Uma em cada cinco pessoas em Portugal não consegue pagar a energia necessária em casa, revela um estudo europeu que identifica maior vulnerabilidade entre mulheres, pessoas com problemas de saúde mental e residentes fora dos grandes centros urbanos portugueses
O
estudo “Pobreza energética na Europa – Quem são os perdedores no nosso sistema
energético?”, da Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES Portugal), compara a
situação em Portugal, França, Alemanha, Itália, Polónia e Suécia, a partir de
um inquérito realizado no âmbito do projeto europeu gEneSys.
Em
Portugal, 19% dos inquiridos responderam que não conseguem, ou dificilmente
conseguem, pagar a quantidade de energia e os recursos energéticos necessários
para satisfazer todas as necessidades do agregado familiar.
O
valor coloca Portugal entre os países com maior incidência de pobreza
energética dos seis analisados, apenas atrás de França, onde a percentagem
chega aos 25%, e ligeiramente acima de Itália e Polónia, ambas com 18%.
Na
Alemanha, 13% dos inquiridos revelaram dificuldades para pagar a energia
necessária, enquanto a Suécia apresenta o valor mais baixo, 10%.
A
análise identifica, contudo, diferenças significativas dentro de cada país e
conclui que determinados fatores sociais, económicos, de saúde e territoriais
aumentam a vulnerabilidade à pobreza energética.
Em
Portugal, o grupo identificado com maior incidência é o das mulheres com
problemas de saúde mental que vivem em zonas rurais ou cidades de média
dimensão: 33% afirmam não conseguir pagar a energia necessária.
No
extremo oposto estão as pessoas sem problemas de saúde mental, com elevado
nível de escolaridade e residentes em grandes cidades, entre as quais a
percentagem desce para 7%.
A
saúde surge, aliás, como um dos fatores recorrentes na análise. Em Portugal,
Itália e França, o estudo aponta para uma relação entre limitações de saúde
física ou psicológica e maior exposição à pobreza energética.
Segundo
os investigadores, algumas destas pessoas podem ter necessidades energéticas
superiores, nomeadamente para equipamentos médicos ou aquecimento, enquanto
outras são mais afetadas pelas consequências de condições habitacionais
deficientes.
Portugal
destaca-se igualmente pelas diferenças entre homens e mulheres. Cerca de 22%
das mulheres portuguesas afirmam não conseguir pagar a energia necessária,
contra 15% dos homens.
A
desigualdade de género é particularmente evidente em Portugal e França, onde a
diferença é ainda maior: 31% das mulheres enfrentam dificuldades,
comparativamente com 18% dos homens.
Em
Portugal e França, as análises indicam ainda um risco acrescido, sobretudo
entre mulheres com níveis de escolaridade baixo ou médio e que têm, ou tiveram,
responsabilidades de prestação de cuidados.
O
local de residência é outro dos fatores relevantes. Considerando conjuntamente
os seis países, 22% dos residentes em zonas rurais afirmam ser afetados pela
pobreza energética, contra 14% nas zonas urbanas.
Nas
zonas rurais são mais frequentes casas unifamiliares menos eficientes
energeticamente e existe maior dependência do automóvel, enquanto as cidades
beneficiam de infraestruturas mais compactas.
A
investigação foi realizada no âmbito do projeto europeu gEneSys e, para a
comparação apresentada nesta publicação, foram consideradas respostas de 17.889 pessoas nos seis
países e os dados foram ponderados de forma representativa.
Os
autores ressalvam que as análises são exploratórias e não constituem conclusões
definitivas, mas defendem que os padrões identificados devem ser considerados
na definição de políticas públicas.
Entre
as respostas propostas estão apoios aos custos energéticos ajustados ao
rendimento e à situação habitacional, reabilitação energética de casas
arrendadas, expansão das tarifas sociais e medidas específicas para pessoas com
doenças crónicas ou deficiência.
O
estudo conclui que a pobreza energética não é apenas um problema económico, mas
também social, de saúde e de infraestrutura, e defende respostas dirigidas aos
grupos onde a vulnerabilidade é maior.
Os
dados para Portugal foram apresentados, em Lisboa, num seminário organizado
pela FES Portugal, em parceria com Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e
o Observatório Nacional da Pobreza Energética, com o tema “Pobreza energética
em Portugal: Do reconhecimento das vulnerabilidades à ação eficaz”. In “Bom
dia Europa” - Luxemburgo

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