Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 6 de janeiro de 2018

Suíça – Entre Berna e Lisboa um empreendedor sobre Sustentabilidade Alimentar

Após realizar um mestrado sobre desperdício alimentar no curso de sustentabilidade na Universidade de Basileia, em 2011, João Almeida fundou a empresa Foodways na capital helvética. Hoje vivendo entre Berna e Lisboa, Almeida é um exemplo de uma nova safra de empreendedores sociais atuando globalmente



O nosso entrevistado viveu nove anos na Suíça e há cerca de dois anos, juntamente com a família, decidiu voltar a Lisboa. Trabalha remotamente a partir da capital portuguesa e desloca-se a Berna uma semana todos os meses.

Ainda ao final dos estudos secundários, João Almeida tinha o sonho de ir para Itália frequentar a universidade mas acabou por se matricular em economia na Universidade Nova de Lisboa, porque não sabia claramente o que estudar. "Não gostei, nem desgostei". No terceiro ano, participou do programa Erasmus de intercâmbio universitário e, ao ter de escolher um destino na Europa, optou por Berna por ser uma capital.

O ano de Erasmus

João Almeida veio em 2006 à Suíça para estudar. O seu primeiro choque foi com a língua e achou que seria impossível aprendê-la. "Inicialmente é o que toda a gente pensa", devido ao suíço alemão ser um dialeto de tradição oral que não se aprende na escola nem nos livros.

Na Universidade de Berna, João ficou admirado com as diversas mundividências dos seus colegas, contrariamente ao que encontrou em Lisboa. Isso também o fez apaixonar-se pela Suíça. Também lhe causou admiração os jovens tornarem-se independentes mais cedo do que em Portugal. A centralidade geográfica do país foi outra boa surpresa, podendo apanhar um comboio e em poucas horas estar noutra cidade europeia. Se tudo isso não fosse suficiente, no final desse ano conheceu a sua companheira Martina e a sua ligação ao país helvético aprofundou-se ainda mais.

Regressar à Suíça: o estágio e o mestrado

Quando voltou para viver na Suíça, um amigo incentivou-o a candidatar-se a um estágio na empresa Syngenta para o departamento de "business intelligence". Nessa empresa começou a ter contato com as discussões sobre sustentabilidade alimentar, particularmente as duas abordagens: a da intensificação da produção, e a vertente orgânica/biológica.

Ainda durante o estágio, João descobriu o mestrado em Sustentabilidade, pelo qual se apaixonou. A possibilidade de frequentar aulas nas faculdades de economia, ciências sociais e humanas, e ciências naturais "mostraram-me a complexidade que o mundo é". Durante o estágio pediram-lhe para fazer um estudo sobre desperdício alimentar e o tema interessou-lhe de imediato. Por esse motivo, decidiu aprofundá-lo e fez dele o assunto da sua tese que não poderia ter sido mais original: foi o primeiro documento publicado sobre o assunto na Suíça.

Conhecimento acadêmico para fundar a Foodways

Esse trabalho teve bastante projeção nacional e João Almeida apareceu em diversos meios de comunicação social e palestras sobre sustentabilidade. Aproveitando o interesse que a sociedade depositou no seu trabalho acadêmico, juntou-se com o seu colega e amigo Markus Hurschler e fundaram a Foodways uma empresa de serviços na área da sustentabilidade alimentar. Inicialmente eram apenas os dois, mas hoje em dia são uma equipe de oito pessoas.

João diz que abrir uma empresa na Suíça foi um processo burocrático relativamente simples. Contudo, o mais difícil para si é sentir-se sempre "estrangeiro, não pela sociedade, mas pelas instituições", mesmo tendo um grande envolvimento em temas centrais da política suíça.

A Foodways desenvolve projetos e dá consultoria em diversas áreas, como desenvolvimento de negócio, inovação, estratégias de marketing e comunicação, estratégias de redução de desperdício alimentar, entre outras. Inicialmente os sócios estavam afetados pela síndrome "da formiga que quer fazer tudo", mas com o tempo tiveram de estreitar o leque de projetos.

Dos diversos projetos, João Almeida destaca a gestão da associação United Against Waste, inicialmente lançada pela Unilever, que procura reduzir o desperdício alimentar no setor de restaurantes. Organizam sessões de coaching nas cozinhas e, por meio do software de medição de desperdício alimentar Leanpath, mostram o potencial de redução de desperdício levando-os a poupar dinheiro e recursos. Estão igualmente desenvolvendo um aplicativo para smartphone em formato de jogo, direcionado a cozinheiros que queiram aprender a reduzir o desperdício na cozinha.



João fala-nos também do novo aplicativo de receitas culinárias Myfoodways, que ainda estão a desenvolver e é financiada pelo Migros Engagement Fonds. "A ideia é fazer uma aplicação que as pessoas usem para o dia-a-dia", recomendando sempre produtos da época e escolhas sustentáveis. O aplicativo também sugere formas de conservar os alimentos cozinhados para se voltar a reaquecê-los. O programa encontra-se em fase de testes, está apenas disponível em alemão, e uma empresa de web-design sediada em Lisboa está a desenvolvê-lo. Paralelamente, estão a criar um modelo de negócio para financiarem o projeto no longo prazo.

Regresso a Lisboa: trabalhar à distância

João Almeida e a sua companheira decidiram ir morar um ano na capital portuguesa para que os seus dois filhos tivessem contato com os avós portugueses e a língua portuguesa. Contudo, ao fim de alguns meses, decidiram que não queriam voltar para a Suíça tão cedo. Apesar de se sentir feliz na Suíça, o seu coração está mais confortável em Lisboa.

O esquema que encontraram foi de trabalhar remotamente a partir de Lisboa. "Eu não queria deixar todo o trabalho investido na empresa". No entanto, ficar pendulando tantas vezes entre a Suíça e Portugal o faz questionar a sustentabilidade da sua escolha. "Trabalho com sustentabilidade e viajo uma vez por mês de avião. Se abrirmos cá um escritório, não terei de ir tão frequentemente à Suíça". Por outro lado, essas idas à Suíça lhe permitem atualizar-se com a tecnologia.

As raízes na Suíça e os novos caminhos

Ao fim de nove anos vivendo na Suíça, e mais dois entre Lisboa e Berna, João Almeida já se aculturou em muitos aspetos. Ele salienta que "o fato de haver pouca espontaneidade, de estar tudo planeado" é algo com que se habituou mas que não lhe agrada muito na Suíça. Mas, ao mesmo tempo, valoriza as pessoas com muita cultura e atividades interessantes que conheceu.

A família da sua companheira é de Berner Oberland e para lá costuma ir com frequência. No entanto, é o cantão do Ticino que elege como lugar preferido da Suíça. Apesar de estar baseado em Berna, frequenta Basileia e Zurique porque tem muitos amigos nessas cidades.

Por ter vindo ao país para estudar, a sua abertura foi sempre grande. Quando começou a dominar a língua alemã, as relações sociais desenvolveram-se de forma mais fácil. Apesar de compreender o suíço-alemão, principalmente o dialeto de Berna, não se sente confortável para usá-lo tão frequentemente no trabalho.

Ao ser indagado sobre a nova emigração portuguesa, João reconhece que a maior diferença é a qualidade da mão-de-obra e a abertura ao mundo. No entanto, parece-lhe que essa nova leva ainda preserva um certo distanciamento em relação à sociedade suíça, como as gerações anteriores.

Neste momento, João Almeida pensa continuar a viver em Lisboa e a trabalhar na sua empresa na Suíça. Tem alguns projetos de reforma de casas com a sua companheira, e estão a pensar aplicar padrões de isolamento térmico suíços, tal como o Minergie, em Portugal, mas, para isso, "é preciso trabalhar com precisão suíça".

Para além disso, João Almeida gostaria de continuar a construir pontes culturais entre os dois países. "De que forma e com que recursos, não sei. É apenas um projeto", embora essas pontes já estejam a ser criadas através da sua vida. Filipe Carvalho – Suíça in “Swissinfo”



João Almeida – Lisboa, Portugal - Ao escrever a sua tese de mestrado sobre o tema do desperdício alimentar na Suíça desempenhou desde então um papel fundamental no desenvolvimento desta agenda. As suas experiências no Gabinete de Estratégia e Estudos (GEE) do Ministério da Economia de Portugal (Lisboa) e na Syngenta Crop Protection (Basileia) despertaram interesse nos complexos desafios que enfrenta um sistema alimentar sustentável e o levaram a formar a Foodways ao lado de Markus e Jürg em 2012.

China – Cervejas portuguesas ganham mercado

As cervejas Sagres e Super Bock têm vindo a registar resultados “bastante promissores” nas exportações para a China, que se destaca cada vez mais entre os mercados internacionais das duas marcas



A China é destino de aposta do Super Bock Group e da Sociedade Central de Cervejas e Bebidas (Sagres), ocupando o primeiro e segundo mercado de exportação, respectivamente, disseram à Lusa os responsáveis das duas empresas cervejeiras.

“A actividade comercial do Super Bock Group na China começou em Janeiro de 2009, quando enviámos o primeiro contentor para comercialização da marca Super Bock em hotéis e restaurantes através de parcerias que estabelecemos com distribuidores locais”, afirmou à Lusa Rui Lopes Ferreira, presidente executivo da empresa.

Por sua vez, a Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, que tem a Sagres, iniciou a comercialização na China, embora de forma “residual, em 2013”, adiantou Nuno Pinto Magalhães, director de comunicação e relações institucionais da empresa.

“Em 2016 foi quando começámos a acelerar o nosso crescimento” naquele mercado, acrescentou.

Para o Super Bock Group, “hoje a China é o maior destino internacional da empresa, registando resultados bastante promissores ao representar 40% das exportações, sobretudo da cerveja Super Bock, o que significa já mais de 10% da receita global (451 milhões de euros em 2016)”, referiu Rui Lopes Ferreira.

No caso da cervejeira que detém a marca Sagres, em 2016 foram exportados quatro milhões de litros para a China, prevendo-se para 2017 “um crescimento superior a 50%”, acrescentou Nuno Pinto Magalhães.

“A China, neste momento, é o segundo mercado de exportação da Sagres, a seguir à Suíça, não considerando Angola, que já não é exportação”, salientou o mesmo responsável, apontando que a região onde o grupo mais vende cerveja é na província de Fujian, embora também comercializem para Zhejiang e Guangdong.

Já a Super Bock “está a ser comercializada em cinco mil pontos de venda distribuídos por 50 cidades, localizadas em três províncias com 200 milhões de pessoas. Mantém-se a presença em hotéis e restaurantes seleccionados, tendo a empresa já alargado a comercialização desta marca também ao canal alimentar”, concluiu o presidente executivo do grupo.

Relativamente a Angola, a Sociedade Central de Cervejas e Bebidas adiantou que a Sodiba – Sociedade de Distribuição de Bebidas de Angola, fábrica da empresária angolana Isabel dos Santos, “iniciou a produção em meados de Março [de 2017], em regime de “trademark license agreement”, sendo que só divulgarão dados “passado sensivelmente um ano”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Portugal – Patrulha da marinha partiu para o Golfo da Guiné

A cerimónia da largada do navio patrulha “Zaire” e do reabastecedor “Bérrio”, para uma missão de capacitação marítima da Guarda Costeira de São Tomé e Príncipe decorreu no passado dia 3 de Janeiro, na Base Naval de Lisboa, no Alfeite.



Guarda-Costeira de São Tomé e Príncipe

Os dois navios navegarão para o Golfo da Guiné com a missão de promover o projecto de capacitação da Guarda-Costeira de São Tomé e Príncipe e de cooperação técnico-militar com os países amigos da região, potenciando, em especial, iniciativas percursoras para o desenvolvimento de capacidades de defesa e segurança marítima no Golfo da Guiné.

Em comunicado, a Marinha explica que a duração da missão está prevista ser de 1 ano para o patrulha “Zaire” e de três meses para o navio reabastecedor “Bérrio”. João Borges – Portugal in “Agricultura e Mar Actual”

Brasil - Velocidade das ferrovias brasileiras está mais baixa do que em 2001

Dados da ANTT mostram que, de 2001 a 2016, a velocidade dos trens caiu entre 5% e 76%; há casos em que as locomotivas circulam a menos de 10 km/h; falta de investimentos e aumento da carga em alguns trechos estão entre as explicações



A velocidade das ferrovias brasileiras caiu tanto nos últimos anos que hoje um maratonista olímpico conseguiria superar os trens que circulam em vários trechos da malha nacional. Em alguns casos, as locomotivas e vagões andam, em média, a menos de dez quilômetros por hora (km/h) – número menor que os indicadores de 2001, quando as estatísticas começaram a ser levantadas. A melhor marca nacional, em torno de 27 km/h, está bem abaixo da registrada nos Estados Unidos, por exemplo, onde os trens circulam a 45 km/h.

Privatizadas há 20 anos e prestes a terem os contratos renovados antecipadamente, essas estradas de ferro enfrentam uma série de gargalos, que atrapalham a produtividade do transporte nacional – hoje altamente dependente das rodovias. A origem do problema tem várias vertentes. Começa com a morosidade e a incapacidade do governo de resolver conflitos de sua competência no setor; passa pela falta de investimentos adequados nas vias; e termina na saturação de alguns trechos, com o aumento de carga movimentada.

O resultado se reflete na curva de velocidade. Dados do Anuário Estatístico da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) mostram que de 2001 até 2016, a queda da velocidade dos trens variou de 5% e 76%. Apenas uma – a MRS – conseguiu melhorar o indicador.

Nesse período de 16 anos, muita coisa aconteceu no setor. Em meados dos anos 2000, depois de investimentos pesados em locomotivas e vagões e algumas melhorias na via, as empresas conseguiram melhorar a velocidade, mas a partir de 2010 os números entraram num movimento de declínio. “De modo geral, não há um fator que explique a queda de todas as ferrovias. Cada uma tem sua especificidade”, explica o presidente da consultoria Inter.B, Claudio Frischtak.

Ele usa como exemplo o caso da Estrada de Ferro Carajás que passou por uma grande obra de duplicação, o que pode ter influenciado na velocidade. Considerada uma das mais eficientes do País, a ferrovia tinha velocidade média de 24,07 km/h em 2016 ante 33 km/h em 2001. A Vale, empresa que administra a estrada, afirma que a queda foi decorrente do aumento da produção, que significa maior quantidade de trens ao longo da linha férrea.

Frischtak cita também a situação da ALL. A empresa, que detinha a maior malha ferroviária do País, foi comprada em 2012 pelo grupo Cosan e passou a se chamar Rumo. De lá para cá, a nova proprietária da malha ferroviária conseguiu alguns avanços na velocidade, mas em 2016 voltou a cair. Comparados a 2001, todos os trechos da empresa registraram queda.

A Rumo afirma que composições mais compridas e vagões com maior capacidade de carga passaram a ser usados após a compra. Desde então já foram investidos R$ 1,8 bilhão na aquisição de 150 locomotivas e de 2,7 mil vagões. “Com trens maiores e mais pesados circulando pela malha, a velocidade naturalmente diminuiu”, afirma a empresa, em nota.

Eficiência. As concessionárias não gostam de relacionar velocidade à produtividade, embora especialistas afirmem que esse é um indicador de eficiência. “Temos uma malha centenária com declives e aclives, que limitam a operação; nem com os melhores materiais (trens e vagões) se consegue melhorar a velocidade”, afirma o diretor executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), Fernando Simões Paes. Na avaliação dele, uma das principais explicações para a redução da velocidade é o aumento do volume transportado.

Ninguém nega que houve melhoras no sistema ferroviário desde a privatização. Um número maior de empresas passou a ser atendido pelos trilhos, que hoje respondem por 25% da matriz de transporte – participação considerada baixa. Mas especialistas entendem que muita coisa precisa mudar para que as ferrovias ganhem mais participação na matriz nacional.

O governo entende que para compreender melhor as causas da queda na velocidade precisa fazer um estudo aprofundado, o que ainda não está nos planos da ANTT, que fiscaliza o setor. O superintendente do órgão, Alexandre Porto, afirma que a velocidade é resultado de um conjunto de fatores, como a qualidade da via e o aumento do tráfego. Além disso, o crescimento desordenado das grandes cidades espremeu as ferrovias, o que tem impacto na velocidade. “Toda a malha nacional, construída num período de baixa urbanização, tem muitas passagens de nível (para permitir que carros e pessoas atravessem os trilhos)”, afirma o professor da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende.

Renovação. O superintendente da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Alexandre Porto, afirma que a renovação das concessões de ferrovias deve corrigir algumas falhas dos contratos anteriores. Além de estabelecer níveis de qualidade de serviço, a expectativa é ter multas mais razoáveis, caso o concessionário não cumpra as obrigações.

Hoje, dizem especialistas, as multas baixas não estimulam o cumprimento do contrato. Além disso, os novos contratos devem prever investimentos bilionários exatamente para eliminar esses gargalos.

“A solução para o problema da baixa velocidade dos trens são investimentos em contornos ferroviários”, afirma o professor da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende. Segundo ele, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tentou reduzir o problema incluindo alguns projetos, mas foi pouco diante dos gargalos. Porto cita como exemplo os contornos de Araraquara (SP) e Barra Mansa (RJ) como investimentos feitos para melhorar a operação.

Há ainda, segundo Resende, uma questão técnica, que é o tamanho da bitola (largura entre um trilho e outro) de 1 metro e 1,6 metro. Isso exige locomotivas de tamanhos diferentes. Algumas ferrovias têm um terceiro trilho para resolver o problema. “Mas há situações em que isso não resolve, pois os túneis não foram preparados para isso. Ou seja, não cabe uma locomotiva maior.” Reneé Pereira – Brasil in “Estadão”

Suíça – Tecnológica helvética aposta em Portugal

Portugal recupera-se de uma das piores crises da sua história recente. A economia cresce e o país volta a ser interessante para os investidores. Andrea Weisskopf chegou há pouco em Lisboa para abrir uma filial de uma grande empresa suíça de software. O que não esperava é que os engenheiros portugueses fossem disputados por tantos concorrentes



Cenas do passado: armazéns de secos e molhados na freguesia da Graça, com funcionários que conhecem os clientes pelo nome e pesam os grãos na balança no balcão. Ou os alfaiates na Baixa, onde o vendedor traja fatos (ternos) de tecido inglês e usa no punho uma almofada com alfinetes. Isso passou. Hoje a moderna Lisboa é muito diferente. Em um centro empresarial na Avenida da República, no centro da cidade, dois andares são partilhados por inúmeros startups em sistema de "co-working space". Na porta de entrada, quatro recepcionistas cumprimentam o visitante em inglês. Em algumas das inúmeras salas, jovens fixam os olhos nos seus computadores ou discutem em vários idiomas frente a flipcharts coloridos.

Um jovem de cabelos curtos espichados, com óculos modernos sem aro, trajando uma fina camisa social azul, sai de uma das salas e cumprimenta em alemão: "Bem-vindo à AdNovum, no nosso espaço provisório". Andrea Weisskopf se desculpa por não conseguir ainda falar o português. Com apenas 37 anos, o suíço é diretor-geral da filial portuguesa da AdNovum, uma grande empresa suíça de informática que se instalou no país em março de 2017.

Portugal atrai investidores

Fundada em 1988 em Zurique por um grupo de informáticos, a AdNovum é uma empresa especializada no desenvolvimento de software para setores diversos como finanças, seguros, telecomunicações, indústria e logística e governo. Hoje com 600 funcionários, ela tem sua sede em Zurique e filiais em Berna, Lausanne, Budapeste, Ho Chi Minh (Vietnã), Singapura e agora em Portugal. Na Suíça ela é mais conhecida por aplicativos de banco e sistemas de pagamento por dispositivos móveis

O passo dado em direção à Portugal não se explica pelo clima ameno. "Depois de expandir à Ásia queríamos abrir uma filial em um país europeu. Escolhemos Portugal pelo nível elevado das universidades e sua proximidade dos nossos principais mercados", justifica Andrea. O jovem engenheiro de software se formou em 2005 na Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH, na sigla em alemão). Seu primeiro emprego foi na empresa de Zurique. Hoje é um dos responsáveis pelo projeto de "nearshore", a deslocalização dos serviços feitos na Suíça para outros países, onde há mais disponibilidade de mão-de-obra qualificada e custos mais baixos.

Andrea chegou em Portugal logo após ter vivido por três anos no Vietnã, um dos últimos Estados comunistas no mundo, foi uma experiência que marcou sua vida, mas agora está feliz de ter retornado à Europa. "Lisboa é uma cidade bastante internacional, com muitos imigrantes. Aqui você encontra tudo que necessita e a compreensão é muito mais fácil. Em Ho Chi Minh muitas pessoas ainda não falam o inglês, o que torna a vida muito mais complicada", lembra-se. E foi caminhando pelas ruas que percebeu porque os pais, muitos anos atrás, haviam contratados operários portugueses para fazer um caminho de pedras na frente da casa. "São milhares de quilômetros de calçamento feitos dessa forma. Eles sabem fazer esse trabalho", lembra com nostalgia.

Mais 100 programadores até 2022

Junto com ele e outro colega suíços, a empresa já contratou quatro jovens portugueses, mas o objetivo é expandir ainda mais. "Queremos contratar mais cem programadores nos próximos cinco anos", afirma Andrea. A maior dificuldade enfrentada pela empresa é encontrar jovens talentos, pois o mercado está muito aquecido. "Chegaram muitas empresas aqui em Portugal interessadas em contratar engenheiros de software e outros profissionais especializados", diz.

Além disso, ainda existe o problema do setor imobiliário. Com uma taxa de crescimento de 3% ao ano, Portugal tem uma das economias mais aquecidas na União Europeia, o que reflete na oferta de escritórios e residências. "Levei quase um mês para encontrar meu apartamento em Lisboa. A procura no momento é muito grande", avalia.

Nas horas livres o suíço aproveita para praticar escalar nas montanhas vizinhas, seu esporte preferido. Casado com uma Suíça e pai de uma filha de um ano e meio, Andrea também ainda não teve tempo de se integrar, pois o trabalho ocupa muitas horas do dia. Porém já dão os primeiros passos. "Temos duas aulas por semana de português em uma pequena escola", conta com orgulho.

Fora o idioma, também tenta conhecer melhor o país através de passeios nos finais de semana. O que mais lhe impressionou até agora foi o Castelo dos Mouros em Sintra. Questionado se pensa em retornar à sua pátria, o jovem engenheiro ri e responde. "Provavelmente iremos retornar um dia a Zurique, mas agora estou muito feliz com esse desafio de construir algo novo em Portugal." Alexander Thoele – Suíça in “Swissinfo.ch”

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Espanha - Porto seco de Salamanca avança em 2018


As obras do futuro porto seco de Salamanca deverão iniciar-se em 2018, anunciou o conselheiro da Fazenda do ayuntamiento salamantino


Numa primeira fase, prevê-se a infraestruturação da área logístico-industrial do complexo, avançou Fernando Rodríguez.

O investimento será de 8,6 milhões de euros, a serem financiados por um aumento de capital da Zaldesa, a sociedade gestora da plataforma logística de Salamanca, a ser realizado em partes iguais pelo Ayuntamiento de Salamanca e pala Somacyl, sociedade pública detida pela Junta de Castela e Leão.

A ideia é disponibilizar às empresas 56 836 metros quadrados de solo logístico e industrial urbanizado a preços acessíveis.

Numa segunda fase, será construída a plataforma intermodal, no sector industrial de Peña Alta, num investimento de 12,2 milhões de euros, financiados em 4,3 milhões de euros pela Junta.

Recorde-se que o Porto de Leixões e a Zaldesa chegaram a protocolar a entrada da APDL no porto seco de Salamanca, em contrapartida ao estabelecimento da Zaldesa na plataforma logística de Leixões, mas a “troca” não chegou a concretizar-se. In “Transportes & Negócios” - Portugal

Macau - Obra revela presença da Inquisição em Macau que passou ao lado da historiografia



O investigador Miguel Rodrigues Lourenço dedicou anos a juntar peças de um ‘puzzle’ que, porventura, nunca ficará completo. Da pesquisa aturada, vertida em livro, saiu, porém, um novo contributo para a História: a Inquisição actuou em Macau via Goa.

“A Articulação da Periferia: Macau e a Inquisição de Goa (c. 1582- c. 1650)”, obra recentemente distinguida pela Academia Portuguesa da História (na categoria de História da Presença de Portugal no Mundo), debruça-se sobre a “não questão” aos olhos da historiografia da actuação do Santo Ofício em Macau, dado como “um espaço de impermeabilidade” e “um porto seguro” para cristãos-novos.

O trabalho do investigador do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa vem preencher um vazio sobre a actuação do Santo Ofício no antigo enclave português, acabando por contestar, em certa medida, com recurso a documentação nova, a tese instalada, demonstrando como se estenderam a Macau, através de Goa, os tentáculos da Inquisição.

“A experiência do Santo Ofício em Macau era uma não-questão para a historiografia, um pouco influenciada por autores como Charles Boxer, sendo a percepção geral a de que Macau teria permanecido amplamente à margem daquilo que se chama actividade inquisitorial, que seria de certa forma imune”, pelo que “o contributo mais interessante é o de que as coisas talvez não devam ser olhadas assim”, explica à agência Lusa.

Isto porque, apesar de “ser, em grande medida, um espaço de refúgio para os cristãos-novos, a verdade é que há casos de processados – embora sem a mesma expressão numérica de Goa ou Cochim, por exemplo – e, quando analisamos a documentação, verificamos que sempre que a inquisição de Goa emitiu uma ordem ela foi executada em Macau”.

O investigador observa, porém, que “a Inquisição é um vínculo que se pode dizer familiar nos séculos XVI e XVII, no contexto da Coroa e seus domínios, pelo que o facto de Macau ter tido uma experiência com o Santo Ofício não é uma coisa assim aberrante”.

“Se era um paraíso para cristãos-novos, não era porque a Inquisição não era capaz de intervir, mas por outros factores que terão muito que ver com a sua importância no contexto mercantil do Estado da Índia”, sustenta, explicando que tal fez, por exemplo, com que “não fosse conveniente” lançar uma visitação – momento em que o inquisidor sai da sua sede de distrito para qualquer território sob sua jurisdição para fazer averiguações no terreno.

“Isso não acontece em Macau apesar de ordenado desde Lisboa em grande medida por haver um bloqueio do governador do Estado da Índia para que não vá avante”, diz, salientando que tratar-se-á do “aspecto que mais mostra que, no contexto do Estado da Índia, houve limites à presença da Inquisição em Macau”, mas que esses limites não a invalidaram.



“Macau teve durante todo o período de vigência da inquisição de Goa e, sobretudo a partir da morte de D. Leonardo de Sá [bispo da China], uma experiência regular – atrevo-me a dizer normalizada – apesar das tensões da primeira metade do século XVII” entre as ordens religiosas no seio das quais eram nomeados os comissários do Santo Ofício, sublinha.

Em causa, os “três cismas de Macau” ou “três violentas controvérsias de precedências jurisdicionais que chegaram ao extremo de levar, por exemplo, a que, em 1642, o capitão-geral de Macau, que apoiava a facção da Companhia de Jesus, tivesse apontado ao Convento de Santo Agostinho os canhões do Forte de S. Paulo”.

O Santo Ofício tinha uma série de tribunais, com o de Goa a figurar como o único com sede fora do Reino, com a sua área de jurisdição, sobre território descontínuo, a abarcar Macau que, “a partir de certa altura, passa a ter comissários residentes e a funcionar em permanência”, contextualiza.

Leonardo de Sá constitui uma “excepção no contexto da inquisição de Goa”, dado que “chega ao Estado da Índia com uma comissão inquisitorial passada diretamente pelo inquisidor geral para ser exercida apenas sobre aqueles que se tinham convertido recentemente à fé católica”, “causando desconforto entre os inquisidores de Goa”.

“Há queixas de que abusa da sua comissão e que se atreve a julgar aqueles que estavam fora da sua comissão, os portugueses, cuja jurisdição pertenceria então à inquisição de Goa”, pelo que, quando morre, esta “passa a enviar comissões para serem executadas em Macau”, isto dentro do que se pode saber pois o arquivo da inquisição de Goa foi destruído no século XIX.

Também é por essa razão que, “durante muito tempo, a inquisição de Goa foi o parente pobre dos estudos inquisitoriais em Portugal porque há uma tradição de se estudar a partir dos processos”, explica, dando conta de que, no caso de Macau, só dispõe de um único completo.

Soma-se a isso “um repertório das causas seguidas pelo tribunal de Goa até 1623 e listas de autos de fé, que não estão completas, mas que dão acesso a algumas informações relativas a Macau”. “De resto, fui encontrar em correspondência menções a casos, mas a informação em termos das vítimas, dos processados, é muito fragmentária e há coisas que de facto nunca saberemos”, reconhece. In “Ponto Final” - Macau