concurso
Nacional de Poesia (Venezuela, 2010) e do Prêmio Anual da Fundação Biblioteca
Nacional (Brasil, 2015). Atuou, em 2010, como professor convidado da
Universidade de Cincinnati, em Ohio, Estados Unidos.
IV
Zuca Sardan, nome literário do carioca
Carlos Felipe Alves Saldanha (1933), é poeta, escritor, desenhista e diplomata
aposentado. É um dos representantes da poesia marginal brasileira da década de 1970.
Sua obra é marcada pela irreverência e pela ironia. Filho do artista plástico e
arquiteto Firmino Saldanha (1906-1985), começou a seguir a carreira de pintor,
mas, inspirado no filme Orfeu, do poeta e romancista Jean Cocteau
(1889-1963), decidiu tornar-se “um famoso poeta surrealista desconhecido”, como
disse, certa vez.
Nas décadas de 1950 e 1960, publicou
folhetos mimeografados e fotocopiados de pequena tiragem com suas poesias. Participou
em 1976 da coletânea 26 Poetas hoje (Editora Aeroplano,
1976), organizada por Heloísa Buarque de Hollanda
(1939-2025), que contou também com a participação dos poetas Cacaso
(1944-1987), Ana Cristina César (1952-1983), Geraldo Carneiro, Chacal, Waly
Salomão (1943-2003) e Torquato Neto (1944-1972).
Formou-se em Arquitetura pela Universidade
do Brasil (UnB), em 1956. Entre 1963 e 1965, fez o curso preparatório para
diplomata no Instituto Rio Branco, no Rio de Janeiro. Serviu como diplomata na
Argélia, República Dominicana, Estados Unidos, União Soviética, Holanda e
Alemanha, onde se radicou na cidade de Hamburgo e vive até hoje. O artista
assinava suas obras como Carlos Saldanha, depois como Zuca Sardan, tendo
finalmente adotado este nome em 1993, com a publicação de Osso do
coração (Editora Unicamp, 1993). Publicou também Ás de colete
(Editora da Unicamp, 1994); Babylon (Companhia das Letras, 2004); Ximerix
(Cosac Naify, 2013); Voe no Zepelin (Maria Papelão, 2014);
e Xorox Kopox (Vento Norte Cartonero, 2015), entre outros. Adelto
Gonçalves – Brasil
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O Iluminismo é uma baleia, de Zuca Sardan e Floriano Martins. Fortaleza, ARC Edições/Agulha Revista de Cultura, R$ 45,00, 454 páginas, 2016. Site da editora:
http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com.br/ E-mail: floriano.agulha@gmail.com
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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola
e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1999), Barcelona brasileira (Lisboa,
Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003;
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito
e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio
Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o
governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre
outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global
Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e
nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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