Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 18 de março de 2026

Para germinar a vontade de ler e escrever

Escritor Lourenço Cazarré mergulha na criação poética voltada para a literatura infantil  

                                                                                 

                                                              I

Na língua portuguesa, a literatura infantil ou literatura para a infância remonta ao século XIX com experiências feitas por autores consagrados como Eça de Queirós (1845-1900), Antero de Quental (1842-1891) e Guerra Junqueiro (1850-1923), em Portugal, e Monteiro Lobato (1882-1948), Carlos Jansen (1829-1889) e Figueiredo Pimentel (1869-1914), no Brasil, que abrangem narrativas, poemas, rimas e textos dramáticos, que sempre cumpriram papel fundamental na transmissão de informações importantes desde os primeiros anos de vida.

Apesar do que se vê hoje em dia com crianças e jovens que passam quase todo o dia a olhar um aparelho celular ou telemóvel, a educação ainda é (e, provavelmente, sempre será) um processo que se constrói em salas de aula, a partir da capacidade pessoal do professor ou da professora de colocar em prática aquilo que pode ser resumido no pensamento do educador e filósofo brasileiro Paulo Freire (1921-1997), para quem educar sempre foi um ato de libertação, diálogo e consciência crítica.

É nesse contexto que se pode ler dois livros recentes do escritor Lourenço Cazarré – um deles escrito em parceria com o próprio filho – que, com certeza, muito devem contribuir para a aprendizagem da leitura e da escrita, fatores imprescindíveis para o desenvolvimento da linguagem e da descoberta do mundo pela criança e pelo adolescente, no qual o professor exerce um papel fundamental como mediador, germinando em todos a vontade de ler e escrever.

Um deles é A bruxa e o poeta (Campinas, Cedet/Textugo, 2023), de autoria de Juliano e Lourenço Cazarré, que traz ilustrações de José Luiz Gozzo Sobrinho e que, segundo o autor, começou com uma brincadeira. “Fui criando a bruxa maluca e quando mostrei o esboço ao meu filho, ele resolveu entrar na brincadeira”, conta. É uma história em versos em que uma bruxa vai se encontrar com o poeta, tradutor e jornalista gaúcho Mário Quintana (1906-1994), que foi um dos expoentes da segunda geração do Modernismo brasileiro. “É que eu e Juliano somos quintanistas fanáticos”, justifica.

Nascida em Alegrete, a velha bruxa Picucha, que odiava água e chuveiro, “decide partir para a cidade grande e provar que ainda consegue matar todos de susto... até encontrar o poeta”, como se lê na contracapa da obra. Em Porto Alegre, a bruxa passou apertada, foi viver debaixo de uma ponte, “onde passou por um susto ao ver, de gente, um monte”. Escrito em versos de pé quebrado, com rimas ocasionais, o poema atrai o leitor ingênuo desde a primeira linha, como se comprova nestas linhas: “Picucha ficou com pena / daquela sofrida gente / então num passe de mágica / fez surgir lá um banquete. / A turma se empanturrou, / cantou e se divertiu, / Picucha virou a bruxa / mais amada do Brasil”.

Ao final, pode-se saber o que foi o fim da bruxa Picucha, no firmamento: “Picunha virou estrela, / linda, pura e sem jaça, /  nas noites de muita lua / cintila em toda vidraça. / Ela até trocou de nome / para Estrela Aldebarã, / primeira a brilhar de noite / pra morrer só de manhã.

Como se vê, trata-se de uma história que pode atrair e encantar também o leitor de mais idade.

 

                                                     II


Cordel do Negrinho do Pastoreio foi criado com base numa lenda reaproveitada pelo escritor igualmente sul-rio-grandense João Simões Lopes Neto (1865-1916), principal autor da corrente literária regionalista do Brasil, que procurou valorizar as tradições do Sul. A história se passa em meados do século XIX, quando as estâncias do Rio Grande do Sul ainda não eram demarcadas e muitos trabalhadores eram escravizados. E o Negrinho do Pastoreio, ao perder uma corrida a cavalo, é supliciado até a morte por um patrão violento e cruel.

Segundo Cazarré, a origem desse seu largo poema deu-se em 2014, quando Kledir Ramil, da dupla de cantores Kleiton e Kledir, convidou-o a escrever uma letra de música sobre Pelotas, cidade natal dos três. Em seguida, ambos criaram a letra da música “Mistérios do bule monstro e brincando na Praça dos Enforcados” (2019), que pode ser localizada na Google. “Foi, então, que Kledir me apresentou a redondilha maior, que eu não conhecia. Comecei, então, a caminhar pela poesia, levado por ele, autor de lindíssimas letras”, recorda. “Depois, durante a pandemia de covid-19 (2020-2023), isolado em casa, resolvi passar para a linguagem de cordel essa bela lenda de João Simões Lopes Neto”, diz.

Para se ter uma ideia da linguagem usada neste poema, seguem estes trechos: “Na casa havia um Negrinho / Que servia o chimarrão / Era gentil o Negrinho / E tinha um bom coração / Ai que lindo era o Negrinho! / Mais escuro que carvão (...)”.

Mais adiante, depois que o personagem cai em desgraça com o seu patrão, lê-se: “(...) Os açoites foram muitos / Porém não se ouvia um pio / Negrinho sofreu calado / Mas quando por fim caiu / O Pampa foi sacudido / Por tremendo arrepio / Negrinho caiu deitado / Em cima de um formigueiro / “Sou homem de muita sorte” / Pensou logo o fazendeiro / “Não preciso usar enxada / Vai ser comido inteiro”. 

Três dias depois, o Negrinho reapareceu inteiro. Assustou o fazendeiro e virou lenda no Pampa, como se lê nestes versos: “Diz o povo que até hoje / Sempre risonho e sarado / O Negrinho corta os campos / Os arroios e os banhados / Sobe até o alto dos cerros / Corre para todo o lado (...)”.

Como se constata aqui, a exemplo do abc nordestino, o poema foi elaborado a partir de uma história pouco verídica, mas que estaria enraizada nos corações e nas mentes das gentes, com uma versificação que facilitou a sua organização. Enfim, como diz o professor Massaud Moisés (1928-2018), em A criação literária. Poesia (São Paulo, Cultrix, 2003, pág. 156), “a literatura de cordel pertence antes ao universo da prosa de ficção que da poesia, à semelhança dos contos em versos, como Canterbury Tales (século XIV), de Chaucer (?-1400), Contos e Novelas (1665), de La Fontaine (1621-1695), e Contos em Versos (1909), de Artur Azevedo (1855-1908)”.

 

                                                     III   



Nascido em Pelotas, Lourenço Cazarré (1953) é descendente de portugueses de Cinfães que emigraram para o Brasil ao final do século XIX. Fez o curso ginasial em Pelotas e formou-se radiotécnico “com a nota mínima”, ao mesmo tempo em que devorava impiedosamente todos os livros da seção infantil da Biblioteca Pública da cidade. Em 1975, graduou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas.

Depois de breve período como operador de telex, trabalhou um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, que pertenciam à empresa Caldas Júnior, de Porto Alegre. Em junho de 1976, transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter da sucursal local do grupo Caldas Júnior, antes de se transferir para a redação do jornal O Estado.

Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a 1ª Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a ampulheta (1983), em que conta as desventuras de um ditador livremente inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954). Em 1977, transferiu-se para o Distrito Federal, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília.

Por essa época, já escrevia contos que publicava em jornais e revistas. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira, Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa Oeste da Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Dessa época, são os contos da primeira edição de Enfeitiçados todos nós (São Paulo, Melhoramentos, 1984).

Em 1983, em Brasília, passou a trabalhar em uma assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. Em seguida, tendo sido aprovado em concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns meses a função de chefe de editoração da Editora da Universidade de Brasília (UnB), até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar. Atualmente, é colaborador do jornal Correio Braziliense. Hoje, vive em Brasília.

Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam o romance A longa migração do temível tubarão (2008), as novelas Estava nascendo o dia em que conheceriam o mar (2011) e Os filhos do deserto combatem na solidão (2016), as coletâneas de contos A arte excêntrica dos goleiros (2004) e Exercícios espirituais para insônia e incerteza (2012) e as novelas juvenis Kandimba (2019) e Amor e guerra em Canudos (2021).

Em 2018, com Kzar, Alexander, o louco de Pelotas (Curitiba, Editora Paraná, 2018), venceu na categoria romance o Prêmio Paraná de Literatura, promovido pela Biblioteca Pública daquele Estado. É autor também de A fabulosa morte do professor de Português (Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 2026) e Um velho velhaco e seu neto bundão (Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 2024), ambos classificados como literatura infantojuvenil.

Juliano Cazarré (1980), nascido em Pelotas, estudou artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB). Atuou em peças de teatro, telenovelas e filmes. Publicou, em 2012, Pelas janelas, poemas, seu primeiro livro. Seu trabalho favorito como ator é inventar as vozes dos heróis e vilões quando conta histórias para os seus cinco filhos, com os quais vive em São Paulo. Esta foi a primeira vez que escreveu uma história com o pai.

José Luiz Gozzo Sobrinho, nascido em Jundiaí, a partir de 13 anos mudou-se com a família para Campinas, onde começou a trabalhar na indústria, mas sem deixar de lado o sonho infantil de se tornar ilustrador, o que se daria dez anos mais tarde. Depois de muitas caricaturas, mascotes e logotipos e de uma participação no 35º Salão de Humor de Piracicaba, teve a oportunidade de ilustrar A bruxa e o poeta.

Laerte Silvino, nascido em Recife, é ilustrador, designer gráfico, quadrinista e autor de livros infantis. Já ilustrou mais de 50 livros de literatura infantojuvenil, alguns deles escritos por ele mesmo, quase sempre com inspiração na cultura popular nordestina. Também pratica a xilogravura. Adelto Gonçalves - Brasil

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A bruxa e o poeta, de Juliano e Lourenço Cazarré, com ilustrações de José Luiz Gozzo Sobrinho. Campinas-SP, Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico (Cedet)/Textugo, 38 páginas, R$ 28,90, 2023. Cordel do Negrinho do Pastoreio, de Lourenço Cazarré, com ilustrações de Laerte Silvino. São Paulo, Edições Paulinas, 48 páginas, R$ 37,83, 2023. E-mails: livros@cedet.com.br; editora@paulinas.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-Latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Duas obras imperdíveis para leitores iniciantes

Livros de Lourenço Cazarré já podem ser considerados clássicos da literatura juvenil  

                                                                                                     

                                                           I

O livro mais vendido do premiado escritor Lourenço Cazarré, A fabulosa morte do professor de Português (Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 2026), chega agora a sua terceira edição, com ilustrações do artista gráfico Negreiros. Trata-se de um admirável exemplo de como se pode fazer literatura juvenil, sem deixar de agradar ao leitor experiente e exigente. Escrito inicialmente como conto policial para uma coletânea destinada a adultos que não saiu à luz, a novela foi remodelada com o olhar voltado especialmente para a garotada, como explicou o próprio autor

Em linhas gerais, lê-se a movimentação de dois pré-adolescentes que receberam da professora a incumbência de escrever uma reportagem para o jornal do colégio e foram destacados para cobrir a inauguração de uma livraria, onde estariam presentes vários intelectuais e artistas da cidade. E, como já anuncia o título, durante o acontecimento, ocorrem vários fatos que culminam com a morte de um professor de Português e também crítico literário, que não seria bem visto pelos intelectuais da cidade.

Dono de um estilo fluido, ágil e envolvente, de que Contos pelotenses (Florianópolis, Editora Insular, 2025) e Breve memória de Simeão Boa Morte e outros contos poéticos (Rio de Janeiro, Faria e Silva Editora, 2025), obra publicada em Portugal em 2024 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, dentro da Coleção Comunidades Portuguesas, são os mais destacados e recentes exemplos, Cazarré, a cada dia, assume-se como o principal escritor brasileiro voltado para a literatura juvenil, atividade em que está empenhado desde 1985.  

Afinal, o seu Clube dos leitores de histórias tristes, lançado em 2005, foi considerado pela revista Veja como o melhor livro para leitores de dez a doze anos. E tanto Nadando contra a morte (1998) quanto A cidade dos ratosuma ópera-roque (1993), ambos publicados pela Editora Formato, foram considerados altamente recomendados para jovens pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Sem contar que a novela Isso não é um filme americano (Editora Ática, 2002) recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura João-de-Barro da Biblioteca Municipal de Belo Horizonte.

Um exemplo desse estilo direto que, ao mesmo tempo, passa lições de sabedoria aos jovens leitores e especialmente para aqueles que ainda sonham com a profissão de jornalista, extremamente vilipendiada nestes tempos de inteligência artificial e quejandos, é este diálogo entre pai e filha que se lê logo às primeiras páginas deste A fabulosa morte do professor de Português:

“(...) – Seja discreta – continuou o pai. – Tente ser invisível pra poder anotar tudo sem que as pessoas percebam que você é repórter. Não faça como a maioria dos jornalistas, que se acham mais importantes do que os entrevistados...

– Pai, eu também estou preocupada com o depois... Será que vou saber escrever a reportagem?

– Saberá... Escreva só frases diretas: sujeito, verbo e predicado. Não use mais de duas vírgulas por frase. E não faça cambalhotas estilísticas... O bom jornalista aprende a escrever lendo os bons autores...

– Mas eu não penso em ser jornalista, pai!

– Então leia pra aprender a pensar melhor... E, agora, vamos ao feijão com arroz.(...)”.

 

                                                 II

Outra obra dirigida ao público juvenil é Um velho velhaco e seu neto bundão (Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 2024), também já em terceira edição, que, como confessa o autor, foi escrita com a imaginação voltada para os anos em que teve de viver com o seu avô paterno, enquanto estudava numa escola técnica em Pelotas, entre 1965 e 1968. “Meu avô, claro, não era cretino como o personagem do livro. Mas eu era bundinha como o menino Candinho”, diz.

Ou seja, aqui se conta o relacionamento entre um menino ingênuo, mas esperto, e um velhote brincalhão, porém, ao mesmo tempo rigoroso e exigente, que procura ensinar o neto a amar os esportes e a leitura e a estudar com método. Ou, nas palavras do autor: “Ensina também que nunca estamos suficientemente preparados para enfrentar as muitas surpresas da vida e que, pensando bem, é melhor não viver chorando porque chorar demais só faz ranho”.

Como o enredo é povoado por personagens dotados de língua bem afiada, o livro está repleto de diálogos hilariantes, que, afinal, tratam de atrair o jovem leitor iniciante, entretê-lo e deixá-lo alegre por alguns momentos. Mas que, de certo modo, procura resgatar e recriar a picaresca clássica, aquela de Lazarillo de Tormes (1554), de autoria desconhecida, e El Buscón (1626), de Francisco de Quevedo (1580-1645), ao mostrar o cotidiano de pobretões que têm sonhos e querem satisfazê-los, mas que, para tanto, precisam contornar as regras do jogo oficial da vida, tornando-se assim pessoas astutas, ardilosas, espertas, burlescas e trapaceiras.

Trata-se de um livro divertido, de humor, tal como aquelas obras da picaresca clássica. Ou melhor: estamos diante de um exemplo bem acabado de neopicaresca. Até porque a picaresca clássica espanhola é irrepetível e só tem sentido se associada aos séculos XVI e XVII.

 

                                                 III  


Nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Lourenço Cazarré (1954) é descendente de portugueses de Cinfães que emigraram para o Brasil ao final do século XIX. Fez o curso ginasial em Pelotas e formou-se radiotécnico “com a nota mínima”, ao mesmo tempo em que devorava impiedosamente todos os livros da seção infantil da Biblioteca Pública da cidade. Em 1975, graduou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas.

Depois de um breve período como operador de telex, trabalhou um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, que pertenciam à empresa Caldas Júnior, de Porto Alegre. Em junho de 1976, transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter da sucursal local do grupo Caldas Júnior, antes de se transferir para a redação do jornal O Estado.

Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a 1ª Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a ampulheta (1983), em que conta as desventuras de um ditador livremente inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954). Em 1977, transferiu-se para o Distrito Federal, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília.

Por essa época, já escrevia contos que publicava em jornais e revistas. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira, Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa Oeste da Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Dessa época, são os contos da primeira edição de Enfeitiçados todos nós (São Paulo, Melhoramentos, 1984).

Em 1983, em Brasília, passou a trabalhar em uma assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. Em seguida, tendo sido aprovado em concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns meses a função de chefe de editoração da Editora da Universidade de Brasília (UnB), até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar. Atualmente, é colaborador do jornal Correio Braziliense. Hoje, vive em Brasília.

Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam também o romance A longa migração do temível tubarão (2008), as novelas Estava nascendo o dia em que conheceriam o mar (2011) e Os filhos do deserto combatem na solidão (2016), as coletâneas de contos A arte excêntrica dos goleiros (2004) e Exercícios espirituais para insônia e incerteza (2012) e as novelas juvenis Kandimba (2019) e Amor e guerra em Canudos (2021).

Em 2018, com Kzar, Alexander, o louco de Pelotas (Curitiba, Editora Paraná, 2018), venceu na categoria romance o Prêmio Paraná de Literatura, promovido pela Biblioteca Pública daquele Estado. O romance premiado trata da paixão alucinada de um homem pela literatura. Em parceria com Pedro Almeida Vieira, publicou em fascículos, no site Página Um, a novela policial de humor A misteriosa morte de Miguela de Alcazar. Adelto Gonçalves - Brasil

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A fabulosa morte do professor de Português, de Lourenço Cazarré, com ilustrações de Negreiros. Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 112 páginas, R$ 43,49, 2026.  Um velho velhaco e seu neto bundão, de Lourenço Cazarré, com ilustrações de Vito Quintans. Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 126 páginas, R$ 45,00, 2024. E-mail: atendimento@grupoautentica.com.br Site: www.editorayellowfante.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-Latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


 


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Uma obra-prima à altura de Machado de Assis

Livro de Lourenço Cazarré premiado em Portugal ganha edição brasileira

                                                                                     

                                                          I

Depois de publicar Contos pelotenses (Florianópolis, Editora Insular), Lourenço Cazarré, ainda em 2025, lançou Breve memória de Simeão Boa Morte e outros contos poéticos (Rio de Janeiro, Faria e Silva Editora), obra que já havia sido publicada em Portugal em 2024 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, dentro da Coleção Comunidades Portuguesas, mas, desta, vez com dois contos inéditos que não constam da edição portuguesa.

A obra foi a vencedora em 2023 da 5ª edição do Prêmio Imprensa Nacional/Ferreira de Castro, que procura distinguir portugueses e lusodescendentes residentes no estrangeiro e que contou com a participação de 69 candidaturas provenientes do Brasil, Bélgica, Reino Unido, Estados Unidos, Cabo Verde, França, Irlanda, Suíça, Espanha, Canadá, Sri Lanka e Portugal.

São contos de grande mestria, que têm como tema comum a literatura e nos quais o autor usa o humor, a ironia e a imaginação com talento indiscutível. Mas o texto que se destaca, por sua engenhosidade, é aquele que dá título à obra e que encerra o volume, uma novela de 80 páginas em que um personagem do conto “O alienista” (1882), de Machado de Assis (1839-1908), revoltado contra as “mentiras” que o grande escritor brasileiro teria assacado contra sua memória, procura impiedosamente castigar e menosprezar a obra machadiana.

Como se lê ao final da novela, esse Simeão Boa Morte seria um médico psiquiátrico, que cedo se retirou da profissão e tornou-se empresário, jornalista e dramaturgo amador. Ao falecer, teria deixado inédita uma monografia com a qual pretendia demonstrar que Machado de Assis, ao escrever “O alienista”, teria se utilizado de histórias contadas por ele para um jovem poeta gaúcho, Artur Gentil Cortês, que teria servido de modelo para o chamado Bruxo do Cosme Velho criar Elisário, protagonista do conto “Um erradio”, publicado em 1894 na revista A Estação, do Rio de Janeiro, e incluído no livro Páginas recolhidas (1899). O autor diz ainda que teria descoberto a memória de Simeão Boa Morte ao final de 1989, quando pesquisava para escrever sua tese de doutoramento em Letras.

O citado autor se diz revoltado porque, segundo disse, “quase nada do que consta do referido escrito deu-se de fato”, ou seja, “quase tudo que ali está consignado ocorreu, sim, mas de modo completamente inverso”.  Eis o que o personagem diz do grande autor, fundador da Academia Brasileira de Letras: “É um profissional da fabricação de aforismos, máximas, ditirambos, rifões, ditérios e adágios. E adora citações bíblicas, mitológicas ou tiradas de livros ilegíveis, como os produzidos por alemães e russos. Opera sempre com a corrosiva e venenosa malícia dos intelectuais acanhados”. (pág. 101).

 

                                                 II   

Para o crítico literário André Seffrin, autor do texto de apresentação, “Breve memória de Simeão Boa Morte” constitui uma “impagável obra-prima e como novela burlesca atinge os cimos machadianos, uma imensa resposta, e à altura desses mesmos cimos”. Para Seffrin, “essa última história até o próprio Machado de Assis, gaiatamente, assinaria”.

Até porque, acrescentamos nós, Cazarré procura fazer, através da paródia, uma imitação burlesca do estilo machadiano, uma forma de arte que ridiculariza obras, estilos ou personagens sérios através do exagero e do deboche. Enfim, com ironia e distorção, cria um humor satírico, transformando o tom original em algo cômico, frívolo ou grotesco.

Já para Luís Filipe Castro Mendes, diplomata e ex-ministro da Cultura de Portugal (2016-2018), que fez parte da comissão que atribuiu o prêmio ao autor, esta novela constitui uma obra notável no seu jogo irônico, em que se reconhece um invulgar conhecimento da literatura, das suas glórias e dos seus alçapões. “Paradoxalmente, é uma grande e inovadora homenagem ao seu mestre, Machado de Assis”, conclui.

                   

                                                III

Outros dois contos igualmente têm como interlocutores escritores de nomeada na Literatura Brasileira. É o caso daquele que abre o volume, “Um vate de incomensurável acuidade e furor”, em que o protagonista é o romancista Graciliano Ramos (1892-1953), que, numa reunião pouco atraente de leitura de poemas, mostra-se enfadado e “aperreado”, sem disfarçar o olhar “caceteado”.

No conto seguinte, “O último trem da infância”, um velho engenheiro conta como recebeu do poeta e matemático pernambucano Joaquim Cardozo (1897-1978), que seria “vastíssimo poliglota, leitor voraz, vate certeiro e matemático da estirpe de Euclides e Newton”, uma espécie de esboço do que seria depois um dos grandes poemas brasileiros, “Visão do último trem subindo ao céu”.

Já em “Discurso da mãe do goleirinho”, conto mais extenso, de 26 páginas, uma jovem poetisa, recorrendo à técnica do cordel, reconstitui a vida do seu pai, que não chegou a conhecer, a partir das lembranças da avó, com quem fora morar em Porto Alegre, já à época de seus estudos universitários, uma senhora “viúva desde os 60 anos e que aos 70 perdera o filho querido”.

No conto “Um magnífico espetáculo de aviltante bajulação”, acompanha-se a história do sacrifício de uma cadela chamada Pirata que acabaria por comover toda uma família e, inclusive, levar um filho pequeno a testemunhar a cena do pai vertendo lágrimas, apesar deste ter sido sempre considerado pessoa de coração duro. Por fim, no conto seguinte, “A cerimônia do adeus do Yokozuna Amoyama”, um menino conta sobre o dia em que seu avô o levou à cerimônia de despedida do maior lutador de sumô de todos os tempos.

 

                                                IV   

Nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Lourenço Cazarré (1954) é descendente de portugueses de Cinfães que emigraram para o Brasil ao final do século XIX. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas em 1975. Depois de um breve período como operador de telex, trabalhou um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, que pertenciam à empresa Caldas Júnior, de Porto Alegre. Em junho de 1976, transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter da sucursal local do grupo Caldas Júnior, antes de se transferir para a redação do jornal O Estado.

Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a 1ª Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a ampulheta (1983), em que conta as desventuras de um ditador livremente inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954). Em 1977, transferiu-se para o Distrito Federal, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília.

Por essa época, já escrevia contos que publicava em jornais e revistas. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira, Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa oeste da Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Dessa época, são os contos da primeira edição de Enfeitiçados todos nós (São Paulo, Melhoramentos, 1984).

Em 1983, em Brasília, passou a trabalhar em uma assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. Em seguida, tendo sido aprovado em concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns meses a função de chefe de editoração da Editora da Universidade de Brasília (UnB), até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar. Atualmente, é colaborador do jornal Correio Braziliense. Hoje, vive em Brasília.

Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam o romance A longa migração do temível tubarão (2008), as novelas Nadando contra a morte (1998), Estava nascendo o dia em que conheceriam o mar (2011) e Os filhos do deserto combatem na solidão (2016), as coletâneas de contos A arte excêntrica dos goleiros (2004) e Exercícios espirituais para insônia e incerteza (2012) e as novelas juvenis Kandimba (2019), A fabulosa morte do professor de Português (2013) e Amor e guerra em Canudos (2021).

Em 2018, com Kzar, Alexander, o louco de Pelotas (Curitiba, Editora Paraná, 2018), venceu na categoria romance o Prêmio Paraná de Literatura, promovido pela Biblioteca Pública do Paraná. O romance premiado trata da paixão alucinada de um homem pela literatura. Em parceria com Pedro Almeida Vieira, publicou em fascículos, no site Página Um, a novela policial de humor A misteriosa morte de Miguela de Alcazar. Adelto Gonçalves - Brasil

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Breve memória de Simeão Boa Morte e outros contos poéticos, de Lourenço Cazarré. Rio de Janeiro, Faria e Silva Editora, 176 páginas, R$ 48,90, 2025. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 244 páginas, 18 euros, 2024. E-mails: altabooks@altabooks.com.br incm@incm.pt Sites: www.altabooks.com.br www.incm.pt

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-Latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Contos marcados pela melancolia

Novo livro de Lourenço Cazarré reúne trabalhos publicados entre 1984 e 2022

                                                                                                 

                                                           I

Forjado no dia a dia do jornalismo, em estilo direto, permeado por imagens poéticas e, às vezes, bem-humoradas, embora um tanto niilistas, mas quase sempre marcadas pela melancolia, o livro Contos pelotenses (Florianópolis, Editora Insular, 2025), do gaúcho Lourenço Cazarré (1953), nascido em Pelotas, reúne 16 trabalhos publicados em obras anteriores do autor, entre 1984 e 2022.  Para o crítico e ensaísta André Seffrin, igualmente gaúcho, mas de Júlio de Castilhos, a obra reúne “histórias de solidão, melancolia, medo, morte; de perseguições e cercos, de encontros e desencontros, de desesperos e crimes de paixão, crimes bárbaros e demais encrencas da humana liça. E nelas o suspense campeia sob o teto de uma áspera poesia”, diz no prefácio.

O que se pode acrescentar é que são contos que denotam marcante influência dos autores do realismo mágico ou fantástico que tanto moveram os corações e mentes dos jovens escritores das décadas de 1970 e 1980, muitos especialmente inspirados nos argentinos Julio Cortázar (1914-1984) e Jorge Luis Borges (1899-1986), no  cubano Alejo Carpentier (1904-1980), na chilena Isabel Allende, no mexicano Juan Rulfo (1917-1986), nos uruguaios Mario Benedetti (1920-2009) e Juan Carlos Onetti (1909-1994), no norte-americano William Faulkner (1897-1962) e nos brasileiros Murilo Rubião (1916-1991), José J. Veiga (1915-1999), Dalton Trevisan (1925-2024), Rubem Braga (1913-1990) e Rubem Fonseca (1925-2020).

Sem esquecer de citar a influência de João Simões Lopes Neto (1865-1916), também nascido em Pelotas, que, em Contos gauchescos (1912), coleção de 19 contos ambientados no pampa, narra aventuras de proprietários rurais, peões e soldados, numa linguagem característica do interior do Rio Grande do Sul, como se comprova nas epígrafes dos contos “Meia encarnada dura de sangue, “Animais do banhado” e “A coisa mais tremenda que eu já vi messe banhado”, reunidos nesta obra de Cazarré. Acrescente-se que influência nada tem de coincidência ou plágio, significando apenas uma maneira recíproca de ver o mundo e procurar retratá-lo com palavras.

 

                                                 II   

No conto que abre a obra, “O cavaleiro”, vê-se a preocupação do autor em reproduzir o ambiente de decadência do pampa, mostrando um velho descendente dos antigos barões rurais que, empobrecido e isolado em sua grande casa na maior parte do tempo, só aos domingos saía para seu único passeio semanal, montado no cavalo que lhe havia restado. “Altaneiro como sempre, atravessava a cidade indiferente às piadas dos rapazes, aos xingamentos dos meninos e às buzinas dos carros”.

Já o segundo conto desta antologia, “Enfeitiçados todos nós”, é aquele que deu título ao livro que conquistou o Prêmio Nestlé de 1984 e que, como os demais, tem como cenário a cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, torrão natal do escritor, aqui disfarçada com a denominação de Tapera, palavra que quer dizer “campo arrasado, bandeira aviltada, barco à deriva”.

O conto não recupera a história de nenhum personagem, mas, como numa conversa com o leitor à beira de uma fogueira, com o chimarrão à mão, discorre sobre  cinco feitiços que marcam a vida passada naquela “cidade fantasmal”, que seriam a umidade que se infiltra nas paredes das casas, o calor que faz os homens “arrebentarem os botões do colarinho”, a chuva que destrói a vegetação, o vento  que faz “revirar os olhos das raparigas nos seus leitos incendiados de virgens maculadas” e, por fim, o frio, que “percorre todos os andares de nossas costelas e faz com que sejamos homens macambúzios e cismáticos”.

 

                                                III

Um conto em que Cazarré se vale de sua experiência em redações de grandes diários é “A arte excêntrica dos goleiros” em que discorre sobre a missão que um editor passou a uma jovem jornalista para que entrevistasse um ex-jogador para uma edição especial sobre os grandes craques do passado. “Ele, como o maior goleiro da cidade, o maior de todos os tempos, tinha que ser ouvido, de qualquer jeito”.

Mais adiante, o narrador conta: “A repórter voltou-se interessada para o entrevistado. Tentava imaginar como seria o menino loiro que havia se transformado naquele homem de rosto inexpressivo, o garoto que com muita atenção observava os movimentos do tio: ajeitando as joelheiras esfiapadas, vestindo as meias com cuidado para evitar bolhas, apertando os cadarços da chuteira e ajustando as negras luvas de couro”. E aqui não se avança o desfecho do conto para não se tirar do leitor o prazer da leitura, mas se reproduz estas frases entre aspas para que tenha uma ideia da surpresa que o espera. Só se pode acrescentar que o famoso goleiro havia se inspirado num tio que igualmente ocupara aquela posição em campo.

Outro conto que serve para o futuro leitor como exemplo à perfeição do estilo límpido, conciso e de adjetivos audaciosos de Cazarré é “O homem que amava os clássicos russos” em que se lê sobre a vida de um personagem solitário, “seco de carnes, estatura mediana, cabelos grisalhos”, que, aos cinquenta anos, vivia sozinho, depois de ter vivido “por mais de trinta anos” apenas entre as rameiras e que, agora, na solidão, preferia “a loucura risonha de Gógol” e “a leveza trágica de Tchecov”, pois já não  se sentia jovem para escolher “o gigantesco Tolstói ou o amargo Dostoievski”. E que, sem maiores alternativas, decidiu colocar fogo em sua biblioteca, talvez porque os “deuses são sempre mais impiedosos com os que leem muito”.



                                                          IV

Lourenço Cazarré formou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) em 1975. Depois de um breve período como operador de telex, trabalhou um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, que pertenciam à empresa Caldas Júnior, de Porto Alegre. Em junho de 1976, transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter da sucursal local do grupo Caldas Júnior, antes de se transferir para a redação do jornal O Estado.

Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a I Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a ampulheta (1983), em que conta as desventuras de um ditador livremente inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954). Em 1977, transferiu-se para o Distrito Federal, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília.

Por essa época, já escrevia contos que publicava onde podia. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira, Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa oeste da Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Dessa época, são os contos da primeira edição de Enfeitiçados todos nós (São Paulo, Melhoramentos, 1984).

Em 1983, na capital federal, passou a trabalhar em uma assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. Depois, tendo sido aprovado em concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns meses a função de chefe de editoração da Editora da Universidade de Brasília (UnB), até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar. Atualmente, é colaborador do jornal Correio Braziliense.

Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam o romance A longa migração do temível tubarão (2008) e as novelas Nadando contra a morte (1998), Estava nascendo o dia em que conheceriam o mar (2011) e Os filhos do deserto combatem na solidão (2016).

Em 2018, com Kzar, Alexander, o louco de Pelotas (Curitiba, Editora Paraná, 2018), venceu na categoria romance o Prêmio Paraná de Literatura, promovido pela Biblioteca Pública do Paraná. O romance premiado trata da paixão alucinada de um homem pela literatura. “Mas é um livro multifacetado que pode ser visto também como um elogio à arte do conto, uma grande brincadeira em torno da figura do narrador ou até mesmo, na sua camada mais superficial, como um romance policial”, segundo Cazarré. Adelto Gonçalves - Brasil

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Contos pelotenses, de Lourenço Cazarré. Florianópolis, Editora Insular, 184 páginas, R$ 64,00, 2025. E-mails: editora@insular.com.br insularlivros@gmail.com Site: www.insular.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-Latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


sábado, 7 de julho de 2018

O realismo mágico nos contos de Lourenço Cazarré

                                                            I
Após uma espera de mais de três décadas, estão de volta os contos de Enfeitiçados todos nós (Florianópolis, Editora Insular, 2018), livro do jornalista, contista e romancista Lourenço Cazarré (1953), lançado em 1984 pela Editora Melhoramentos, de São Paulo, depois que seu autor havia conquistado pela segunda vez o Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, o mais importante concurso literário daquela época. Mais: esta segunda edição traz outros três contos, publicados pela primeira vez em 1986 em jornais e revistas, que, encorpados aos seis da edição original, constituem uma bela mostra do trabalho de Cazarré, um dos mais talentosos e originais contistas de sua geração. 

 

Como observa o experiente jornalista e escritor Geraldo Hasse no prólogo que escreveu para este livro, Cazarré não “inventa” personagens nem enredos – no máximo, glamouriza-os, ao humanizá-los, acrescente-se –, mas “apenas reprocessa histórias reais”. É o que se pode constatar no conto “O expedicionário” em que o autor coloca a personagem a falar na linguagem coloquial dos gaúchos para contar a sua própria história de soldado brasileiro na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), agora transformado num homem próximo aos 60 anos de idade, precocemente envelhecido, abandonado por todos e pela chamada pátria:

 

“(...) Foi por essa gente que lutaste! Quando penso nisso, lágrimas vêm turvar ainda mais esses olhos que o bolor dos anos enfraqueceu. (....) Teus raiados olhos de enlouquecido – presos na inexistente bandeira jamais ultrajada – não podem mais ver os picos nevados dos montes italianos. Teus rachados pés de esmoleiro estão de novo sobre o húmus da terra que te engendrou, no ventre de uma índia quando um negro a penetrou com a ardência de um sol africano. Por que, guerreiro, te devolveram assim a tua terra, transformado num ídolo enfeitiçado, símbolo de todas as guerras e de todas as brutalidades. Marcha,  soldado, cabeça de papel”.

 

                                               II

Nascido na cidade de Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, Cazarré, buscou na gente humilde de sua terra natal e de Bagé, cidade na fronteira com o Uruguai, onde passou parte da infância, a maioria de suas personagens. Dessa maneira, pintou um retrato daquelas cidades do tempo de sua juventude em contos que não perderam o viço, como se pode ver no conto que dá título ao livro:

 

“(...) A praça fica repleta de pessoas afogueadas que se entreolham com amarelados olhos vazios. Na fresca da noite, anunciada no ar abafado pelo cheiro de erva-mate, os velhos vão para as calçadas com suas garrafas térmicas e suas bocas chupadas e mostram à lua suas geométricas dentaduras enquanto seus peitos encatarrados tentam conseguir um pouco de ar. O suor se transforma em rios quando todos aqueles velhos insones pressentem que naquela noite não resistirão ao apelo das forças primitivas e que, por fim, se transformarão em lobisomens. Assim aconteceu com o meu e com o teu avô, enquanto nossas avós percorriam alucinadamente as contas negras dos rosários com seus dedos ossudos e bondosos e murmuravam orações piedosas para a salvação de nossas almas (...).


Por aqui se vê também que Geraldo Hasse, no prólogo, ao comparar Cazarré ao inglês Charles Dickens (1812-1870), ao russo Fiódor Doistoiévski (1821-1881) e aos norte-americanos John Steinbeck (1902-1968), William Faulkner (1897-1962) e Truman Capote (1924-1984), não exagera, pois o autor brasileiro é igualmente um grande narrador das tragédias dos humilhados e ofendidos deste mundo.

E não só: seus contos denotam uma marcante influência dos autores do realismo mágico ou fantástico que tanto moveram os corações e mentes dos jovens escritores brasileiros das décadas de 1970 e 1980, especialmente os argentinos Julio Cortázar (1914-1984) e Jorge Luis Borges (1899-1986), o  cubano Alejo Carpentier (1904-1980), a chilena Isabel Allende, o mexicano Juan Rulfo (1917-1986), os uruguaios Mario Benedetti (1920-2009) e Juan Carlos Onetti (1909-1994) e os brasileiros Murilo Rubião (1916-1991) e José J. Veiga (1915-1999). E o conceito de influência aqui, diga-se de passagem, segue o que afirmou o crítico Antonio Candido (1918-2017) em Formação da Literatura Brasileira (1981), que se distingue de coincidência ou plágio, mas envolve “assimilação recíproca”.

                                                           III
Formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) em 1975, Cazarré, depois de um breve período como operador de telex, trabalhou um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, que pertenciam à empresa Caldas Junior, de Porto Alegre. Em junho de 1976, transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter da sucursal local da Caldas Junior, antes de se transferir para a redação do jornal O Estado.

Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a I Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a ampulheta, em que conta as desventuras de um ditador livremente inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954), influenciado talvez pelos romances do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), do peruano Mario Vargas Llosa, do guatemalteco Miguel Ángel Astúrias (1899-1974) e do espanhol (galego) Ramón Maria del Valle-Inclán (1866-1936).

Em 1977, transferiu-se para Brasília, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília. Por essa época, já escrevia contos que publicava onde podia. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira, Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa oeste da Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Da época em que viveu com a mulher Luísa em Laranjal são os contos da primeira edição de Enfeitiçados todos nós.

Em 1983, na capital federal, passou a trabalhar em uma assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. Depois, tendo sido aprovado em concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns meses a função de chefe de editoração da Editora Universidade de Brasília, até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar.

Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam o romance A longa migração do temível tubarão (2008) e as novelas Nadando contra a morte (1998), Estava nascendo o dia em que conheceriam o mar (2011) e Os filhos do deserto combatem na solidão (2016). Adelto Gonçalves - Brasil


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Enfeitiçados todos nós, de Lourenço Cazarré, com ilustrações de Enio Squeff. Florianópolis: Editora Insular, 120 páginas, R$ 30,00, 2018. E-mail: editora@insular.com.br  Site: www.insular.com.br



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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br