Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 30 de março de 2026

Uma obra de pura sátira

É o que apresentam os poetas Zuca Sardan e Floriano Martins em livro que surpreende o leitor por suas inovações


                                                                          I

Durante mais de uma década, os poetas Zuca Sardan e Floriano Martins, sem se conhecerem pessoalmente, encetaram uma aventura dramatúrgica que passaram a chamar de Theatro Automático, uma série de peças supostamente de teatro escritas a quatro mãos em infinitos encontros virtuais, mediada por hipotéticos entrevistadores. O Iluminismo é uma baleia (Fortaleza, ARC Edições, 2016) traz três dessas peças, que o próprio Floriano Martins não garante que sejam exatamente de teatro, “já que os gêneros se perderam em meio ao rufar dos tambores das vanguardas”.

Foram escritas dentro do mesmo espírito anárquico que sempre caracterizou o fazer poético dos dois poetas. Em todas, o leitor irá encontrar também uma série de colagens e vinhetas de autoria de Floriano Martins e desenhos de Zuca Sardan.  O encontro desses dois excepcionais criadores oferece ao leitor experimentos de pura sátira, experiência um tanto rara na história da poesia e da literatura brasileiras.          

Na primeira das peças reunidas, Circo Cyclame, os intervenientes estão disfarçados por outros nomes ou apelidos, mas pode-se extrair algumas observações curiosas e igualmente pertinentes, como as declarações que são atribuídas ao personagem Mago Kefir, que, de certo modo, definem o momento que vivemos em que legiões de crianças vivem hipnotizadas pelas imagens de um aparelho celular ou telemóvel e crescem sem aprender a escrever direito e sem saber pensar:

“(...) O Uruguai não é uma sociedade deformada pelo agrotóxico. Hoje seu maior dilema é o elogio da pobreza. Aqui caímos no conto de que a esperança é imortal. Já na Promise Land, a devastação pela overdose virtual e sonora castrou de uma paulada só lucidez e percepção, daí que certo tipo de criminoso – sobretudo aqueles criados em meio ao turbilhão fanático dos jogos de guerra – mereça mais um sanatório do que a cadeia. No Pa-tro-pi, não, aqui ainda somos casos de xilindró. Porque o espalhafato da imagem e do ruído gera uma mescla suicida de tolice e esperteza. Somos um povo barbarizado pela malandragem e o besteirol”.

 

        II

Em Trem Carthago, a segunda peça, lê-se o diálogo em que um personagem de nome Xavier Chavigny diz que os ufólogos, com o desaparecimento dos discos voadores, foram perdendo seu prestígio.

“Mas conviria saber por que os discos voadores de repente deixaram de aparecer. Duas hipóteses se levantam: a primeira, de natureza comercial, é a de que a fábrica de discos foi à falência. A segunda, pouco favorável ao nosso prestígio no Cosmos, é a de que os extraterrestres se desencantaram com nossa ignara empáfia e o espírito destrutivo, e acharam que não havia maior interesse em aproximarem-se duma espécie que está destroçando aceleradamente o próprio planeta”.

Trata-se de uma observação que, feita há pelo menos uma década, torna-se a cada dia mais vaticinadora nestes tempos em que um político desvairado, como Donald Trump, que nada fica a dever a um Adolf Hitler (1889-1945) ou a um Josef Stalin (1878-1953) e seus holocausto e holodomor, parece disposto a destruir o mundo inteiro.

Ainda nesta segunda parte, Floriano Martins, num diálogo com Zuca Sardan, relembra sua infância, uma época em que não existiam atrações virtuais: 

“(...) Sair das páginas de um livro para as varandas da história e logo em seguida vadiar pelas ruas, tudo isto me interessava na medida em que podia fazê-lo sem a guarda de fronteiras da razão. O romance era a grande aventura da infância e recordo que costumava embaralhar os personagens das diversas narrativas, e que não me detinha em seus autores. Uma atenção muito particular em alguns deles – José de Alencar, por exemplo, porque em casa tínhamos praticamente tudo dele, ou o Stevenson da Ilha do Tesouro e o estranhíssimo caso de Hyde & Jekyll –, mas, em geral era comum embaralhar tudo como se fosse um roteiro único e delirante que me atiçava a imaginação”.

A resposta de Zuca Sardan segue na mesma linha saudosista, mas enfática:

“Na infância eu gostava dumas revistas de comics americanas, porque o colorido me fascinava e achava os personagens mais interessantes porque falavam palavras misteriosas… O inglês era para mim tão indecifrável quanto o sânscrito ou o hindu… Então as histórias ficavam muito mais misteriosas e interessantes que as dos comix brasileiros… de que os enredos eram óbvios e sem graça… Acho que vem daí minha poesia, com essa ideia de que as palavras devem criar OUTRA ztória, que paira secretamente sobre a ztória que ztá no livro”.

Depois de ler estas observações, a pergunta (sem resposta) que se impõe é se a atual geração de infantes terá do que se lembrar quando já estiver adulta e pretender criar contos, romances ou poemas. E se terão capacidade intelectual para os criar.

Por fim, na terceira parte, Cine Azteka, o leitor vai se deparar com “uma explosão do palco dos pensamentos alternativos operados pela inteligentzia da seriedade e empenho civil das Peruas-Chiques e Carecas-de-Cartola”, na definição bem-humorada de Zuca Sardan. Aliás, o título já é uma referência jocosa ao antigo Cine Asteca, que vicejou no Rio de Janeiro nas décadas de 1950 a 1970 e que se tornou marco da cultura carioca, mas que foi destruído para o surgimento de um centro comercial, o que, para Floriano Martins, funciona como um “oportuno paradigma de um país que sucessivamente se desfaz de sua história”.

 

                                                              III

Nascido em Fortaleza, no Ceará, onde vive, Floriano Martins (1957), poeta, editor, ensaísta, artista plástico e tradutor, tem se dedicado, em particular, ao estudo da literatura hispano-americana, sobretudo no que diz respeito à poesia. Foi editor do jornal Resto do Mundo (1988/89) e da revista Xilo (1999). Em janeiro de 2001, criou o projeto Banda Hispânica, banco de dados permanente sobre poesia de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de Poesia.

São de sua autoria também o projeto Atlas Lírico da América Hispânica, tradução de poesia, que realiza nas páginas virtuais da revista Acrobata, do Piauí; e a Coleção Livros Impossíveis, e-books distribuídos gratuitamente, em parceria com a poeta salvadorenha Juana M. Ramos.

Em 1999, criou a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições, com mais de uma centena de livros publicados de autores de diversos países. Um dos maiores estudiosos do Surrealismo na América, é autor de dois livros de ensaios nessa área: Um novo continente – Poesia e Surrealismo na América (Fortaleza, ARC Edições, 2016) e Escritura conquistada – Poesia hispano-americana (Fortaleza, ARC Edições, 2018).

Entre as suas obras mais recentes, destacam-se: Sombras no jardim (Natal-RN, Sol Negro Edições, 2023); Tríptico da agonia, em parceria com Berta Lucía Estrada (Natal, Sol Negro Edições, 2021); A grande obra da carne (Fortaleza, ARC Edições, 2017); Un poco más de Surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, Universidad Autónoma de la Ciudad de México, 2015); Antes que a árvore se feche (Fortaleza, ARC Edições, 2020); Naufrágios do tempo, novela, em parceria com Berta Lucía Estrada (Fortaleza, ARC Edições, 2020); El frutero de los sueños (poesia, Wilmington, EUA, Generis Publishing, 1997), e A volta da baleia Beluxa (Fortaleza, ARC Edições, 2017-2020), também em co-autoria com Zuca Sardan. Com Leontino Filho, organizou Confissões de um espelho: Cruzeiro Seixas (Fortaleza, ARC Edições, 2016).

Traduziu livros de César Moro (1903-1956), Federico García Lorca (1898-1936), Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), Vicente Huidobro (1893-1948), Enrique Molina (1910-1997), Jorge Luis Borges (1899-1986), Aldo Pellegrini (1903-1973) e Pablo Antonio Cuadra (1912-2002), entre outros autores espanhóis e hispano-americanos. 

Esteve presente em festivais literários realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Foi curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008) e membro do júri do Prêmio Casa de las Américas (Cuba, 2009), do Concurso Nacional de Poesia (Venezuela, 2010) e do Prêmio Anual da Fundação Biblioteca Nacional (Brasil, 2015). Atuou, em 2010, como professor convidado da Universidade de Cincinnati, em Ohio, Estados Unidos.

 

                                                    IV

Zuca Sardan, nome literário do carioca Carlos Felipe Alves Saldanha (1933), é poeta, escritor, desenhista e diplomata aposentado. É um dos representantes da poesia marginal brasileira da década de 1970. Sua obra é marcada pela irreverência e pela ironia. Filho do artista plástico e arquiteto Firmino Saldanha (1906-1985), começou a seguir a carreira de pintor, mas, inspirado no filme Orfeu, do poeta e romancista Jean Cocteau (1889-1963), decidiu tornar-se “um famoso poeta surrealista desconhecido”, como disse, certa vez.

Nas décadas de 1950 e 1960, publicou folhetos mimeografados e fotocopiados de pequena tiragem com suas poesias. Participou em 1976 da coletânea 26 Poetas hoje (Editora Aeroplano, 1976), organizada por Heloísa Buarque de Hollanda (1939-2025), que contou também com a participação dos poetas Cacaso (1944-1987), Ana Cristina César (1952-1983), Geraldo Carneiro, Chacal, Waly Salomão (1943-2003) e Torquato Neto (1944-1972).

Formou-se em Arquitetura pela Universidade do Brasil (UnB), em 1956. Entre 1963 e 1965, fez o curso preparatório para diplomata no Instituto Rio Branco, no Rio de Janeiro. Serviu como diplomata na Argélia, República Dominicana, Estados Unidos, União Soviética, Holanda e Alemanha, onde se radicou na cidade de Hamburgo e vive até hoje. O artista assinava suas obras como Carlos Saldanha, depois como Zuca Sardan, tendo finalmente adotado este nome em 1993, com a publicação de Osso do coração (Editora Unicamp, 1993). Publicou também Ás de colete (Editora da Unicamp, 1994); Babylon (Companhia das Letras, 2004); Ximerix (Cosac Naify, 2013); Voe no Zepelin (Maria Papelão, 2014); e Xorox Kopox (Vento Norte Cartonero, 2015), entre outros. Adelto Gonçalves – Brasil

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O Iluminismo é uma baleia, de Zuca Sardan e Floriano Martins. Fortaleza, ARC Edições/Agulha Revista de Cultura, R$ 45,00, 454 páginas, 2016. Site da editora:

http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com.br/ E-mail: floriano.agulha@gmail.com

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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 




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