Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

domingo, 8 de março de 2026

A curva do rio










A curva do rio

 

Desces a curva do meu corpo, amado

com o sabor da curva de outros rios

contas as veias e deixas as mãos pousarem

como asas

como vento

sobre o sopro cansado

sobre o seio desperto

 

Parte a canoa e rasga a rede

tens sede de outros rios

olhos de peixes que não conheço

e dedos que sentem em mim a pele arrepiada

d’outro tempo

 

Sou a esperança cansada da vida

que bebes devagar

no corpo que era meu

e já perdeste

andas em círculos de fogo

à volta do meu cercado

Não entres, por favor não entres

sem os óleos puros do começo

e as laranjas.

 

Paula Tavares – Angola

In Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos, (2001, Lisboa, Editorial Caminho ou Luanda Editora Nzila)

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Ana Paula Tavares nasceu em 30 de outubro de 1952, na cidade do Lubango, província da Huíla, em Angola. É uma poeta, historiadora, cronista e investigadora.

Estudou História no Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla e posteriormente mudou-se para Lisboa, onde concluiu os estudos superiores. Em 1996, obteve o Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade de Lisboa. Mais tarde, concluiu o doutoramento em Antropologia da História na Universidade Nova de Lisboa.

Desenvolveu uma carreira ligada à investigação histórica e cultural de Angola. Trabalhou em instituições culturais e académicas, colaborou com o Arquivo Histórico Nacional de Angola, participou em organismos culturais internacionais e lecionou em universidades portuguesas e angolanas.

Recebeu o Prémio Camões no ano 2025.

Livros de Poesia publicados: Ritos de Passagem (1985); O Lago da Lua (1999); Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001); Ex-votos (2003); Manual para Amantes Desesperados (2007); Como Veias Finas na Terra (2007). 

 

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