Um trabalho coliderado por Pedro Paiva, do Grupo de Bioquímica Computacional da FCUP, criou uma enzima mutante que degrada o poliuretano, presente nas espumas das solas de sapato
E
se o seu par favorito de sapatilhas ou calçado desportivo se puder em breve
tornar mais amigo do ambiente? Uma investigação coliderada pelo investigador
Pedro Paiva, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP),
desenvolveu um novo tipo de enzima capaz de “devorar” o material de poliuretano
presente nas espumas presentes no calçado. Os resultados, publicados
recentemente na revista Chem Catalysis, poderão, um dia, ajudar a
reciclar resíduos de plástico provenientes de sapatos, colchões, esponjas de
cozinha e muitos outros produtos.
O trabalho, realizado em conjunto com
Rosie Graham, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, tem também como autores
os docentes Pedro Alexandrino Fernandes e Maria João Ramos, do Grupo de
Bioquímica Computacional da FCUP, que lideram a equipa da FCUP no projeto En’Zync — um consórcio que integra
a Faculdade de Ciências e três instituições dinamarquesas.
Financiado
em cerca de sete milhões de euros pela Novo Nordisk Foundation, este projeto
tem como objetivo encontrar e desenvolver novas enzimas, de origem fúngica ou
bacteriana, que consigam degradar plásticos.
Neste
âmbito, os investigadores encontraram e testaram uma enzima chamada CCPUR1,
proveniente da bactéria Chelatococcus composti, um microrganismo
encontrado em amostras de composto orgânico da Dinamarca, que se destacou pela
sua capacidade de degradar o poliuretano.
“Esta
é uma demonstração inicial que mostra que podemos degradar o poliuretano com
enzimas sem ser necessário processá-lo previamente. É algo bastante
significativo”, afirma Pedro Paiva, coautor principal da publicação.
Quando
uma enzima degrada um substrato, como o poliuretano, começa por ligar-se a esse
substrato, um pouco como duas peças de um puzzle que encaixam. Na FCUP, os
investigadores quiseram perceber se poderiam criar peças que encaixassem ainda
melhor, de modo a decompor os plásticos de forma mais eficaz. Assim, colocaram
a CCPUR1 à prova. Primeiro, utilizaram simulações computacionais
complexas, recorrendo a supercomputadores da rede europeia de supercomputação
EuroHPC, para explorar a forma como a enzima interage com materiais semelhantes
ao plástico e, depois, recorreram a uma série de ferramentas de bioquímica para
alterar a estrutura das enzimas.
A
equipa voltou a sua atenção para o ADN de C. composti. Alteraram esse
código genético para substituir alguns dos principais aminoácidos que
constituem esta enzima.
“E se
tentássemos alterar aminoácidos específicos, substituindo-os por outros
maiores, que pudessem preencher melhor o espaço vazio entre a enzima e o
substrato e melhorar as interações entre ambos?”, questionou-se.
Depois
de muitas tentativas e erros, os investigadores chegaram a uma solução
vencedora. Uma das suas enzimas mutantes revelou um enorme apetite por
poliuretano. A equipa cortou pedaços das solas de um sapato e misturou-os com a
enzima modificada. Ao fim de três dias, este “devorador” de plástico tinha
degradado cerca de 1,4% do poliuretano presente nesse material, dividindo o
resíduo em pedaços mais pequenos e reutilizáveis.
O poder das enzimas
Esta
enzima atua sob uma classe específica deste tipo de plástico, conhecida como
“termoendurecível”, está presente nas solas, nos saltos e noutras partes do
calçado. “São muito difíceis de degradar”, contextualiza o investigador da
FCUP.
“A
ideia é ir decompondo o material até obter os elementos fundamentais que são
utilizados para produzir novo poliuretano. Atualmente, esses componentes são
produzidos quimicamente em fábricas, através de reações que podem envolver
compostos nocivos para o ambiente e até considerados tóxicos”, reforça.
A
grande vantagem da utilização de enzimas na reciclagem é que elas funcionam em
condições moderadas, ou seja, a temperaturas e pressões mais baixas do que as
atualmente utilizadas na maioria das tecnologias de reciclagem.
“Esta
investigação evidencia o poder das enzimas”, realça Rosie Graham, da
Universidade de Aarhus.
“Este
trabalho deixou-nos particularmente satisfeitos, porque nem sempre existe uma
validação experimental direta daquilo que fazemos computacionalmente. Desta
vez, conseguimos“, remata o investigador da FCUP.
Os
resultados demonstram como, no futuro, as enzimas poderão ajudar a combater os
resíduos de plástico, afirma a equipa. O objetivo é agora continuar a melhorar
esta enzima para que se torne ainda mais eficiente a devorar o plástico e
descobrir novas enzimas, aplicando uma abordagem semelhante.
Neste
trabalho conjunto, os investigadores trabalham por uma solução de combate à
produção global de cerca de 22 milhões de toneladas de poliuretano por ano, no
mundo, ou seja, mais de 5% de todos os plásticos colocados no mercado. Universidade
do Porto - Portugal

Sem comentários:
Enviar um comentário