A curva do rio
Desces a curva do meu
corpo, amado
com o sabor da curva de
outros rios
contas as veias e deixas
as mãos pousarem
como asas
como vento
sobre o sopro cansado
sobre o seio desperto
Parte a canoa e rasga a
rede
tens sede de outros rios
olhos de peixes que não
conheço
e dedos que sentem em mim
a pele arrepiada
d’outro tempo
Sou a esperança cansada da
vida
que bebes devagar
no corpo que era meu
e já perdeste
andas em círculos de fogo
à volta do meu cercado
Não entres, por favor não
entres
sem os óleos puros do
começo
e as laranjas.
Paula Tavares – Angola
In Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos, (2001, Lisboa, Editorial Caminho ou Luanda Editora
Nzila)
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Ana Paula Tavares nasceu em 30 de outubro de 1952, na cidade do Lubango,
província da Huíla, em Angola. É uma poeta, historiadora, cronista e
investigadora.
Estudou
História no Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla e
posteriormente mudou-se para Lisboa, onde concluiu os estudos superiores. Em
1996, obteve o Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na
Universidade de Lisboa. Mais tarde, concluiu o doutoramento em Antropologia da
História na Universidade Nova de Lisboa.
Desenvolveu
uma carreira ligada à investigação histórica e cultural de Angola. Trabalhou em
instituições culturais e académicas, colaborou com o Arquivo Histórico Nacional
de Angola, participou em organismos culturais internacionais e lecionou em
universidades portuguesas e angolanas.
Recebeu
o Prémio Camões no ano 2025.
Livros
de Poesia publicados: Ritos de Passagem (1985); O Lago da Lua
(1999); Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001); Ex-votos (2003); Manual para Amantes
Desesperados (2007); Como Veias Finas na Terra (2007).
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