Alva
é corunhese e, apesar de o galego ter uma presença escassa na sua infância, ou
talvez por isso, acabou a estudar Filologia Galego-Portuguesa. Foi na
Universidade, até não admira, onde encontrou e ficou com a estratégia
internacional da nossa língua. É ume des autóries do Guia de Linguagem Não Binária.
Aspira a ser professore de pessoas adultas numa EOI. Isso também não admira.
Discorda do mantra “o único galego mal falado é o que não se fala” Gostaria que
em 2050 houvesse uma Galiza mais consciente da sua posição dentro do galego
internacional.
Alva é da Corunha. O seu
contacto com o galego, como o da maioria das pessoas da sua idade, era
residual, mas decidiu estudar Filologia. Porque essa escolha? Que representou
em termos de usos e de contacto com o galego?
Eu
comecei estudando apenas filologia espanhola na UDC porque o meu objetivo era
ser professore no ensino secundário. Normalmente são es professóries durante a
ESO es que mais nos influem em certas decisões académicas e neste caso não foi
diferente. Porém, no primeiro dia de aulas já fui ciente de que errara na
escolha e em terceiro ano mudei para o duplo grau galego-espanhol. A UDC tem um
plano de estudos que te permite ter duas carreiras em cinco anos e vi a
oportunidade perfeita para continuar a aprender com as profissionais da
Faculdade sobre literatura espanhola, mas formando-me naquilo sobre o que,
intuía, ia querer trabalhar e investigar no futuro (que é agora!).
O meu
contacto com o galego, como comentas, foi residual até chegar à Faculdade e
assistir às aulas de língua. Aí foi quando comecei a ser monolingue e a
preencher as lacunas que tinha sobre diferentes temas culturais, literários e
linguísticos do nosso país. Isto evidentemente levou consigo que certas pessoas
do meu círculo deixassem aflorar os seus preconceitos sobre a língua e que eu
tomasse partido de diferentes formas. Nem sempre assertivas, na verdade.
Na Faculdade, tomaste contacto
com a estratégia internacional da nossa língua, por meio da professora Cilha
Lourenço. Como se olha a nossa língua com uns óculos assim?
Conforme
avançava nos meus estudos tinha mais claro que a defesa do galego não passa
apenas por falá-lo, mas por ter um compromisso firme com o seu uso em todos os
âmbitos. E, sim, também pelo trabalho de tirar, aos poucos, espanholismos,
estruturas alheias à nossa tradição linguística ou erros na fala. No primeiro
dia será difícil não dizer pero em cada frase, mas ao terceiro tornar-se-á
muito mais natural utilizar mas / mais, e assim com todos os casos. Para
mim foi bastante singela esta mudança porque tive a sorte de me formar com
professorado reintegracionista nas aulas: Cilha Lourenço, Roberto Samartim,
Isaac Lourido etc. Na verdade foi um prazer aprender de uma forma tão orgânica,
foi como um curso imersivo de cinco anos. Eduquei-me no isolacionismo, nunca
tivera contato com o galego internacional além dos mal chamados “lusismos”
dentro dos desvios linguísticos nalgum tema do bacharelado e no começo era bem
estranho escrever com outra grafia. Mas não queria ficar sendo
“reintegracionista de coração”, queria mesmo que os meus atos fossem alinhados
com o que eu pensava. Quanto mais estou em âmbitos em que o português tem
presença, mais ricas são as conversas e maior análise sobre a língua há. Na EOI
da Corunha, por exemplo, presenciei debates superinteressantes da mão de
profissionais do departamento de português e de galego em conjunto que oxalá
estivessem presentes em todos os centros de ensino, porque tornariam muito mais
ricas as aulas.
Alva faz parte da equipa que
elaborou o Guia de linguagem não binária. Porque era bom que o lêssemos?
O Guia
tinha de ter existido muito antes, porque a Galiza já contava com es
profissionais para o fazer desde há muito tempo. Porém, certos âmbitos do
isolacionismo decidiram que não era um tema suficientemente importante como
para dedicar o espaço que lhe corresponde. Por sorte, não dependemos por
completo desses âmbitos, porque então livros como este - ou como aqueles
relacionados com a aprendizagem do português - não seriam uma realidade.
Acho
que todo o mundo se pode achegar ao livro, porque está escrito para que assim
seja. É certo que algumas partes são mais densas: há explicações linguísticas
pormenorizadas, uma revisão histórica etc. Porém, penso que conseguimos dirigir
toda essa informação também para um público que se calhar não possui formação
filológica e que está interessado em conhecer de perto a aplicação da linguagem
não binária na língua galega. Foi mesmo um prazer formar parte de algo tão
necessário.
Continuas com vontade de ser
professore no secundário? O que pode fazer uma docente para provocar pequenas
mudanças?
Posso
dizer quase com certeza que não iria para o secundário. Basicamente porque
prefiro trabalhar com gente que está a estudar por vontade própria e não de
forma obrigada. Motiva-me muito mais a ideia de dar aulas na universidade, em
que o alunado assiste por prazer (na maior parte dos casos) ou nas escolas
oficiais, do que o “desafio” de conseguir que gostem da matéria. Haveria que
perguntar a quem está nesta situação, mas acho que tentar que o galego se torne
atraente durante a adolescência não é para mim. Quando criança e durante a ESO
prestava muita atenção a como o professorado se esforçava para que tivéssemos
pensamento crítico, adorava fazer parte ativa da aula e colaborar nas
atividades voluntárias com impacto social. Se calhar isso foi o que me fez
querer trabalhar no secundário: a paixão do corpo docente. Mas com o passar do
tempo vi que não queria apenas isso e decidi mudar de caminho. Na UDC há vários
projetos, como Culturarmos ou Literatura
con pluma (ambos presentes no Instagram), com grande
influência nes alunes da Faculdade. Colaboram na normalização do galego,
difundem a nossa cultura além do Minho e integram es estudantes através de
pequenas participações. Esses esforços provocam pequenas-grandes mudanças e
fazem parte do grande objetivo comum: conseguir que mudem os tempos para que
mudem as vontades.
Alva trabalhou umas semanas na
EOI da Corunha. Fala-nos dessa experiência.
Qualquer
pessoa que me escutasse falar da EOI da Corunha nestes últimos dois meses sabe
que adorei imenso a experiência. Apontei-me nas listagens por fazer algo
diferente e por conseguir pontos para um futuro incerto, mas não esperava
gostar tanto da dinâmica nem da equipa. Os departamentos de galego e português
compartilham o gabinete e isso deu-me a possibilidade de conhecer mais pessoas
do que apenas com quem ia trabalhar no dia a dia. Foi muito grato ouvir
português o tempo todo, sim, mas sobretudo conhecer parte das pessoas que
conformam o panorama cultural galego: Manu Arca, tradutor e ator de dobragem ou
Joseph Ghanime, que elaborou um livro sobre a pronúncia do português, por
exemplo. Também tive a oportunidade de aprender sobre temas que, pelas escolhas
que fiz na vida, não estudara. Se calhar o que mais me surpreendeu foi o
diferente que é o léxico do Porto em comparação com o resto de Portugal. Levo
tudo isso, que se pode resumir em aprendizagem contínua e vontade de aproveitar
a experiência. Algo que claramente não seria possível se o professorado que
trabalha na EOI não estivesse disposto a ensinar com paciência a quem entra
nova nessa roda. Especialmente Mário de Almeida, um ser fantástico e muito
simpático com o que espero coincidir no futuro.
Para o reintegracionismo para
avançar socialmente, quais seriam as áreas mais importantes?
Em
primeiro lugar, de um ponto de vista mais isolacionista, que a Lei Paz-Andrade
seja aplicada. É uma vergonha que o partido político que governa esqueça
deliberadamente que foi feita para o “aproveitamento da língua portuguesa e os
seus vínculos com a lusofonia”. Porém, eu acho que é insuficiente. Além de que
desde fora se continua a ver como uma mostra mais de que o galego e o português
são apenas “intercomprensibles”, como bem diz a Lei, creio que o verdadeiro
efeito está em repensar a forma em que ensinamos galego. Ainda estudamos frango
como uma palavra alheia à nossa língua, quando não deveria ser assim. Que não
faça parte da nossa realidade linguística não quer dizer que não seja a nossa
língua. Eu habitualmente não diria bondinho para falar do teleférico ou
infantário para a escola infantil e ainda assim sei que é galego.
Em
segundo lugar, estamos completamente isolades das decisões políticas de além do
Minho, como se não afetasse o que acontece a uns poucos quilómetros de nós.
Desconhecemos qual é a perspetiva que em Portugal têm do galego ou do
reintegracionismo. Não sabemos como se organiza o ensino ou que leem as
crianças lá. Não sabemos como fazer para nos comunicar em lugares que estão
muito mais perto do que qualquer outro em que se fala inglês. É um completo
êxito para as políticas antigaleguistas e, por extenso, um completo desastre
para a Galiza.
Por
último, há que lhe dar uma volta a frases que estão demasiado instauradas em
certos âmbitos. Uma delas é “o único galego mal falado é o que não se fala”.
Tenciona abrir as portas para todo o mundo, ajudar na aprendizagem do galego,
conseguir que as pessoas se tornem galegofalantes, mas penso que é um discurso
cada vez mais perigoso. Basicamente porque é comprado por quem toma as decisões
sobre a língua. É comprado por políticos que comem do galego e dizem no, crisi,
que não têm prosódia galega em atos públicos ou por uma televisão galega em que
a percentagem de espanhol cada vez é maior. Talvez o verdadeiro perigo não seja
que se fale mal o galego, mas que se use essa desculpa para deixar de exigir
que se fale bem.
Que te motivou a te associares
à AGAL e que esperas do trabalho da associação?
Basicamente,
motivou-me a honestidade de quem trabalha na Associação. Espero que se
continuem a publicar livrinhos tão ou mais interessantes como os que se
publicaram até o momento, que continuem a trazer conhecimento, reflexão e
prazer de leitura a quem se aproxime deles. Ao mesmo tempo, desejo que a
sociedade civil galega conheça os projetos que se estão a realizar agora e no
futuro, que se envolva neles e que os sinta como seus, pois é esse envolvimento
que dá verdadeiro sentido e continuidade a este tipo de iniciativas culturais.
Em 2026 somamos 45 anos de
oficialidade do galego. Como valorizarias esse processo? Que foi o melhor e que
foi o pior?
Valorizaria
esse processo com sentimentos contraditórios, para ser sincera. Por um lado, é
inegável que a oficialidade trouxe avanços que antes pareciam impensáveis: o
galego entrou na administração, no ensino, nos meios de comunicação, e isso
permitiu que gerações inteiras crescessem a ver a língua nalgum lugar além da
esfera privada a que fora relegada durante a Ditadura. Isso é, sem dúvida, o
melhor: a normalização institucional, ainda que incompleta, deu ao galego um
espaço de legitimidade que antes fora negado.
O
pior, porém, foi o modelo que se escolheu para gerir essa oficialidade.
Optou-se por um isolacionismo linguístico que cortou os laços com o resto de
países em que se fala a nossa língua, apostando por uma ortografia e uma
ideologia que nos afastam. Também vejo como um fracasso que a oficialidade não
tenha detido a substituição linguística geracional: cada vez há menos famílias
que transmitem o galego às crianças, e isso é uma perda que nenhuma lei, por si
só, é capaz de reverter. A oficialidade deu-nos um marco legal necessário, mas
não conseguiu, nem de longe, um compromisso social real e generalizado com a
língua. E o mais preocupante é que estes dois fracassos se retroalimentam: um
isolacionismo que nos empobrece como comunidade linguística mundial, e uma
substituição geracional que nos empobrece como comunidade linguística local.
Perdemos por ambos os lados.
Como gostarias que fosse a
“fotografia linguística” da Galiza em 2050?
Gostaria
que fosse uma fotografia em que o galego deixasse de precisar de ser defendido
para simplesmente ser vivido. Uma Galiza em que as crianças cheguem à escola já
a falar galego em casa, e não o contrário; em que ouvir galego numa loja, num
hospital ou numa reunião de trabalho seja tão normal quanto ouvir espanhol, sem
que ninguém mude de língua automaticamente por cortesia mal-entendida.
Também
gostaria que essa fotografia mostrasse uma Galiza mais consciente da sua
posição dentro da CPLP: que ler um livro português, ver uma série brasileira ou
seguir as notícias de Angola ou Moçambique não fosse um exercício estranho, mas
parte natural da nossa paisagem cultural. Que o reintegracionismo, com sorte,
já não seja sequer um debate, porque teremos entendido que a força do galego
está precisamente em não estar sozinhe no mundo.
E, já
para sonhar mesmo, gostaria que em 2050 a fotografia fosse feita por gente
nova, que tivesse escolhido o galego não por militância nem por resistência,
mas porque simplesmente lhe pareceu a opção mais sua.
Conhecendo Alva Lourenço:
Um sítio web:
adoraria responder, como menina que medrou nos anos 2000, iCarly.com, mas
provavelmente Academia.edu seja o que mais utilizei ao longo do curso. Como
reintegracionista, Forvo é a minha obsessão.
Um invento: como
pessoa que odeia cozinhar, poderia dizer qualquer pequeno eletrodoméstico que
ajude nesta horrível tarefa. Mas provavelmente não poderia viver sem o aceite
de coco e, com absoluta certeza, seria um ser completamente disfuncional sem os
óculos.
Uma música:
Universo de coisas que eu desconheço, do Lagum e Anavitória. E, no geral,
qualquer uma em catalã.
Um livro: Darío
a diario, de Xela Arias; Ara que estem junts, de Roc Casagran e a
mal chamada trilogia das mulheres de Lorca.
Um facto histórico: a
publicação do Guia de Linguagem Não Binária, é um presente para a comunidade!
Um prato na mesa:
almôndegas com molho de cebola, sou simples.
Um desporto: a
minha saúde é boa graças a que a ansiedade se calma percorrendo a pé a cidade.
Um filme:
Cidade de Deus, por ser clássica. Quanto às séries, tenho muitas, mas Merlí
(que está traduzida ao galego por Manu Arca) sempre vai ser uma referência
indiscutível. O meu documentário favorito é qualquer um que analise
pequenos-grandes factos históricos, como o Decreto Filgueira, produzido pela
AGAL.
Uma maravilha:
acabar com o capitalismo e as armas.
Além de galegue:
obsesionade com tudo o que produz felicidade. In
“Portal Gelego da Língua” - Galiza

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