A leitura permitirá às crianças, pela sua mão ou pela mão dos mais velhos, conviverem com situações diversas e com diferentes pontos de vista, isto abrirá e/ou reforçará o caminho para a formação do pensamento crítico e, consequentemente, de opinião própria, aumentando sobremaneira a capacidade argumentativa dos mais novos
Olhamo-nos. Umas palavras ditas.
Sorrimos ou não e embarcamos em visões que tanta vez são o oposto da realidade,
não passando apenas de aparências, para o bem e para o mal. Será que um
determinado rótulo ou um semblante, à partida, “de má catadura”, sombrio,
fechado, exótico, corresponderá mesmo a matéria de forte suspeição, a uma
ameaça? Numa sociedade em que vivemos no estado de “suicídio alegre”, segundo o
filósofo José Gil, anestesiados pelo consumo, mergulhados intensivamente nos
rostos, nas vozes, nas imagens virtuais, somos testemunhas de um tempo que vai
escasseando para tudo, especialmente para o conhecimento aprofundado das ideias
e dos factos, para o relacionamento com os outros, com a diferença que
enriquece e estimula o pensamento. Tornamo-nos vulneráveis, porque não pensamos
criticamente. Deixamo-nos aprisionar pela teia fácil, mas implacável do
“diz-que-disse” comprovado por arautos do “sabe-tudo” nas televisões, nos tik-toks,
facebooks, instagrams, threads, no sei lá quê dos mundos
digitais em que impera a Inteligência Artificial!
A propósito, a escritora Lídia Jorge, que foi distinguida
com o Prémio Pessoa, em 2025, apelou, recentemente, à vigilância sobre a
Inteligência Artificial, em defesa do pensamento humano: “A linguagem não é
mero instrumento funcional, mas território de consciência, memória e criação. A
máquina combina, calcula, imita. O ser humano hesita, intui, falha e, nesse
intervalo imperfeito, pensa.”
Ora, não há pensamento sem palavras. E estas vão sendo
limitadas ao mínimo dos mínimos através dos silêncios solitários alimentados
pelas ferramentas digitais, do telemóvel ao computador. O nosso cérebro
atrofia, entra em modo avançado de preguiça! Interpretar, formular discurso
mais complexo cansa! Ler cansa! Muito!
O universo infantil contemporâneo revela variantes bem
diferentes das de tempos anteriores ao nosso, dada a conjuntura social e humana
actual ser comandada pelos enormes e referidos avanços tecnológicos e digitais.
Mantêm-se, contudo, os traços-base do eu interior de uma criança. Realcemos a
sua capacidade de fantasiar e de viajar por mundos misteriosos que preenchem
com magia o seu próprio desenvolvimento.
É um dado adquirido que a falta de
leitura prejudica o rendimento escolar, já que a falta de palavras deriva para
o empobrecimento da linguagem e impede o aluno de processar pensamento complexo
e de formular discurso apropriado. Neste sentido, os pais e os encarregados de
educação bem como os professores têm responsabilidade acrescida na tarefa de
motivarem os seus filhos, os educandos, os alunos, para que falem, leiam e
escrevam.
Leiam, os livros são dos presentes
mais baratos e mais valiosos. Regina Correia – Portugal
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Regina Correia,
luso-angolana, é natural de Viseu. Licenciada em Filologia Germânica, pela
Faculdade de Letras de Lisboa, foi professora do ensino secundário em Angola,
Portugal e na Alemanha. Tem coordenado projetos culturais e recitais poéticos,
sobretudo junto de instituições cabo-verdianas. Publicou seis obras literárias,
duas de ficção (Os Enteados de Deus e Uma Borboleta na Cidade) e
quatro de poesia (Noite Andarilha, Sou Mercúrio, Já Fui Água,
Conjugação de Mapas, No Coração dos Desertos e outros Oásis).
Venceu os prémios Clarice Lispector “Melhor Poeta do Ano de 2018” e “Melhor
Livro de Poesia 2021”, pela Editora ZL (Brasil) e ainda o “Prémio Destaque
Literário” (2019), pela Literarte (Brasil). É membro da Associação Portuguesa
de Escritores (APE). Participou na primeira Reunião Multipartidária de Angola,
em 1992.
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