Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Mirem-se no exemplo deste escritor de Miradouro

Já havia lido há anos a primeira edição de Fratura exposta, de Jeter Neves, e só me lembrava vagamente de um ou outro conto. Agora, o livro foi publicado pela editora de Belo Horizonte, Escritório de Histórias, e o leio como se fosse pela primeira vez, e, na verdade, é, pois a obra foi revista e com alterações significativas. E firmo na opinião de que é livro para ser lido e divulgado, hastear o nome do Jeter, nascido em Miradouro, MG, como dos melhores autores brasileiros hoje.

O escritor italiano Dino Buzzati (1906-1972), em seu livro Naquele exato momento, tem um texto interessante em que compara o poeta a um violinista, e o prosador ao pianista: naquele, logo nos primeiros acordes, conhece-se o talento; já o prosador-pianista carece “ouvi-los longamente e depois, ainda, pensar no assunto três vezes.” (1986: 209). Ora, Jeter Neves é um prosador que tem o faro da poesia. Hugo Almeida, em seu precioso e erudito prefácio à Fratura exposta afirma que “a boa prosa é ímã da poesia”; eu diria mais: é irmã da poesia.

O aceno da poesia já se insere na epígrafe de Ferreira Gullar, versos do Poema sujo. E esse longo poema de Gullar é aceno para a questão da crítica social, não se eximindo a subjetividade, a memória da infância. Na rede intertextual dos oito contos de Fratura exposta, pode-se colher aqui e ali várias referências ou alusões a poeta, por exemplo: Carlos Drummond de Andrade é entrevisto na p.45, no conto “Arame farpado”: “As casas se espiam de frente umas  para as outras”. Na p.62, no conto “O sangue no olhar do vampiro”, cita-se “o sono rancoroso dos minérios”, que integra o maravilhoso poema “A máquina do mundo”, citado logo em seguida, curiosamente ao lado de... Tarzan. Na p.115, no conto “Bar e restaurante Suez”, encontramos “lição de coisas”; na p.143, no conto “O cachorro e seu menino”, tropeçamos com um pessoal “no meio do caminho”.

Fernando Pessoa é outro poeta que dá as caras (quase todas) ao longo dos contos, como na p.79, de “Pequenos assassinatos”: “Estou farto de gente que nunca levou porrada”; logo a seguir, na p.80, cita Álvaro de Campos, “Vou provar que sou sublime”, de Tabacaria. Esse mesmo poema é aludido em “Bar e restaurante Suez”, na p.117, quando o narrador fala do bar sem metafísica, cujo proprietário se parece com o Esteves da Tabacaria.

Ademais, muitas letras de músicas são citadas. Há um conto cujo título é verso de uma música de Raul Seixas.  Por exemplo, na p.84, de “Pequenos assassinatos”, há trecho de “Folhas secas”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. O conto “Bar e restaurante Suez” tem como epígrafe o verso de “Nada será como antes”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos: “Que notícias me dão dos amigos?” (p.114). Além disso, o Carnaval com suas marchinhas se fazem presente nessa narrativa. Em “O cachorro e seu menino”, narrativa forte de denúncia social e semeada com certo lirismo chapliniano, há citação a Chico Buarque, trecho de “Os saltimbancos”, na p.141. E, na p.144, de “Canção da América”, cita-se que “amigo coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”, de Milton Nascimento e Fernando Brant; mais adiante, na p.149, evoca-se Jorge Benjor e o rei da malandragem. Aliás, esse instigante conto, que a gente acaba acreditando que o protagonista é de fato um cachorro, me ocorreu a figura de João Antônio, com seus meninões pelas quebradas.

Se citamos violino, piano, letras de canções, é preciso assinalar também a contribuição de outros instrumentos e danças que ocorrem na obra, percussões, batidas de folguedos nordestinos com ecos de maracatu, como vemos em “Arame farpado”, onde há as danças de jongo, tambores chamados caxambu, além de Congado.

O halo poético que emana em muitos trechos da prosa de Jeter Neves pode ser exemplificado em várias passagens, como Hugo Almeida anota em seu prefácio. Cito outros trechos, de “Arame farpado”, da p.39, em que Mãe Luandina é descrita em sua pele: “negror da pele porejando ancestralidade”; e, em vez de o narrador afirmar que ela simplesmente tinha um lenço branco na cabeça, ele assim se esmera, com leve toque metalinguístico: “Amoldado à cabeça em elaborado arranjo, trazia um longo lenço branco debruado (deve ser esse o termo) de rendas. O contraste da pele na alvura do algodão me lembrou as retrizes de certa ave, a alma-de-gato, a vadiar entre os galhos de uma jabuticabeira, em distraída beleza.” Nesse mesmo conto, na p.46, há uma admirável imagem colocada na fala de Mãe Luandina a respeito do sabor do saber: “aproveitasse a escola, chupasse cada aula como o mais doce gomo de cana, bebesse o conhecimento como o mais doce suco de laranja-lima”. Tadinho do meu querido Augusto dos Anjos que usou da cana azeda para falar das agruras do amor...

Na p.118, de “Bar e restaurante Suez”, há essa referência com aspas, que não consegui identificar sua autoria: “madrugada barroca e fria”, mas na página seguinte, ao referir-se a Aleijadinho, consta este trecho poético: “Dentro de casa, paciente, o tempo colava suas escamas em paredes e caras. De metáfora em metáfora, que assim recomendavam os tempos, o tempo rolou como só é possível no intervalo entre duas frases – estávamos bem chapados.”

Os oito contos de Jeter, embora mantenham conexões entre si, conferindo unidade ao livro (fratura exposta é expressão que aparece em pelo menos três deles e o conto que dá título ao livro expõe as vísceras de um casamento prestes a findar), oferecem faces distintas, andamentos diversos, alguns grávidos de novela ou mesmo romance, um outro como microcontos espalhados, como ocorre em “A cidade como um verme”.  Há algo de camaleônico em nosso escritor de Miradouro. Nota-se, por exemplo, a maneira como a linguagem é trabalhada em vários registros, do popular coloquial, entremeada de gírias e provérbios, ao texto de sabor clássico, histórico. As paráfrase e paródias, como aquela do Capitão Trash na esteira do Superman, respingos de Euclides, Guimarães Rosa e filmes de Buñuel e Spielberg. Esse aspecto me leva a observar alguns versos do poeta Manoel Carlos (1933-2026), em seu livro Bicho Alado, em que ele se vê como um camaleão, mas buscando ocultar aquilo que Jeter expõe: “E houve um camaleão que revoltou-se / e passou a ocultar sua mágoa exposta” (1987: 43) Quando li “Pequenos assassinatos”, conto que Jeter nomeia como o filme de humor negro dirigido por Alan Arkin, de 1971, lembrei-me desses versos do “Poema de agosto”, de Manoel Carlos: “Só no quintal da infância permanecem segredos. [...] e não podendo interceptar-me / aguardo notícias do desastre.” (1987: 69) E, da p.108, do Bicho Alado, trago versos que, de algum modo, compartilham com o texto de Jeter que cita Pessoa: “Entrou sozinho no quarto / Fernando e Ricardo Reis. / Trinta poemas passados / sai Fernando-Agora-Três: / Fernando / Alberto Caeiro / e sempre Ricardo Reis. / [...] Saio de trás da cortina / volto ao centro do meu quarto. / Fernando, me empresta um poeta, / que estou sozinho e estou farto!”

Entre outros aspectos intertextuais da obra, quero destacar a epígrafe usada por Hugo Almeida em seu prefácio: ele cita Osman Lins, de Guerra sem testemunhas, trecho que justifica as incisivas denúncias sociais presentes nos contos de Jeter: “O escritor que não está ligado, de um modo profundo, aos seus semelhantes, e principalmente aos homens de seu país, é um invasor e não merece o ofício que escolheu”. Ora, se o autor mineiro escolheu a epígrafe de Ricardo Piglia em que se aproxima pôquer e ficção, vê-se que o blefe da mentira pode conter a verdade, assim como autor vale-se da imaginação para desmascarar as fraturas do real.

Daí a relevância de personagens de “alma solta” como Mãe Luandina em sua luta com o “cipoal das leis do branco”; a importância da revisão histórica da escravidão, assinalando que o chão da senzala tem as marcas da dor, enquanto capitalistas fazem do passado um ótimo negócio, transformando objetos de tortura em elementos decorativos de grande impacto  e assim há a desfiguração da memória.

Fratura exposta é um livro que presta grande serviço para a educação brasileiro, mesmo sabendo que as pretensões da Literatura não são nada didáticas. Toma-se, por exemplo, essa fala de um pobre negro, na p.27, do conto “Memória desfigurada”: “E pobre algum vai na escola? Tem de ficar pro adjutório desde miúdo: cortar uma cana, picar um capim, apartar um bezerro e tudo quanto é miudeza que rompe pelo dia afora. Desenhar nome? A mão vira um casco de tatu no batente, sem jogo pra floreio, presta pra escrita não...”

Se História anda de mãos dadas com a Literatura, como nas páginas de “Bar e restaurante Suez” abordando torturas na ditadura brasileira e chilena nas p. 120 e p.121, a Geografia também tem seu lugar, como neste trecho da p. 62, do conto “O sangue do olhar do vampiro”, em que a ficção científica não impede o conhecimento sobre nossa geologia: “Ocultos pelo dossel, e abrigados por samambaias e avencas gigantes, das fissuras das rochas brotam miríades de olhos d’água: os filetes cristalinos se unem em córregos, os córregos fluem em riacho, que suspendido pela falha geológica, despenca em rumorosa queda.” Em “Arame farpado”, na p. 47, um trabalhador rural denuncia a voraz sede dos eucaliptos: “Essa raça de planta deles tem uma sede desgraçada: seca nascente, seca rego, seca brejo, seca córrego, seca até riacho grande... Deixa a terra chupada igual um tijolo seco...”

Por fim,  comparo a força dessa livro ao “esteio de aroeira”, e vejo esse escritor nascido em Miradouro como aquela personagem que vai trançando a dificultosa taquara, só que a palavra não é para Jeter um material rabugento, ainda que difícil de lidar, e a sua denúncia corta feito aço de navalha. Caio Maciel - Brasil

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Caio Junqueira Maciel, mineiro de Cruzília. Mestre em Literatura Brasileira pela UFMG, autor de livros de ensaio como A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota; O sangue de rejuvenesce o Conde Drácula. Romancista de Um estranho no Minho. Autor de livros de poemas como Pele de Jabuticaba e Os sete sábios da Grécia & outros poemas safados.

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Miradouro: s.m. Mirante: Pequeno pavilhão no terraço no alto de um edifício ou em qualquer ponto elevado, donde se abrange largo horizonte.

(Dicionário prático ilustrado. Porto: Lello & Irmão, 1956).

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Referências:

NEVES, Jeter. Fratura externa. Belo Horizonte: Escritório de Histórias, 2026.

CARLOS, Manoel. Bicho Alado. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

BUZZATI, Dino. Naquele exato momento. Tradução de Fulvia M.L. Moretto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

 

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