O investigador luso-canadiano Mário Monteiro está a liderar um avanço na investigação de vacinas contra infeções bacterianas, com o desenvolvimento de um imunizante inovador contra a ‘Campylobacter jejuni’, uma das principais causas de diarreia a nível mundial
“Que eu saiba, somos o único
laboratório universitário cujas descobertas já chegaram a quatro ensaios em
seres humanos”, afirmou o cientista em entrevista à Lusa, sublinhando o
carácter distintivo do trabalho desenvolvido na Universidade de Guelph, no Canadá.
Professor no departamento de Química daquela instituição,
Monteiro coordena uma equipa que obteve resultados positivos num ensaio clínico
de fase 1, indicando que a vacina é segura e capaz de induzir resposta
imunitária em humanos.
“O objetivo da fase 1 em seres humanos é determinar se a
vacina é segura e se cria anticorpos. Neste ensaio, verificámos ambos”,
explicou.
Nascido
em Lisboa e criado em Aldeias, no concelho de Gouveia, o investigador construiu
uma carreira internacional na área das vacinas, após concluir o doutoramento na
Universidade de York, em Toronto.
Passou pelo National Research Council of Canada e pela
indústria farmacêutica nos Estados Unidos antes de ingressar na Universidade de
Guelph.
O projeto, desenvolvido ao longo de mais de duas décadas
em colaboração com instituições norte-americanas, baseia-se numa abordagem
inovadora centrada em açúcares presentes na superfície das bactérias, ao
contrário das vacinas tradicionais, que utilizam proteínas.
“As bactérias têm, na sua camada exterior, açúcares e
proteínas. Nós identificámos as estruturas desses açúcares e transformámo-las
em vacinas imunogénicas”, detalhou.
O ensaio clínico de fase 1 decorreu entre 2022 e 2024 no
Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, envolvendo cerca de 60 adultos
saudáveis.
Segundo o investigador, os resultados demonstraram um
perfil de segurança favorável e uma resposta imunitária eficaz.
A ‘Campylobacter jejuni’, frequentemente associada ao
consumo de frango cru ou mal cozinhado, é considerada uma das principais causas
de doenças diarreicas no mundo, podendo provocar complicações graves, incluindo
a síndrome de Guillain-Barré.
Para Monteiro, o avanço representa também um contributo
relevante para o posicionamento do Canadá na investigação científica global.
“O nosso trabalho mostra que há interesse nas nossas
vacinas e que podem ter impacto na saúde global”, afirmou.
O próximo passo será a realização de um ensaio clínico de
fase 2, que deverá envolver um maior número de participantes e avaliar a
eficácia da vacina na prevenção da doença.
Segundo o investigador, esta fase exigirá financiamento
adicional e a participação de parceiros da indústria.
“Na fase 2 vamos testar se a vacina protege contra a
infeção. É um marco importante no desenvolvimento”, concluiu.
Monteiro foi distinguido como uma das 50 pessoas mais influentes na área das vacinas em 2014 e integrou, em 2024, o Conselho da Diáspora Portuguesa. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”
Canadá - Nasceu em Gouveia e está a desenvolver vacina
inovadora
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