Investigadores da Universidade de Genebra procuram em medicamentos já aprovados novas terapias para doenças raras, uma estratégia mais rápida e barata que o desenvolvimento tradicional de fármacos
Há
cinco anos, o laboratório de Vladimir Katanaev, na Universidade de Genebra, fez
uma descoberta surpreendente. Eles constataram que sais de zinco amplamente
disponíveis, que haviam sido aprovados nos EUA em 1997 para o tratamento de um
distúrbio metabólico conhecido como Doença de Wilson, poderiam também tratar
uma doença rara e potencialmente fatal causada por uma mutação no gene GNAO1.
O gene
GNAO1 codifica a proteína G chamada Gαo, que é um dos principais reguladores de
sinalização do cérebro. Ela atua como uma chave molecular, que liga e desliga
para impedir que os neurónios fiquem demasiado ativos ou demasiado inativos.
Mutações no gene GNAO1, que afetam cerca de 400 pessoas em todo o mundo, causam
convulsões, atrasos no desenvolvimento e problemas motores.
As
primeiras mutações no gene GNAO1 só foram identificadas em 2013, mas Katanaev,
que é professor de fisiologia celular e metabolismo, já vinha estudando a
proteína Gαo há quase 20 anos. Desse modo, quando pais de crianças
diagnosticadas com doenças relacionadas ao gene GNAO1, que não têm tratamento
aprovado, começaram a procurar especialistas, acabaram deparando-se com as
pesquisas de Katanaev.
Com um
financiamento de aproximadamente 175 mil francos suíços, proveniente de
fundações e associações de pacientes, o investigador e a sua equipa conseguiram
descobrir como as mutações prejudicam a proteína Gαo e causam a doença.
Especificamente, a equipa constatou que as mutações patogénicas deslocam de
posição um único aminoácido, chamado de glutamina 205, interferindo na
atividade da GTPase, que é o mecanismo de desativação.
Diante
dessas novas informações, a equipa de Katanaev cogitou uma forma de restaurar
essa proteína disfuncional. Para investigadores académicos, a ideia de
desenvolver um novo medicamento parece assustadora, visto que, segundo
estimativas, são necessários cerca de 810 milhões a 1,6 mil milhões de francos
suíços e uma década ou mais para desenvolver e levar um medicamento ao mercado.
O laboratório não dispunha de recursos financeiros para descobrir ou criar uma
molécula totalmente nova e conduzir todas as etapas necessárias para fazer com
que ela chegasse aos pacientes.
“Seria
necessário um investimento alto demais, considerando o número reduzido de
pacientes”, afirma Katanaev. Em vez disso, a equipa decidiu verificar se
conseguiria encontrar um medicamento já aprovado que pudesse ter novas
funcionalidades.
Estabelecer
novos usos para medicamentos antigos não é exatamente um conceito novo. Muitos
dos remédios mais populares, como os GLP-1 para obesidade ou o Viagra para a
disfunção erétil, haviam sido originalmente testados e aprovados para outros
fins.
O
conceito de reposicionamento começou, contudo, a atrair mais atenção no que diz
respeito às doenças raras, um grupo de cerca de 7 mil enfermidades pouco
comuns, das quais apenas 6% têm tratamento aprovado. Embora haja
aproximadamente 300 milhões de pessoas no mundo com alguma doença rara, cada
uma delas afeta apenas um pequeno número de indivíduos.
“Não é
possível utilizar o processo convencional de descoberta de medicamentos para
doenças raras, pois ele é muito demorado e caro”, afirma Katanaev. “Isso só faz
sentido quando o mercado é grande o suficiente”, completa o investigador.
Na procura de outro caminho
Incentivos
regulatórios, como aprovações aceleradas de medicamentos e períodos mais longos
de exclusividade, têm ajudado a estimular as grandes da indústria farmacêutica
a destinar recursos ao desenvolvimento de medicamentos para doenças raras, mas
há sinais de que esse tipo de investimento vem diminuindo.
Um
estudo da Evaluate, empresa de inteligência de dados, estima que a participação
dos medicamentos para doenças raras que estão a ser desenvolvidos cairá de 30%
em 2027 para 22% em 2032. Os autores do relatório argumentam que isso reflete o
interesse crescente das grandes da indústria farmacêutica em doenças que afetam
um número maior de pessoas, como a obesidade, por exemplo.
“Precisamos
de outras abordagens”, afirma Katanaev. “O reposicionamento de fármacos é um
atalho que pode viabilizar um medicamento num período relativamente curto com
um investimento relativamente baixo”, explica.
Os
enormes avanços na nossa compreensão da genética estão a facilitar o trabalho
de laboratórios académicos, como o de Katanaev, na pesquisa de mutações e no
entendimento de como elas causam doenças. A inteligência artificial (IA) também
está a ajudar alguns laboratórios a interpretar enormes quantidades de dados
moleculares e a criar modelos computacionais para testar medicamentos.
Hoje,
muitos laboratórios contam com instalações de triagem de alto rendimento, que
vêm sendo amplamente utilizadas pelas grandes do setor farmacêutico, a fim de
identificar e desenvolver novas moléculas.
A
equipa de Katanaev utilizou o processo para analisar um banco de cerca de 3 mil
fármacos aprovados nos EUA. Posteriormente, a equipa testou esses medicamentos,
a fim de verificar se apresentavam alguma atividade sobre a proteína Gαo. Foi
aí que apareceu o zinco. O teste mostrou que o zinco poderia restaurar
parcialmente a função da proteína mutante. A equipa de Katanaev testou a
hipótese em modelos de moscas e camundongos e constatou que era segura e
eficiente.
Diante
desses resultados pré-clínicos promissores e considerando que a terapia com
zinco já estava aprovada para a Doença de Wilson, Katanaev e médicos do
Hospital Universitário de Colónia, na Alemanha, iniciaram o primeiro teste em
humanos com um menino de três anos portador de uma mutação no gene GNAO1. Pouco
depois do início do tratamento, o garoto passou a ter menos convulsões e os seus
movimentos bruscos e espasmódicos cessaram quase que totalmente. Um ano após o
tratamento, o seu quadro clínico continua estável.
Embora
não se trate de uma cura propriamente dita, a qualidade de vida do paciente e da
sua família melhorou significativamente. A equipe de Colónia está agora a testar
o zinco em 13 pacientes com doenças relacionadas ao GNAO1 num ensaio clínico,
graças a uma campanha de financiamento coletivo promovida pela associação alemã
de pacientes com GNAO1.
O
laboratório de Katanaev vem sendo procurado por famílias de pacientes de todo o
mundo, interessadas em saber se é possível aplicar a mesma abordagem para
identificar uma possível eficácia de medicamentos já existentes no tratamento
de outras doenças genéticas raras. No momento, o laboratório, que conta com uma
equipa de investigadores de pós-doutorado em Genebra, pesquisa seis enfermidades
genéticas.
Impulso crescente
Com os
sistemas de saúde sob pressão, um número crescente de iniciativas e grupos de
pacientes vem trabalhando para promover o reposicionamento de medicamentos,
especialmente na Europa. Especialistas acreditam que 75% dos medicamentos já
existentes poderiam ser usados de maneira diferente para o tratamento de outra
enfermidade. Ao contrário de alguns fármacos novos, como as terapias génicas,
cujos preços variam entre 2 e 3 milhões de dólares por dose, muitos
medicamentos utilizados para novos fins já são genéricos sem patente, o que os
torna mais acessíveis para os pacientes.
Em
2022, o Horizon Europe, principal programa de financiamento da União Europeia
para pesquisa e inovação, com duração de sete anos, investiu, durante cinco
anos, um total de 22 milhões de francos suíços na criação da Plataforma
Europeia para Reposicionamento de Medicamentos (REMEDi4ALL). A iniciativa visa
acelerar o desenvolvimento e o acesso a terapias reposicionadas, reunindo
conhecimentos especializados e promovendo a colaboração entre pacientes, investigadores,
médicos, órgãos reguladores e outras partes interessadas.
Entretanto,
ainda restam enormes desafios. Para um fármaco já existente, mesmo que antigo,
a aprovação regulatória e o reembolso estão longe de seguir um caminho simples.
Embora medicamentos reposicionados para novos usos possam, muitas vezes,
utilizar dados de segurança já existentes, evitando, em alguns casos, ensaios
clínicos de Fase I, eles ainda precisam passar por alguns testes clínicos, a
fim de comprovar a sua eficácia para a nova doença e determinar a dosagem
correta. Como por exemplo os sais de zinco, que estão disponíveis em farmácias
como suplemento nutricional em dosagens muito inferiores àquelas necessárias
para tratar a Doença de Wilson e enfermidades relacionadas ao GNAO1.
“Ainda
não existe um caminho regulatório específico para o reposicionamento de
medicamentos que pudesse otimizar e acelerar o processo”, diz Claudia Fuchs,
gerente sénior de projetos da EURORDIS – Organização Europeia de Doenças Raras,
uma aliança de mais de mil organizações de pacientes com enfermidades pouco
comuns.
Alguns
estudos estimam que o reposicionamento de um fármaco pode continuar custando
cerca de 300 milhões de dólares, levando de seis a oito anos desde o
laboratório até ao paciente – ainda assim uma vantagem em comparação com os 10
a 15 anos necessários para lançar um novo medicamento. Katanaev acredita que o
fluxo de trabalho do seu laboratório pode reposicionar medicamentos em dois a
três anos por cerca de 1 milhão de dólares, incluindo ensaios clínicos.
Aos
laboratórios académicos faltam muitas vezes os recursos, o conhecimento
regulatório e a experiência em desenvolvimento clínico necessários para levar o
processo de reposicionamento de medicamentos adiante em contextos lentos e
complexos. Embora pudesse assumir essa tarefa, a indústria farmacêutica não
costuma demonstrar interesse em testar e comercializar fármacos antigos.
“Há
muitos investimentos sendo direcionados a abordagens inovadoras”, diz Fuchs.
“Mas, quando se trata de encontrar novos usos para medicamentos genéricos, as
empresas não têm interesse”, acrescenta.
Sem o
apoio da indústria, são principalmente as associações de pacientes que precisam
arcar com os custos e tomar decisões difíceis sobre como e onde gastar seus
recursos extremamente limitados.
O
reposicionamento ainda não é uma solução milagrosa. Normalmente, não há
garantia de que um medicamento aprovado vá ser adequado para outra doença
específica. E, mesmo que seja, não se sabe até que ponto cada paciente será
beneficiado.
“Se
tivermos sorte, como no caso do zinco, o reposicionamento pode levar à
descoberta de um medicamento para uma doença que, de outra forma, não teria
tratamento e permaneceria intratável para sempre”, aponta Katanaev. Pois,
“atualmente, o desenvolvimento convencional de medicamentos não é
economicamente viável”. In “Swissinfo” - Suíça

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