O Consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro acolheu na sexta-feira a estreia no Brasil da artista polaca Marta Stanisława Sala e do antropólogo de Macau Cheong Kin Man, que regressou ao país 17 anos depois de ter realizado uma investigação junto da diáspora de Macau. Promovida pela Câmara de Comércio, Indústria e Turismo Brasil-Macau (CCITBM), a mostra efémera “As Espantosas e Curiosas Viagens: As Viajantes Bonecas” reuniu, no Palácio de S. Clemente, várias obras da dupla, incluindo cerca de uma dúzia de corpos e máscaras têxteis, numa intervenção concebida especificamente para esse espaço.
A
iniciativa retomou o contacto estabelecido através das entrevistas conduzidas
por Cheong no Brasil em 2009, integrando-o numa investigação artística sobre
migração, memória e formação de identidades entre Macau, Portugal, Brasil e
outros territórios percorridos pela dupla.
Na
cerimónia de abertura, a cônsul-geral adjunta de Portugal no Rio de Janeiro,
Ana Rita Ferreira, observou que Macau raramente surge na programação do Palácio
de S. Clemente, construído entre 1956 e 1961 para servir de sede à Embaixada de
Portugal e inspirado nos palácios barrocos portugueses do século XVIII.
“Precisamente porque é mais raro, também é um prazer redobrado”, disse a
diplomata e cidadã honorária do Rio de Janeiro.
Por
sua vez, Silvana d’Assumpção, presidente da CCITBM, destacou a continuidade
desse diálogo. “Hoje, no Rio de Janeiro, a exposição prolonga esse diálogo e
cria uma ponte entre Macau, Portugal e Brasil”, frisou, recordando as
entrevistas de 2009.
Já
Carolina Chediak, directora artística da Casa de Pedra, espaço do bairro
carioca do Jardim Botânico onde a dupla se encontra em residência, salientou a
“sensibilidade” do trabalho e o valor da sua mobilidade. “Fiquei encantada com
o projecto, com a seriedade e com o sentido de um projecto como este, de
circulação”, referiu.
No
salão da mostra, várias “Viajantes Bonecas” foram dispostas sobre consolas e
entre elementos do mobiliário histórico, estabelecendo relações com
representações europeias da Ásia presentes no edifício.
Durante
a visita conduzida pela dupla, uma cabeça escultórica inspirada na personagem
orientalista Fu Manchu, instalada sob um retrato de Fernando Pessoa, despertou
a curiosidade de Isabel Hölzl, directora do “Goethe-Institut” (Instituto
Alemão) do Rio de Janeiro. Cheong descreveu a composição como uma reflexão
sobre uma identidade formada por referências cantonesas e portuguesas,
relacionando-a com o imaginário chinês inscrito na decoração do espaço. “Não
foi apenas a sociedade chinesa ou cantonense que me ensinou a ser cantonense e
chinês, mas também os portugueses”, explicou.
O
antigo colaborador do Jornal Tribuna de Macau apontou ainda, no contexto
português, formas próprias de representar a China e a identidade chinesa. “Há
aspectos de Macau que se tornam muito mais chineses do que na própria China ou
em Hong Kong, o que é muito curioso”, acrescentou.
O
casal define estes corpos têxteis como “auto-etnografias artísticas”,
construídas a partir de materiais, referências e memórias acumuladas em
diferentes geografias.
O
encontro encerrou com uma conversa gravada com Silvana d’Assumpção, destinada a
dar continuidade à investigação.
A
exposição segue agora para o Galpão Bela Maré, centro cultural do Observatório
de Favelas situado no conjunto de favelas da Maré, onde estará patente entre
hoje e sexta-feira. A programação inclui “Todas as Crianças São Poetas”, acção
participativa que convida diferentes gerações a criarem colectivamente uma
língua inexistente através da voz, do gesto, do movimento e de sistemas de
escrita inventados.
A
etapa carioca integra “As Espantosas e Curiosas Viagens”, série itinerante na
qual a dupla cruza translingualidade, história e experiências de deslocação,
fazendo dos percursos entre Europa, Ásia e o mundo de língua portuguesa parte
do próprio processo artístico e antropológico. In “Jornal
Tribuna de Macau” - Macau

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