Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Espanha - Um enorme tsunami destruiu Sevilha no século III, segundo novo estudo


Na década de 1970, duas inscrições romanas – datadas de 245 a 253 d.C. – foram descobertas em Écija, uma cidade na província de Sevilha, no sul da Espanha. Os escritos nas tábuas sugerem que o Imperador da época havia isentado de impostos, a província romana de Bética (aproximadamente a Andaluzia), mas as inscrições falhavam em explicar o porquê, e o motivo permaneceu um mistério por décadas.

Num novo estudo publicado na Natural Science in Archaeology, uma equipa de cientistas e investigadores europeus e americanos diz que finalmente encontrou uma explicação. O artigo, A Third Century AD Extreme Wave Event Identified in a Collapse Facies of a Public Building in the Roman City of Hispalis (Sevilha, Espanha), fornece uma resposta surpreendente: um gigantesco tsunami que começou na Baía de Cádiz colidiu com a terra, fazendo com que inúmeros assentamentos costeiros fossem abandonados, incluindo a cidade de Sevilha, localizada no interior a mais de 50 quilómetros do mar.

A descoberta foi feita após a escavação e estudo de um edifício público da era romana, destruído durante o que os investigadores agora acreditam ter sido um evento da onda gigantesca. O edifício ficava no que hoje é a praça pública Patio de Banderas em Sevilha, adjacente à principal catedral da capital.

O estudo, de autoria de especialistas de universidades da Espanha, França, Alemanha e Estados Unidos, descreve como, em 400 a.C., o Oceano Atlântico criou uma grande lagoa, conhecida na antiguidade como Lacus Ligustinus, na foz do rio Guadalquivir. O lago era alimentado por três corredores fluviais, um dos quais levava directamente a Hispalis. O rio era grande suficiente para que navios de médio porte pudessem usá-lo para transportar minerais, petróleo, vinho e outras mercadorias até ao interior de Alcalá del Río, cerca de 16 km depois de Sevilha. Estima-se que o Porto de Sevilha era bastante grande, mesmo naquela época, estendendo-se por mais de um quilómetro de extensão e movimentando cerca de 18.000 toneladas de mercadorias por ano.

Entre 2009 e 2014, uma equipa de arqueólogos escavou o sítio Patio de Banderas o estudo refere que “de todas as descobertas, destaca-se um edifício público romano muito bem preservado […]. O edifício [foi] construído em opus africanum [uma forma de alvenaria romana de tijolos] durante o final da República (60 a 30 aC).” Organizava-se em torno de um pátio central, com uma galeria de colunas no extremo sul. Especialistas identificaram o local como um espaço comercial e administrativo associado ao porto fluvial de Hispalis.

Analisando as ruínas do Pátio de Banderas, a primeira equipa de arqueólogos a estudar o local concluiu que o antigo edifício foi reparado várias vezes durante a Dinastia Flaviana (final do século I d.C.), mas sobretudo entre os anos 200 e 225 d.C., quando houve “colapso generalizado dos restos arquitectónicos [e] a maioria das paredes do sul parece ter sido deslocada de sua posição original [por uma força externa], sempre na direcção ao noroeste”.

Na época, os arqueólogos descartaram um tsunami por dois motivos principais: porque o local está 22 pés acima do nível do mar e porque a distância entre Híspalis e o Lacus Ligustinus era de quase 35 milhas na época romana (agora são mais de 45). Por outras palavras, para um tsunami destruir o prédio, ele teria que ser maior do que qualquer outro já registado – a mãe de todos os tsunamis.

Os autores do novo estudo não ficaram satisfeitos com o descoberto. Acreditavam que uma opinião baseada numa análise visual do local “não era suficiente”, então realizaram um estudo multidisciplinar que combinou métodos e técnicas em macro e microescala. Usaram datação por carbono-14, e variada nova tecnologia para ter novas respostas.

O que foi especialmente impressionante a equipa descobrir, foi que “os materiais escavados no Pátio de Banderas, eram diferentes (principalmente calcário e tijolo) e técnicas diferentes”. Pelo contrário, esses elementos arquitectónicos exógenos foram quimicamente transformados por um “evento altamente energético”, que os transportou para o Pátio de Banderas, onde ficaram presos dentro do prédio devido às inundações do tsunami. O estudo calcula que a inundação ocorreu entre os anos 197 e 225.

O estudo conclui assim que “o depósito Patio de Banderas foi gerado durante um evento de ondas extremas”, e que o edifício funcionou como uma armadilha para os artefactos transportados para o interior pelo tsunami.

Essas novas descobertas sugerem uma resposta ao mistério representado pelas inscrições encontradas em Écija que indicam o estatuto de Baetica como prouincia immunis – província isenta de impostos. Como observam os autores do estudo Patio de Banderas, este estatuto foi comumente concedido após desastres naturais. Como, por exemplo, um tsunami. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências Internacionais”


 

terça-feira, 30 de março de 2021

Japão – Fukushima 10 anos depois


O tempo parece ter parado há uma década nas cidades ao redor da danificada central nuclear japonesa de Fukushima. A maioria permanece quase deserta, apesar dos esforços das autoridades para descontaminar e revitalizar a área desde o desastre nuclear que foi desencadeado pelo grande terramoto e tsunami em 11 de Março de 2011.

Ruas recém pavimentadas, mas vazias, e novas estações de trem sem um único passageiro coexistem na área de acesso restrito, onde residências e empresas também permanecem abandonadas.

Traços do acidente que forçou a evacuação de mais de 160 mil pessoas e o fechamento de cidades inteiras devido à contaminação radioactiva ainda são visíveis nas áreas afectadas, onde o governo japonês investiu somas multimilionárias para tentar restaurar o senso de normalidade que ainda parece longe.

Coincidindo com o 10º aniversário do desastre, a prefeitura de Fukushima foi escolhida para sediar o início da maratona da tocha olímpica no Japão, que culminará com a abertura dos Jogos de Tóquio, programada para 23 de Julho.

A maratona está a passar por cidades no raio de 20 km ao redor da central Fukushima Daiichi, que foi evacuada após o acidente. Até há um ano, a maioria delas era designada como zonas de “difícil regresso” devido aos níveis excessivos de resíduos radioactivos que emanavam da planta.

Partes dessas cidades foram declaradas habitáveis ​​novamente pelas autoridades após árdua limpeza e descontaminação, e equipadas com novas infra-estruturas como centros cívicos, bibliotecas e estações ferroviárias com o objectivo de trazer a população de volta.

Mas o acesso à maioria dos municípios ainda é restrito devido à alta contaminação radioactiva. Cerca de 337 quilómetros quadrados ainda são designados como zonas de evacuação, mantendo mais de 36 mil pessoas deslocadas.

O embelezamento das zonas por onde está a passar a tocha incomoda algumas pessoas, como Yukiko Mihara porque sente que as autoridades e alguns moradores da área “querem fingir que as consequências da catástrofe não existem”.

Após o acidente, ela diz que sua família foi forçada a fechar um estabelecimento comercial em Namie e mudar-se para outra área do Japão, onde ainda residem.

Yasushi Niitsuma, dono de um restaurante na mesma cidade, que mal recuperou 10% de sua população de uma década atrás, diz: “Parece que eles querem trazer a rota da tocha para mostrar a reconstrução, mas a reconstrução nem sequer foi concluída.”

Numa escola abandonada em Namie que está prestes a ser demolida, os quadros negros das salas de aula ainda mostram a data, escrita a giz, que mudaria o destino desta região.

Futaba, uma cidade que abriga as instalações nucleares de Daiichi, tinha 7000 residentes, todos evacuados após o acidente, e nenhum deles conseguiu regressar.

Em frente à estação ferroviária, murais coloridos pintados por artistas japoneses – um deles com a mensagem “Lá vamos nós!” – aguarda visitantes.

No bairro, as casas são invadidas pela vegetação e cercadas por objectos do quotidiano, e roupas, calçados e outros bens cobertos de poeira podem ser vistos dentro de lojas com telhados e janelas quebradas.

De acordo com dados oficiais, só em 2019, o governo regional gastou 2,7 mil milhões de USD em novos projectos de infra-estrutura, recuperação económica e promoção de seus produtos para separá-los do estigma de contaminação nuclear.

Parte desse montante foi usada para reconstruir o trecho Tomioka-Namie da linha férrea Joban (que atravessa o nordeste do Japão), que foi reaberta em Março de 2020 após nove anos.

Durante uma visita à área, a Efe não conseguiu ver nenhum passageiro durante o trânsito do trem por essas estações, que exibem indicadores electrónicos do nível de radioactividade ambiental em sua entrada.

“Receio que após estes 10 anos, ainda virão tempos mais difíceis” diz Mihara, que acredita que “estão a ser ignorados os sentimentos” das pessoas que viviam na área afectada. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências Internacionais”


 

domingo, 1 de novembro de 2020

Portugal - Há 265 anos, a terra tremeu e 85% dos edifícios de Lisboa ficam completamente destruídos

 


A 1 de novembro de 1755, há portanto 265 anos, a cidade de Lisboa quase desaparecia por causa do grande sismo e do tsunami que se seguiu, que segundo relatos da época, pode ter atingido 20 metros de altura. Os mais de 10.000 incêndios que se seguiram, mudaram por completo a fisionomia de uma cidade…

O terramoto de Lisboa teve um enorme impacto político e socio-económico na sociedade portuguesa do século XVIII, dando origem aos primeiros estudos científicos do efeito de um sismo numa área alargada, marcando assim o nascimento da sismologia moderna. O acontecimento foi largamente discutido pelos filósofos iluministas, como Voltaire, inspirando desenvolvimentos significativos no domínio da teodiceia e da filosofia do sublime.

O terramoto

O terramoto fez-se sentir na manhã de 1 de Novembro pelas 9:30, dia que coincide com o feriado do Dia de Todos-os-Santos. A data contribuiu para um alto número de fatalidades, visto que ruas e igrejas estavam cheias de fiéis que acorriam aos serviços religiosos.

O epicentro não é conhecido com precisão, havendo diversos sismólogos que propõem locais distanciados de centenas de quilómetros. No entanto, todos convergem para um epicentro no mar, entre 150 a 500 quilómetros a sudoeste de Lisboa.

Relatos da época afirmam que os abalos foram sentidos, consoante o local, durando entre seis minutos a duas horas e meia, causando fissuras enormes de que ainda hoje há vestígios em Lisboa. O padre Manuel Portal é a mais rica e completa fonte sobre os efeitos do terramoto, tendo descrito, detalhadamente e na primeira pessoa, o decurso do terramoto e a vida lisboeta nos meses que se seguiram. Poucas dezenas de minutos depois, um tsunami, que atualmente se supõe ter atingido pelo menos seis metros de altura, havendo relatos de ondas com mais de 10 metros, fez submergir o porto e o centro da cidade, tendo as águas penetrado cerca de 250 m.

O tsunami

Lisboa não foi a única cidade portuguesa afetada pela catástrofe. Todo o sul de Portugal, sobretudo o Algarve, foi atingido e a destruição foi generalizada. Além da destruição causada pelo sismo, o tsunami que se seguiu destruiu no Algarve fortalezas costeiras e habitações, registando-se ondas com até 20 metros de altura. As ondas de choque do sismo foram sentidas por toda a Europa e norte da África. As cidades marroquinas de Fez e Meknès sofreram danos e perdas de vida considerávei. Os maremotos originados pela movimentação tectónica varreram locais desde do norte de África (como Safim e Agadir) até ao norte da Europa, nomeadamente até à Finlândia e através do Atlântico, afetando os Açores e a Madeira e locais tão longínquos como Antígua, Martinica e Barbados. Diversos locais em torno do golfo de Cádis foram inundados: o nível das águas subiu repentinamente em Gibraltar e as ondas chegaram até Sevilha através do rio Guadalquivir.

De uma população de 300 mil habitantes em Lisboa, crê-se que 90 mil morreram, 900 das quais vitimadas diretamente pelo tsunami. Cerca de 85% das construções de Lisboa foram destruídas, incluindo palácios famosos e bibliotecas, conventos e igrejas, hospitais e todas as respetivas estruturas. Várias construções que sofreram poucos danos pelo terramoto foram destruídas pelo fogo que se seguiu ao abalo sísmico, causado por lareiras de cozinha, velas e mais tarde por saqueadores em pilhagens dos destroços.

Na obra História Universal dos Terramotos, de Joaquim José Moreira de Mendonça (1758), que apresenta o primeiro balanço sistemático dos efeitos, refere-se que as águas alagaram o bairro de S. Paulo e que esse “espanto das águas” difundiu o perigo de que vinha o mar cobrindo tudo:

Havia muita gente buscado as margens do Tejo, por se livrarem dos edifícios, cheios de horror da vista das suas ruínas. Eis que de repente entra o mar pela barra com uma furiosa inundação de águas, que não fizeram igual estrago em Lisboa que em outras partes, pela distância que há de mais de duas léguas desta Cidade à foz do rio. Contudo, passando os seus antigos limites se lançou por cima de muitos edifícios e alagou o bairro de S. Paulo. Cresceu em todos os que haviam procurado as praias o espanto das águas, e o novo perigo se difundiu por toda a Cidade, e seus subúrbios, com uma voz vaga, que dizia que vinha o mar cobrindo tudo.

A recém-construída Casa da Ópera, inaugurada apenas seis meses antes, foi totalmente consumida pelo fogo. O Palácio Real, que se situava na margem do Tejo, onde hoje existe o Terreiro do Paço, foi destruído pelos abalos sísmicos e pelo tsunami. Dentro, na biblioteca, perderam-se 70 mil volumes e centenas de obras de arte, incluindo pinturas de Ticiano, Rubens e Correggio. O precioso Arquivo Real com documentos relativos à exploração oceânica e outros documentos antigos também foram perdidos. O terramoto causou ainda danos, ou chegou a destruir completamente, as maiores igrejas de Lisboa, especialmente a Sé de Lisboa, e as Basílicas de São Paulo, Santa Catarina, São Vicente de Fora e a da Misericórdia. As ruínas do Convento do Carmo ainda hoje podem ser visitadas no centro da cidade. O túmulo de Nuno Álvares Pereira, nesse convento, perdeu-se também. O Hospital Real de Todos os Santos foi consumido pelos fogos e centenas de pacientes morreram queimados. Registos históricos das viagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo foram perdidos, e incontáveis construções foram arrasadas (incluindo muitos exemplares da arquitectura do período Manuelino em Portugal).

O terramoto na política

Na política, o terramoto foi também devastador. O ministro do Rei D.José I, o Marquês de Pombal era favorito do rei, mas não do agrado da alta nobreza, que competia pelo poder e favores do monarca. Depois do 1º de Novembro, a eficácia da resposta do Marquês do Pombal (cujo título lhe é atribuído em 1770) garante-lhe um maior poder e influência perante o rei, que também aproveita para reforçar o seu poder e consolidar o Absolutismo.

Isto leva a um descontentamento da aristocracia que iria culminar na tentativa de regicídio e na subsequente eliminação dos Távoras. Para além do agravamento das tensões políticas em Portugal, a destruição da cidade de Lisboa frustrou muitas das ambições coloniais do Império Português de então

O terramoto e a filosofia iluminista

O ano de 1755 insere-se numa era fulcral de uma grande transformação social: a Revolução Industrial, o Iluminismo, o Capitalismo lançam as bases de uma sociedade moderna em alguns países da Europa Ocidental. O terramoto influenciou de forma determinante muitos pensadores europeus do Iluminismo. Foram muitos os filósofos que fizeram menção ou aludiram ao terramoto nos seus escritos, dos quais se destaca Voltaire, no seu Candide e no Poème sur le désastre de Lisbonne (“Poema sobre o desastre de Lisboa”). A arbitrariedade da sobrevivência foi, provavelmente, o que mais marcou o autor, que satirizou a ideia, defendida por autores como Gottfried Wilhelm Leibniz e Alexander Pope, de que “este é o melhor dos mundos possíveis”; como escreveu Theodor Adorno, o terramoto de Lisboa foi suficiente para Voltaire refutar a teodiceia de Leibniz” (Negative Dialectics, 361). In “Mundo Português” - Portugal