Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Lusofonia - Crise climática prejudicou 1 milhão de estudantes em países de língua portuguesa

No Brasil, mais de 700 mil alunos tiveram a vida escolar interrompida pelo calor extremo em 2025, em Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau, quase 300 mil jovens sofreram com chuvas intensas e cheias


Uma em cada dez crianças no mundo teve a sua educação interrompida por desastres climáticos no ano passado.

Um levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, mostra que tempestades, cheias, ondas de calor e secas provocaram suspensão de aulas e o aumento da evasão escolar em 106 países.

Calor extremo e chuvas intensas em países de língua portuguesa

O documento, lançado nesta quinta-feira, revela que algumas nações de língua portuguesa integram esta lista.

No Brasil, mais de 745 mil estudantes foram prejudicados por ondas de calor.

Em Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau, quase 300 mil jovens sofreram com chuvas intensas e cheias, enquanto em Portugal cerca de 28 mil alunos tiveram o calendário escolar alterado.

Somados, estes países registaram aproximadamente 1 milhão de estudantes impactados por eventos climáticos extremos em 2025.

Riscos mais altos para raparigas

No total, 171 milhões de crianças e adolescentes tiveram a sua trajetória escolar comprometida, sendo 75% em países de baixo e médio rendimento.

No Egipto e Paquistão, milhões ficaram sem aulas devido a tempestades, e na Espanha mais de 500 mil estudantes foram afetados por chuvas fortes e calor extremo.

Para a diretora executiva da Unicef, Catherine Russell, os eventos climáticos ampliam desigualdades e atingem de forma mais severa raparigas, que enfrentam riscos adicionais como casamento infantil e sobrecarga doméstica.

Tempestades causaram maior impacto

Segundo o relatório, tempestades foram responsáveis por 109 milhões de jovens com interrupções escolares, seguidas por cheias, que afetaram 70 milhões, e ondas de calor, que atingiram 50 milhões.

Além das perdas imediatas, a Unicef estima que os impactos de 2025 podem gerar até US$ 200 mil milhões em rendimentos futuros perdidos.

Entre os obstáculos adicionais estão danos às instalações sanitárias, deslocamentos forçados e queda no rendimento familiar, fatores que ampliam barreiras para as raparigas.

Para enfrentar os desafios, a Unicef defende o fortalecimento dos sistemas educacionais, investimentos em infraestrutura, ampliação de financiamentos voltados à adaptação e capacitação de crianças e jovens em educação ambiental, aliados ao aprimoramento dos sistemas de dados para antecipar crises e acelerar a recuperação escolar. ONU News – Nações Unidas



domingo, 23 de agosto de 2026

Guiné-Bissau – Segundo a OMS subiram para oito os casos confirmados da varíola mpox

A notificação do último caso ocorreu na quarta-feira. A capital do país e a região de Biombo são o epicentro das infeções, a epidemia causada pelo vírus também conhecido por varíola dos macacos foi declarada pelas autoridades sanitárias em julho


A Organização Mundial da Saúde, OMS, destacou profissionais no terreno para apoiarem os esforços em curso para conter a propagação da epidemia da varíola dos macacos, conhecida como mpox, com oito casos já confirmados e 47 suspeitos na Guiné-Bissau.

O anúncio foi feito seis semanas após ter sido confirmada a primeira notificação, há seis semanas, pelas autoridades sanitárias.

Condições subjacentes

Até ao momento, não houve mortes relacionadas à doença e não há registo de infeções em crianças. Foram rastreados 110 casos de contacto, 51% dos quais já completaram o ciclo de seguimento. O acompanhamento dos casos continua em curso.

Em conversa com a ONU News, em Bissau, o representante da OMS no país, Walter Kazadi Mulombo, disse que os primeiros casos foram curados. Ele alertou sobre crianças, grávidas e pessoas que vivem com o VIH não controlado e outras doenças como grupos de alto risco a casos severos.

Segundo o chefe da OMS na Guiné-Bissau, os grupos afetados estão na faixa etária de 18 a 34 anos. A maioria são homens. Não há registo de casos severos, mas continuam a monitorizar a situação.

Transmissão e sintomas

A agência dá conta que o vírus com a transmissão ocorrida por contato direto entre humanos e de homem ao animal e animal ao homem é, em muitos casos, curável espontaneamente. O mpox é muito contagioso e a prevenção requer a participação de todos.

Formas graves da doença incluem casos com infeção da pele que pode invadir o sangue, alcançar o cérebro, os pulmões e o coração, podendo levar à morte. O período de incubação do vai de dois a 21 dias e os sintomas podem durar de duas a quatro semanas, explica o epidemiologista.

O especialista destaca que os principais sintomas são erupção cutânea, que começa geralmente ao nível da cara, mas pode ser também na palma das mãos ou dos pés, mas pode-se generalizar a todo o corpo.

Prevenção e controlo

São lesões cutâneas que começam como vesículas, estoiram, surgem ferimentos e se secam, formam cascas que vão cair e a pele vai reconstituir-se, ficando assim curada a doença, acrescentou Kazadi Mulombo. Para ele, é importante monitorizar os grupos vulneráveis e o pessoal de saúde que lida com a doença.

As medidas de prevenção são universais: lavar as mãos com água e sabão ou utilizar solução hidro alcoólica, evitar contactos com pessoas que apresentem sintomas, desinfetar a superfície tocada pelas pessoas infetadas e não manipular as roupas dos doentes do mpox.

De lembrar que a epidemia foi declarada pelo Ministério de Saúde na primeira semana de julho e todos os casos concentram-se no noroeste do país em duas das 11 regiões sanitárias. Amatijane Candé – Guiné-Bissau ONU News


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Internacional - Brasileiro viajou sete meses em estradas de 30 países africanos

O brasileiro Anderson Araújo relatou à Lusa o seu percurso por África, durante sete meses, onde atravessou 30 países ao volante de um Toyota Land Cruiser, num roteiro que começou em Angola e terminou em Portugal.


A viagem, com uma distância estimada de cerca de 42.000 quilómetros, que tinha uma previsão de três meses e se prolongou por mais quatro, não tinha um itinerário definido nem um número de países estabelecido, apenas a intenção de percorrer os caminhos menos conhecidos e de ir descobrindo as histórias e culturas dos povos ao longo do caminho.

“A ideia era simplesmente viajar e, eventualmente, dar a volta ao mundo”, diz Anderson Araújo, de 42 anos, que trabalha entre Portugal e Angola.

O gestor de projectos comprou, em 2019, um Toyota Land Cruiser 78 – um veículo muito comum em África, segundo explicou – depois de abandonar a ideia inicial de fazer a viagem de mota. O carro, de 2006, acabou por se tornar a sua casa durante grande parte do percurso e atravessou com ele cerca de 30 países do continente africano, com paisagens tão díspares que vão desde selvas densas ao deserto do Sahara.

Do automóvel observou os céus estrelados do continente, pores-do-sol cujas cores são indescritíveis, viu manadas de animais a correr parques selvagens à noite e fez do pouco que tinha o seu maior conforto “do lar”.

Na primeira fase da viagem passou pelas nações mais austrais e orientais.

Entre safaris, praias e montanhas, uma das experiências que mais o marcou aconteceu no Quénia, onde explorou uma cratera vulcânica e acabou por se perder com o guia que o acompanhava. “Estávamos perdidos, mas a situação estava sob controlo”, conta, explicando que o momento acabou por se transformar numa “experiência aleatória e fantástica”.

Outro momento que destaca foi a passagem pelo Burundi, um dos países mais pobres do mundo, que o surpreendeu pelo acolhimento das pessoas, sempre dispostas a ajudar.

A segunda etapa da viagem foi a África Central e Ocidental. Foi também nesta fase que surgiram alguns dos momentos mais difíceis, particularmente por ter apanhado malária no Senegal e ter sofrido uma tentativa de assalto na Nigéria, em Lagos.

Do Senegal – nação vizinha da Guiné-Bissau – seguiu-se outra etapa muito complicada, quando o objectivo era rumar ao norte de África e, posteriormente, à Europa. Daqui, teve o seu visto negado 10 vezes para a Mauritânia, sendo que, para si, seguir a viagem pelo Mali – país em conflito com grupos terroristas – não seria opção e, por isso, as alternativas começavam a escassear.

Quando finalmente conseguiu entrar na Mauritânia, atravessou parte do Sahara e pôde percorrer o famoso caminho dos vagões de minério de ferro. Uma experiência ilegal, mas que, nas suas palavras, é “turisticamente permitida”. São cerca de 12 horas num vagão cheio de ferro, sob um sol abrasador e uma sensação térmica de perto de 50 graus Celsius.

Da Mauritânia seguiu para Marrocos e, posteriormente, atravessou o Estreito de Gibraltar em direcção à Europa.

Apesar dos percalços que teve pelo caminho, o veículo não sofreu avarias graves. Teve um pneu furado e precisou de trocar um radiador, mas nunca ficou parado na estrada durante os cerca de 42.000 quilómetros.

“Eu acho que eu tenho mais sorte do que juízo”, afirma, lembrando que, quando começou a viagem, nem sequer sabia trocar um pneu e, para dificultar, o único idioma que domina é o português.

Ao longo da viagem, não sentiu dificuldades em abastecer o veículo, mas explicou que geriu os seus recursos e abastecia mais em países com combustíveis mais baratos.

Questionado sobre o impacto desta viagem na sua vida, diz que ainda não “assimilou bem a experiência” e que esta foi apenas a conclusão de uma etapa que, assim que possível, será retomada a partir da Europa.

Em termos de aprendizagens, destaca que os países são mais do que os preconceitos que, por vezes, lhes são incutidos e que pode haver surpresas.

“Há mais pessoas para ajudar do que para atrapalhar pelo caminho”, conclui. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Lusofonia - Quase metade dos guineenses e cabo-verdianos consideram emigrar

Um relatório do Afrobarometer indicou que quase metade dos guineenses e cabo-verdianos considera emigrar por motivos económicos. Em Angola, a percentagem de pessoas que pondera sair do país é de 38%, em São Tomé e Príncipe de 31% e em Moçambique de 21%


Quase metade dos guineenses e cabo-verdianos inquiridos considera emigrar por razões económicas, revela-se no relatório do Afrobarometer que aponta a mesma tendência em Angola (38%), São Tomé e Príncipe (31%) e Moçambique (21%).

Uma das principais razões que levam os entrevistados a considerarem emigrar são económicas, sendo que “a intenção de migrar aumentou substancialmente”, segundo o relatório “Beyond Borders: Citizen Perspectives on a Shifting Global Order” (Além das Fronteiras: Perspectivas dos Cidadãos sobre uma Ordem Global em Transformação), tornado público em Acra, Gana, e que se baseia em dados de inquéritos representativos a nível nacional de 38 países africanos.

Entre os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), São Tomé e Príncipe destaca-se por ser o único a registar um declínio significativo na intenção de emigrar, descendo de 35% no período de 2016/2018 para 31% em 2024/2025.

No documento avalia-se também a percepção sobre o impacto económico dos imigrantes nos países de acolhimento. A maioria dos inquiridos em São Tomé e Príncipe (68%), Cabo Verde (65%) e Guiné-Bissau (54%) acredita que os estrangeiros que se mudam para o país para trabalhar têm uma influência “muito boa” na economia.

A Guiné-Bissau surge como um dos países mais acolhedores do continente, com cerca de 40% dos cidadãos entrevistados a defenderem que o país deveria receber mais trabalhadores.

Já Moçambique e Angola mantém opiniões mais divididas relativamente ao impacto positivo ou negativo dos imigrantes na economia.

No estudo analisa-se ainda as opiniões dos cidadãos dos países africanos sobre a abertura do comércio e a consciencialização do Acordo de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA, na sigla inglesa).

O conhecimento sobre o AfCFTA varia entre os PALOP, mas permanece reduzido em termos gerais.

A Guiné-Bissau destaca-se com a maior taxa de conhecimento (27%), seguida por Cabo Verde (24%).

Em contrapartida, os níveis de conhecimento são reduzidos em Angola (13%), São Tomé e Príncipe (12%) e Moçambique (11%), revelando uma escassez de informação sobre a integração comercial do continente.

Em todos os PALOP, a maioria dos inquiridos prefere priorizar parcerias comerciais com todos os países a nível global, em vez de um comércio exclusivo intra-africano ou sub-regional.

Cabo Verde (79%) e São Tomé e Príncipe (77%) lideram a preferência pelo comércio global, seguidos pela Guiné-Bissau (70%), Angola (63%) e Moçambique (61%).

Por fim, ao nível do livre comércio, os entrevistados dos PALOP expressaram uma posição favorável, à excepção de Angola, onde o apoio à abertura transfronteiriça é maioritariamente rejeitado – apenas 45% apoiam -, evidenciando uma tendência protecionista considerável, na qual 40% prefere proteger os produtores nacionais.

No relatório apresentam-se novas conclusões sobre as opiniões dos cidadãos relativamente ao comércio transfronteiriço e à integração económica, à migração, ao papel e à influência de África na governação global e às percepções sobre a influência das principais potências globais no continente. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Senegal - Centro do tráfico de cocaína para a Europa

Com o aumento das apreensões recordes de cocaína na costa do Senegal, uma reportagem investigativa do jornal francês Le Monde (19/07/2026) confirma, com riqueza de detalhes e fontes internacionais, o que o Le Journal du Pays já denunciava há três anos: o Senegal consolidou-se como um importante centro de tráfico de cocaína sul-americana destinada à Europa.

Esta convergência entre uma imprensa local independente e uma importante publicação internacional não é insignificante. Ela lança uma luz implacável sobre a dinâmica de poder, a corrupção e a repressão que permeiam o país, particularmente em Casamansa.

Uma estrada chamada "Rodovia 10"

Segundo o jornal Le Monde, mais de um terço da cocaína consumida na Europa transita atualmente por portos da África Ocidental. Os traficantes exploram as fragilidades dos controlos regionais através de uma estratégia de "rebote": as drogas são armazenadas e reembaladas em África antes de serem enviadas para a Europa para evitar a detecção alfandegária. O Porto de Dakar e as águas territoriais senegalesas são fundamentais para essa operação.

Apreensões espetaculares ilustram isso: quase três toneladas interceptadas pela Marinha senegalesa em 2023, 690 kg no mesmo ano e mais de duas toneladas em 2021. Esses números confirmam a expansão acentuada do tráfico desde 2019, conforme destacado por análises da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) alerta para um "ciclo vicioso" que liga o tráfico, a instabilidade e a corrupção, particularmente no Sahel e na África Ocidental.

Isso já havia sido revelado pelo Le Journal du Pays.

Já em 2024, o Le Journal du Pays alertava para o papel central desempenhado pela Guiné-Bissau, Senegal e Gâmbia como uma "nova plataforma" para a cocaína e drogas sintéticas na sub-região. Longe de ser uma simples zona de trânsito, a África Ocidental tornou-se um centro estratégico de logística e redistribuição para os cartéis sul-americanos.

Três anos antes, o mesmo veículo de comunicação sediado em Casamansa já havia destacado as ligações entre esses fluxos criminosos e a dinâmica política e de segurança local. Num artigo recente, foi além: segundo o artigo, as operações militares e administrativas do Senegal em Casamansa serviam para "proteger as suas verdadeiras redes de cocaína". Esta grave acusação, além das suas implicações políticas, surge num contexto em que apreensões maciças coincidem com a crescente militarização de certas áreas.

Pontos em comum e silêncios compartilhados

As semelhanças entre o Le Journal du Pays e o Le Monde são impressionantes:

• A dimensão do fenómeno: Ambas as publicações destacam a transição de um tráfico marginal para um problema estrutural, com um aumento exponencial do volume de bens apreendidos.

• O papel dos portos e das águas territoriais: Dakar como centro nevrálgico.

• A natureza dupla do problema: Trânsito internacional, por um lado, e uma explosão do consumo local (crack, cannabis, kush sintético), por outro, particularmente em Dakar.

• O risco de instabilidade: O UNODC e os especialistas citados pelo Le Monde confirmam a ligação entre estes fluxos financeiros e grupos armados ou redes de corrupção, uma perspetiva que o Le Journal du Pays ligou explicitamente às tensões em Casamansa.

Enquanto o Le Monde se mantém cauteloso e factual, baseando-se em relatórios e especialistas internacionais, o Le Journal du Pays adota um tom mais incisivo, típico de um jornal de oposição ou regional, ligando diretamente esse tráfico à repressão observada em Casamansa. As operações do exército senegalês, os despejos de aldeias e as prisões são apresentados não como simples medidas de segurança, mas como um meio de proteger interesses ligados ao narcotráfico.

Será que Casamansa está sendo usada como ferramenta?

Para os habitantes de Casamansa, esta confirmação por um importante veículo de comunicação como o Le Monde legitima questionamentos antigos. Por que tamanha concentração de forças militares numa região historicamente marginalizada, justamente quando o país se torna um polo do narcotráfico? A cooperação internacional com o UNODC e parceiros europeus permite apreensões, mas especialistas enfatizam a adaptabilidade dos traficantes e a persistência da corrupção.

O Senegal enfrenta um duplo desafio: conter o trânsito que enriquece as redes transnacionais e, ao mesmo tempo, gerir o crescente consumo interno que prejudica a juventude. Mas, para muitos em Casamansa, a verdadeira questão continua a ser a da soberania e da transparência: quem realmente beneficia desses fluxos? E a que custo para as populações vizinhas?

Embora o Le Monde confira a credibilidade de uma investigação internacional, o Le Journal du Pays há anos oferece uma perspectiva local, muitas vezes mais crítica, sobre as implicações políticas e humanas. Essa convergência reforça uma observação preocupante: sem uma governança mais transparente e uma paz genuína em Casamansa, o Senegal corre o risco de ver o seu papel como um "centro" consolidar-se, em detrimento da sua estabilidade e desenvolvimento.

A história do narcotráfico na África Ocidental demonstra que os centros logísticos frequentemente atraem mais do que apenas drogas: atraem também os conflitos e a corrupção que deveriam combater. Chegou a hora de uma investigação séria dessas redes, que vá além de apreensões espetaculares e declarações oficiais. Kondiarama e Pape Malang Dabo – Casamansa in “Le Journal du Pays”


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné-Bissau – Domingos Simões Pereira viajou para a cidade de Lisboa

"Sou guineense e continuarei, assim que possível, este combate", garantiu o opositor guineense, recebido em euforia por dezenas de guineenses no aeroporto com bandeiras, gritos de apoio e cânticos

O opositor guineense Domingos Simões Pereira chegou na madrugada desta sexta-feira ao aeroporto de Lisboa, após sair da cadeia, onde se encontrava em prisão preventiva na Guiné-Bissau, e prometeu regressar ao país para continuar “este combate”.

Questionado pelos jornalistas, à saída do lounge VIP do aeroporto de Lisboa, se tencionava regressar, Domingos Simões Pereira foi taxativo: “Absolutamente”.

“Eu sou guineense e continuarei, assim que possível, este combate”, garantiu o opositor guineense, que foi recebido em euforia por dezenas de guineenses a residir em Portugal e que encheram o aeroporto com bandeiras e gritos e cânticos de apoio. “Eu não posso virar costas ao meu povo”, sublinhou.

O responsável admitiu estar a sentir uma “sensação de liberdade” e “agradecido pela população que o vem acolher”. Quanto aos pormenores da sua estadia em Portugal, admitiu que ainda não conhece as condições, “porque quem trata de tudo são as autoridades portuguesas”.

Questionado sobre os assuntos internos no país, Domingos Simões Pereira escusou-se a responder diretamente às perguntas, dizendo apenas que “alguém trabalhou, as autoridades trabalharam” e permitiram que estivesse em Portugal. “Eu quero respeitar esse esforço que foi feito. Assim que conhecer todos os contornos”, falará, assegurou.

Quanto ao seu estado de saúde, disse ainda não saber, respondendo apenas que se “sente bem”.

Domingos Simões Pereira chegou por volta da 1h00 a Lisboa, tendo saído no dia anterior da cadeia, onde se encontrava em prisão preventiva, por ordem do juiz de instrução criminal, Mamadú Embaló, que autorizou que viajasse para Portugal, onde vai submeter-se a tratamento médico.

Simões Pereira estava a cumprir prisão preventiva desde o passado dia 10 de julho, no âmbito de um processo em que é acusado pela justiça militar de participação em alegada tentativa de golpe de Estado ocorrida em novembro de 2025. Agora foi autorizado a ausentar-se da Guiné-Bissau durante noventa dias, período durante o qual não poderá desenvolver atividade política.

Segundo o despacho, o juiz baseou-se num relatório médico do Hospital Militar de Bissau, segundo o qual seria necessário que o líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) fosse observado num centro médico especializado em Portugal.

Simões Pereira viajou para Portugal na companhia da esposa e do irmão, o médico Camilo Simões Pereira.

A decisão do juiz de instrução criminal (JIC) respondeu a um requerimento da defesa e contou com o parecer favorável da Promotoria de Justiça Militar, tendo em conta “razões humanitárias e legais, fundamentadas num atestado emitido pelo Dr. Domiciano Bernardo Nacocam Mango, médico do Hospital Principal Militar de Bissau”.

No despacho do JIC, é referido que a “prisão preventiva fica suspensa pelo período de três meses, ao abrigo do artigo 164º do Código de Processo Penal (CPP)” da Guiné-Bissau.

“O suspeito está sujeito à obrigação de abster-se de desenvolver qualquer atividade político-partidária durante a vigência da suspensão. Findo o prazo de três meses, a situação processual do suspeito será novamente reapreciada pelo tribunal”, sublinha-se.

Presidente eleito do Parlamento guineense, Simões Pereira estava em prisão preventiva desde o passado dia 10, no âmbito de um processo em que é acusado pela justiça militar de participação em alegada tentativa de golpe de Estado ocorrida em novembro de 2025.

A Guiné-Bissau foi palco de um golpe de Estado em vésperas da publicação dos resultados provisórios das eleições legislativas e presidenciais, que tinham decorrido sem incidentes em novembro de 2025.

Em comunicado, o Governo português confirmou que Portugal vai acolher “por razões médicas e humanitárias” o opositor guineense Domingos Simões Pereira.

“Portugal acolhe Domingos Simões Pereira, conforme solicitado pelos seus familiares, depois da libertação hoje ocorrida por razões médicas e humanitárias”, lê-se no comunicado divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.

“Reconhecendo o gesto humanitário, continuaremos a trabalhar com empenho e recato, pelas vias diplomáticas, no quadro da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa] e em cooperação com a CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental] e União Africana, em prol do regresso das instituições da Guiné-Bissau à normalidade constitucional e democrática”, sublinhou a diplomacia portuguesa. “Agência Lusa”


terça-feira, 14 de julho de 2026

Guiné-Bissau – A União Democrática das Mulheres da Guiné solidariza-se com a família de Domingos Simões Pereira

A UDEMU, sob a liderança da Secretária-Geral, camarada Matilde N’deque, manifesta à família de Domingos Simões Pereira a sua Profunda Solidariedade, na sequência do desumano acontecimento ocorrido no passado dia 10 de Julho de 2026, quando o Presidente do PAIGC e da Assembleia Popular Nacional, Eng.º Domingos Simões Pereira, foi raptado na sua residência, sem que fosse apresentada qualquer nota ou mandato de detenção.

Perante este acontecimento, a UDEMU reafirma que jamais se afastará desta luta nem abandonará a família Simões Pereira. A família pode contar sempre com o nosso apoio, Solidariedade e Presença, bem como com o compromisso permanente de todas as Mulheres da UDEMU e da grande família do PAIGC.

Acreditamos que este momento exige Serenidade, Firmeza e muito Trabalho, mais do que palavras de Ordem, é tempo de União, Organização e Dedicação em defesa do nosso Glorioso Partido e dos valores da Democracia, da Justiça e do Estado de Direito.

À família Simões Pereira dizemos: esta luta não é apenas vossa, é a luta de todos os militantes do PAIGC e do povo Guineense que acredita na Liberdade, na Paz e na Democracia.

A UDEMU apela a todas as Mulheres do PAIGC para que permaneçam mobilizadas e continuem a Trabalhar com Responsabilidade, disciplina e determinação. Quanto mais Organizadas e consistente for o nosso Trabalho, maiores serão os Resultados Alcançados.

Neste momento difícil, renovamos a nossa Solidariedade à família Simões Pereira e Reafirmamos que a UDEMU continuará firme ao seu lado, com coragem, dignidade e esperança. União Democrática das Mulheres da Guiné – Guiné-Bissau 

 

Cabo Verde – Governo manifesta preocupação pela detenção de Domingos Simões Pereira, presidente do PAIGC da Guiné-Bissau

O Governo de Cabo Verde manifesta a sua profunda preocupação com os recentes acontecimentos registados na República da Guiné-Bissau, nomeadamente a medida de coação decretada pelo Tribunal Militar Superior que resultou na detenção preventiva do líder da oposição, Domingos Simões Pereira.

O Governo de Cabo Verde apela, com veemência, o respeito pelos valores e princípios que inspiram a convivência pacífica e, sobretudo, pela dignidade da pessoa humana e pelo Estado de Direito. Assim, o Governo de Cabo Verde apela à sua libertação célere e ao restabelecimento pleno das suas garantias constitucionais, e reafirma ainda a sua disponibilidade para contribuir, em concertação com os parceiros da CPLP e da CEDEAO, para uma solução pacífica, inclusiva e duradoura que salvaguarde os direitos fundamentais do povo guineense.

Reafirmando o seu firme compromisso com a promoção e a defesa dos Direitos Humanos e, na qualidade de país irmão, o Governo de Cabo Verde manifesta a sua inteira disponibilidade para facilitar o diálogo, a nível interno, sub-regional e junto da Comunidade Internacional, na busca de soluções pacíficas, inclusivas e duradouras para a atual situação na Guiné-Bissau. Governo de Cabo Verde


sábado, 11 de julho de 2026

Guiné-Bissau – Secretariado Nacional do PAIGC alerta para a situação que está a passar o seu presidente Domingos Simões Pereira

Hoje, 10 de Julho de 2026, agentes policiais invadiram a residência do Presidente do PAIGC e Presidente da Assembleia Nacional Popular, camarada Domingos Simões Pereira, e conduziram-no às instalações prisionais da Segunda Esquadra, onde se encontra presentemente detido.


Este ato de grosseira arbitrariedade foi praticado a coberto de um despacho judicial sem qualquer cunho de legalidade, praticado por um juiz requisitado ilegalmente, no âmbito de um processo judicial forjado e abusivamente manipulado, com o escancarado propósito de eliminar politicamente, ou mesmo fisicamente, o camarada Domingos Simões Pereira.

Basta que se lembre que os promotores do Tribunal Militar titulares do processo foram todos afastados por se terem recusado a obedecer a ordens superiores; que ato contínuo, o regime criou um tribunal ad hoc para conduzir o processo, transferindo ilegalmente magistrados de tribunais civis, em flagrante violação de princípios consagrados na Constituição da República, nomeadamente o princípio de juiz natural; que o Supremo Tribunal de Justiça rejeitou incidentes de impedimento e de inconstitucionalidade interpostos para a defesa dos direitos do camarada Domingos Simões Pereira, com argumentos aberrantes, que vão ao cúmulo de se basear em dispositivos de uma Constituição que não está em vigor; que o Juiz de Instrução Criminal no processo foi fortemente coagido a afastar-se e foi substituído por um juiz que veio expressamente com a missão de decretar ao camarada Domingos Simões Pereira a medida de coação de prisão preventiva, o que acabou por acontecer hoje. 

Toda esta farsa não passa de uma grave instrumentalização de um sistema judicial corrupto e servil, ao serviço de Umaro Sissoko Embalo e dos seus capangas, que usurparam pela força o poder que o povo não lhes conferiu nas urnas. Por isso mesmo, porque depois de várias convocações, se percebeu que não havia intenção nenhuma do tribunal ad hoc de desrespeitar a lei e de fazer justiça, o camarada Domingos Simões Pereira e os seus advogados disseram basta ao teatro político - judicial em curso e decidiram não comparecer à última convocatória. 

Perante esta desesperada tentativa de Umaro Sissoko Embalo e do seu regime de eliminar o camarada Domingos Simões Pereira, o PAIGC decide:

  1. Condenar veementemente esta permanente perseguição política, disfarçada de um pseudo-processo judicial, contra o camarada Domingos Simões Pereira;
  2. Exigir a libertação imediata do camarada Domingos Simões Pereira e imputar desde já às autoridades militares a responsabilidade por quaisquer atentados à sua vida e à sua integridade física;
  3. Apelar às diferentes estruturas do PAIGC, bem como aos dirigentes, responsáveis e militantes do Partido, a manterem-se determinados na luta pela defesa do partido e pela preservação dos valores democráticos no nosso país;
  4. Apelar ao povo guineense à resistência contra as derivas autoritárias deste regime golpista e contra a interferência inadmissível dos militares na vida política nacional;
  5. Apelar à comunidade internacional a acompanhar a situação catastrófica criada na Guiné-Bissau com o simulacro de golpe de Estado de 26 de Novembro de 2025 e a desempenhar um papel mais ativo na busca de soluções para se pôr fim a esta vergonhosa encenação.

O PAIGC renova o seu firme compromisso para com a paz, a estabilidade e a democracia e reitera a sua determinação em continuar a lutar, juntamente com todas as forças democráticas, para a plena reposição da ordem constitucional no nosso país. Secretariado Nacional do PAIGC – Guiné-Bissau  


sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné-Bissau – PAIGC denuncia a perseguição ao seu presidente e Presidente da Assembleia Nacional Popular Domingos Simões Pereira pela Junta Militar saída do golpe de estado de 2025

A Comissão Permanente do PAIGC reuniu-se online no dia 9 de julho de 2026, sob a presidência do camarada Califa Seidi, Vice-Presidente do Partido, a fim de se debruçar exclusivamente sobre os últimos desenvolvimentos relacionados com a perseguição política ao Presidente do Partido e também Presidente da Assembleia Nacional Popular, camarada Domingos Simões Pereira.

Desde o golpe de Estado de 26 de novembro de 2025 que o Presidente Domingos Simões Pereira se encontra privado da sua liberdade. Encarcerado na II Esquadra durante 64 dias, e depois transferido para sua casa, num regime denominado de “residência vigiada”, mas que de facto não passa de um sequestro, o Presidente Domingos Simões Pereira tem sido vítima de todo o tipo de arbitrariedades, com implicações profundas na sua vida e na de toda a sua família.

As autoridades de facto passaram os últimos oito meses a tentar fabricar um processo judicial desprovido de qualquer credibilidade para justificar a restrição da liberdade imposta ao Presidente Domingos Simões Pereira. A acusação finalmente encontrada foi a da sua alegada participação numa pretensa tentativa de golpe de Estado, em Outubro de 2025. Não deixa de ser caricato que aqueles que consumaram um golpe de Estado estejam tão determinados a perseguir e a tentar condenar um cidadão por alegada tentativa de golpe de Estado.

Sob a capa de um pretenso processo judicial, assistimos de forma sistemática a violações grosseiras das leis, como por exemplo, o julgamento do Presidente da Assembleia Nacional Popular num Tribunal Militar; a substituição coerciva de juízes do Tribunal Militar Superior que se recusaram a cumprir ordens superiores; a criação, de facto, de um tribunal ad hoc, violando o princípio de juiz natural; o indeferimento pelo Supremo Tribunal de Justiça de um incidente de inconstitucionalidade, invocando a Constituição da República adoptada pelo Conselho Nacional de Transição, que o Comando Militar diz querer levar a referendum para a sua entrada em vigor; pressões fortes sobre os magistrados; afastamento coercivo do Juiz de Instrução Criminal e a sua substituição por um dos principais autores dessa coerção, etc. Hoje, está mais do que claro que toda esta manipulação da justiça visa apenas legitimar à posteriori a privação de liberdade do Presidente Domingos Simões Pereira, mesmo que para o efeito seja necessário violar princípios, leis e regras.

O objetivo deste regime, que continua a ser dirigido à distância por Umaro Sissoko Embalo, é claro: afastar o Presidente Domingos Simões Pereira da vida política e, eventualmente, eliminá-lo fisicamente. Por um lado, Umaro Sissoko Embalo não perdoa o facto do Presidente do PAIGC, impedido de concorrer às eleições presidenciais de 23 de novembro de 2025, ter tido, com o seu inequívoco apoio, um papel fundamental na vitória logo à primeira volta do candidato Fernando Dias da Costa nessas eleições. Por outro lado, no seu mísero calculismo político, Umaro Sissoko Embalo acredita que o afastamento da vida política de Domingos Simões Pereira, pela via judicial, ou através da sua eliminação física, aumentaria a probabilidade de finalmente vencer as próximas eleições presidenciais, em que ainda sonha poder concorrer.   

Perante todos estes factos, a Comissão Permanente delibera o seguinte:

  1. Reiterar a exigência de libertação imediata e incondicional do Presidente do PAIGC e da Assembleia Nacional Popular, Camarada Domingos Simões Pereira, a fim de retomar plenamente a sua vida pessoal, social e política;
  2. Repudiar a terrível perseguição política e judicial de que o Presidente Domingos Simões Pereira tem sido alvo e responsabilizar o regime por tudo quanto possa vir a acontecer à sua vida ou à sua integridade física;
  3. Manifestar, em nome dos militantes e simpatizantes do Partido, a nossa solidariedade com o Presidente Domingos Simões Pereira e a sua família nestes momentos difíceis da sua vida;
  4. Renovar a confiança política no camarada Domingos Simões Pereira, enquanto Presidente do PAIGC, para continuar a dirigir o Partido, como tem sabiamente feito até aqui;
  5. Apelar a todas as organizações internacionais e regionais, particularmente a União Africana e a CEDEAO, a continuarem a acompanhar a situação política do país, fazendo respeitar as decisões tomadas na Cimeira de Abuja;
  6. Convidar, mais uma vez, o Comando Militar a um diálogo sério e construtivo com as forças políticas representativas da sociedade guineense, tendo em vista encontrar soluções para a saída da crise política e o retorno à normalidade constitucional;
  7. Apelar à população a manter-se mobilizada na luta pela defesa da democracia e pelo respeito dos direitos humanos e dos princípios basilares do Estado de Direito Democrático. A Comissão Permanente do PAIGC – Guiné-Bissau 


quarta-feira, 8 de julho de 2026

Lusofonia - Falhas no acompanhamento da crise política na Guiné-Bissau e com Domingos Simões Pereira

Analistas declararam à Lusa, no âmbito dos 30 anos da CPLP, que a organização falhou no acompanhamento da crise na Guiné-Bissau, especialmente com o seu ex-secretário-executivo, e consideraram a suspensão do país um acto simbólico.

O analista político guineense Rui Landim criticou a actuação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que, a seu ver, desde os primórdios, nunca teve uma actuação eficaz no seu país.

“A CPLP foi criada em 1996, em 1998 a Guiné-Bissau mergulhou numa guerra civil e logo aí não houve intervenção”, reflectiu.

Agora, o país encontra-se, pela primeira vez na sua História, suspenso da CPLP, assim como de outras organizações, devido ao golpe de Estado militar de 26 de Novembro de 2025, na véspera da divulgação dos resultados eleitorais de 23 de Novembro.

Nesse seguimento, o activista guineense questionou: “Qual é a consequência dessa suspensão? A Guiné-Bissau vive há cerca de 12 anos uma crise [política] e nada de CPLP”.

Além disso, prosseguiu, Domingos Simões Pereira, líder do histórico PAIGC, que foi secretário-executivo da CPLP entre 2008 e 2012, está detido e a organização lusófona, aparentemente, nada fez sobre isso.

O professor moçambicano Elísio Macamo corrobora essa opinião. Domingos Simões Pereira, líder da oposição guineense e ex-secretário-executivo da CPLP, está detido há meses “sem nenhuma acusação” e “não se vê nada da parte da CPLP em relação a isso”, criticou. “É nesses momentos que se pode perguntar, com certa legitimidade, para que é que uma organização dessas existe”, frisou o docente.

O especialista brasileiro em História das Relações Internacionais Adriano de Freixo questionou o efeito prático do envio de uma missão de ofício ao país. “Mandar uma missão de ofício seria muito mais para chegar lá e verificar que, de facto, a situação se deteriorou desde o golpe de Estado, que a oposição está calada, que há violações de direitos humanos, que há repressão a manifestações contrárias ao Governo militar. [Essa missão] iria lá, confirmaria isso, a Guiné-Bissau continuaria suspensa, e aí, qual a consequência prática disso?”, reflectiu.

“O que significou para a Guiné-Bissau a suspensão da CPLP? Nada. É uma coisa mais simbólica do que outra coisa. Não tem efeito prático, da mesma maneira que uma missão no país não teria nenhum efeito prático porque não há mecanismos dentro da CPLP que permitam exercer controlo sobre os Estados-membros para que cumpram os princípios fundadores”, acrescentou.

Para o presidente da Universidade Lusíada de São Tomé e Príncipe, Liberato Moniz, tem havido uma indiferença internacional enorme perante o que se passa na Guiné-Bissau. “Nós vemos, na televisão portuguesa e brasileira, guerras que estão a milhares de quilómetros, mas o que está mesmo aqui ao lado ninguém fala”, lamentou o ex-pré-candidato presidencial, que considerou que a missão de ofício à Guiné-Bissau “faz todo o sentido”, mas exige “objectivos concretos” para ajudar a mudar a situação do país.

Divergindo sobre o estatuto do país na comunidade, o politólogo angolano Almeida Henriques defendeu que a Guiné-Bissau “não reúne condições para pertencer à organização”. O analista argumentou que a falta de verticalidade institucional, a profunda instabilidade política interna e a necessidade de respeitarem os valores democráticos impedem o país de responder aos anseios mínimos exigidos pela CPLP.

Por outro prisma, o analista português Fernando Jorge Cardoso explicou que “o que se passa na Guiné-Bissau tem raízes regionais que ultrapassam a CPLP”. “O que aconteceu, como sabemos, foi uma encenação de golpe. Ele [Sissoco Embaló] ia perder as eleições e, portanto, fez-se de conta que houve um golpe de Estado. Mas sabe-se que ele tem apoio da Nigéria e nenhum país da CPLP vai confrontar Lagos”, explicou.

“Qual é o país da CPLP que se vai meter com a Nigéria? Portugal? Nem pensar. O Brasil? Nem pense”, acrescentou o especialista em estudos africanos.

O professor na Universidade Autónoma de Lisboa sustentou que a não interferência da CPLP na Guiné-Bissau se explica porque “aqueles que mandam na CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, sediada em Abuja, na Nigéria] não deixam”. “As organizações regionais africanas têm primazia territorial e a CPLP não tem capacidade política nem militar para agir de forma independente neste contexto”, contextualizou.

Para o sociólogo cabo-verdiano Redy Lima, comparar a CPLP à CEDEAO é injusto, pois “a CEDEAO tem muito mais peso, tem muito mais presença”. De acordo com o analista, a “Guiné-Bissau é um grande exemplo do peso político inexistente da CPLP”.

Por outro lado, e referindo-se directamente a Portugal, “o passado colonial acaba sempre por envergonhar um pouco a acção da CPLP”, pois facilmente é usado esse argumento contra a ex-metrópole, como o próprio Sissoco Embaló chegou a fazer, recordou.

Sobre o anúncio de 23 de Junho relativo à possibilidade da saída da Guiné-Bissau da CPLP, após as eleições previstas para Dezembro, Fernando Jorge Cardoso declarou que uma ruptura ou saída formal do país é improvável, uma vez que o actual regime depende do financiamento de Portugal e da União Europeia, assim como de doadores internacionais, defendido pela diplomacia portuguesa.

A CPLP, que assinala 30 anos a 17 de Julho, é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, que detém a presidência rotativa temporária da organização desde a suspensão de Bissau. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”

 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Guiné-Bissau - CEDEAO anuncia referendo à nova Constituição do país

A nova Constituição da Guiné-Bissau, recentemente aprovada pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), irá ser submetida a referendo popular, disse em Bissau, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Serra Leoa, Timothy Kabba, citando as autoridades guineenses

A nova Constituição da Guiné-Bissau, recentemente aprovada pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), irá ser submetida a referendo popular, disse em Bissau, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Serra Leoa, Timothy Kabba, citando as autoridades guineenses.


O responsável serra-leonês liderou uma missão da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que incluiu também o ministro dos Negócios Estrangeiros do Senegal e o ministro da Defesa do mesmo país.

A delegação foi recebida pelas autoridades de transição da Guiné-Bissau, nomeadamente pelo Presidente, general Horta Inta-a, de quem receberam a informação de que as eleições legislativas e presidenciais estão marcadas para 06 de dezembro próximo e que a Constituição foi revista, disse Timothy Kabba.

Em declarações aos jornalistas, à saída da audiência com o presidente da transição guineense, divulgadas pela imprensa local, Timothy Kabba disse que foram informados por Horta Inta-a que a versão da Constituição aprovada pelo CNT, órgão que substituiu o parlamento desde o golpe de Estado de 26 de novembro, vai ser submetida a referendo, embora não tenha indicado em que data.

A nova Constituição guineense, revista em janeiro passado, na prática, reforça os poderes do Presidente da República, que passa a deter a maioria dos poderes do Estado, nomeadamente na nomeação e orientação da ação do primeiro-ministro.

O porta-voz do Conselho Nacional de Transição, Fernando Vaz, explicou, em declarações aos jornalistas, que a nova Constituição manteve o sistema semi-presidencialista, mas reforçou os poderes do Presidente da República, a quem o Governo “terá de responder” bem como à Assembleia Nacional (parlamento).

Além do anúncio da realização do referendo sobre a nova Constituição, a missão da CEDEAO foi informada igualmente por Horta Inta-a de que a Lei Eleitoral do país foi revista.

O chefe da diplomacia da Serra Leoa afirmou que a delegação ficou satisfeita com as informações recebidas.

A missão política da CEDEAO esteve em Bissau dois dias após a partida de uma outra delegação de chefes do Estado-Maior das Forças Armadas de cinco países da mesma organização, que mantiveram encontros de trabalho com as autoridades de transição.

A Guiné-Bissau está suspensa da CEDEAO, da União Africana e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na sequência do golpe de Estado ocorrido em novembro de 2025, em vésperas da publicação dos resultados provisórios das eleições legislativas e presidenciais, então realizadas.

Os militares, sob o comando do general Horta Inta-a, anunciaram terem tomado o poder para “evitar um banho de sangue no país” em decorrência de disputas pelos resultados eleitorais. Na altura suspenderam o processo eleitoral e destituíram o então Presidente, Umaro Sissoco Embalo.

Horta Inta-a assumiu a presidência do país, Ilídio Vieira Té foi nomeado primeiro-ministro e um Conselho Nacional de Transição foi criado para fazer as funções do parlamento. InExecutive Digest” - Portugal


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Fundação Calouste Gulbenkian – Festival Jardim de Verão Gulbenkian


A Fundação Gulbenkian volta a celebrar as culturas de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal: durante três fins de semana, e com curadoria partilhada entre Dino D’Santiago (música) e Alexandra Matos e Luís Almeida (filmes/conversas), poderá assistir a concertos no Grande Auditório e no Anfiteatro ao Ar Livre, a DJ sets sob o Engawa, participar em atividades para famílias, assistir à apresentação dos sete episódios da antologia “Novas Narrativas de Caça” e a várias conversas. Consulte a programação completa.

Saiba mais aqui.


 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Guiné-Bissau - Domingos Simões Pereira constituído suspeito e chamado ao Tribunal Militar

O principal líder da oposição na Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira, foi constituído suspeito numa alegada tentativa de golpe de Estado e convocado para comparecer no Tribunal Militar Superior, disse à Lusa fonte próxima do visado. O presidente do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) foi notificado, na segunda-feira, para comparecer esta quinta-feira no Tribunal Militar Superior na qualidade de suspeito, confirmou Rute Monteiro.

A jurista guineense e directora do gabinete de Simões Pereira, enquanto presidente da Assembleia Nacional Popular, indicou que o líder partidário foi também notificado do despacho judicial em que é constituído suspeito na alegada tentativa de golpe de Estado de 25 de Outubro de 2025.

Domingos Simões Pereira foi detido um mês depois no golpe de Estado em que os militares tomaram o poder na Guiné-Bissau e que interrompeu as eleições gerais de 23 de Novembro de 2025, em que, pela primeira vez, não participaram o histórico partido PAIGC e o líder, por decisão judicial.

Algumas semanas antes das eleições, o Estado-Maior das Forças Armadas anunciou a detenção de vários militares na sequência de uma alegada tentativa de golpe de Estado perpetrada, a 25 de Outubro, por generais e oficiais de alta patente do Exército. Um dos detidos foi o brigadeiro-general Dabana Na Walna, que terá solicitado armas, veículos e coletes à prova de bala, aproveitando a sua posição de instrutor num centro de formação, para posteriormente os utilizar no alegado plano de golpe.

No despacho judicial conhecido nesta segunda-feira, e a que a Lusa teve acesso, Domingos Simões Pereira é declarado suspeito neste caso “por factos susceptíveis de integraram, em cumplicidade, a prática de crimes contra a segurança do Estado, atentando contra o chefe de Estado e demais crimes conexos”.

O documento refere indícios de que Simões Pereira “terá prestado apoio material, financeiro e logístico aos autores da referida tentativa de golpe de Estado, incluindo alegada disponibilização de meios financeiros destinados a preparação e execução”. Acrescenta que os indícios apontam para que tenha cedido o “seu domicílio para realização de encontros e reuniões”.

O despacho sustenta os indícios em “elementos probatórios até ao momento recolhidos, designadamente declarações de testemunhas, informações constantes dos autos e demais diligencias realizadas”. “Tais elementos tornam necessária a constituição formal do referido cidadão como suspeito, para garantia do exercício do contraditório e demais direitos processuais legalmente consagrados”, conclui.

Para Rute Monteiro, este despacho assenta “na violação flagrante de vários princípios do direito” e “alguma engenharia”, já que, segundo disse, baseia-se numa testemunha que terá dito que envolveu Simões Pereira numa confissão “sob tortura”.

Simões Pereira tinha sido ouvido, em Fevereiro, na qualidade de declarante no mesmo Tribunal Militar que “considerou que não havia como validar qualquer ligação” do mesmo ao caso, segundo a jurista que continua a acompanhar o líder do PAIGC.

Rute Monteiro disse que os magistrados que chegaram a essa conclusão foram afastados e substituídos por outros que garantam “uma decisão de acordo com a vontade de quem determina tudo isto” e que considera ser Umaro Sissoco Embaló, o antigo Presidente da República.

A jurista acrescenta que o Tribunal Militar não tem competência para julgar um civil e defende que Simões Pereira continua a ter imunidade parlamentar por ser deputado e presidente da Assembleia Nacional Popular, dissolvida em 2023 pelo então Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló. Desde então, não houve eleições e o parlamento foi substituído por um Conselho Nacional de Transição com o golpe militar de Novembro de 2025, que depôs o Presidente Embaló, e candidato a um segundo mandato nas eleições gerais em que a oposição reclamou vitória, mas os resultados oficiais não foram divulgados.

Depois do golpe militar, o presidente do PAIGC esteve na cadeia durante dois meses e continua detido em prisão domiciliária, uma figura que não existe no regime jurídico da Guiné-Bissau, como vincou Rute Monteiro, que já foi ministra da Justiça do PAIGC.

A análise que faz do que está a acontecer ao líder do partido é “uma vontade de impedir que Simões Pereira possa ser um cidadão livre, de trabalhar, de fazer política, de fazer a sua vida familiar, social, etc”.

“Ele é perseguido porque o povo está com ele. Se ele tivesse condescendido com os seus valores e aquilo em que acredita, ele não estava a ser perseguido. Foi dos poucos líderes partidários que não se deixou vender”, afirmou. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”