O ambiente de negócios entre Moçambique e Portugal é marcado por incertezas e desafios, apesar das perspectivas de recuperação da economia moçambicana e do potencial para o reforço das relações empresariais. Cerca de 88% dos empresários inquiridos pelo Barómetro de Negócios entre Moçambique e Portugal apresentam uma percepção pessimista sobre o actual ambiente de negócios.
Entre
os principais factores estão a instabilidade pós-eleitoral registada no final
de 2024 e início de 2025, as limitações orçamentais, a escassez de divisas e a
contracção da actividade económica. A estes juntam-se riscos externos, como
conflitos armados e alterações nas tarifas comerciais.
Na
apresentação dos resultados, o Partner da PwC, João Veiga, explicou que estes
factores acabam por reforçar-se mutuamente, afectando a confiança e o
investimento.
“Primeiro,
a instabilidade pós-eleitoral no final de 2024, início de 2025, que afectou a
confiança, o comércio e a execução de determinadas decisões de investimento.
Depois, temos limitações a nível orçamental, que diminuem a capacidade de
realizar investimento público e financiar projectos. Por último, a escassez de
divisas. E estes três factores reforçam-se mutuamente. Ou seja, uma menor
confiança reduz o investimento, a redução do investimento limita o
crescimento.”
Veiga
considera ainda que as empresas enfrentam dois níveis de incerteza, resultantes
das fragilidades internas e dos riscos internacionais.
“Os
riscos internacionais chegam a uma economia que já enfrenta algumas
fragilidades estruturais e, consequentemente, as empresas têm que gerir dois
níveis de incerteza. Por um lado, a instabilidade da economia global e, por
outro lado, os constrangimentos específicos do país.” Acrescentou.
Apesar
do cenário negativo, 41% dos inquiridos esperam uma evolução favorável dos
negócios e 57% antevêem um cenário positivo para o investimento. As projecções
apontam igualmente para uma aceleração da economia moçambicana a partir de
2030, impulsionada pela entrada em produção de projectos de gás natural.
Para o
Secretário de Estado do Comércio de Portugal, João Rui Ferreira, a
transformação das oportunidades em negócios depende da existência de mercados e
do contacto directo entre os agentes económicos.
“Nós
podemos ter o melhor produto do mundo. Se não tivermos clientes, a nossa
empresa não vai ter sucesso. Portanto, o maior desafio que temos é sempre
encontrar clientes.”
O
governante defende que o conhecimento dos mercados exige também contacto
humano. “É impossível conhecermos a realidade de um mercado, de uma cultura, de
um país ou de uma região sentados, por mais IA que nós tenhamos. Não há nada
que substitua o contacto entre as pessoas e o conhecimento humano.”
O
Embaixador de Portugal em Moçambique, Jorge Monteiro, defende uma mudança de
enfoque na agenda económica bilateral, com maior aposta no investimento e na
produção conjunta.
“A
questão que nos devemos colocar hoje não é saber qual é o valor das trocas
comerciais, quanto é que comerciamos, mas quanto podemos investir juntos,
quanto podemos produzir juntos e quanto valor podemos criar juntos. Esta é de
facto a agenda económica que eu vejo para a próxima década.”
A
posição é acompanhada pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim
Valá, que defende uma relação empresarial orientada para o longo prazo.
“Não
procuramos apenas empresas que venham para Moçambique. Procuramos parceiros que
inovem e que produzam com Moçambique numa perspectiva de longo prazo.”
Valá
defende ainda que a planificação deve traduzir-se em resultados concretos, com
impactos mensuráveis e sustentáveis.
Já o
Presidente da Câmara de Comércio Portugal-Moçambique, Rui Moreira de Carvalho,
considera que a relação bilateral deve assentar numa lógica de benefícios
partilhados.
“Se um
ganhar, os dois ganham. Se um perder, o outro também vai perder. E, portanto,
esta perspectiva é trabalhar a longo prazo.”
Actualmente,
mais de 500 empresas portuguesas operam em Moçambique, enquanto cerca de 25
empresas moçambicanas têm capitais portugueses. Para os intervenientes, esta
presença constitui uma base para uma nova fase da cooperação económica.
Para
além de surgir como um sinal de alerta, o Barómetro de Negócios entre
Moçambique e Portugal apresenta-se também como uma oportunidade para a
redefinição das parcerias económicas entre os dois países. In “O
País” - Moçambique

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