Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Cabo Verde – Língua cabo-verdiana e Língua portuguesa: Uma ligação perene

Temos vindo a reflectir quase que diariamente – passe o exagero – sobre a evolução, sobre a transformação e sobre a vitalidade que o nosso idioma ilhéu tem vindo a demonstrar, tanto na oralidade como na escrita; e a sua aproximação cada vez mais audível da Língua portuguesa actual.

Antes de continuar, gostaria de aqui fazer uma espécie de comparação, entre um filho que mesmo atingida a maioridade, não deixa a casa paterna; assim a Língua cabo-verdiana, que a cada dia que passa ilustra tanto na sua expressão, sobretudo oral, como também escrita, um léxico e uma construção sintáctica, que estão cada vez mais próximos da norma actual da Língua portuguesa. Aliás, sua principal matriz. Daí que o crioulo destas ilhas seja considerado de “base portuguesa” com válidos fundamentos históricos e etimológicos.

Vale aqui repetir que, nunca a Língua cabo-verdiana, o crioulo das ilhas, esteve tão próximo e tão dependente da Língua portuguesa como o está na hora actual, fazendo daquela língua o seu “banco fornecedor” (principal) de vocábulos e de construções morfossintácticas.

Poderão, eventualmente, dizer-me que o fenómeno apenas é observável no meio urbano. Direi que não, pois, as “fronteiras” entre o campo e a cidade, hoje mais do que nunca, estão muito esbatidas no que toca à recepção da televisão, da rádio, dos jornais, todos órgãos que circulam regular e abrangentemente no espaço nacional. E os mesmos níveis de ensino universal, obrigatório, vamos encontrá-los tanto na cidade como no campo. De destacar ainda, a aproximação urbana/rural, trazida pelo desenvolvimento imprimido pelas autarquias locais, pelo fenómeno de uma migração crescente dos nossos jovens do meio rural para a cidade, normalmente designado “êxodo rural”, e ainda por um regular trânsito de uma população flutuante para os principais centros urbanos. A confluência de todos estes factores, conjugados com a tendência mimética de seguir o modelo de fala usada na comunicação social, apresam o crioulo a revestir-se gradualmente de modos e de construção similares aos usados na Língua portuguesa.

Ora bem, a vitalidade e a evolução do nosso crioulo, tem residido também, nessa apropriação que ele vem fazendo da língua portuguesa e da maneira como a incorpora na sua fala e na sua escrita hodiernas.

Estamos cientes de que tal acontece e tem origem em vários factores, dos quais, apenas citamos os considerados mais evidentes: a filiação natural,  a contínua e ininterrupta ligação da Língua cabo-verdiana à Língua portuguesa; a escolarização alargada e universal, que leva a uma maior exposição e contacto dos aprendentes com a Língua portuguesa; uma cobertura nacional dos meios da comunicação social, com os principais programas (noticiários, debates, notícias do desporto, artigos de opinião) em Língua portuguesa; o fenómeno das telenovelas faladas em português, a já denominada globalização, entre outros factores.  E como resultado de tudo isso, temos que o falante do cabo-verdiano escolarizado, vem incorporando com uma notória visibilidade e intensidade, expressões portuguesas “ipsis verbis” com o eventual fito de enriquecer ou precisar a sua mensagem oral. 

Clamo, pois, a vossa atenção para que as escutemos quando presentes em entrevistas de rua ou/e de estúdio, nos discursos políticos; nos programas de educação e de saúde, entre outras participações, radiodifundidas e televisivas, em que ouvimos, diariamente, o falante cabo-verdiano ilustrado ou academicamente habilitado, expressando-se na sua Língua materna, através de vocábulos, de articuladores do discurso, directamente provenientes da Língua portuguesa actual. As mais das vezes, como atrás referimos, sem qualquer alteração ou, transformação (na passagem do português para o crioulo) fonética ou morfológica dos vocábulos.

O mais interessante desta fenomenologia linguística cabo-verdiana sincrónica, é que vão desaparecendo os monemas lexicais e gramaticais; a corruptela dos semantemas; os vestígios que ainda subsistem na Língua cabo-verdiana, cuja origem remonta ao português arcaico do século XV, trazido pelos portugueses; e os substractos das várias Línguas das terras e dos países da Costa africana – Felupe, Jalofo, Balanta, Papel e Bijagó - que aqui aportaram na boca dos escravos.  De facto, já se podem considerar residuais ou, pelo menos, em pouca quantidade, no falante nacional, escolarizado.  Sim, esses adstractos e substractos que conformavam de maneira notória, a Língua materna cabo-verdiana, tendem a desaparecer no modo de falar hodierno do cabo-verdiano. Repito: do falante nacional escolarizado.

Curioso é que se trata de um processo que já havia sido previsto por Baltazar Lopes da Silva, quando, em 1947 no ensaio «Uma Experiência Românica nos Trópicos» afirmava a determinada altura: “(…) um esforço generalizado de aristocratização, cada vez maior, à medida que maior for o derrame da instrução e forem maiores os contactos com a cultura europeia.”

E continuava o nosso eminente filólogo, referindo-se às senhoras e às raparigas “que fizeram o seu Liceu e que contavam em crioulo os romances e folhetins que liam (…) crioulo especial, repleto de fenómenos linguísticos reinóis.”  Fim de transcrição. Ver obra acima citada.

Abro aqui um pequeno parêntesis para ilustrar o facto interessante de Baltazar Lopes da Silva se referir à leitora (e não à contraparte masculina) dos romances recontá-los em crioulo e, deste modo, voltarmos àquela ideia que se tinha em Cabo Verde de que o português era a fala masculina e o crioulo a fala feminina, nas ilhas. Fecho o parêntesis.

O que me espanta – enquanto leitora dos escritos filológicos de Baltazar Lopes da Silva – são a sua profundidade filológica e a sua actualidade, actualidade aliás, que residiu na capacidade extraordinária de prever fenómenos linguísticos, no que ao crioulo cabo-verdiano concernem.

Para além do mais, é curioso o facto conclusivo que B. Lopes da Silva retira da fala crioula na boca do cabo-verdiano escolarizado: (…) do impulso inovador que extrai o seu vigor do profundo sentimento aristocratizante de aproximação do padrão linguístico metropolitano”.

Nota a destacar, a similitude com o que se passa nos tempos que correm. De facto, actualmente, tornou-se muito mais fácil, para um falante de Língua portuguesa, entender o seu interlocutor cabo-verdiano que não se expresse totalmente em português, visto que a Língua cabo-verdiana se aproximou e vem se aproximando – diria que quase acelerada e quantiosamente (perdoem-me o eventual exagero) – do português. Aliás, tenho ouvido de amigos e conhecidos, falantes da Língua portuguesa que nos visitam a isso referirem-se com alguma frequência.

Pois bem, são observações que faço de forma rotineira, sem qualquer juízo de valor e de forma objectiva, tentando assim, convidar os mais interessados, linguistas ou não, simples falantes do nosso idioma materno e da Língua portuguesa, a interpretar estes sinais linguísticos e dinâmicos (todas as Línguas são corpos dinâmicos em transformação, sincrónica e diacrónica, constantes) que projectam a Língua cabo-verdiana.

Por um lado, essas apropriações, importações ou até mesmo empréstimos (?) que o nosso Crioulo faz de vocábulos, de construções sintácticas e de articuladores do discurso, da Língua  que lhe esteve na origem, só demonstram a riqueza, a  vitalidade crescente do mesmo, o seu grau de desenvolvimento, e a resolução das suas necessidades em matéria semântica ao ir à Língua portuguesa satisfazê-las de cada vez que surge uma situação elocutória em que a Língua cabo-verdiana, não possuindo recursos endógenos, vai  busca-los à Língua matriz. Até aqui tudo certo.

Por outro lado, temo que a tarefa do professor que tem a seu cargo o ensino da Língua portuguesa, seja agora mais complexa e mais difícil, – ainda que com os métodos que se usam para o ensino de uma Língua viva, de comunicação, presente entre nós – dada a mistura e a contaminação dos dois idiomas. Ainda que seja ensinada com os métodos aplicados a uma língua segunda, a uma língua estrangeira, o entranhamento e o entrosamento entre as duas línguas, a cabo-verdiana e a portuguesa, são de tal monta que as duas, na boca do aprendente, se confluem, se misturam e, naturalmente, se contaminam.

Nesta oportunidade, acrescentarei que o professor da disciplina da Língua portuguesa, deve estar bem atento a esses sinais e munido de uma didáctica específica para o ensino do português – Língua viva, Língua segunda e Língua veicular do ensino – e que desta forma, consiga levar a bom porto os objectivos esperados da disciplina. De recordar que estes objectivos, deverão estar focados na compreensão, na leitura, na interpretação de textos e no aperfeiçoamento continuado da expressão escrita e oral do aprendente.

Para finalizar, solicitarei – apesar da minha formação – como disse alguém: “concedam-me a liberdade própria de um artigo de opinião, sem as obrigações de um ensaio.”  porque não é deste género de texto – ensaio – que se trata. É de apenas um texto de opinião. Não vá alguém, algum comentador nos media, confundir (como já aconteceu) “Artigo de Opinião” com “Ensaio” ou “Tese Universitária”. Ondina Ferreira – Cabo Verde in coral-vermelho.blogspot


sábado, 25 de novembro de 2023

Ilha do Príncipe - “Lung’ie, Lunge No” o primeiro dicionário do crioulo da ilha


São Tomé – O Presidente do Governo da Região Autónoma do Príncipe, Filipe Nascimento presidiu à cerimónia de lançamento do Livro “Lung’ie, Lunge No”, o primeiro dicionário do crioulo da ilha do príncipe, que resulta da investigação de vários anos dos académicos Ana Lívia Agostinho e Gabriel Araújo.

Na sua intervenção, Filipe Nascimento realçou o empenho do Governo Regional no resgate, preservação e promoção da nossa Cultura, relembrando o historial de programas radiofónicos em Lung’ie, introdução do Lung’ie nas escolas, sendo que neste ano letivo estendeu-se para o curso noturno, e que agora passamos a contar com mais esta ferramenta didática para acelerar a aprendizagem.


Além do líder do governo regional, a cerimónia contou com a presença de várias personalidades da sociedade, autoridades regionais, grupos culturais, professores, alunos, fazedores da Cultura, Ministro Conselheiro da Embaixada do Brasil.

Sendo uma língua crioula de base portuguesa, o lung’Ie é falado na Ilha do Príncipe, enquanto outros dois crioulos são-tomenses, designadamente, santomé e angolar, são falados na ilha de São Tomé, neste arquipélago de língua oficial portuguesa. Ricardo Neto – São Tomé e Príncipe in “STP Press”




 

sábado, 26 de agosto de 2023

Cabo Verde - Cantora nova-iorquina Kavita Shah lança single em crioulo “Angola” em homenagem a Cesária Évora

Cidade da Praia – A cantora nova-iorquina Kavita Shah lançou o seu primeiro single em crioulo intitulado “Angola” em homenagem a Cesária Évora, cantada em “blues”, um ritmo conhecido na música tradicional de Cabo Verde.

“Angola” é uma das faixas do álbum “Cape Verdean Blues” desta cantora nova-iorquina, que será lançado a 15 de Setembro, pela nova editora musical global, Folkalist Records, de acordo com um comunicado enviado à Inforpress.

O álbum, de acordo com a mesma fonte, tem algumas mornas e coladeiras tradicionais cabo-verdianas, uma homenagem à “carismática e irreverente vocalista” Cesária Évora e também uma carta de amor “deslumbrante” para Cabo Verde e o povo “acolhedor”.

Esta cantora nova-iorquina, que já actuou no Atlantic Music Expo (AME) este ano em Cabo Verde, vai estar novamente no arquipélago no mês de Novembro para actuações no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na cidade da Praia, e em São Vicente.

Kavita Shah é considerada uma “cidadã global e interlocutora cultural” cujo trabalho envolve um “profundo engajamento” com a tradição do jazz enquanto aborda e avança às suas sensibilidades globais. In “Inforpress” – Cabo Verde

 

domingo, 20 de agosto de 2023

Cabo Verde - Primeiro romance de N’Gosi Nelly, “No Colour Love (Kriolidades)” com lançamento marcado para final do mês

O escritor N’Gosi Nelly de seu nome próprio Adolfo Lopes já tem pronto o seu primeiro romance intitulado “No Colour Love (Kriolidades)”. Trata-se de um projecto que reflecte sobre as origens da língua cabo-verdiana. O lançamento deverá acontecer no dia 31 deste mês, na Cidade da Praia

Com este livro, N´Gosi Nelly quer resgatar a memória para reflectir sobre as origens da nossa língua cabo-verdiana, procurando os diversos elementos linguísticos que estiveram na sua formação como o português, espanhol, italiano, wolof, mandinga e fula.

Segundo o autor, a obra surgiu da necessidade de dar a sua humilde contribuição para entendermos como é que a língua cabo-verdiana surgiu.

“O livro relata a origem da língua cabo-verdiana baseada na invasão do pirata inglês Francis Drake, no ano de 1585, na Ribeira Grande de Santiago. A língua cabo-verdiana tem influências de línguas europeias como o português, espanhol, italiano, e do lado das línguas africanas temos o wolof, fula e mandinga. Ou seja, é desse cruzamento de povos e de línguas que surgiu a língua cabo-verdiana”, relata.

A obra está dividida em três capítulos: No 1º capítulo: “Kual ke prese de liberdéd?”, no 2º capítulo: “Es ka tá manga di nos” e no 3º capítulo “Dia ke sol nasce igual pa nos tud”.

Adolfo Lopes conta que o livro já está feito, mas que estão a fazer um sketch de 15 minutos, em parceria com o grupo teatral Fladu Fla. “Vamos fazer um sketch sobre o livro, porque o objectivo do mesmo é fazer um filme sobre a obra. Já estabelecemos a parceria com o grupo teatral Fladu Fla”.

“Também temos uma parceria com a estilista Gessilene Alves, que será responsável por todos os vestuários daquela época. Também temos a parceria com a Mizé Varela que ficará responsável pelas bijuterias daquela altura”, explica.

Para Adolfo Lopes, o objectivo do livro é fazer a divulgação do nosso património material, porque é importante fazermos a requalificação dos monumentos. “Mas este livro acaba por criar uma história em torno dos monumentos, ou seja, este livro tem a componente de valorização do nosso património”.

O prefácio da obra é da professora da Universidade de Cabo Verde, Maria Baptista dos Céus.

Adolfo Lopes Varela (N’Gosi Nelly) é escritor, poeta e investigador, natural de Tarrafal de Santiago. Licenciado em Ciências Políticas e Relações Internacionais, detentor de um curso de especialização tecnológica em Gestão Administrativa de recursos humanos, cursos obtidos na Universidade Lusófona de Lisboa.

Também é especializado em direitos humanos na vertente de igualdade e equidade do género, pela Universidade Metropolitana de Manchester, Inglaterra, Reino Unido.

A sua escrita é influenciada pela poetisa Ineida Nelly, e também pela escritora e dramaturga nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. O autor optou por fundir as suas maiores referências num nome só N’Gosi Nelly.

Em 2014 publicou a sua primeira obra literária “Rabés di Mundu” fruto de uma participação num concurso literário para jovens escritores, promovido pela Corpos Editora, da Cidade do Porto, Portugal. Saiu como vencedor do concurso e foi galardoado pela editora mencionada anteriormente.

No ano de 2020, N’Gosi Nelly publicou a sua segunda obra literária “Sanpabadiu” desta vez livro que veio pelas mãos da Manga Editora. O livro é fruto de uma pesquisa de campo que teve como primeira fase as ilhas de Santo Antão, São Vicente e Santiago e de uma pesquisa documental relacionada com as mencionadas ilhas.

Em 2022 fez parte de uma antologia poética intitulada “Canja pa nos alma” projecto dirigido por Destaney Andrade, livro que conta com a participação de mais de 27 poetas cabo-verdianos. De realçar que em 2021 começou-se a fazer um estudo relacionado com a variedade linguística da ilha do Maio.

Estudo que teve o mais alto patrocínio e envolvimento da Câmara Municipal do Maio. Em Junho de 2022 foi feita a primeira fase do estudo que teve como base a variedade linguística da ilha do Sal, à semelhança da ilha do Maio.

Este trabalho de investigação conta com o envolvimento da Manga Editora, editora que procura trabalhar em prol da promoção e valorização da língua Materna o Crioulo de Cabo Verde, e que no qual será feito o segundo volume do livro “Sanpabadiu” tendo como objecto de estudo as ilhas do Sal, Boa Vista e Maio. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


sexta-feira, 12 de maio de 2023

Cabo Verde - Investigador propõe debate envolvendo profissionais da comunicação social na assunção e promoção da língua materna

Cidade da Praia – O investigador Hans-Peter (Lonha) Heilmair destacou hoje o contributo que os profissionais da comunicação social em Cabo Verde poderão dar na promoção e divulgação do crioulo, considerando ser “urgente” um debate profundo sobre esta questão.

Hans-Peter (Lonha) Heilmair fez estas declarações à imprensa, à margem da conferência “Cuidar bem do Crioulo – uma responsabilidade dos jornalistas?”, realizada esta quinta-feira, na sede da Associação Sindical dos Jornalistas de Cabo Verde (AJOC), na Praia.

A “conversa aberta”, conforme explicou, visa sensibilizar e desafiar os jornalistas de Cabo Verde para o debate da temática “Cuidar bem do Crioulo – uma responsabilidade dos jornalistas?”, tendo neste sentido considerado que os profissionais da comunicação social têm uma responsabilidade no que se refere a promoção da língua materna e assumem um papel-modelo junto dos telespectadores, ouvintes e leitores nos diferentes órgãos da comunicação social.

Motivado pelo seu interesse pela língua materna cabo-verdiana, Hans-Peter (Lonha) Heilmair, que é de origem alemã, defendeu a necessidade de a língua materna ser cada vez mais valorizada.

“Se não fizermos algo agora o crioulo corre risco de ser descrioulizado e será tarde demais e as coisas têm de ser feitas agora, temos de agir, fazer alguma coisa”, afirmou, considerando ser importante haver formação e troca de ideias envolvendo as diferentes camadas da sociedade civil e tomada de consciência sobre a importância do crioulo.

Disse ainda que é chegado o momento de Cabo Verde dar ao crioulo o estatuto que merece e definição de estratégias linguísticas claras visando salvaguardar a identidade do próprio crioulo.

Para além de professor de Crioulística da Universidade de Santiago, em Assomada, Hans-Peter (Lonha) Heilmair é professor de Crioulo de Cabo Verde, em Lisboa, e recorre com frequência às emissões do “Cabo Verde Magazine” nas suas aulas, onde sobressai, a título de exemplo, a referida necessidade dessa distinção.

Por seu turno, Fátima Fialho, que é membro de direcção da Associação da Língua Materna Cabo-verdiana (ALMA-CV) destacou a relevância deste tema realçando ser importante que a sociedade cabo-verdiana valorize a língua crioula como forma a assumir também a sua identidade.

“Mesmo em relação a oralidade, muitas pessoas têm falado o crioulo portuguesado e isso demonstra muitas vezes que há um sentimento de inferioridade. Utilizamos o crioulo quase que com vergonha, mesmo em alguns fóruns tem pessoas que pedem desculpas por estarem a falar em crioulo. A nossa preocupação é que haja valorização da língua materna como oficial e para que a mesma seja falada como deve ser”, declarou.

Defendeu igualmente, a necessidade da consciencialização da língua materna como língua cabo-verdiana, referindo que a mentalidade dos cabo-verdianos está muito colonizada e que é preciso haver um reconhecimento social. In “Inforpress” – Cabo Verde

 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Cabo Verde - Quer proteger e promover a língua portuguesa como património

Esforços em nível interno e externo são revelados à ONU News pelo presidente José Maria Neves. O Chefe de Estado cabo-verdiano destaca como projeta crescimento de falantes de língua portuguesa em paridade com o crioulo, a língua nacional


Proteger a língua portuguesa como património é uma visão de Cabo Verde. Uma das medidas para alcançar esse propósito é o grau de exigência aos alunos do ensino do segundo grau, no país que acolhe o Instituto de Língua Portuguesa, IILP, e que também tem a sua língua nacional, o crioulo.

A declaração é do presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, que concedeu uma entrevista à ONU News, em abril, quando falou da convivência com ambas as línguas no arquipélago do oeste da África.

Dois patrimónios

“Na verdade, Cabo Verde é um país bilíngue. Temos a língua materna cabo-verdiana, o crioulo, e temos a língua portuguesa. São dois patrimónios do país e as duas línguas devem crescer em paridade.”

Cabo Verde distingue-se por ter uma diáspora com o dobro do número de residentes nacionais. Foi à margem do encontro com cidadãos cabo-verdianos, nos Estados Unidos, que o presidente Neves falou à ONU News sobre o Dia da Língua Portuguesa e da política em relação ao idioma.

Dados da Organização Internacional para Migrações, OIM, revelam que 260 mil cabo-verdianos vivem nos Estados Unidos. O número equivale a 37% dos 700 mil cidadãos de Cabo Verde que residem no exterior. Somente Portugal, abriga 100 mil cabo-verdianos.

Proficientes em línguas

As diásporas são importantes por mobilizar recursos para a terra de origem, tanto em termos profissionais como de remessas. No antes conhecido como país de emigração, e agora com um número crescente de imigrantes, o idioma é essencial.

“É claro que na diáspora geralmente as pessoas falam a língua materna e a língua do país de acolhimento. Temos de trabalhar para que, no final do ensino secundário, as pessoas estejam efetivamente proficientes na língua cabo-verdiana e proficiente na língua estrangeira e se puderem, se possível também, ter fluência em outras línguas como o inglês e o francês.”

O presidente José Maria Neves apontou ainda o esforço do Governo de Cabo Verde em projetar a língua portuguesa em entidades multilaterais. 

“Ser multilíngue é uma riqueza. Temos que trabalhar para que o nosso património seja valorizado e se afirme no contexto nacional. É nossa língua oficial também, e no contexto internacional, onde nas Nações Unidas, na União Africana, na Cedeao, e em outros fóruns internacionais fazemos também um esforço enorme para promover e para se falar a língua portuguesa.”

Recentemente, Cabo Verde confirmou o retorno massivo de membros da diáspora motivados a se envolver no desenvolvimento do seu país.

As autoridades adotaram o estatuto do investidor imigrante para que junto a outras medidas incentive a participação dos cabo-verdianos no estrangeiro no desenvolvimento do seu país. ONU News – Nações Unidas     


quarta-feira, 19 de abril de 2023

Cabo Verde – E viva a nossa Língua comum!

Tive a grata satisfação de saber que o Parlamento cabo-verdiano classificou recentemente, a Língua portuguesa como património cultural imaterial de Cabo Verde.

E mais contente ainda fiquei porque a Iniciativa legislativa, a proposta de Lei partiu de uma jovem Deputada da Nação, Mircéa Delgado, o que significa que a causa da Língua portuguesa nestas ilhas está bem entregue. Tem continuadores.

As minhas calorosas felicitações à Dra. Mircéa Delgado!  Estendo as mesmas felicitações a todos os Deputados que abraçaram e aprovaram o projecto.

De facto, nunca é de mais enaltecer uma das nossas Línguas, no caso a portuguesa, que é, sem dúvida um dos pilares do nosso desenvolvimento cognitivo, académico, científico e tecnológico.

A Língua portuguesa chegou a Cabo Verde, trazida na oralidade, na boca dos marinheiros, dos missionários e na pena dos Cronistas portugueses, que pisaram o solo destas ilhas nos idos anos de 1460 e aqui assentou raízes. Tomou os ares e os modos das gentes das ilhas. Modificou-se, “caboverdianizou-se”, e acabou por dar origem - em contacto com outras línguas, estas vindas apenas na oralidade de escravos do Continente africano - ao Crioulo de Cabo Verde.

Mais tarde, na década de 90 do século XX, o crioulo foi denominado constitucionalmente, Língua cabo-verdiana, a qual, na hora actual se apresenta cada vez mais próxima do português, já não do seculo XVI, mas sim, da norma da Língua matriz do século XXI.

Tudo isso, faz da Língua portuguesa, um verdadeiro tesouro entre nós, pois que não só nos escolarizou, enquanto língua veicular do Ensino nacional, mas também, forneceu quase todo o corpus lexical, verbal e sintáctica do pujante e vivaz crioulo das ilhas.

Se mais não servisse este projecto de Lei ora aprovado no Parlamento nacional, ele tem e terá o mérito de nos trazer à reflexão, a importância e o papel da Língua portuguesa como um bem inalienável destas ilhas atlânticas da Macaronésia.

Para finalizar, reitero as minhas calorosas felicitações aos Deputados da Nação por este acto simbólico de múltiplos significados para os falantes cabo-verdianos. Ondina Ferreira – Cabo Verde in “coral-vermelho.blogspot”

 

sábado, 21 de janeiro de 2023

Cabo Verde - Maioria dos cabo-verdianos quer crioulo como língua oficial

O estudo Afrobarometro, apresentando esta semana na Praia, concluiu que a maioria dos cabo-verdianos passou a defender a oficialização do crioulo como língua nacional a par do português

“Em 2019 tínhamos metade dos cabo-verdianos a favor da oficialização do crioulo e outra metade contra. Neste momento já temos uma larga maioria a aceitar o crioulo como língua nacional e o seu ensino nas escolas”, explicou José Semedo, diretor-geral da Afrosondagem, ao apresentar as conclusões do estudo na Assembleia Nacional.

De acordo com o inquérito, 72% dos inquiridos mostrou-se favorável ao uso do crioulo como “meio oficial de instrução em todas as escolas de Cabo Verde”, 78% apoia o crioulo como “disciplina obrigatória em todas as escolas” do país e 64% concorda com a sua elevação a “língua oficial como o português”.

O estudo Afrobarometro é realizado regularmente nos países africanos e em Cabo Verde - que já realizou em 2002, 2005, 2008, 2011, 2014, 2017 e 2019 - contou com inquéritos de abrangência nacional a 1200 pessoas com mais de 18 anos feitos de 22 de julho a 05 de agosto de 2022, uma margem de erro de 3% e um nível de confiança de 95%, segundo os dados da Afrosondagem, que o realizou. O Afrobarometro constitui uma rede de pesquisa não-partidária que realiza pesquisas de opinião pública sobre democracia, governação, condições económicas e assuntos relacionados em cerca de 37 países africanos. Foram realizadas nove séries de pesquisas entre 1999 e 2022.

O crioulo cabo-verdiano é a língua materna em Cabo Verde, embora com variantes entre algumas ilhas, e nos últimos anos intensificou-se o movimento da sociedade civil a pressionar a sua elevação a língua oficial.

O artigo 9.º da Constituição da República de Cabo Verde, de 1992, define apenas o português como língua oficial, mas também prevê que o Estado deve promover “as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa”.

Um grupo de quase 200 personalidades cabo-verdianas lançou em 2022 uma petição também nesse sentido e pediu apoio ao do chefe de Estado, José Maria Neves, para a promoção da língua, anunciando que pretende criar uma associação em prol do crioulo, não só para a sua oficialização como língua nacional, como para ensino e padronização. In “Milénio Stadium” - Canadá


sábado, 12 de novembro de 2022

Cabo Verde - Criada a ALMA-CV, Associação da Língua Materna que visa “impulsionar a mudança de política linguística”

A associação tem como membros linguistas, investigadores e profissionais de várias áreas, personalidades ligadas à promoção da língua cabo-verdiana, historiadores, artistas, entre outros


Aconteceu ontem, dia 11, na cidade da Praia a Assembleia constitutiva da Associação da Língua Materna Cabo-verdiana, (ALMA-CV). Segundo a linguista e docente universitária Karina Moreira, esta iniciativa surge na sequência da dinâmica suscitada pela Petição para a Mudança da Política Linguística Cabo-verdiana que em abril de 2021, foi entregue ao antigo Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca.

Na altura, professores e investigadores de línguas crioulas, professores e investigadores de português enquanto língua segunda, português em África, historiadores, artistas, pessoas que trabalham com línguas, pessoas que já estão sensibilizadas para o tema, mais de 200 personalidades fizeram questão de assinar a petição.

Meses mais tarde, em novembro de 2021, o grupo dos promotores desta petição reuniu-se com o recém-eleito Presidente da República, José Maria Neves, onde voltaram a defender “a oficialização do crioulo e o ensino da língua cabo-verdiana e a sua padronização”.

“Os membros (da associação) são os signatários da petição”, explica Karina Moreira e acrescenta que a iniciativa visa “formalizar o grupo para ter voz legal e ativa” e promover a “mudança de política linguística no país”, bem como a criação de condições para a valorização da língua materna, sendo que além dos signatários mais algumas pessoas foram convidadas para integrar a associação que “estará aberta a todos”.

A Assembleia constitutiva, onde serão apresentados e debatidos os Estatutos e eleitos dos órgãos nacionais da associação, está marcada para as 17H00, no Salão de Banquetes da Assembleia Nacional e vai contar com “46 pessoas em linha e presencialmente”, conforme as exigências legais.

A ALMA-CV tem como membros linguistas, investigadores e profissionais de várias áreas, personalidades ligadas à promoção da língua cabo-verdiana, historiadores, artistas, entre outros.

Depois de eleger os órgãos nacionais, a associação “vai reunir-se para traçar o plano de atividades”, sendo que a missão da ALMA-CV é: “contribuir para a efetivação de uma política linguística, explícita, organizada e planificada, consentânea com a situação sociolinguística de Cabo Verde e com os direitos humanos de natureza linguística, da ciência linguística e da didática das línguas, da atual agenda educativa mundial e da prática linguística dos cidadãos cabo-verdianos.”

Sobre o arranque do ensino experimental da língua cabo-verdiana em algumas escolas do país, a docente da Universidade de Cabo Verde, diz que a equipa da Uni-CV tem estado em contacto com os professores que estão a lecionar esta disciplina e que já manifestaram a sua disponibilidade junto do ministério da Educação para acompanhar os mesmos, tendo em conta que já constaram na prática a “necessidade de capacitação dos professores e seguimento, tendo em conta que nem todos são formados na área da línguas. “O nosso papel tem sido esse, acompanhar os professores que têm tido algumas dificuldades”. In “Balai Cabo Verde” – Cabo Verde






 

terça-feira, 5 de julho de 2022

Índia - “A última dança em Goa”, de Joaquim Correia, editado em inglês

Lançado em 2018, “A última dança em Goa – Música popular nos últimos anos do Estado da Índia Portuguesa” traça o retrato da cultura da antiga colónia até 1961, ano em que Goa, Damão e Diu deixaram de estar sob administração portuguesa. O livro, editado recentemente em inglês, na Índia, traça um paralelismo entre o teatro tradicional de Goa e o teatro de Macau, em patuá


“Once Upon a Time in Goa: Music and Dance in a Charming Region and its Diaspora” é o nome da versão em inglês, recentemente editada na Índia, do livro que Joaquim Correia lançou em 2018 sobre a cultura de influência portuguesa que existiu em Goa, antiga colónia portuguesa, até 1961, e que se intitula “A última dança em Goa – Música popular nos últimos anos do Estado da Índia Portuguesa”.

Joaquim Correia, advogado, professor e autor, traça aqui um “retrato de Goa antes da transição de poder para a Índia”, sobretudo em matéria de música de influência portuguesa. Não são esquecidos os goeses que, em Portugal, contribuem para a preservação desta cultura.

“Em Goa havia uma profusão de anúncios de música de influência portuguesa por todo o lado. Fiquei espantado com isso e resolvi escrever sobre a música de influência portuguesa em Goa até 1961. O livro em português foi editado em 2018, mas depois gerou muito interesse da parte de pessoas em Goa no sentido de editar uma versão em inglês, que saiu há cerca de dois meses.  Não se trata de uma segunda edição do livro porque fiz muitas mudanças, embora haja um paralelismo”, contou Joaquim Correia ao Hoje Macau.

O leitor encontra, logo no primeiro capítulo, a descrição das várias bandas musicais que existiam na altura, bem como a história do aparecimento do rock em Goa. Surgem depois novos elementos sobre a cultura na diáspora, sem esquecer a influência do fado em Goa.

No prefácio, Edgar Valles, antigo presidente da Casa de Goa em Lisboa, destaca que a música sempre esteve muito presente na comunidade, fazendo parte “do dia-a-dia dos goeses”. “Se é verdade que a música tradicional indiana é apelativa a muitas famílias, especialmente para a comunidade Hindu, existe uma forte influência ocidental, especialmente da língua inglesa. O inglês é a língua falada em Goa, por isso a disseminação da música é algo natural. Mas persiste a influência portuguesa”, pode ler-se.

Semelhanças com patuá

“Once Upon a Time in Goa: Music and Dance in a Charming Region and its Diaspora” descreve ainda a semelhança que existe entre o teatro tradicional em Goa, conhecido pelos termos “Teatr” ou “Tiatr” e feito no dialecto Konkani, com o teatro feito em patuá, actualmente preservado graças ao grupo Dóci Papiaçam di Macau.

“Existem ligações porque ambos os teatros têm ligação à revista portuguesa, ambos são teatro de crítica social, têm uma linguagem crioula com influência portuguesa. O que é curioso é que esse teatro está, de novo, a ter muitos espectáculos”, disse Joaquim Correia.

Na obra, é descrito que “há muitas semelhanças com o teatro macaense em patuá”, que constitui “uma ligação emocional entre a comunidade macaense espalhada pelo mundo e Macau”.

Nalini Elvino de Souza, uma das colaboradoras do livro, actualmente a fazer um doutoramento na área da cultura goesa na Universidade de Aveiro, descreve que há cerca de dez palavras em Konkani que são muito semelhantes ao português e que apresentam também alguma semelhança ao patuá, tal como mez (mesa) ou vistid (vestido).

De frisar que Nalini Elvino de Souza faz, para este livro, um levantamento de todos os discos de 75 rotações de música tradicional goesa editados desde a década de 20 até 1961. Andreia Silva – Macau in “Hoje Macau”


segunda-feira, 18 de abril de 2022

Mestiçagem e desmitificação do discurso eurocêntrico

                                                               I

Terceiro livro do professor Sebastião Marques Cardoso, Poéticas da mestiçagem – textos sobre culturas literárias e crítica cultural (Curitiba, Editora CRV, 2014) resume a clivagem que o autor fez em seus estudos a respeito da literatura brasileira a partir do conhecimento de textos de autores oriundos de países africanos de língua oficial portuguesa, o que se deu, em 2009, quando, já doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), atuou como leitor na Embaixada do Brasil na Guiné-Bissau com bolsa oferecida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação vinculada ao Ministério da Educação. À época, auxiliou na docência e na administração da Universidade Amílcar Cabral (UAC) e tornou-se o primeiro assessor científico daquela instituição, na ocasião, partilhada com a Universidade Lusófona da Guiné (ULG). Hoje, a UAC, pública, e a ULG, particular, não estão mais interligadas.

Se durante o período da graduação, do mestrado e do doutorado, Cardoso optou pelo estudo de personagens anônimos da literatura brasileira, considerando-os “figurinos” em João do Rio (1881-1921) e “anti-heróis”, em Oswald de Andrade (1890-1954), a partir da experiência africana ampliou suas reflexões críticas, estudando principalmente a obra do guineense Abdulai Sila (1958), autor de Eterna paixão (1994), que é considerado o primeiro romance de seu país. Como observa o professor Benjamin Abdala Junior, da USP, no prefácio que escreveu para a obra, nestes estudos sobre poéticas da mestiçagem há “reflexões atuais sobre as bases críticas da formação de nosso imaginário nacional e também sobre as que se desenharam nos países africanos de língua oficial portuguesa, na particularidade da Guiné-Bissau”.

Tentar entender como se deu o processo de misturas culturais dos povos colonizados foi a tarefa que o pesquisador escolheu para si, valendo-se de reflexões de estudiosos como Édouard Glissant (1928-2011), nascido na Martinica, departamento francês ultramarino no Caribe, que defendeu a teoria da crioulização, vista como uma segunda globalização, e a da cultura, por meio da mestiçagem, ou seja, da integração forçada (ou não) entre povos originários de vários lugares no mundo. E Glissant o fez em diálogo com as ideias de Frantz Fanon (1925-1961), médico psiquiatra e escritor também martinicano considerado "pai" do nacionalismo africano e inspirador de movimentos de libertação anticoloniais, que procurou analisar as consequências psicológicas da colonização, tanto para o colonizador quanto para o colonizado.

 

                                                               II

Nesse sentido, Cardoso procura trazer à luz outros sistemas de representação na literatura (mistos ou de resistência) “desvalorizados” ou inscritos em espaços-tempos fora da arquitetura crítica do Ocidente, como observa, ou seja, deixados de lado por puro preconceito das elites sociais e econômicas que, como no caso do Brasil, carregam, muitas vezes, na facies suas indisfarçáveis origens genéticas, embora a classe dominante brasileira de hoje ainda não se mostre uma sociedade múltipla, que reúna em números equivalentes negros, mulatos, indígenas e brancos, ficando atrás daquelas de outros países sul-americanos, como Equador, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru e outros, em que os traços étnicos indígenas na população são mais visíveis.

Isso faz supor que a colonização portuguesa na América do Sul não tenha sido tão diferente da inglesa na América do Norte, caracterizada esta pela ocupação violenta do território e exclusão dos povos autóctones. Até porque resquícios dessa linha de atuação violenta ainda se fazem presentes no Brasil do século XXI, onde terras indígenas demarcadas são alvos de roubo de madeira, derrubada de floresta para pastagens e, ainda mais grave, de abertura de picadas e estabelecimento de lotes para a ocupação ilegal dos territórios tradicionais.  

A partir do pensamento de Glissant, Cardoso observa, no ensaio “Dicionário da crioulização”, que há, atualmente, um crescente desgaste de culturas atávicas e a ascendência das compósitas, “seja no Brasil, seja nos países africanos ou em todas as partes do mundo onde o poder global procura incansavelmente asfixiar as culturas locais”. E que esse ambiente compósito resulta em “revoltas, diásporas, tensões sociais e o ressurgimento de outras culturas atávicas, de caráter étnico mais extremo”. Para o ensaísta, essa nova correlação de forças resulta também em experiências imprevisíveis e enriquecedoras, muitas vezes representadas pela voz de um escritor.

É o caso de Abdulai Sila, que, como concluiu o pesquisador, traz em sua literatura em prosa um grande fermento para a investigação do processo de mestiçagem sob a perspectivas da crioulização defendida por Glissant, tema do ensaio “Em louvor da crioulização”. Neste texto, Cardoso analisa o conto “Madjudho”, que consta do livro Mistida (Praia-Mindelo, Centro Cultural Português, 2002), em que o personagem principal, conhecido como Comandante, mesmo tendo tido participação ativa na guerra da independência, tornou-se um sujeito marginal, que não se beneficiou da nova ordem política estabelecida. Nesse sentido, a mensagem que Sila passa, como observa o estudioso, é a de que os filhos da pátria, que ajudaram a consolidar a classe dirigente, teriam sido mal recompensados e abandonados. “O que nos chama a atenção, na fabulação construída por Sila, é justamente a articulação do imaginário, oferecido pela oralidade da língua crioula, e a cultura da escrita”, acrescenta Cardoso.

 

                                                              III

Neste conto, o pesquisador observa que, apesar de escrito em Língua Portuguesa, a projeção de imagens vem do crioulo da Guiné-Bissau, que promove um “encontro de etnias que numa língua étnica ou na língua do colonizador não poderia ter espaço”. E, por meio da escrita em português, é do crioulo que Sila garimpa as imagens que, “por serem crioulas, ou seja, mestiças e imprevisíveis, sempre comunicam, na generalidade, algo muito específico de cada etnia”, acrescenta.

É de se observar que o crioulo é uma língua corrente na Guiné-Bissau e na Casamansa, território pertencente ao Senegal, habitado majoritariamente pela etnia diola, que, há 40 anos pelo menos, luta, por meio de uma guerra civil, por sua independência e filiação à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). E que no século XV e início do século XVI, os escravos que viviam em Lisboa, Algarve e Alentejo provinham dessa região.

Por aqui se vê que as ligações entre os povos de ascendência portuguesa com os daquela região vêm de longe. A ponto de, hoje, o Português constituir língua do ensino obrigatório e do Estado na Guiné-Bissau, embora pequena parcela da população o tenha como língua materna, pois a maioria se expressa mesmo em crioulo, tendo ainda uma grande parcela da população que não sabe se expressar na língua dos pais, muitas vezes portadores de outras línguas étnicas.

Nesse sentido, o livro de Cardoso constitui uma inestimável contribuição não só para o conhecimento da cultura de povos-irmãos, cujo DNA também pode ser encontrado em muitos brasileiros, como para desmitificar o discurso eurocêntrico imposto aos povos coloniais. E, principalmente, subsidiar e incentivar jovens pesquisadores a procurar novas abordagens da questão cultural e social no âmbito das comunidades de Língua Portuguesa.

 

                                                               IV

Nascido em Mirandópolis-SP, Sebastião Marques Cardoso (1974) graduou-se em Letras, em 1996, e fez mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada, em 1999, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Doutorou-se em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em 2007, e concluiu pós-doutorado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela USP, em 2014. É autor também dos livros Oswald de Andrade: anti-heroísmo, literatura e crítica (2010), e João do Rio: espaço, técnica e imaginação literária (2011), publicados pela Editora CRV, de Curitiba.

Trabalha, hoje, como professor adjunto em Teoria da Literatura do Departamento de Letras Estrangeiras e como pesquisador permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras, mestrado e doutorado, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). É presidente e sócio-fundador da Podes – Associação de estudos pós-coloniais e decoloniais no ensino, na cultura e nas literaturas Sul-Sul/UERN.

É fundador e líder do Grupo de Pesquisa em Literaturas de Língua Portuguesa (GPORT), certificado pela UERN. Junto ao grupo de pesquisa, à iniciação científica, à graduação e à pós-graduação, coordena projetos de pesquisa em cultura e representação nas literaturas pós-coloniais de Língua Portuguesa. Adelto Gonçalves - Brasil

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Poéticas da mestiçagem - textos sobre culturas literárias e crítica cultural, de Sebastião Marques Cardoso. Curitiba: Editora CRV, 144 páginas, R$ 48,05, 2014. Site: www.editoracrv.com.br E-mail: sac@editoracrv.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br



 

domingo, 5 de dezembro de 2021

Portugal – Jornal lisboeta “Mensagem” divulga notícias e reportagens em crioulo de Cabo Verde e da Guiné-Bissau

“Jornalismo na kriolu ê um kumeço di narrativa ki ta ben kaba ku um monti di preconceito” – sim, isto é um título em crioulo


Não estranhem, vizinhos e vizinhas, o texto que se segue é em crioulo – crioulo cabo-verdiano. É o pontapé de saída do novo projeto de jornalismo em crioulo feito na Mensagem – apadrinhado por Dino d’Santiago, e a sua plataforma Lisboa Criola e apoiado pela iniciativa europeia Newspectrum, que promove o jornalismo em línguas minoritárias na Europa.

O crioulo, ou os crioulos, cabo-verdiano e guineense, são línguas não oficiais em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, e são falados e cantados correntemente em Lisboa – e embora não haja números oficiais para uma avaliação, é bem possível que seja a segunda língua mais falada da cidade. Aqui, fazemos-lhe uma homenagem, no caminho de um jornalismo mais inclusivo e de uma cidade mais misturada.

Por isso, nesta estreia, falamos com o padrinho da Nova Lisboa, crioula, e desta iniciativa, Dino D’Santiago. Esta é a cidade que ele canta, a mais crioula da Europa, onde ele descobriu a sua africanidade e origens, e também, o crioulo dos seus pais, cabo-verdianos (ele nasceu em Quarteira). Dino acaba de lançar o disco novo, Badiu, e esta entrevista é sobre o disco, neste contexto.

Leia mais aqui. Karyna Gomes – Guiné-Bissau in “Mensagem”

Karyna Gomes - É a jornalista responsável pelo projeto de jornalismo crioulo na Mensagem, no âmbito do projeto Newspectrum – em parceria com o site Lisboa Criola de Dino d’Santiago. Além de jornalista é cantora, guineense de mãe cabo-verdiana, e escolheu Lisboa para viver desde 2011. Estudou jornalismo no Brasil, e trabalhou na RTP, rádios locais na Guiné-Bissau, foi correspondente do Jornal “A Semana” de Cabo verde e Associated Press, e trabalhou no mundo das ONG na Unicef e SNV.


sábado, 28 de agosto de 2021

Lusofonia – Cantora Yasmine apresenta “Pega Nha Mon” cantado em português e crioulo da Guiné-Bissau

Um ano depois de ter lançado a música “Sempre Sonhei” com a participação do cantor angolano Rui Orlando, Yasmine regressa com um novo single “Pega Nha Mon”, produzido pelos músicos Badoxa e Tó Semedo. O single foi divulgado na passada sexta-feira, 13, em todas as plataformas de streaming.

Cantado em português e crioulo da Guiné-Bissau, “Pega Nha Mon” é uma homenagem da cantora às suas origens – Filha de pais guineenses e com avós cabo-verdianos, Yasmine Carvalho nasceu em Portugal em 1995.  “Finalmente conseguimos partilhar convosco este trabalho que tanto nos deu prazer fazer! É familiar, é pessoal, é nosso”, diz a artista nas suas redes sociais.

“Sou fruto do amor e respeito que vivo na minha família. Somos tão diferentes, de tantos lugares, fazemos escolhas diferentes, temos posições diferentes, mas somos unidos por uma só coisa… AMOR. Pega Nha Mon é um produto da minha família e da importância dela naquilo em que me tornei”, explica Yasmine.

O tema chegou acompanhado de um videoclipe em exclusivo no canal do YouTube da E-Karga Music Entertainment, e dois dias depois estava em primeiro nas tendências em Portugal.

Realizado por Wilsoldiers, o vídeo contou com a participação especial do modelo Ibeneizer Giro Sá e da família de Yasmine. In “Koffie Luso” - Portugal


Pega nha mon

 

Foram anos nunca te deixei

até no inferno fiz de ti meu rei

sei que me amas nunca perguntei dei te espaço e acreditei

ko medi bin pa no bua

nada ka na tudjino di vivi no vida

nka na dissa nada para

no amor tene força bu pudi acredita

sabes que somos destino

ficas comigo ou ficas sozinho

ma nim ka na papia

bu ka na contan

ke que nha corçon misti irita

sentimento complicado e bu sibi dja

mas amor ta tarbadjado lanta u firma

um asa ka txiga pa katxo bua

um asa ka txiga pa no nu bua

tem maneira ku ta sinti ku mi

ku maz ninguim bu ka na pudi sinti

enton baby ka bu complica

pega nha mon dissa problema

ko medi bin pa no bua

nada ka na tudjino di vivi no vida

nka na dissa nada para

no amor tene força bu pudi acredita

enton pega nha mon

pui curpo lebi

ka bu fala nada

enton pega nha mon

no destino final na sedo na altar

ai se eles soubessem o que és pra mim

tinham vergonha de nos querer ver chegar ao fim

sei bem o que precisas e é bom pra ti

nenhum deles vai saber fazer melhor por ti

ma ka bu medi baby eh misti só fofoca

eh ka cuncino relaxa, fica na boa

seh conversa ka ta passa d’um jugo

eh misti miti lenha na no fogo

tem maneira ku ta sinti ku mi

ku maz ninguim bu ka na pudi sinti

enton baby ka bu complica

pega nha mon dissa problema

ko medi bin pa no bua

nada ka na tudjino di vivi no vida

nka na dissa nada para

no amor tene força bu pudi acredita

enton pega nha mon

pui curpo lebi ka bu fala nada

enton pega nha mon

no destino final na sedo na altar

 

Enton pega nha mon

pega nha mon

enton pega nha mon

bin pa no bua

ko medi bin pa no bua

nada ka na tudjino di vivi no vida

nka na dissa nada para

no amor tene força bu pudi acredita

enton pega nha mon

pui curpo lebi

ka bu fala nada

enton pega nha mon

no destino final na sedo na altar

nka na dissa nada para

força di no amor


Yasmine - Portugal