Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 5 de setembro de 2026

Galiza - Alva Lourenço: “Gostaria que o galego deixasse de precisar de ser defendido para simplesmente ser vivido”

Alva é corunhese e, apesar de o galego ter uma presença escassa na sua infância, ou talvez por isso, acabou a estudar Filologia Galego-Portuguesa. Foi na Universidade, até não admira, onde encontrou e ficou com a estratégia internacional da nossa língua. É ume des autóries do Guia de Linguagem Não Binária. Aspira a ser professore de pessoas adultas numa EOI. Isso também não admira. Discorda do mantra “o único galego mal falado é o que não se fala” Gostaria que em 2050 houvesse uma Galiza mais consciente da sua posição dentro do galego internacional.

Alva é da Corunha. O seu contacto com o galego, como o da maioria das pessoas da sua idade, era residual, mas decidiu estudar Filologia. Porque essa escolha? Que representou em termos de usos e de contacto com o galego?

Eu comecei estudando apenas filologia espanhola na UDC porque o meu objetivo era ser professore no ensino secundário. Normalmente são es professóries durante a ESO es que mais nos influem em certas decisões académicas e neste caso não foi diferente. Porém, no primeiro dia de aulas já fui ciente de que errara na escolha e em terceiro ano mudei para o duplo grau galego-espanhol. A UDC tem um plano de estudos que te permite ter duas carreiras em cinco anos e vi a oportunidade perfeita para continuar a aprender com as profissionais da Faculdade sobre literatura espanhola, mas formando-me naquilo sobre o que, intuía, ia querer trabalhar e investigar no futuro (que é agora!).

O meu contacto com o galego, como comentas, foi residual até chegar à Faculdade e assistir às aulas de língua. Aí foi quando comecei a ser monolingue e a preencher as lacunas que tinha sobre diferentes temas culturais, literários e linguísticos do nosso país. Isto evidentemente levou consigo que certas pessoas do meu círculo deixassem aflorar os seus preconceitos sobre a língua e que eu tomasse partido de diferentes formas. Nem sempre assertivas, na verdade.

Na Faculdade, tomaste contacto com a estratégia internacional da nossa língua, por meio da professora Cilha Lourenço. Como se olha a nossa língua com uns óculos assim?

Conforme avançava nos meus estudos tinha mais claro que a defesa do galego não passa apenas por falá-lo, mas por ter um compromisso firme com o seu uso em todos os âmbitos. E, sim, também pelo trabalho de tirar, aos poucos, espanholismos, estruturas alheias à nossa tradição linguística ou erros na fala. No primeiro dia será difícil não dizer pero em cada frase, mas ao terceiro tornar-se-á muito mais natural utilizar mas / mais, e assim com todos os casos. Para mim foi bastante singela esta mudança porque tive a sorte de me formar com professorado reintegracionista nas aulas: Cilha Lourenço, Roberto Samartim, Isaac Lourido etc. Na verdade foi um prazer aprender de uma forma tão orgânica, foi como um curso imersivo de cinco anos. Eduquei-me no isolacionismo, nunca tivera contato com o galego internacional além dos mal chamados “lusismos” dentro dos desvios linguísticos nalgum tema do bacharelado e no começo era bem estranho escrever com outra grafia. Mas não queria ficar sendo “reintegracionista de coração”, queria mesmo que os meus atos fossem alinhados com o que eu pensava. Quanto mais estou em âmbitos em que o português tem presença, mais ricas são as conversas e maior análise sobre a língua há. Na EOI da Corunha, por exemplo, presenciei debates superinteressantes da mão de profissionais do departamento de português e de galego em conjunto que oxalá estivessem presentes em todos os centros de ensino, porque tornariam muito mais ricas as aulas.

Alva faz parte da equipa que elaborou o Guia de linguagem não binária. Porque era bom que o lêssemos?

O Guia tinha de ter existido muito antes, porque a Galiza já contava com es profissionais para o fazer desde há muito tempo. Porém, certos âmbitos do isolacionismo decidiram que não era um tema suficientemente importante como para dedicar o espaço que lhe corresponde. Por sorte, não dependemos por completo desses âmbitos, porque então livros como este - ou como aqueles relacionados com a aprendizagem do português - não seriam uma realidade.

Acho que todo o mundo se pode achegar ao livro, porque está escrito para que assim seja. É certo que algumas partes são mais densas: há explicações linguísticas pormenorizadas, uma revisão histórica etc. Porém, penso que conseguimos dirigir toda essa informação também para um público que se calhar não possui formação filológica e que está interessado em conhecer de perto a aplicação da linguagem não binária na língua galega. Foi mesmo um prazer formar parte de algo tão necessário.

Continuas com vontade de ser professore no secundário? O que pode fazer uma docente para provocar pequenas mudanças?

Posso dizer quase com certeza que não iria para o secundário. Basicamente porque prefiro trabalhar com gente que está a estudar por vontade própria e não de forma obrigada. Motiva-me muito mais a ideia de dar aulas na universidade, em que o alunado assiste por prazer (na maior parte dos casos) ou nas escolas oficiais, do que o “desafio” de conseguir que gostem da matéria. Haveria que perguntar a quem está nesta situação, mas acho que tentar que o galego se torne atraente durante a adolescência não é para mim. Quando criança e durante a ESO prestava muita atenção a como o professorado se esforçava para que tivéssemos pensamento crítico, adorava fazer parte ativa da aula e colaborar nas atividades voluntárias com impacto social. Se calhar isso foi o que me fez querer trabalhar no secundário: a paixão do corpo docente. Mas com o passar do tempo vi que não queria apenas isso e decidi mudar de caminho. Na UDC há vários projetos, como Culturarmos ou Literatura con pluma (ambos presentes no Instagram), com grande influência nes alunes da Faculdade. Colaboram na normalização do galego, difundem a nossa cultura além do Minho e integram es estudantes através de pequenas participações. Esses esforços provocam pequenas-grandes mudanças e fazem parte do grande objetivo comum: conseguir que mudem os tempos para que mudem as vontades.

Alva trabalhou umas semanas na EOI da Corunha. Fala-nos dessa experiência.

Qualquer pessoa que me escutasse falar da EOI da Corunha nestes últimos dois meses sabe que adorei imenso a experiência. Apontei-me nas listagens por fazer algo diferente e por conseguir pontos para um futuro incerto, mas não esperava gostar tanto da dinâmica nem da equipa. Os departamentos de galego e português compartilham o gabinete e isso deu-me a possibilidade de conhecer mais pessoas do que apenas com quem ia trabalhar no dia a dia. Foi muito grato ouvir português o tempo todo, sim, mas sobretudo conhecer parte das pessoas que conformam o panorama cultural galego: Manu Arca, tradutor e ator de dobragem ou Joseph Ghanime, que elaborou um livro sobre a pronúncia do português, por exemplo. Também tive a oportunidade de aprender sobre temas que, pelas escolhas que fiz na vida, não estudara. Se calhar o que mais me surpreendeu foi o diferente que é o léxico do Porto em comparação com o resto de Portugal. Levo tudo isso, que se pode resumir em aprendizagem contínua e vontade de aproveitar a experiência. Algo que claramente não seria possível se o professorado que trabalha na EOI não estivesse disposto a ensinar com paciência a quem entra nova nessa roda. Especialmente Mário de Almeida, um ser fantástico e muito simpático com o que espero coincidir no futuro.

Para o reintegracionismo para avançar socialmente, quais seriam as áreas mais importantes?

Em primeiro lugar, de um ponto de vista mais isolacionista, que a Lei Paz-Andrade seja aplicada. É uma vergonha que o partido político que governa esqueça deliberadamente que foi feita para o “aproveitamento da língua portuguesa e os seus vínculos com a lusofonia”. Porém, eu acho que é insuficiente. Além de que desde fora se continua a ver como uma mostra mais de que o galego e o português são apenas “intercomprensibles”, como bem diz a Lei, creio que o verdadeiro efeito está em repensar a forma em que ensinamos galego. Ainda estudamos frango como uma palavra alheia à nossa língua, quando não deveria ser assim. Que não faça parte da nossa realidade linguística não quer dizer que não seja a nossa língua. Eu habitualmente não diria bondinho para falar do teleférico ou infantário para a escola infantil e ainda assim sei que é galego.

Em segundo lugar, estamos completamente isolades das decisões políticas de além do Minho, como se não afetasse o que acontece a uns poucos quilómetros de nós. Desconhecemos qual é a perspetiva que em Portugal têm do galego ou do reintegracionismo. Não sabemos como se organiza o ensino ou que leem as crianças lá. Não sabemos como fazer para nos comunicar em lugares que estão muito mais perto do que qualquer outro em que se fala inglês. É um completo êxito para as políticas antigaleguistas e, por extenso, um completo desastre para a Galiza.

Por último, há que lhe dar uma volta a frases que estão demasiado instauradas em certos âmbitos. Uma delas é “o único galego mal falado é o que não se fala”. Tenciona abrir as portas para todo o mundo, ajudar na aprendizagem do galego, conseguir que as pessoas se tornem galegofalantes, mas penso que é um discurso cada vez mais perigoso. Basicamente porque é comprado por quem toma as decisões sobre a língua. É comprado por políticos que comem do galego e dizem no, crisi, que não têm prosódia galega em atos públicos ou por uma televisão galega em que a percentagem de espanhol cada vez é maior. Talvez o verdadeiro perigo não seja que se fale mal o galego, mas que se use essa desculpa para deixar de exigir que se fale bem.

Que te motivou a te associares à AGAL e que esperas do trabalho da associação?

Basicamente, motivou-me a honestidade de quem trabalha na Associação. Espero que se continuem a publicar livrinhos tão ou mais interessantes como os que se publicaram até o momento, que continuem a trazer conhecimento, reflexão e prazer de leitura a quem se aproxime deles. Ao mesmo tempo, desejo que a sociedade civil galega conheça os projetos que se estão a realizar agora e no futuro, que se envolva neles e que os sinta como seus, pois é esse envolvimento que dá verdadeiro sentido e continuidade a este tipo de iniciativas culturais.

Em 2026 somamos 45 anos de oficialidade do galego. Como valorizarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

Valorizaria esse processo com sentimentos contraditórios, para ser sincera. Por um lado, é inegável que a oficialidade trouxe avanços que antes pareciam impensáveis: o galego entrou na administração, no ensino, nos meios de comunicação, e isso permitiu que gerações inteiras crescessem a ver a língua nalgum lugar além da esfera privada a que fora relegada durante a Ditadura. Isso é, sem dúvida, o melhor: a normalização institucional, ainda que incompleta, deu ao galego um espaço de legitimidade que antes fora negado.

O pior, porém, foi o modelo que se escolheu para gerir essa oficialidade. Optou-se por um isolacionismo linguístico que cortou os laços com o resto de países em que se fala a nossa língua, apostando por uma ortografia e uma ideologia que nos afastam. Também vejo como um fracasso que a oficialidade não tenha detido a substituição linguística geracional: cada vez há menos famílias que transmitem o galego às crianças, e isso é uma perda que nenhuma lei, por si só, é capaz de reverter. A oficialidade deu-nos um marco legal necessário, mas não conseguiu, nem de longe, um compromisso social real e generalizado com a língua. E o mais preocupante é que estes dois fracassos se retroalimentam: um isolacionismo que nos empobrece como comunidade linguística mundial, e uma substituição geracional que nos empobrece como comunidade linguística local. Perdemos por ambos os lados.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Gostaria que fosse uma fotografia em que o galego deixasse de precisar de ser defendido para simplesmente ser vivido. Uma Galiza em que as crianças cheguem à escola já a falar galego em casa, e não o contrário; em que ouvir galego numa loja, num hospital ou numa reunião de trabalho seja tão normal quanto ouvir espanhol, sem que ninguém mude de língua automaticamente por cortesia mal-entendida.

Também gostaria que essa fotografia mostrasse uma Galiza mais consciente da sua posição dentro da CPLP: que ler um livro português, ver uma série brasileira ou seguir as notícias de Angola ou Moçambique não fosse um exercício estranho, mas parte natural da nossa paisagem cultural. Que o reintegracionismo, com sorte, já não seja sequer um debate, porque teremos entendido que a força do galego está precisamente em não estar sozinhe no mundo.

E, já para sonhar mesmo, gostaria que em 2050 a fotografia fosse feita por gente nova, que tivesse escolhido o galego não por militância nem por resistência, mas porque simplesmente lhe pareceu a opção mais sua.

Conhecendo Alva Lourenço:

Um sítio web: adoraria responder, como menina que medrou nos anos 2000, iCarly.com, mas provavelmente Academia.edu seja o que mais utilizei ao longo do curso. Como reintegracionista, Forvo é a minha obsessão.

Um invento: como pessoa que odeia cozinhar, poderia dizer qualquer pequeno eletrodoméstico que ajude nesta horrível tarefa. Mas provavelmente não poderia viver sem o aceite de coco e, com absoluta certeza, seria um ser completamente disfuncional sem os óculos.

Uma música: Universo de coisas que eu desconheço, do Lagum e Anavitória. E, no geral, qualquer uma em catalã.

Um livro: Darío a diario, de Xela Arias; Ara que estem junts, de Roc Casagran e a mal chamada trilogia das mulheres de Lorca.

Um facto histórico: a publicação do Guia de Linguagem Não Binária, é um presente para a comunidade!

Um prato na mesa: almôndegas com molho de cebola, sou simples.

Um desporto: a minha saúde é boa graças a que a ansiedade se calma percorrendo a pé a cidade.

Um filme: Cidade de Deus, por ser clássica. Quanto às séries, tenho muitas, mas Merlí (que está traduzida ao galego por Manu Arca) sempre vai ser uma referência indiscutível. O meu documentário favorito é qualquer um que analise pequenos-grandes factos históricos, como o Decreto Filgueira, produzido pela AGAL.

Uma maravilha: acabar com o capitalismo e as armas.

Além de galegue: obsesionade com tudo o que produz felicidade. In “Portal Gelego da Língua” - Galiza

 

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