Faz precisamente hoje 50 anos que faleceu Luís Gonzaga Gomes, figura multifacetada da sociedade e cultura de Macau no século XX. Ao longo da sua vida, o reputado sinólogo em língua portuguesa, também professor, escritor, jornalista e poliglota, contribuiu para o enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês
Assinalando a efeméride, o Jornal Tribuna
de Macau registou alguns testemunhos sobre o ilustre macaense. “Foi um defensor
do ensino da língua chinesa nas escolas de Macau”, realça João Guedes,
jornalista e investigador. “Admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos
de arte e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música clássica”,
confessa Jorge Rangel, aluno. “Difícil era adivinhar a sabedoria gigante que
estava par detrás daqueles olhos que, às vezes com ironia subtil, falavam mais
do que as palavras”, frisa Beatriz Basto da Silva, historiadora. “E eu que
viera para Macau à procura de Luís de Camões, encontro também o extraordinário
Luís Gonzaga”, destaca José Carlos Canoa, professor.
Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907
e faleceu a 20 de Março de 1976, portanto há exactamente meio século. Figura
multifacetada da sociedade e cultura local no século XX, foi professor,
tradutor, filólogo, escritor, investigador, historiador, etnógrafo, sinólogo,
jornalista, bibliotecário e arquivista, museólogo e coleccionador de arte.
Ocupou vários cargos, entre os quais o de conservador do Museu Luís de Camões,
director da publicação Arquivos de Macau, director-bibliotecário da Biblioteca
Central de Macau e presidente da Comissão Administrativa do Leal Senado.
Para além disso, desempenhou funções em organismos da
sociedade civil, nomeadamente presidente do Rotary Clube, secretário do Círculo
de Cultura Musical e do Círculo Cultural e também director da Emissora de
Macau, correspondente da Agência ANI, e chefe de redacção e administrador da
revista Renascimento.
Luís Gonzaga Gomes começou a escrever aos 14 anos, quando
frequentava o Liceu de Macau, onde foi aluno de Camilo Pessanha e colaborou no
jornal A Academia. Deu aulas no ensino primário durante 24 anos, ao
mesmo tempo que aprofundou os seus conhecimentos da língua chinesa.
Ao longo da vida, trabalhou muito no sentido do
enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês, efectuando traduções e
compilações, com destaque para uma tradução de “Os Lusíadas” contados às
crianças.
Um conjunto de artigos com mais de 30 volumes publicados
e cerca de duas dezenas de jornais e revistas em que colaborou ou que dirigiu,
“atestam bem a sua determinação de divulgar a história e a cultura macaense ou
de contribuir para o intercâmbio cultural luso-chinês”, como mencionou a antiga
professora macaense Graciete Batalha no prefácio do livro Macau Factos e
Lendas.
Segundo testemunhos da época, um dos quais relatado pelo
Padre Manuel Teixeira, que com ele privou, “além da sua actividade
profissional, nos tempos livres, Luís Gonzaga Gomes representou Macau em jogos
de ténis diante de Hong Kong, tocou violino, participou como cantor em
concertos e programas de rádio e adaptou e foi actor em peças radiofónicas”.
No entanto, era conhecido por ser uma pessoa solitária,
dedicada aos seus trabalhos de investigação. “Ele foi o melhor e o mais
prolífico historiador macaense nestes quatrocentos anos de vida desta terra,
mas tão modesto que se escondia no pó dos Arquivos, sendo raro vê-lo em
qualquer festa ou divertimento”. “Era um verdadeiro anacoreta”, escreveu Manuel
Teixeira.
Reconhecimento menor do que merecia
O nome de Luís Gonzaga Gomes foi dado a uma rua de Macau
situada na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, conhecida pela sua localização
central perto do Jardim das Artes e da Universidade Politécnica. O ilustre
macaense viu também o seu nome atribuído à Escola Secundária Luso-Chinesa, a
qual ostenta a imagem do escritor à entrada do edifício localizado na Avenida
Sidónio Pais, perto da Praça do Tap Seac.
Em 1977, terá sido colocado o seu busto numa sala do
extinto Museu Luís de Camões e, em 1984, outro seria erguido no Jardim de S.
Francisco de onde seria por sua vez retirado.
“Ambas as obras tinham sido esculpidas por Oseo Acconci,
artista italiano que emparceirava então com Luís Gonzaga Gomes no restrito
universo da cultura local do pós-guerra”, diz o jornalista e investigador João
Guedes.
Em jeito de introdução, faz referência aos cinco anos da
“Guerra do Pacífico”, durante os quais Macau se viu envolvido “numa vertigem
festiva e exuberante tão extemporânea quanto contrastava com o drama bélico em
que se submergia a província de Guangdong”. Porém, essa vertigem, assinala,
“não era o culminar de um século de desenvolvimento por vezes frenético, mas
sempre febril, mas antes o limiar de um inexorável percurso descendente que
perdurou por décadas exaurindo-se lentamente na crise”.
De um “brilhante” entreposto entre a China e o Ocidente
que tinha sido, Macau “deixava-se agora afogar no marasmo e no cansaço em que o
filósofo francês Bernard Henry Levy o iria encontrar quando visitou a cidade e
as ilhas vinte anos mais tarde, em finais dos anos setenta do século,
mergulhado na lassidão”, descreve.
A cultura, “uma das áreas universalmente sempre mais
afectadas pelas crises, não ficou de fora e também embarcou na procura de
outros mundos”. Os que ficaram, sublinha João Guedes, “não foram muitos”. Entre
eles contava-se Luís Gonzaga Gomes, que, embora “capaz de muito nas áreas das
letras e da cultura em geral, era-lhe, porém, impossível carregar sozinho sobre
os ombros tão despovoado universo”.
Por isso “o que viria a fazer, e foi muito, dispersou-o
talvez demais, o que contribuiu, sem dúvida, para que o reconhecimento da
posteridade fosse menor do que deveria ter sido e não maior do que merecia”,
admite.
Defensor do ensino da língua chinesa
Citando alguns excertos de um artigo publicado pelo
professor Fernando Ulisses Mendonça Serafim, o produtor de programas sobre
História de Macau, emitidos na televisão local, refere que a posição de
director do Arquivo Histórico que Luís Gonzaga Gomes assumiu, terá contribuído
para a unanimidade dos estudiosos da historiografia do território o
considerarem figura incontornável “para quem pretendia criar alguma
reconstituição da aventura portuguesa em Macau, sem avaliar o quanto foi
importante para a visualização das mazelas da Macau do seu tempo, bem como para
a leitura desse riquíssimo espaço de interacção entre as culturas chinesa e
portuguesa”.
O mesmo académico brasileiro afirmou também que Luís
Gonzaga Gomes foi um intelectual cujo rigor ajudou a estabelecer uma identidade
macaense em termos documentais e científicos. Coligiu algumas “lendas e
narrativas” correntes na Macau do seu tempo, “trabalho que terá evidenciado o
quanto o mito, representado por tais narrativas, pode ter auxiliado na fixação
identitária”.
João Guedes destaca a toponímia de Macau, “que dedicou
nome a Luís Gonzaga Gomes numa via pública da cidade”, e também a criação de um
prémio escolar, para além da escola com o seu nome.
Depois de tudo isto, expressa, “resta ainda assinalar
que, ao longo da sua vida, foi um defensor do ensino da língua chinesa nas
escolas de Macau, conceito pioneiro que desencadeava então notórios
preconceitos e acesos debates”.
Concluindo, interroga-se: “Depois de tudo, qual a razão
da pequenina constelação do universo da cultura de Macau ter relegado Luís
Gonzaga Gomes para as luzes de menor grandeza de imerecida segunda fila?”.
Reservado, mas com diálogo “enriquecedor”
O Jornal Tribuna de Macau ouviu outras histórias,
acontecimentos e testemunhos pessoais contados por investigadores e também por
um aluno de Luís Gonzaga Gomes.
“Conheci-o pessoalmente quando, ainda aluno da Escola
Primária Oficial, ia duas ou três vezes por semana à sua residência, para as
lições de violino que recebia da sua irmã, professora Margarida Gomes”, começou
por dizer Jorge Rangel. “Antes e depois das lições, procurava, sempre que
possível, falar com ele e admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos de
arte chinesa e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música
clássica”, contou.
O actual presidente do Instituto Internacional de Macau
(IIM), em cuja sede se pode encontrar a sala Luís Gonzaga Gomes, lembra os
tempos em que era aluno do sinólogo no liceu. “Embora reservado, pude manter
com ele um diálogo sempre interessante e enriquecedor, sobre Macau, a arte e a
cultura chinesa, a música e, sentindo nele momentos raros de visível
entusiasmo, sobre o movimento rotário internacional e sobre os projectos que
desenvolveu abnegadamente em variados organismos locais”.
Já na universidade, em Portugal e no estrangeiro, Jorge
Rangel continuou a contactá-lo, “trocando alguma correspondência e publicações
e visitando-o durante as férias”.
O antigo membro do Governo local salienta que, depois de
cumprido o seu serviço militar nos Açores e na então Guiné Portuguesa,
regressou a Macau em 1975, meses antes do falecimento de Luís Gonzaga Gomes.
“Pude participar nas homenagens que lhe foram prestadas, pelo Governo, pelo
Leal Senado e pelo Rotary Clube, de que fomos ambos presidentes”, frisou.
Oito anos depois, a 20 de Março de 1984, o antigo
deputado da Assembleia Legislativa (AL) teve “o privilégio de presidir à
instalação do busto de Luís Gonzaga Gomes no Jardim de S. Francisco e fazer o
elogio, juntamente com a professora Graciete Batalha, daquele que foi um dos
mais insignes filhos desta terra”.
Também como responsável pela Educação e Cultura no
mandato do Governador Almeida e Costa, Jorge Rangel recorda que Luís Gonzaga
Gomes interveio “decisivamente” no lançamento do ensino secundário luso-chinês
e na criação da Escola Luso-Chinesa que ostenta o seu nome. Mais tarde, já no
âmbito do IIM, coordenou sessões de apresentação de obras republicadas de Luís
Gonzaga Gomes ou de trabalhos sobre a sua vida e obra.
Para além disso, “envolvi-me, muito empenhadamente, em
2007, nos actos comemorativos do centenário do seu nascimento, quando foram
realizadas várias sessões evocativas, reactivado o cenáculo que ostenta o seu
nome e inaugurado um salão com o seu nome na sede do IIM, onde funciona
presentemente o Centro de Estudos da Diáspora e da Identidade Macaense”,
menciona.
Jorge Rangel considera importante que Macau, os
organismos culturais e as associações macaenses continuem a promover uma ampla
divulgação da sua obra junto das novas gerações. “Recordá-lo-ei sempre, com
saudade e admiração”, vinca.
Anonimato como “zona de conforto”
Beatriz Basto da Silva fala também do contacto pessoal e
profissional que manteve com a figura que agora é lembrada por altura do meio
século desde o seu falecimento. “A figura de Luís Gonzaga Gomes ficou-me
gravada nos poucos anos que tive ocasião de com ele privar em Macau
(1970-1976)”, confessa.
A historiadora nota que o ilustre macaense ficou
conhecido entre os seus amigos e conterrâneos por ser poliglota, investigador,
escritor, melómano, professor. “Mas talvez esses amigos não possuam um cartão
de visita seu, recebido em troca do meu quando nos conhecemos”. “Guardo-o com
estima”, enfatiza.
A antiga deputada na AL considera que Luís Gonzaga Gomes
“era uma pessoa discreta no trato, como se o anonimato fosse para ele uma zona
de conforto”, adiantando que “difícil era adivinhar a sabedoria gigante que
estava par detrás daqueles olhos que, às vezes com ironia subtil, falavam mais
do que as palavras”, sendo na solidão que “rompia fronteiras e viajava pelo
mundo”.
A música era, apenas e só, admitida como sua companhia.
“Estudava, escrevia o fruto das suas investigações, correspondia-se em várias
línguas com especialistas das mais variadas áreas, consultava catálogos para
encomendar aquilo que, na sua modéstia, lhe falecia”, apontou.
Quando Beatriz Basto da Silva aceitou, “por motivos
vários”, assumir a missão de dirigir o Arquivo Histórico, criado em 1979,
contou com a “presença tutelar” do professor António da Silva Rego, “sem o qual
me sentiria, como diz Virgílio na ‘E-neida’, a nadar sozinha no imenso abismo”.
Mas, o “erudito professor achara tudo simples, tudo se foi fazendo e a obra
cresceu”, revela.
Não contando com instalações apropriadas, foi cedido o
salão enorme da Mansão de Sir Robert Ho Tung onde outrora Luís Gonzaga Gomes,
como presidente do Círculo de Cultura Musical, organizava concertos.
Como eco desses “gloriosos tempos” restava o piano,
solitário, num canto do estrado/palco e o vazio que foi sendo preenchido com
estantes metálicas que foram acomodando as caixas com documentos e os fundos
arquivísticos solicitados aos diversos serviços. “Alguns vinham cobertos de
poeira sedimentada pela humidade onde tinham estado esquecidos, ou
meio-desfeitos pela formiga branca, pedindo urgente desinfestação”, recorda.
Àquelas acomodações provisórias, acrescenta, sucedeu um
novo edifício, entretanto recuperado no Tap Seac, e só nessa altura foi
entregue ao espólio e à guarda do Arquivo a rica biblioteca pessoal de Luís
Gonzaga Gomes. “As peças eram tão numerosas que numa primeira impressão,
necessariamente sincrónica, só percebemos que se abria uma luz intensa para o
estudo da História de Macau”, sustenta a investigadora.
Sob o título de “Bibliografia Macaense”, o escritor
publicara em 1973, na Imprensa Nacional de Macau, a obra que serviria de
“Bíblia” para identificar o acervo recém-chegado. “Um verdadeiro tratado
indispensável para acompanhar a documentação arquivística: fundos, tratados
nacionais e internacionais, documentos avulsos, enfim, ficou claro que o
Arquivo só existia com aquela Biblioteca e que esta era um verdadeiro ‘farol’
para o Arquivo”, afirma Beatriz Basto da Silva.
Assinala também que foram atribuídas cotas, verificadas
que a maioria das entradas na “Biblioteca Macaense” correspondia fisicamente
aos livros da colecção particular que “tínhamos em nossas mãos” e que o
“insigne macaense tratou com mestria de documentar este legado”.
Esta experiência pessoal, observa, “só é partilhada
porque a vivenciei”, sendo “um profundo preito de homenagem a Luís Gonzaga
Gomes, um macaense ímpar que ocupou a tão breve (68 anos) vida fazendo render
com generosidade os seus eclécticos talentos”.
Obra lega uma visão de Macau e suas gentes
Antes de falar de Luís Gonzaga Gomes, José Carlos Canoa,
docente de português no Instituto Português do Oriente, em Macau, revelou ao
JTM que uma das razões que o trouxe para o território, “foi vir no encalço do
rasto de Luís de Camões”, adiantando que tinha iniciado em 2017 um projecto de
investigação sobre um comentador da obra do Poeta.
Entretanto, como editor do “Luís de Camões – Directório
de Camonística” “conheci em Lisboa Eduardo Ribeiro, estimado nesta região e
principal investigador da ‘verdade historiográfica’ de ‘Camões em Macau’ (2012,
2.ª ed. 2020), mais do que provada nos seus estudos”, salientou.
“Como também estava em contacto com um familiar aqui a
leccionar na academia e com quem diariamente conversava sobre a recepção da
obra camoniana, foi sem hesitações que fiz as malas e apanhei o avião”, relata.
Nos primeiros dias, “com reiteradas romagens ao jardim da
Gruta de Camões, de dia e à noite, ao percorrer os ‘diversos mirantinhos que
estão ligados entre si por um complexo labirinto de apertados arruamentos
cobertos de limugem que sobem, descem e se encurvam em espreguiçadas rampas, ou
se entretêm no jogo de xadrez ou se deixam inebriar pela capitosa fragrância
que dimana de mil e uma variedades de flores e de plantas que ali proliferam
com exultadora exuberância’ (descrição de Luís Gonzaga Gomes na lenda de ‘A
rocha dos cinco metais’), não me surpreenderia nada, então, se me cruzasse com
o próprio santo do lugar, o compositor de Os Lusíadas”.
José Carlos Canoa esperava “reconhecê-lo a cada esquina
dos arruamentos mais antigos”. Daí em diante, prossegue, todas as ‘curiosidades
de Macau antiga’ e as ‘efemérides da história de Macau’ como o 10 de Junho, me
iriam remeter para ou materializar a presença de Camões”. “É aí que surge o
sortilégio da obra escrita, posteriormente também da vida, de Luís Gonzaga
Gomes”, conta.
Este outro Luís, “cujo nome e também o do seu pai
(Francisco Xavier) está representado numa das estátuas de bronze de santos
jesuítas na fachada das Ruínas de São Paulo, viria a ser o meu cicerone ideal”.
“Para descobrir mais acerca de Camões e para ir conhecendo aos poucos Macau”,
reflecte.
“Além de ter redigido o ‘Vocabulário
cantonense-português, português-cantonense’, de ter consagrado muito do seu
precioso tempo ao ‘Catálogo dos manuscritos de Macau’ e à ‘Bibliografia
macaense’”, o incansável cronista das “páginas da história de Macau é ainda uma
figura charneira para portugueses arribados à região” como o próprio José
Carlos Canoa. “Através de Luís Gonzaga Gomes somos introduzidos no universo de
‘Contos chineses’, Lendas chinesas de Macau, Festividades chinesas, Arte
chinesa, enfim, nos relatos breves das chinesices de uma civilização
antiquíssima”.
Mormente, prossegue, “a obra de Luís Gonzaga Gomes
lega-nos uma visão de Macau e das suas gentes em prosa breve, de espantoso
fulgor colorido e visual, em muito semelhante ao universo reconfigurado nos
romances de Henrique de Senna Fernandes e à rimada e informada poesia de J. J.
Monteiro”. “Três distintos escritores, um mesmo amor: Macau”.
Na sua perspectiva, Luís Gonzaga Gomes é, pois, “um
excelente anfitrião de Macau, recebendo-nos como outrora Lourenço Pereira
Marques acolhera os seus visitantes e amigos na propriedade onde está a Gruta
de Camões, na colina do Patane”.
Do mesmo modo, esta “extraordinária figura da vida
cultural macaense”, que nas décadas de 60 e 70 foi conservador do Museu Luís de
Camões (aberto ao público em 1960), sócio fundador do Instituto Luís de Camões
e principal director do meio de comunicação desse Instituto, o “Boletim do
Instituto Luís de Camões”, irá ser o meu objecto de interesse e entusiamo nos
estudos camonianos em Macau”, referiu ainda o docente.
Aproximação ao poeta Luís Vaz de Camões
José Carlos Canoa recorda a tradução para o cantonês de “Os
Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo”, considerando-a “uma
referência pioneira na aproximação à obra do poeta português pela cultura
chinesa”.
O membro da Rede Camões na Ásia & África lembra
também que, em 1972, Luís Gonzaga Gomes publicou no número especial da revista Garcia
de Orta um número comemorativo do 4º centenário da publicação de Os
Lusíadas, “o seu mais interessante texto camoniano: “Representação
iconográfica da gruta de Camões de Macau”, estudo que continua e amplia um seu
anterior publicado na revista Mosaico (“Camões em Macau”).
A abordagem de Luís Gonzaga Gomes “acontece no domínio da
história da arte”, assinala, destacando que, no artigo da revista, “inventaria
e descreve a iconografia camoniana em Macau, pois desde o séc. XVIII que ‘a
fama e a beleza do sítio onde está situada a Gruta de Camões inspiraram vários
artistas’”. “E eu que viera para Macau à procura de Luís de Camões, encontro
também o extraordinário Luís Gonzaga”, expressa.
Em Junho deste ano, o professor do IPOR estará presente
em Lisboa na “IX Reunião Internacional de Camonistas: O tempo de Camões, Camões
no nosso tempo” promovida pela Estrutura de Missão para as Comemorações dos 500
anos do Nascimento de Camões. “Levarei comigo Luís Gonzaga Gomes, o seu estudo
iconográfico sobre a Gruta de Camões – e com ele, Macau”, garante.
A terminar, revela que o professor Vítor Serrão divulgou
recentemente nas redes sociais uma nova gravura da Gruta de Camões. Nela está
representada uma cena em que uma figura humana está sentada no habitual banco
de pedra junto à gruta. Frequentemente são figuras chinesas que lá se encontram
sentadas em repouso. Agora, acentua, “o imprevisto é ser o próprio Camões
sentado a ler junto aos penedos que o seu talento de poeta afamou”.
Para os mais românticos, ele está “com saudades da
pátria, medita na gruta, interrompendo a escrita.” Esta “efabulação é mais uma
representação iconográfica do lugar, criada nos finais do século XIX, que
oferecemos agora à memória de Luís Gonzaga Gomes, o camonista que mais escreveu
sobre este tema”, conclui.
Aluno de Pessanha e Silva Mendes
Tendo crescido no seio de uma família muito ligada à
cultura, Luís Gonzaga Gomes (conhecido por Inho Gomes ou, simplesmente, Inho,
entre parentes e amigos) foi, desde muito cedo, “influenciado por todo aquele
ambiente familiar que o rodeava”, pode ler-se no livro Baixa do Monte,
publicado por Manuel Basílio.
O investigador macaense escreve que, terminado o ensino
primário, Gonzaga Gomes prosseguiu os seus estudos no Liceu, onde teve, como
professores, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, José da Costa Nunes,
Mateus António de Lima e outros distintos docentes e, por isso, recebeu sólida
formação académica.
“Apesar de ter concluído o 7º ano do Liceu com boas
notas, não seguiu para o ensino superior, tendo passado o resto da vida como um
verdadeiro autodidacta em várias matérias e línguas, designadamente a língua
chinesa”, salienta Manuel Basílio.
Segundo a sua investigação, “não restam dúvidas de que
Luís Gonzaga Gomes foi um homem erudito”. No entanto, “sempre foi um indivíduo
muito reservado, de poucas palavras, por isso, convivia com poucas pessoas e
deve ter passado dias difíceis ou amargurados, nos últimos anos da sua vida,
vivendo com muita angústia, à medida que os dias iam passando, pois, a ideia da
morte perseguia-o”, constata.
Também António Aresta, professor e
investigador, destaca no seu livro Figuras de Jade a obra de Luís
Gonzaga Gomes. “Pela vastidão e amplitude dos seus interesses intelectuais,
artísticos, musicais, linguísticos ou historiográficos, ele pode ser
considerado como um homem do renascimento, não obstante a sua personalidade
demandar recato, simplicidade e algum gosto ascético”. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal
Notícias de Macau”
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