Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 2 de abril de 2026

São Tomé e Príncipe - Apresentação do meu livro “Meu Nome é Joaquim. Fragmentos de Memória”

Há vidas que se contam em linha reta. E há outras - como esta - que só podem ser compreendidas em fragmentos.


Nasci antes da independência de São Tomé e Príncipe. Carrego memórias de um tempo que já não existe e de sonhos de um tempo que ainda não chegou.

Fragmentos de Memórias não é apenas um livro. É uma tentativa de reunir, entre ruínas e iluminações, aquilo que fomos, aquilo que perdemos e aquilo que, apesar de tudo, insistimos em ser.

Michel Montaigne escreveu” eu mesmo sou a matéria do meu livro”. E é nesse território onde o autor se torna objeto e a vida se transforma em reflexão que este texto habita.

Não há aqui a pretensão de oferecer respostas definitivas. Há, antes, a humildade de quem aprendeu que viver, é acima de tudo interrogar-se. A vida não se revela aos que têm certezas absolutas. Revela-se aos que aceitam duvidar. A dúvida, tantas vezes confundidas com fraqueza, pode ser uma forma superior de equilíbrio. É ela que nos afasta do fanatismo das convicções rígidas e nos devolve a nossa condição humana: imperfeita, inacabada, em constante construção. Neste sentido, o espírito de Hermann Hesse atravessa essas páginas. Em obras como Sidarta, o caminho não aparece como linha reta, mas como uma travessia feita de erros, ruturas e reencontros.

Este livro nasce dessa travessia. Não é uma celebração do sucesso, nem um lamento contínuo pelas quedas. É sobretudo um testemunho: o testemunho de alguém que olhou para dentro de si e aceitou o desconforto de não encontrar respostas fáceis. De alguém que percebeu que a maturidade não está em saber mais, mas em duvidar melhor.

Vivemos num tempo que exige certezas rápidas, opiniões firmes, identidades sólidas. Mas o ser humano não é sólido. É contraditório, mutável, fragmentado. E talvez seja exatamente nessa fragmentação que reside a sua verdade mais honesta.

Escrever sobre nós mesmos nunca é simples. Exige permanecer diante do que somos o tempo suficiente para não mentir.

Durante muito tempo, pensei que viver era ter razão. Hoje sei que viver é aprender a escutar, a hesitar, a voltar atrás. É aprender a duvidar não como fraqueza, mas como respeito pela complexidade da vida.

Há uma geração, a que nasceu depois da independência, que hoje pergunta: valeu a pena? Não fujo a esta pergunta.

Quem viveu antes… sabe o que foi sonhado. Quem vive agora sabe o que ficou por cumprir. E eu, como muitos de nós, encontro-me no meio disto tudo: entre o que fomos … e o que ainda não conseguimos ser.

Este livro não responde à pergunta se valeu a pena. Mas também não a evita. Permanece diante dela.

Hermann Hesse escreveu sobre caminhos interiores, sobre perder-se para encontrar-se.

Mas eu aprendi que nem sempre nos perdemos sozinhos. Por vezes perdemo-nos como país.

E, se houver caminho de volta, teremos de o fazer juntos.

Cada fragmento aqui reunido é uma tentativa de encontrar sentido. Mas é também o reconhecimento da sua impossibilidade plena. Viver é, inevitavelmente, não compreender tudo e ainda assim continuar.

Se alguma sabedoria atravessa estas páginas, ela não está nas respostas que oferecem, mas nas perguntas que se recusam a morrer: perguntas sobre o amor, o tempo, o poder, a solidão, e a memória. Perguntas que não pretendem encerrar-se, mas abrir caminhos.

Talvez seja esse, no fim, um dos sentidos da vida: não alcançar uma verdade final, mas aprender a habitar a incerteza com serenidade.

Ao chegar ao fim, talvez o leitor descubra que não tenho respostas para lhes dar.

Tenho apenas isto, fragmentos de uma vida, sem filtros e sem defesas.

E talvez seja esse o ponto mais próximo a que conseguimos chegar da verdade. E se, no meio destas páginas, alguém encontrar um pedaço de si mesmo, então talvez tenha valido a pena.

Muito obrigado. Rafael Branco – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Moçambique - Padre português testemunha caos e “morte à solta”

O padre Tony Neves, conselheiro geral dos Missionários Espiritanos, encerrou este fim-de-semana uma visita de duas semanas e meia a Moçambique, referindo que “o caos está instalado” no país lusófono e que o povo está “desesperado”



“Há muita pilhagem, há muita morte à solta, é o caos instalado”, disse à Agência ECCLESIA o missionário português, em visita a Moçambique desde o último dia 10, para acompanhar a atividade dos religiosos da sua congregação.

“O povo está desesperado, o país não está desenvolvido, os senhores do sistema enriqueceram de uma forma absolutamente inadmissível”, indica o responsável católico.

No seu relato, o padre Tony Neves destaca que a população “perdeu o medo, saiu à rua e enfrentou aquilo que consideram ser mais umas eleições completamente fraudulentas”.

O Conselho Constitucional de Moçambique proclamou na tarde de segunda-feira Daniel Chapo, candidato apoiado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder), como vencedor da eleição a Presidente da República, com 65,17% dos votos, sucedendo no cargo a Filipe Nyusi, bem como a vitória da Frelimo, que manteve a maioria parlamentar, nas eleições gerais de 9 de outubro.

Após esta divulgação, indica o padre Tony Neves, o país entrou “em colapso, as estradas foram barradas”, as pessoas começaram “a exercer violência sobre bens e pessoas mais ligadas à Frelimo, o governo que sempre foi omnipotente desde a independência” de Moçambique.

“Estamos a falar de 49 anos de governo absolutamente intocável”, apontou o conselheiro geral dos Missionários Espiritanos

Pelo menos 134 pessoas morreram desde segunda-feira nas manifestações pós-eleitorais em Moçambique, elevando a 261 o total de óbitos desde 21 de outubro, e 573 baleados, segundo balanço divulgado hoje pela plataforma eleitoral Decide.

Segundo o missionário português, “os governantes desapareceram, até dizem que muitos estarão fora do país, a polícia não intervém, o exército não intervém”.

“Neste momento, quem está a tomar conta do país é o povo”, sublinhou o padre Tony Neves.

O religioso fala numa situação “dramática”, da qual “grupos de delinquentes se aproveitam”.

“Fazem muitas pilhagens e rebentaram com lojas e com tudo que é administração”, refere.

Após passar por várias cidades, o responsável diz que que a capital, Maputo, “deve ser o sítio onde se está melhor”, apesar de ser verem “muitos pneus queimados e muitos sinais de destruição”.

Na cidade de Nampula, indica, manifestantes tentaram entrar no paço episcopal e atacar a casa dos Espiritanos.

“Não há autoridade nenhuma, a polícia desapareceu, o exército não existe, o povo é que manda”, insiste o entrevistado.

O padre Tony Neves entende que as manifestações surgem como forma de contestação a um regime durante o qual o povo “empobreceu tremendamente”.

“As bolsas de pobreza são bem visíveis nos bairros das cidades”, aponta.

O missionário admite que, neste contexto, “as casas religiosas são alvos muito fáceis para os bandidos”.

“Primeiro, porque estão desprotegidas; segundo, porque são sítios onde ainda podem encontrar um bocadinho de farinha, podem encontrar um bocadinho de arroz, podem encontrar um frigorífico com alguma carne”, finalizou.

O secretariado português da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) informou hoje que edifícios da Arquidiocese de Nampula, contíguos ao Paço Episcopal, foram invadidos, vandalizados e danificados por manifestantes em protesto, entre 24 e 25 de dezembro.

Uma missão com religiosas brasileiras, em Micane, no distrito de Moma, foi também atacada. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 2 de junho de 2024

França - Nos cinquenta anos da revolução: a poesia portuguesa ontem e hoje

A convite da Fundação Calouste Gulbenkian-Delegação em França, e no âmbito dos Encontros culturais da Biblioteca Gulbenkian de Paris, no passado dia 29 de abril o poeta e escritor Luís Filipe Castro Mendes abordou o tema da poesia portuguesa contemporânea, sob o título “Nos cinquenta anos da Revolução: a poesia portuguesa ontem e hoje”.



Na abertura do encontro, que teve lugar na Fondation Maison des Sciences de l’Homme, em Paris, José Vieira, professor-leitor na Cátedra Manuel Alegre da Universidade de Pádua, apresentou um breve panorama da língua portuguesa no mundo. Além de ensinar nesta universidade, José Vieira faz, na Universidade de Vigo, um pós-doutoramento em Literatura Portuguesa, nomeadamente sobre José Saramago, Mário Cláudio e Teixeira de Pascoais.

Também estiveram à mesa dos intervenientes Mafalda Soares, assistente temporária de ensino e investigação em Língua Portuguesa na Universidade de Paris I-Panthéon-Sorbonne, e Matteo Pupillo, docente de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade Paris IV-Sorbonne, acompanhado pelos seus estudantes, que leram textos de Castro Mendes e de alguns poetas evocados durante o encontro, em particular o poema “Ausência”, de Nuno Júdice, recentemente falecido. Notemos ainda, no público, a presença de José Augusto Duarte, Embaixador de Portugal em França.

Luís Filipe Castro Mendes nasceu em 1950. Poeta, autor de ficções e diplomata, exerceu o cargo de Embaixador na Hungria, na India e na Unesco-Paris, antes de ser nomeado Ministro da Cultura, de 2016 a 2018. Colaborou desde muito cedo, aos 15 anos de idade, no Diário de Lisboa-Juvenil. Publicou onze livros de poesia, reunidos recentemente num só volume. Em 2020, foi publicado pela editora Wallada (Avignon), em bilingue, o seu livro «Légendes de l’Inde» / «Lendas da India», uma recolha de poemas escritos entre 2006 e 2011 quando era Embaixador na India.

Na introdução do tema citado, Luís Filipe Castro Mendes lembrou: “Estamos a festejar este ano o cinquentenário de uma Revolução que transformou o nosso país e as nossas vidas, restituindo-nos as liberdades que nos tinham sido negadas pelo regime de Salazar. E a poesia está ligada a essa transformação, porque a poesia é afirmação plena da liberdade por sobre todas as formas de negação da vida e da humanidade que nos envolvem e oprimem”. Citando Rimbaud (a poesia é “liberdade livre”), Hannah Arendt (“um poema politicamente distorcido e forçado nunca pode ser um bom poema”) e Fernando Pessoa que reagia com fúria, em 1935, “às diretivas traçadas pelos orientadores do Estado Novo”, Castro Mendes denuncia os regimes totalitários, “onde um poema pode custar a vida ao poeta”, assim como os tempos “em que esteve na moda pretender que a poesia não se devia ocupar da política”.

E foi o livro “Praça da Canção”, de Manuel Alegre, publicado em 1965 – lembra-nos ainda Luís Filipe Castro Mendes, que “acompanhou com a sua voz a nossa luta contra essa ditadura que alguns queriam (e ainda hoje querem) disfarçar de “ditamole”. O poeta orador conta-nos que seus pais, quando jovens estudantes universitários, assistiam aos recitais de Maria Barroso com “versos de combate de Álvaro Feijó, Carlos de Oliveira, Sidónio Muralha, e tantos outros”. Recitais que custaram a Maria Barroso ser perseguida pela PIDE.

Foi mencionada também a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, “que veio para a rua nos dias da Revolução”. Com efeito, quem não leu ou não ouviu pelo menos os dois primeiros versos do poema “A poesia está na rua” que, segundo Castro Mendes, se tornou “a mais perfeita representação poética do 25 de Abril”: “Esta é a madrugada que eu esperava / o dia inicial inteiro e limpo”? Outro poeta maior, Jorge de Sena, é evocado através do poema “Liberdade, liberdade, tem cuidado que te matam”, escrito pouco depois da Revolução.

Sobre a poesia dos neo-realistas, Castro Mendes afirma que “para compreender a resposta da poesia portuguesa à Revolução dos Cravos, é preciso entender que a nossa geração, a geração dos que tinham vinte anos nesses tempos, tinha-se afastado da poesia muito direta dos neo-realistas, exclusivamente empenhada na luta política e social, não por negarmos esses ideais e essa luta, que partilhávamos com entusiasmo, mas apenas porque procurávamos dar um maior apuro, rigor verbal e densidade poética aos nossos textos”.

Para os censores do regime salazarista – sublinha Castro Mendes – a reprimenda não existia apenas no registo político, pois também “a estrita moral sexual daquele regime de nacionalismo de sacristia, que oprimia as nossas mentes e os nossos corpos, proibiu e levou a tribunal as corajosas autoras de uma “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” (a poeta Natália Correia) e de um livro de clara reivindicação feminista escrito pelas “Três Marias” (Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno), as “Novas Cartas Portuguesas”.

Depois de lembrar que poetas como Manuel Alegre e Fernando Assis Pacheco ousaram nos seus poemas “enfrentar o maior tabu político de um regime de proibições, ou seja a guerra colonial”, Castro Mendes acrescenta que “a poesia dos anos 70 era dominada por duas tendências, que acabaram por legar às gerações seguintes a divergência que as animava: era, por um lado, Gastão Cruz e os continuadores da Poesia 61, para os quais prevalecia a densidade e o rigor textual, e por outro lado, Joaquim Manuel Magalhães, defensor de um “regresso ao real”. No entanto, na opinião de Castro Mendes, dois poetas da geração anterior a estas dominam, como “poetas fortes”, que são Ruy Belo e Herberto Hélder: “Ambos regressam à discursividade na poesia, que fora posta em causa pela geração da Poesia 61”.

Ao arrepio destas polaridades, Luís Filipe Castro Mendes cita o poeta Nuno Júdice, que “construiu uma obra forte e coerente, em que o discurso poético, sempre sob a vigilância de uma profunda e sábia ironia, vem construir um mundo próprio, quer a partir das referências mais simples e quotidianas, quer através das mais ricas alusões culturais”.

De uma geração um pouco anterior a dele, Luís Filipe Castro Mendes evoca os nomes de António Ramos Rosa (“talvez não lhe tenhamos prestado suficiente atenção”), António Osório e António Manuel Pires Cabral (“que praticaram, com tanta graça quanto rigor as formas fixas da tradição poética”), Fernando Pinto do Amaral, António Carlos Cortez ou ainda Luís Quintais (“um dos mais sérios trabalhadores do verso nos últimos anos”).

“Na esteira da combatividade de uma Maria Teresa Horta ou de uma Natália Correia, mas agora de modo bem diferente, – diz-nos Luís Filipe Castro Mendes, – temos uma poesia feminina mais jovem, usando antes a ironia e a desconstrução dos discursos, como, entre outras, Tatiana Faia, Rita Taborda Duarte, Andreia C. Faria, Margarida Vale de Gato ou Elisabete Marques”.

Após ter traçado um quadro da poesia portuguesa nos anos 70, Luís Filipe Castro Mendes dá-nos a sua ideia geral sobre a geração mais recente e mais jovem: “Por um lado, há um reencontro com o surrealismo português, com Mário Cesariny, mas também com poetas e autores menos lembrados, como António José Forte. Essa redescoberta do surrealismo deve muito à irreverência de Cesariny, com que alguns dos poetas das novas gerações procuram identificar-se, na sua revolta contra o mundo mercantilizado e infantilizado em que a esfera pública se tornou. O surrealismo português foi, com efeito, um surrealismo de revolta. Por outro lado, há “os poetas resistentes” que, perdida a ilusão de mudar a vida e o mundo através da poesia, a encaram antes como uma resistência das palavras à sua mercantilização, desencantamento e mediocridade, que os novos meios de comunicação social, por um lado, e uma escolaridade avessa à cultura humanística, por outro, têm vindo a impor no nosso espaço público”.

Respondendo a uma pergunta da assistência, Luís Filipe Castro Mendes voltou a sublinhar o papel dos neo-realistas na viragem da poesia portuguesa.

Convidado a falar da sua própria poesia, Luís Filipe Castro Mendes citou dois poetas que o influenciaram: Jorge de Sena e Eugénio de Andrade, e também Paul Valéry (“a poesia francesa está sempre presente na minha cabeça”).

Enfim, ao responder a uma pergunta sobre a poesia e os jovens, Luís Filipe Castro Mendes acredita que nunca é tarde para que estes se interessem pela poesia, pois “a poesia não muda o mundo, mas ajuda-nos a ver mais longe”. Dominique Stoenesco – França in “LusoJornal”






sábado, 21 de julho de 2012

Testemunho

“Os portugueses têm que compreender que se nós… nos não sustentarmos a nós próprios, ninguém nos vem sustentar! Hermano Saraiva – Portugal

                                           In memória José Hermano Saraiva (1919 – 2012)

 Trabalhou incansavelmente ao serviço da Lusofonia até aos 92 anos de idade
                           //baiadalusofonia.blogspot.pt/2012/06/lisboa.html