Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Homenagem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Homenagem. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Benim - Angélique Kidjo faz história na Calçada da Fama de Hollywood

A cantora beninense Angélique Kidjo tornou-se, na terça-feira, a primeira africana negra a receber uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, em reconhecimento à sua longa e destacada carreira internacional


A cantora beninense Angélique Kidjo tornou-se, na terça-feira, a primeira africana negra a receber uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, em reconhecimento à sua longa e destacada carreira internacional.

A cerimónia, realizada na Califórnia, reuniu artistas e personalidades da indústria musical. Aos 66 anos, a vencedora de cinco Grammys soma mais de quatro décadas de carreira e 18 álbuns, tendo sido apontada pela Time, BBC e The Guardian como uma das personalidades mais influentes e inspiradoras do mundo.

Durante a homenagem, Kidjo agradeceu à família e à sua equipa e destacou o contributo do continente africano para a música mundial. “Sem nós, africanos, não haveria música neste planeta”, afirmou, segundo a Africanews.

Além do percurso artístico, a cantora é reconhecida pelo trabalho humanitário desenvolvido através da Fundação Batonga, dedicada ao empoderamento de meninas e jovens mulheres africanas.

A nova estrela na Calçada da Fama simboliza não apenas o sucesso de Angélique Kidjo na música, mas também o impacto da sua obra na valorização da cultura africana e na promoção de causas sociais. In “Jornal de Angola” - Angola


sábado, 23 de maio de 2026

Espanha - António Lobo Antunes homenageado na cidade de Madrid

O escritor português António Lobo Antunes vai ser homenageado em 14 de junho em Madrid, na feira do livro deste ano da capital espanhola, anunciou a organização


A homenagem a António Lobo Antunes ocorre “poucos meses depois do seu falecimento”, em 05 de março, aos 83 anos, e será “um diálogo para recordar a pessoa e a obra de um dos escritores europeus mais universais dos últimos 50 anos”, disse a organização da Feira do Livro de Madrid, no programa oficial da edição deste ano.

A iniciativa dedicada a António Lobo Antunes será uma “conversa entre Maria José Lobo Antunes, filha do autor, e o escritor [português] Rui Cardoso Martins”.

A conversa será moderada pelo jornalista e autor espanhol Javier Peña, que é também responsável pelo ‘podcast’ dedicada à literatura “grandes infelizes”, da editora independente Blackie Books, de Barcelona.

Segundo a embaixada de Portugal em Madrid, a homenagem a António Lobo Antunes está pensada “em torno da relação entre a obra do autor e o tema deste ano da feira: o humor”.

Rui Cardoso Martins “procurará refletir sobre a dimensão do humor, muitas vezes subtil, feroz ou profundamente melancólico” presente nos livros de António Lobo Antunes, segundo a mesma informação da embaixada enviada à Lusa.

Estão ainda previstas leituras de textos de António Lobo Antunes em português e espanhol, disse a mesma fonte.

A 85.ª Feira do Livro de Madrid decorre de 19 de maio a 14 de junho, no parque do Retiro, no centro da capital espanhola, e a homenagem a Lobo Antunes terá lugar no último dia, no Pavilhão Europa.

Em 03 de junho, será apresentada e debatida na feira, na biblioteca Eugénio Trías, localizada dentro do parque do Retiro, a trilogia “Trifolium”, publicada pela Universidade de Salamanca e dedicada aos Estudos Portugueses nesta instituição.

“Oferece uma radiografia integral da investigação lusófona atual, estruturando-se em três eixos fundamentais: linguística, didática e literatura”, segundo o programa da Feira do Livro de Madrid.

A iniciativa é organizada pelas Edições Universidade de Salamanca em colaboração com a Embaixada de Portugal em Madrid e o Instituto Camões.

No dia anterior, em 01 de junho, o presidente da Associação Portuguesa de Editoras do Ensino Superior (APEES), João Caetano, participará no III Encontro Ibero-americano de Edição e Editoras Universitárias e Académicas, destinado a profissionais, no Pavilhão Ibero-americano da Feira do Livro de Madrid.

A Feira do Livro de Madrid 2026 tem como tema o humor e a sátira e será inaugurada no dia 29 de maio pela rainha de Espanha, Letizia Ortiz.

Com um orçamento de 1,9 milhões de euros, contará com 366 quiosques de 118 livrarias, 220 editoras, 12 distribuidoras e 16 organismos oficiais. Terá ainda espaços específicos para grémios e associações territoriais, editoras singulares e independentes, uma zona internacional e outra dedicada à ciência.

Estão previstas mais de 400 atividades durante os dias da feira e entre as centenas de autores que passarão por quiosques para autógrafos está o poeta português João Luís Barreto Guimarães, no dia 30 maio, no espaço da editora Vaso Roto. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 1 de março de 2026

Canção da Partida









Canção da Partida

 

Ao meu coração um peso de ferro

Eu hei de prender na volta do mar.

Ao meu coração um peso de ferro... Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor não queira levar...

Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.

E hei de mercar um fecho de prata.

O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro uma carta...

_ A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves, _ a carta encantada!

E um lenço bordado... Esse hei de o levar,

Que é para o molhar na água salgada

No dia em que enfim deixar de chorar.

 

Camilo Pessanha – Portugal / Macau

In Clepsidra, (1920, Lisboa, Lusitânia Editora)

______________

Há alguns meses que o Blogue Baía da Lusofonia apresenta aos domingos um poeta e a sua poesia. Associamo-nos às diversas homenagens do centenário da morte de Camilo de Almeida Pessanha, que nasceu em Coimbra a 07 de setembro de 1867 e faleceu em Macau a 01 de março de 1926, há precisamente 100 anos, que estão a realizar-se nesta última cidade.

Uma das Entidades de Macau que vai assinalar o centenário da morte de Camilo Pessanha é o Instituto Português do Oriente (IPOR) que dinamizará um conjunto de atividades ao longo do ano de 2026.

A primeira será um Clube de Leitura onde se irá falar da vida e obra do autor que viveu em Macau. Acontece já no dia 3 de março de 2026, na Biblioteca do IPOR, batizada com o nome do escritor.

Esta é uma organização do IPOR, em parceria com o Clube de Leitura de Macau, o Festival Rota das Letras e que conta com o apoio do Camões, I.P.

 


 

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Novo prémio anual da Fundação Jorge Álvares homenageia a amizade entre Portugal e China

A Fundação Jorge Álvares anunciou a criação do “Prémio Fundação Jorge Álvares – General Vasco Rocha Vieira – Amizade Portugal-China”, uma distinção anual no valor de 25 mil euros. O prémio, que homenageia o último Governador de Macau, visa incentivar estudos e acções que fortaleçam a relação entre Portugal, China e Macau, alternando anualmente entre reconhecer instituições e trabalhos de investigação


A Fundação Jorge Álvares instituiu um novo prémio anual com o objectivo de promover a amizade e o conhecimento entre Portugal, a República Popular da China e Macau. Intitulado “Prémio Fundação Jorge Álvares – General Vasco Rocha Vieira – Amizade Portugal-China”, a distinção, no valor de 25 mil euros, presta homenagem ao General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau, que foi também fundador e curador da própria fundação.

O prémio terá duas categorias que se alternarão em anos consecutivos. Em anos pares, a partir de 2026, será atribuído na categoria “Instituições”, aberta a qualquer entidade, nacional ou estrangeira, que tenha desenvolvido acções relevantes para aprofundar o relacionamento entre as comunidades portuguesa, chinesa e de Macau. Estas acções podem abranger áreas como cultura, língua (incluindo o patuá), ciência, educação e filantropia.

Em anos ímpares, a partir de 2027, o prémio será concedido na categoria “Trabalhos de Investigação”. Esta vertente é aberta a qualquer pessoa, sem restrições académicas ou de nacionalidade, e recompensa a qualidade de estudos escritos sobre um tema específico, dentro do âmbito das relações luso-chinesas, com particular enfoque em Macau.

Para proporcionar tempo de preparação aos potenciais candidatos, a organização divulgou antecipadamente o tema da primeira edição da categoria de investigação, que será atribuída em 2027. Sob o título “Da assinatura da Declaração Conjunta à transferência da Administração Portuguesa de Macau”. Este tema centra-se no período histórico entre o acordo sino-português de 1987 e a transição de soberania em 1999.

As candidaturas para a primeira edição do prémio, na categoria de “Instituições” para o ano de 2026, já têm calendário definido. O período de submissão decorrerá de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2026, através de um formulário online disponível no website oficial do prémio. A decisão do júri está prevista para Outubro de 2026, com a cerimónia de entrega agendada para Dezembro do mesmo ano.

De acordo com o regulamento, disponível online, não serão admitidas candidaturas de trabalhos ou iniciativas que tenham sido patrocinadas pela Fundação Jorge Álvares, ou de acções institucionais concluídas há mais de dois anos no momento do anúncio de cada edição. Membros dos órgãos sociais da fundação ou das suas instituições parceiras também não podem concorrer na categoria de “Trabalhos de Investigação”.

A Fundação Jorge Álvares, instituída em Lisboa em 1999 e reconhecida como pessoa colectiva de utilidade pública, sem fins lucrativos, tem como objetivo fundamental, no enquadramento da Declaração Conjunta Luso-Chinesa, promover a cooperação entre Portugal e a Região Administrativa Especial de Macau. A sua actividade desenvolve-se nas áreas cultural, educativa, científica, artística e social, com particular enfoque em apoiar o estudo e a divulgação de Macau e em fomentar um melhor conhecimento da sua realidade e projeção futura, mantendo uma relação privilegiada com o Centro Científico e Cultural de Macau. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Angola - 50 autores de literatura infantil recebem tributo pelo seu trabalho

O projecto “50 anos, 50 homenagens”, da biblioteca comunitária A.S Leitura ao Domicílio, encerrou o ano de 2025 com um percurso sólido, transformador e profundamente humano, afirmando-se como uma das iniciativas mais sensíveis de promoção literária e do pensamento crítico


O projecto da A.S Leitura ao Domicílio, levado a cabo num período marcado por desafios sociais, desigualdades de acesso ao livro e urgência de formação humana, homenageou 50 escritores de literatura infantil angolana, no âmbito dos 50 anos da Independência Nacional.

Entre os homenageados pela iniciativa, destacam-se escritores que escreveram maioritariamente para crianças e adolescentes, nomeadamente Cremilda de Lima, Maria Celestina Fernandes, Akiz Neto, Kudijimbe, Mário Moniz, Ondjaki, Elsa Bárber, Cavisita Lemos, Carla Severino, Domingas Monte, Marta Santos, Mira Clock, Boneca Africana, Alice Berenguel, Ombebwa e John Bela.

Em declarações ao Jornal de Angola, o coordenador do projecto “50 anos, 50 homenagens”, Aniceto da Silveira, afirmou que, ao longo do ano, a iniciativa se consolidou como uma acção cultural de impacto directo nas comunidades, levando a leitura além dos espaços convencionais, em bibliotecas, escolas e livrarias, assim como ao fazer do lar um território de encontro entre o livro, a palavra e a vida quotidiana.

De acordo com o responsável, o projecto apostou numa abordagem próxima, inclusiva e afectiva, reafirmando que a leitura não é um privilégio, mas um direito e uma ferramenta de emancipação.

Escuta e proximidade

A proposta do A.S Leitura ao Domicílio, segundo Aniceto da Silveira, está assente numa lógica simples, mas profundamente transformadora, que vai ao encontro das pessoas. “Ao invés de esperar que o leitor chegue ao livro, o projecto faz o caminho inverso, deslocando-se a residências, comunidades e contextos familiares diversos, criando momentos de leitura partilhada, diálogo e reflexão”.

Durante o ano, as sessões realizadas privilegiaram não apenas a leitura em voz alta, mas também a conversa, a escuta activa e a partilha de experiências, transformando cada encontro num espaço seguro de expressão e aprendizagem. “Crianças, jovens e adultos participaram activamente, reconhecendo-se nas histórias lidas e encontrando nelas espelhos das suas próprias vivências”, afirmou o responsável.

Impacto social e educativo

O coordenador do projecto sublinhou que a retrospectiva anual evidencia que a A.S Leitura ao Domicílio ultrapassou a dimensão simbólica e alcançou resultados concretos. Em muitos contextos, disse, o contacto regular com os livros despertou o interesse pela leitura em famílias onde ela não fazia parte da rotina, reforçando laços afectivos e estimulando o pensamento crítico desde a infância.

Para o interlocutor, o projecto contribuiu igualmente para o desenvolvimento de competências linguísticas, emocionais e cognitivas ao incentivar a interpretação de textos, a expressão oral e a capacidade de argumentação. “Mais do que formar leitores, a iniciativa ajudou a formar cidadãos atentos, sensíveis e conscientes do seu papel na sociedade”.

Literatura como instrumento de transformação

Ao longo de 2025, o projecto da A.S Leitura ao Domicílio apostou numa curadoria literária diversa, integrando obras da literatura infantil, juvenil e adulta, com destaque para autores nacionais e temáticas ligadas à identidade, valores humanos, cidadania, empatia e pertença cultural, de acordo com o seu coordenador.

“A literatura foi apresentada não apenas como entretenimento, mas como instrumento de transformação social e emocional”, disse Aniceto da Silveira, acrescentando que “cada leitura foi pensada como um gesto de cuidado e resistência cultural, sobretudo num contexto em que o acesso ao livro ainda enfrenta limitações estruturais. O projecto reafirmou, assim, a leitura como um acto político e humanizador, capaz de romper ciclos de silêncio, exclusão e desinformação”.

Desafios e aprendizagens

Para o coordenador do projecto, a retrospectiva anual não ignora os desafios enfrentados, como questões logísticas, limitações de recursos e a necessidade constante de sensibilização das comunidades que fizeram parte do percurso.

Esses obstáculos, realçou, tornaram-se em oportunidades de aprendizagem, reforçando a resiliência da equipa e a importância do trabalho colaborativo.

“O contacto directo com as famílias permitiu compreender melhor as realidades locais e adaptar as abordagens, tornando o projecto cada vez mais sensível às necessidades reais dos seus beneficiários”.

Um ano de sementes lançadas

Ao encerrar o ano, o projecto “50 anos, 50 homenagens” pode ser descrito, segundo o seu coordenador, como uma iniciativa que lançou sementes, algumas já germinadas, outras em processo de crescimento. “As histórias lidas ecoam para além dos encontros formais, prolongando-se no quotidiano das famílias, nas conversas, nas perguntas e no desejo de continuar a ler”.

Aniceto da Silveira concluiu que a iniciativa termina o ciclo anual com a convicção de que investir na leitura é investir no futuro, na dignidade humana e na construção de uma sociedade mais justa e consciente. “O balanço é positivo, não apenas pelos números ou sessões realizadas, mas sobretudo pelos vínculos criados, pelas mentes despertas e pelos horizontes ampliados”.

Este ano, revelou, a A.S Leitura ao Domicílio afirma-se como um manifesto silencioso, pois quando o livro entra em casa, a transformação começa por dentro. In “Jornal de Angola” - Angola


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Homenagem a Herberto Helder em versos

Livro de Maria Estela Guedes traz poemas que reverenciam aquele que é considerado o maior poeta português da segunda metade do século XX

                                                                                     

                                                           I

Se o ritmo poético se encontra tanto nos poemas em versos como nos poemas em prosa, como observou o professor Massaud Moisés (1928-2018), em seu A Criação Literária-Poesia (São Paulo, Editora Cultrix, 2003), à página 194, Folhas de Flandres (Lisboa, Apenas Livros, 2014), da poeta e ensaísta Maria Estela Guedes, é um exemplo bem acabado de que o ritmo poético não vive em função de nenhum recurso formal em particular, mas do fenômeno poético em si. 

Afinal, os 14 poemas que compõem esta obra são narrativas em versos que contam histórias ou, às vezes, transmitem apenas sensações provocadas por viagens em que o fenômeno poético se desenrola em seu interior. Em resumo: as palavras aqui falam diretamente aos ouvidos do leitor e ganham significação como melopeia, esse aspecto sonoro da poesia, que envolve ritmo, cadência e musicalidade, expressando, acima de tudo, emoção. Na primeira parte do livro, que dá título à obra, no poema “Temple des Charbonniers”, a autora principia uma homenagem que presta ao jornalista Herberto Helder (1930-2015), que é considerado o maior poeta português da segunda metade do século XX.

 

                                                 II

Nascido no Funchal, na Ilha da Madeira, de família de origem judaica, Herberto Helder viajou para o Continente ao final dos anos 1940 e, depois, fez algumas viagens pela Europa. Foi bibliotecário e trabalhou como redator em rádio e televisão, além de ter sido diretor literário da Editorial Estampa, pela qual publicou parte da obra do artista plástico, poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo Almada Negreiros (1893-1970). Viveu ainda um período em Angola, onde atuou com repórter, tendo retornado a Portugal em 1971, depois de ter sofrido um grave acidente em Luanda.

Em Lisboa, apesar de perseguido pela polícia política do regime salazarista, foi ainda revisor da Editora Arcádia e redator de notícias na emissora de rádio RDP. E participou da edição de dois cadernos da revista Poesia Experimental (PO.EX), mas nunca foi visto como praticante desse tipo de poesia visual. Nessa altura, publicou três ou quatro poemas visuais, mas foi só.  Ao final da vida, converteu-se numa figura hermética e misantropa, que recusava homenagens, prêmios ou condecorações, assim como se negava a dar entrevistas ou a ser fotografado. Em 1994, recusou o Prêmio Pessoa.

No poema “Temple des Charbonniers”, Maria Estela rememora, num imaginário diálogo com Herberto Helder, uma viagem à região flamenga da Bélgica (ou Flandres), uma área de língua holandesa no norte do país, e uma das três regiões belgas. A capital nacional, Bruxelas, considerada uma região em si, está localizada perto do limite Sul de Flandres, enquanto Antuérpia é uma cidade portuária e importante centro de comércio de diamantes com uma reputação de design de moda, famosa por seu Museu Real de Belas Artes que reúne uma grande coleção de pinturas de mestres flamengos. Eis um trecho do poema:

“(...) Não vai para Antuérpia este comboio / Mas imagina tu, Herberto, para onde vai a carvoeira! / Para um templo aberto na floresta dos símbolos / Verdes, na Flandres, algures / Nordeste de França / Por onde tu de comboio também viajaste, na / Fronteira com a Bélgica das vacas / No limite da fome / Em Antuérpia / Cantando flamenco / Dançando fandango / Aliás era o tango / Nos bares de putas e marinheiros. (...).

 

                                                III

Como contou a própria autora a este resenhista, Folhas de Flandres tem uma história, nesse poema da viagem e naquele intitulado "Comboios que não vão para Singapura", que, aliás, é título de um conto de Herberto Helder. “Há dez anos houve um colóquio sobre o poeta na Sorbonne, em Paris, do qual participei. Então, aproveitei para ir de comboio a Lille, na região da Flandres, e visitar o templo de um grupo franco-belga de iniciados que praticam um rito florestal. Para meu espanto, o templo é a própria floresta”, recordou.

Segundo a autora, a viagem de comboio lembrou-lhe aquela que Herberto Helder fez em sua juventude, pela Flandres, tudo descrito no livro de contos Os passos em volta (Lisboa, Portugália Editora, 1963, 1ª edição). “Ele ia sem documentos, sem dinheiro, e, por isso, teve de sobreviver com mil e um trabalhos precários. Eu lembro isso, é uma conversa informal, que podíamos ter tido em minha casa”, observou, assinalando que, em junho de 2025, saiu a obra Se eu quisesse, enlouquecia (Lisboa, Contraponto), uma imensa biografia, de quase 900 páginas, de autoria do sociólogo e crítico literário João Pedro George, que marca os dez anos do desaparecimento do poeta e cujo título foi retirado do primeiro texto de Os passos em volta. “Nesse livro me é dada demasiada atenção, porque houve um romance entre nós, ao final dos anos 70, de que resultou o meu livro Herberto Helder, poeta obscuro, que saiu em 1979 pela Moraes Editores, de Lisboa”, contou.

Tantos anos depois, Maria Estela disse que, com a participação na biografia, voltou “a conversar naturalmente” com Herberto Helder, “sem zangas, numa boa”. E acrescentou: “Na época, em 2014, ele leu o livrinho (Folhas de Flandres).  Não é homenagem, é um gesto de carinho, porque eu lhe ofereço aquilo de que ele gostava tanto: sagrado, mistério, no caso o templo de uma ordem, La Renouée, similar à Maçonaria Florestal, diferente da Maçonaria da Pedra, aquela que todos conhecemos, porque esta é muito menos encoberta. Em Portugal, um ramo da Maçonaria Florestal deu origem à Carbonária, militarizada, criadora da República”, observou.

 

                                                IV

De fato, no extenso poema “Comboios que não vão para Singapura”, que ocupa cinco páginas e meia, Maria Estela dá prosseguimento à homenagem a Herberto Helder, cujo trabalho poético e figura hermética já a haviam atraído, levando-a a publicar, além de Herberto Helder, poeta obscuro, A obra ao rubro de Herberto Helder (São Paulo, Escrituras, 2010), que considera como suas “obras de referência”. Como se vê, quando escreveu este poema, Herberto Helder ainda vivia e é rememorado pela poeta em vários trechos, como neste que segue:

“(...) Comboios flamengos. / Não são os teus, Herberto. / Não são comboios para Antuérpia / Nem para Singapura, nem para a Idade de Ferro. / A idade não é a mesma / Nem o vaso de grãos que chama na lonjura. / Nada nos ata / A não ser os nós apertados do fio / Das palavras. / Viajamos no TGV / Apesar de em carruagem econômica / E, ao contrário de ti, / Munidas de responsáveis documentos” (...).   

Mais adiante, ainda no mesmo poema, a autora continua o seu imaginário diálogo com o poeta:

“(...) Não, Herberto, os comboios são diferentes apesar / De as mesmas palavras te pousarem nas mãos / Como andorinhas pretas, levando e trazendo / Desnecessárias mensagens secretas. / Só porque sim, só porque servem também para isso / Só para ocultarem o pensamento / Dos Mestres poetas. Temos direito à noite / Às passagens estreitas / A não banalizar os nomes. / Que sentido faria o telemóvel / Não existia no nosso mundo / Fechado / Por um perímetro mágico. / No nosso usavas telefone fixo / E hoje duvido que saibas lidar com os mistérios / Tremendos do correio eletrônico – vulgo / E-mail (...)”.

Já na segunda parte do breve livro, “Desgarradas & Diversas Folhas”, composta por três poemas, lê-se a peça “Uma cadela em casa de xisto” em que a autora conta a história de uma cachorra que pertencia a um casal de idosos surdos, que “viviam numa casa de lousa”. E, um dia, os velhos fecharam a porta do lagar, deixando presa lá dentro a cadela, sem sabê-lo. Por dias procuraram o animal, mas não ouviam seus latidos desesperados, até que a cadela concluiu que pelo buraco na porta, onde ela não cabia inteira, poderia enfiar a cauda:

“(...) Dia após dia com o rabo acenou / Até os velhos o verem / E comovidos libertarem / A esfomeada companheira. / Passou-se este caso em Ligares / Terra de Guerra Junqueiro /   Junto à Quinta da Batoca / Onde viveu o poeta / Além dos velhos já surdos / E da caudófona cadela (...)”

 

                                                 V

Maria Estela Guedes (1947), licenciada em Literatura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1978, é membro da Associação Portuguesa de Críticos Literários, da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação InComunidade, da Sociedade Portuguesa de Autores e do Instituto São Tomás de Aquino. É editora da plataforma Triplov (www.triplov.pt), um dos mais significativos sites de divulgação das literaturas de expressão portuguesa, onde pode ser consultada a maior parte de seu trabalho.

Nasceu em Lamego, onde mora hoje, mas viveu na Guiné Bissau de 1956 a 1966, ao tempo do colonialismo que coincidiu também com o de sua formação pessoal. Reuniu seus poemas evocativos dessa época e de uma Guiné-Bissau que já não existe no livro Chão de papel (Lisboa, Apenas Livros, 2009).

Tem vastíssima obra publicada de livros de e sobre poesia, crítica literária e História e Filosofia das Ciências, em que se destacam  SO2 (Lisboa, Guimarães Editores, 1980), Eco, pedras rolantes (Lisboa, Ler Editora, 1983), Mário de Sá Carneiro (Lisboa, Editorial Presença, 1985), À sombra de Orpheu (Lisboa, Guimarães Editores, 1990), a_maar_gato (Lisboa, Editorial Minerva, 2005), Lápis de carvão (Lisboa, Apenas Livros, 2005), Ofício das trevas, teatro (Lisboa, Apenas Livros, 2006), A boba – monólogo em três insónias e um despertador (Lisboa, Apenas Livros, 2006), À la Carbonara, em co-autoria com J. C. Cabanel e Sílvio Luís Benítez Lopes (Lisboa, Apenas Livros, 2007), Poesia na Óptica da Óptica (Lisboa, Apenas Livros, 2008); Clitóris Clítoris (Cotia-SP, Editora Urutau, 2019); Esta noite dormimos em Tânger  (Cotia-SP, Editora Urutau, 2020); Númeras letras (ARC Edições, 2021);  Conversas com Federico García Lorca (Editora Urutau, 2022), Corpus Corpus – José Emílio-Nelson & Herberto Helder (Edições Esgotadas, 2024), e Na Casa de Maria Azenha (Lisboa, Edições Esgotadas, 2025), entre outros. É autora também de Glu-Glu-Glu, antologia de poemas editada pela Tesseractum (São Paulo, 2024, e-book).

Está traduzida em romeno por Maria Manuel Chacán, na obra Dracula draco (Editora Academiei Internationale Orient-Occident, Curtea de Arges, 2017). Clitóris Clítoris foi traduzido para espanhol por Berta Lucia Estrada. Dois trabalhos seus foram levados à cena, O lagarto do âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987), com direção de Alberto Lopes, e A boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008), com direção de Carlos Avilez. Adelto Gonçalves - Brasil

___________________

Folhas de Flandres, de Maria Estela Guedes. Lisboa, Apenas Livros Lda. (Colecção Naturarte, 24), 48 páginas, 2014. Site: www.apenas-livros.com E-mail: apenaslivros2@gmail.com

­­­­­­­­_______________________

Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),  é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


segunda-feira, 22 de setembro de 2025

França - Cidade de Champigny-sur-Marne inaugura rotunda em homenagem a Linda de Suza

A cidade de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, vai prestar homenagem a Linda de Suza dando o seu nome a uma rotunda local. A cerimónia de inauguração terá lugar no próximo dia 5 de outubro, às 11h00 (hora local), no cruzamento da rua de Bernau com a avenida Ambroise Croizat


O momento contará com a presença do presidente da Câmara Municipal, Laurent Jeanne, acompanhado pelos seus eleitos, bem como dos sobrinhos da cantora portuguesa. A iniciativa envolve ainda as associações Club-Fans Officiel de Linda de Suza, Les Amis du Plateau e APSCR – Maison du Portugal, que se juntam a este tributo.

O evento pretende recordar o legado de uma das mais emblemáticas vozes da diáspora portuguesa em França, conhecida como a “rainha do playback” e símbolo da comunidade emigrante. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 31 de agosto de 2025

Países Baixos - Evento celebra ligação de Jan Slauerhoff a Portugal

A cidade de Leeuwarden, nos Países Baixos, vai receber a 7 de setembro um mini-festival dedicado ao poeta neerlandês Jan Slauerhoff (1898-1936) e à sua forte ligação a Portugal. O evento terá lugar na Biblioteca dBieb, entre as 13h30 e as 17h00 (hora local), e promete uma tarde de literatura, música e sabores portugueses

O programa inclui uma palestra do Dr. Arie Pos, especialista na obra de Slauerhoff, centrada no “mundo português” do poeta, leituras conduzidas pelo artista Simon Mulder e um momento musical com a fadista Maria de Fátima, radicada nos Países Baixos desde 1981 e reconhecida pela divulgação do fado na Europa.

A fadista foi condecorada em 2016 com a Ordem do Infante D. Henrique, atribuída pelo Presidente da República, em reconhecimento pelo seu papel na difusão do fado e da cultura portuguesa além-fronteiras, com especial destaque nos Países Baixos, na Bélgica e na Alemanha.

A iniciativa contará ainda com a presença da Embaixadora de Portugal junto dos Países Baixos, Clara Nunes dos Santos, e haverá uma mostra de petiscos portugueses, evocando assim não só a dimensão literária como também a dimensão cultural do encontro.

Jan Slauerhoff, que exerceu como médico de navio, destacou-se pela sua obra marcada pelo espírito viajante e pela paixão pela cultura portuguesa e mediterrânica, sentindo-se muitas vezes mais em casa em Lisboa do que no seu próprio país.

Encontre aqui mais informações e bilhetes (9 euros) para o evento. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Chile - Semana da Língua Portuguesa homenageia escritores portugueses

Na semana passada, decorreu, no Chile, a Semana da Língua Portuguesa, iniciativa organizada pela Cátedra Fernão de Magalhães na Universidade de Playa Ancha. O evento, dedicado à literatura em língua portuguesa, destacou dois dos maiores escritores nacionais: Camilo Castelo Branco e José Cardoso Pires, que em 2025 assinalam, respetivamente, os 200 e 100 anos do seu nascimento


A programação contou ainda com a participação da poeta portuguesa Sandra Santos, que apresentou a sua obra ao público chileno, reforçando a presença cultural de Portugal no país. A Embaixadora de Portugal no país marcou presença na sessão de encerramento.

Criada em 2018 através de um acordo entre o Instituto Camões e a Universidade de Playa Ancha, a Cátedra Fernão de Magalhães é um programa de investigação dedicado ao estudo do oceano, evocando um dos principais momentos de encontro entre Portugal e o Chile, associado à figura do navegador português. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


quarta-feira, 16 de julho de 2025

Moçambique - Centro Cultural Português na Beira presta homenagem a Adelino Timóteo

O Centro Cultural Português na Beira vai, no próximo dia 18 de Julho, prestar uma homenagem ao escritor e artista plástico Adelino Timóteo. O evento contará com familiares, amigos e seguidores do percurso extraordinário do artista.


Adelino Timóteo nasceu a 3 de Fevereiro de 1970, na Beira, em Moçambique. Formou-se em Língua Portuguesa, mas nunca foi professor. Mais tarde, licenciou-se em Direito. Em 1994, na Beira, ingressou na área do jornalismo, tendo passado pelo Diário de Moçambique, pelo semanário Savana e ainda pelo semanário Canal de Moçambique.

Ao longo dos últimos 30 anos, Adelino Timóteo tem construído e consolidado uma carreira notável, demarcando-se como escritor e artista plástico no panorama nacional e internacional.

Adelino Timóteo, o escritor, tem 26 obras publicadas, entre poesia, romances e biografias históricas. Começou com “Os segredos da arte de amar” (Maputo: AEMO, 1998). Ilustrativamente, destacamos “A Virgem da Babilónia” (Maputo: Texto, 2009), a tríade lançada em 2013 com a chancela da Alcance Editores “Não chora Carmen”, “Nós, os do Macurungo” e “Livro Mulher” e terminamos com os últimos três títulos, designadamente “A biblioteca debaixo da cidade” (2023), “Jorge Jardim: o ano do adeus ao ultramar” (2024) e “Regresso ao sagrado Macurungo” (2025).

Adelino Timóteo, o artista plástico, conta com 26 exposições, em várias cidades de Moçambique, tendo exposto, ainda, na Espanha e na Áustria. Começou, em 1994, com uma exposição coletiva com os artistas Ferrão, Silva e Sitoe, na Casa Provincial de Cultura de Sofala. Em 2001, expõe pela primeira vez a título individual no Clube Náutico da Beira. Em 2013, o artista apresenta a “Exposição Msiro”, na Galiza, na Espanha e, no mesmo ano, apresenta a exposição individual “Mussicanas do Macurungo” no Centro Cultural Português na Beira. Atualmente, por ocasião dos seus 30 anos de carreira, encontra-se em exibição a sua última exposição de pintura intitulada “As Meninas da Rua 6 e outras”, na Casa do Artista, na Beira.

Timóteo recebeu, em 1999, o prémio anual do Sindicato Nacional do Jornalismo, pela melhor Crónica Jornalística. Em 2021, foi galardoado com o Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos). Em 2011, recebeu o Prémio BCI/AEMO 2011 pela obra “Dos frutos do amor e desamores até à partida” e, em 2013, recebeu o “Melhor Escritor da Cidade da Beira”, Moçambique.

O escritor e artista plástico também foi distinguido pela “excelente e inquestionável qualidade de sua obra” (2015), pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD), Lisboa, Portugal. Adelino Timóteo foi homenageado pelo ISPO (2004), pelo Conselho Municipal da Beira (2007) e pelo Conselho Municipal de Quelimane (2015).

No passado dia 05 de Junho, o escritor e artista plástico celebrou os seus 30 anos de carreira na Casa do Artista e, no dia 18 de julho, às 18h, será homenageado no Centro Cultural Português na Beira. In “O País” - Moçambique


sexta-feira, 11 de julho de 2025

Angola - Maria Eugénia Neto homenageada pelo contributo à literatura infantil

A escritora Maria Eugénia Neto foi homenageada hoje na Fundação Dr. António Agostinho Neto, em Luanda, pelo contributo prestado ao desenvolvimento da literatura infanto-juvenil. A distinção ocorre no âmbito do projecto “50 anos, 50 homenageados”, promovido pela Biblioteca AS Leituras, com o objectivo de homenagear 50 escritores nacionais pelo contributo à literatura infanto-juvenil


Segundo o coordenador do projecto, Aniceto da Silveira, esta homenagem pretende destacar o impacto da obra de Maria Eugénia Neto na formação educacional e cultural das novas gerações. “Chegou o momento de reconhecer, por via de um tributo simbólico, os espaços que a escritora soube conquistar no meio da sociedade, através das suas palavras e do seu exemplo”, afirmou.

Aniceto realçou que a escritora desempenhou um papel pioneiro no desenvolvimento da literatura infanto-juvenil angolana, tendo criado textos que combinam simplicidade poética com profundos ensinamentos morais e patrióticos.

“As suas histórias tocam directamente o imaginário das crianças, sem nunca deixar de transmitir valores como a solidariedade, a identidade nacional e o respeito pelas raízes. Soube construir uma ponte entre a infância e a consciência crítica, algo valioso na nossa tradição literária”, afirmou.

A homenagem a Maria Eugénia Neto, disse, representa mais do que uma simples cerimónia de reconhecimento, trata-se de um gesto simbólico de resgate da memória literária nacional e de valorização dos autores que, com as suas obras, contribuíram para a afirmação da identidade cultural de Angola.

O projecto "50 anos, 50 homenageados", que teve arranque em Dezembro do ano passado, já homenageou os escritores Cremilda de Lima, Kudijimbi, Marta Santos, Maria Celestina Fernandes, Kim Freitas, Domingas Monte, David Capelenguela, Jonh Bella, Yola Castro, Carla Severino, entre outros.

Membro fundadora da União dos Escritores Angolanos, Maria Eugénia Neto nasceu em Portugal, em 1934. Em 1948, num círculo de intelectuais africanos conheceu Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, com quem viria a casar, tornando-se uma figura incontornável na luta de libertação de Angola. 

Desde a década de 1970, Maria Eugénia Neto tem -se dedicado à produção e promoção da literatura infantil, tendo as suas obras sido traduzidas para várias línguas e conquistado vários prémios. A Biblioteca Comunitária “A.S Leitura” foi fundada em 2022, fruto do projecto “Leitura ao Domicílio”, criado por Aniceto da Silveira. Gil Vieira – Angola in “Jornal de Angola”


terça-feira, 15 de abril de 2025

Brasil - Academia de Escritores homenageia Angola

A Academia Brasileira de Escritores homenageou Angola, no fim-de-semana, em São José do Rio Preto, Estado de São Paulo, Brasil, na cerimónia de lançamento do quinto volume da antologia “Elos da Língua Portuguesa”



A antologia, que reúne textos de escritores de diferentes nações e contextos históricos, é um testemunho da pluralidade da Comunidade de Países de Língua Oficial Português (CPLP).

Mais do que uma colectânea de textos, Elos da Língua Portuguesa celebra a unidade na diversidade, uma ponte entre diferentes realidades, em torno de um bem comum.

De acordo com os organizadores do evento, o projecto, mais do que avaliar a qualidade técnica dos textos publicados, exalta a coragem, a criatividade e o desejo de expressão de cada autor. In “Jornal de Angola” - Angola


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Portugal – Concerto de homenagem ao cantautor Pedro Barroso


- Esgotado -

No próximo dia 15 de março, pelas 21h30, o Teatro Virgínia, em Torres Novas, será palco de uma emocionante homenagem a Pedro Barroso, uma das figuras mais marcantes da música e da cultura portuguesas, no dia do aniversário dos cinco anos do seu desaparecimento.



Este concerto, reunirá prestigiados artistas, como Ana Laíns, João Chora, Nuno Barroso (filho do homenageado e também cantor e autor), Teresa Tapadas, Vítor Sarmento e António Laranjeira, que se juntam para celebrar a vida e a obra de Pedro Barroso.

Será uma noite memorável, onde a música e a memória se entrelaçam, relembrando o legado do artista que marcou gerações com a sua voz e poesia.

No dia 23 de Março, data do aniversário de Nuno Barroso, estará disponível o novo single “Somos Livres” (Até Morrer). P&C Assessoria de Imprensa - Portugal

Pedro Barroso:

Cantarei

Artes do futuro

Viva quem canta

Nuno Barroso:

A ceifeira

Andorinha das canções


sábado, 4 de janeiro de 2025

Angola – Cidadãos prestam tributo aos mártires da repressão colonial

O município de Kiwaba Nzoji, a 95 quilómetros da cidade de Malanje, acolhe o acto central alusivo ao 4 de Janeiro, Dia dos Mártires da Repressão Colonial, a ser orientado pelo ministro da Defesa Nacional, Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, João Ernesto dos Santos “Liberdade”



A data, que rende homenagem aos Mártires da Baixa de Cassanje, assinala-se, este ano, sob o lema “Angola 50 anos: Preservar e valorizar as conquistas alcançadas, construindo um futuro melhor”.

Foi a 4 de Janeiro de 1961 que colonos portugueses reprimiram milhares de camponeses angolanos na Baixa de Cassanje, que se manifestaram contra as condições de trabalho impostas pelo regime colonial. Em reacção, o exército colonial matou milhares de camponeses, naquilo que ficou na história como o Massacre da Baixa de Cassanje, território que abrange as províncias de Malanje e da Lunda-Norte.

Nesse dia, trabalhadores agrícolas das plantações de algodão da companhia luso-belga Cotonang, na Baixa de Cassanje, revoltaram-se contra o trabalho escravo, destruindo plantações, pontes e casas.

A resposta dos colonos portugueses não tardou, com o envio da Força Aérea Portuguesa, que bombardeou indiscriminadamente a região, com projécteis de napalm, tendo provocado a morte de milhares de cidadãos.

Os acontecimentos da Baixa do Cassanje aumentaram a consciência de liberdade dos patriotas angolanos que, a 4 de Fevereiro do mesmo ano, resolveram desencadear uma luta armada contra o regime fascista português, que durou 14 anos, culminando com a proclamação da Independência, a 11 de Novembro de 1975.

A revolta de 4 de Janeiro de 1961 pode ser associada ao fim da II Guerra Mundial e à independência de vários países africanos, com destaque para o antigo Congo Belga, actual República Democrática do Congo (RDC), cujo território partilha uma vasta fronteira com Angola.

Retorno para feriado nacional

Cidadãos na província de Malanje defenderam o retorno do 4 de Janeiro como feriado nacional, devido à sua dimensão histórica na luta contra a ocupação colonial.

Graça Monteiro, filho da região do Ndongo e Matamba, disse ao Jornal de Angola que a data deveria ser assinalada com muita reflexão, em memória dos que lutaram e verteram o seu sangue para a conquista da liberdade do povo angolano.

“O 4 de Janeiro devia continuar a ser feriado, porque não sendo feriado, retira aquele carácter de homenagem póstuma àqueles que se sacrificaram pelo povo angolano, que foi ali duramente oprimido pela administração portuguesa”, sustentou.

O 4 de Janeiro, acrescentou, não pode ser apenas uma data de celebração nacional, devido à morte de milhares de angolanos neste acontecimento que deu lugar à luta contra o regime colonial.

Domingos Pedro disse que a revolta da Baixa de Cassanje foi o prelúdio da luta que conduziu à Independência Nacional.

“A revolta dos camponeses da Baixa de Cassanje é um acontecimento marcante na História de Angola, cuja repercussão e impacto político e histórico está registado com letras de ouro e que jamais será esquecido pelo povo angolano”, sublinhou.

No seu entender, o protesto dos camponeses da Baixa de Cassanje foi mais do que um acto de justa reivindicação de direitos, representou uma postura heroica cheia de bravura e determinação do povo angolano pela liberdade.

Despertar da consciência nacional

O professor de História do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) do Sumbe, Francisco Mendes Lopes, considerou a revolta da Baixa de Cassanje o despertar da consciência libertadora dos angolanos, perante o jugo colonial.

Francisco Mendes Lopes referiu que, com a revolta dos camponeses que reivindicavam contra o baixo preço do algodão estabelecido pelas autoridades coloniais, se abriu o caminho para, no mês seguinte, a 4 de Fevereiro de 1961, dar início à Luta Armada, e a 15 de Março do mesmo ano ocorrer a batalha da expansão da luta armada no Norte de Angola.

Quanto ao legado histórico da revolta dos camponeses da Baixa de Cassanje, Francisco Mendes Lopes exortou a juventude a apropriar-se da história das revoltas ocorridas, que faz parte da memória colectiva. “Os jovens devem ler bastante a nossa História, porque só assim poderão perpetuar o legado histórico do nosso país como nação”, apelou. In “Jornal de Angola” - Angola