Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 2 de março de 2026

A leitura partilhada, é uma forma de desenvolvimento e de consolidação da palavra, do pensamento e dos afectos, principalmente no universo juvenil

A leitura permitirá às crianças, pela sua mão ou pela mão dos mais velhos, conviverem com situações diversas e com diferentes pontos de vista, isto abrirá e/ou reforçará o caminho para a formação do pensamento crítico e, consequentemente, de opinião própria, aumentando sobremaneira a capacidade argumentativa dos mais novos

Olhamo-nos. Umas palavras ditas. Sorrimos ou não e embarcamos em visões que tanta vez são o oposto da realidade, não passando apenas de aparências, para o bem e para o mal. Será que um determinado rótulo ou um semblante, à partida, “de má catadura”, sombrio, fechado, exótico, corresponderá mesmo a matéria de forte suspeição, a uma ameaça? Numa sociedade em que vivemos no estado de “suicídio alegre”, segundo o filósofo José Gil, anestesiados pelo consumo, mergulhados intensivamente nos rostos, nas vozes, nas imagens virtuais, somos testemunhas de um tempo que vai escasseando para tudo, especialmente para o conhecimento aprofundado das ideias e dos factos, para o relacionamento com os outros, com a diferença que enriquece e estimula o pensamento. Tornamo-nos vulneráveis, porque não pensamos criticamente. Deixamo-nos aprisionar pela teia fácil, mas implacável do “diz-que-disse” comprovado por arautos do “sabe-tudo” nas televisões, nos tik-toks, facebooks, instagrams, threads, no sei lá quê dos mundos digitais em que impera a Inteligência Artificial!

A propósito, a escritora Lídia Jorge, que foi distinguida com o Prémio Pessoa, em 2025, apelou, recentemente, à vigilância sobre a Inteligência Artificial, em defesa do pensamento humano: “A linguagem não é mero instrumento funcional, mas território de consciência, memória e criação. A máquina combina, calcula, imita. O ser humano hesita, intui, falha e, nesse intervalo imperfeito, pensa.”

Ora, não há pensamento sem palavras. E estas vão sendo limitadas ao mínimo dos mínimos através dos silêncios solitários alimentados pelas ferramentas digitais, do telemóvel ao computador. O nosso cérebro atrofia, entra em modo avançado de preguiça! Interpretar, formular discurso mais complexo cansa! Ler cansa! Muito!

O universo infantil contemporâneo revela variantes bem diferentes das de tempos anteriores ao nosso, dada a conjuntura social e humana actual ser comandada pelos enormes e referidos avanços tecnológicos e digitais. Mantêm-se, contudo, os traços-base do eu interior de uma criança. Realcemos a sua capacidade de fantasiar e de viajar por mundos misteriosos que preenchem com magia o seu próprio desenvolvimento.

É um dado adquirido que a falta de leitura prejudica o rendimento escolar, já que a falta de palavras deriva para o empobrecimento da linguagem e impede o aluno de processar pensamento complexo e de formular discurso apropriado. Neste sentido, os pais e os encarregados de educação bem como os professores têm responsabilidade acrescida na tarefa de motivarem os seus filhos, os educandos, os alunos, para que falem, leiam e escrevam.

Leiam, os livros são dos presentes mais baratos e mais valiosos. Regina Correia – Portugal

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Regina Correia, luso-angolana, é natural de Viseu. Licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras de Lisboa, foi professora do ensino secundário em Angola, Portugal e na Alemanha. Tem coordenado projetos culturais e recitais poéticos, sobretudo junto de instituições cabo-verdianas. Publicou seis obras literárias, duas de ficção (Os Enteados de Deus e Uma Borboleta na Cidade) e quatro de poesia (Noite Andarilha, Sou Mercúrio, Já Fui Água, Conjugação de Mapas, No Coração dos Desertos e outros Oásis). Venceu os prémios Clarice Lispector “Melhor Poeta do Ano de 2018” e “Melhor Livro de Poesia 2021”, pela Editora ZL (Brasil) e ainda o “Prémio Destaque Literário” (2019), pela Literarte (Brasil). É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Participou na primeira Reunião Multipartidária de Angola, em 1992.


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