Acabei de ler Diálogos Inquietantes e, antes de mais, para além do assinalável mérito literário, felicito-te pela coragem cívica em exprimir publicamente, e com todas as letras, o que muita gente pensa, mas evita dizer. Faz lembrar a expressão "o rei vai nu", naquela situação em que a inocência infantil desmascara alto e bom som uma realidade que só não é por todos denunciada por cobardia, medo ou conveniência.
Não é a primeira vez que o fazes. Em obras anteriormente
publicadas – por exemplo, Mulheres de pano preto − e em diversos artigos
de opinião, o público leitor ficou a saber que não silencias uma opinião
esclarecida e fundamentada sobre os acontecimentos ocorridos na Guiné e em Cabo
Verde a seguir ao golpe militar de 25 de Abril. No fundo, está em causa a entrega
de bandeja do poder ao PAIGC por um MFA que rotulas, e muito acertadamente, de
cobarde e impreparado para as lides políticas e diplomáticas em que se viu
envolvido. Igualmente impreparados eram os quadros do PAIGC para as
responsabilidades que assumiram nos dois territórios, convencidos de que a
crença na ideologia marxista seria por si só geradora de uma poção mágica para
a resolução de todos os problemas, desde logo a virtude de criar “um homem
novo” mediante o “suicídio de classe” dos mais favorecidos e a súbita
transformação das populações em obreiras colectivas de uma nova sociedade. Tudo
isto sob a égide de um dogmatismo marxista-leninista que, como já era sabido,
foi fautor de falência económica e regressão social em todo o lado onde foi
experienciado. A alternativa – a liberdade e a democracia – estava fora de
questão porque era luxo burguês na opinião dos paigcistas e dos esquerdistas do
MFA que, de mãos dadas, selaram naquela conjuntura o destino imediato do povo
das ilhas.
Tudo isto explicas muito bem no livro e só fica com
dúvida quem obstinadamente recusa aceitar a verdade.
Entre os pontos fortes do livro destaca-se a
dessacralização da figura de Amílcar Cabral. Não o fazes de ânimo leve,
levianamente, ou por motivação ideológica, mas com uma argumentação profusa e
apoiada em factologia conhecida e documentada. Nisto, enfileiras com outros
autores e ensaístas que questionam a imagem imaculada de Cabral como figura
política, retirando-o do pedestal mitológico em que os seus indefectíveis
seguidores o colocaram. Com o teu livro, fiquei a conhecer factos que eu
ignorava, pelo que ele é desde já um valioso documento que guardarei e
recomendarei. Mas eu próprio já tive ocasião de, em diálogos ou comentários em
círculos restritos e espaços públicos, questionar a dimensão do estratego que
alguns atribuem a Cabral, argumentando que, se o fosse, jamais poderia conceber
a viabilidade de um projecto político de união entre os dois territórios. Este
é um aspecto que aprofundas muito bem recorrendo à história e à comparação dos
perfis culturais e psicológicos dos dois povos em causa. Sim, aprendi muito com
o teu livro, seja o que de mais relevante norteou a conduta política do líder
ou até algumas particularidades da sua vida pessoal. Por exemplo, o facto de o
seu pai, Juvenal Cabral, ter sido responsável pela paternidade de cerca de 23
filhos de mães diferentes.
Estranho é que haja cabo-verdianos que o enaltecem como
homem e figura cívica, talvez só por ter gerado o alegado “pai da nação
cabo-verdiana”, sem sequer o ter sustentado, tanto quanto parece ter
acontecido, responsabilidade que recaiu exclusivamente sobre os ombros da sua
mãe. Mas esses presunçosos panegiristas serão os últimos abencerragens do
antigo PAIGC ou estiveram na luta pela independência em território guineense,
embora a maior parte em funções mais burocráticas que guerreiras, pois a
condição de carne para canhão parece ter sido reservada aos guineenses. De
facto, a mitologia à volta de Amílcar Cabral, elevado por algumas mentes
crédulas à sacrossanta condição de “pai da nação cabo-verdiana”, começou aos
poucos a ser questionada e apontada como produto de fantasiosa criação
respaldada pela ideologia política, sem qualquer fundamentação na história, na
cultura e na ciência. Alguns autores ou analistas políticos como Maika Lobo,
Daniel dos Santos, José Leitão da Graça e José Luís Hopffer Almada contestam
essa paternidade atribuída a Amílcar Cabral. De um modo geral, convergem
contigo na argumentação de que a nacionalidade cabo-verdiana só pode ser
concebida numa perspectiva histórica e existencial de uma amplitude que jamais
pode circunscrever-se à acção de uma personagem ocorrida num tempo limitado no
século XX e menos ainda quando avaliada segundo um critério puramente
dogmático. Não creio que seja pertinente ou faça qualquer sentido atribuir um
pai à nação cabo-verdiana. Creio que quando muito se pode é identificar
individualidades que ao longo da história do território interpretaram o
sentimento colectivo do povo das ilhas, indo ao fundo da sua alma, e o
manifestaram em obras de arte. Por outro lado, vem também à tona a
responsabilidade moral de Cabral pelas mortes por fuzilamento ocorridas, creio
que várias vezes, nas suas hostes. A tendência é ilibá-lo para manter à sua
volta uma aura de virtude, moderação e tolerância compagináveis com o perfil de
alguém que procurou passar nos areópagos internacionais a imagem de um
democrata. Analisas bem essa circunstância, podendo deduzir-se que o antigo
burocrata terá aprendido aos poucos a moldar a sua estrutura mental e moral à
lógica do ambiente de violência que era indissociável da missão que se impôs. Ele
teria certamente a mesma alma pacífica da maior parte dos seus conterrâneos,
mas, como diz Ortega e Gasset, o homem é a sua circunstância. E Fernando
Pessoa, aludindo à publicidade da coca-cola, também disse: primeiro estranha,
depois entranha-se.
Quanto ao resto, bastaria analisar as fragilidades e o
estrondoso falhanço do projecto político de Amílcar Cabral para se reconhecer
que nada, mas rigorosamente nada, justifica as narrativas excessivamente
polarizadas construídas à volta da personagem. Pode-se, sem dúvida, enaltecer a
sua inteligência, a sua capacidade de organização e liderança, bem como a sua
determinação em pugnar por um ideal humano, mas a grandeza dos seus feitos tem
de ser avaliada em função dos resultados concretos que ficaram para a
posteridade. E estes, longe de serem favoráveis, podem indiciar, pelo
contrário, inversão de padrões civilizacionais na Guiné-Bissau, cuja
instabilidade política e social a coloca na condição de um estado falhado e de
futuro nebuloso. Ali não nasceu um “homem novo”, pelo contrário, a avaliar
pelas ridículas figurinhas fardadas, com o peito estrelado de medalhas, que
constantemente desestabilizam o país, conclui-se que nada de positivo se pode
esperar de mentes rasas de valores cívicos e de seres envaidecidos com a ilusão
do poder dado pelas armas que detêm.
Até mesmo em Cabo Verde, cuja sustentabilidade só tem
sido viabilizada graças às ajudas externas e à sua criteriosa reciclagem, não
se pode considerar auspicioso o curso da independência política que foi
reconhecido ao país. Ironicamente, pode dizer-se que a boa vontade da
comunidade internacional teve um contraponto negativo: ao contemporizar-se com
a solução política imposta de supetão ao território, terá impedido que ao povo
fosse facultada a possibilidade de escolher livremente o seu destino. Foi assim
que os tais “melhores filhos da nação”, os da paternidade política do PAIGC,
tiveram a via aberta e segura para, com o apoio do MFA, inviabilizar a solução
democrática que certamente seria a aspiração da maioria do povo quando foi
derrubado o regime anterior
Só por crassa ignorância ou irresolvido complexo de
colonizado é que não se reconhece que caberia a Portugal, como aliás sempre
entenderam líderes como Costa Gomes, Spínola, Mário Soares e Almeida Santos,
integrar Cabo Verde como região autónoma em moldes semelhantes aos Açores e
Madeira. Assim, em vez de receber dádivas da comunidade internacional para
poder sobreviver, Cabo Verde poderia passar a ser contemplado, não com esmolas,
mas com o que seria de direito próprio. Cheguei a invocar a rábula “comeram-me
a carne, agora roam-me os ossos” para ilustrar que quem descobriu e povoou as
ilhas jamais poderia livrar-se assim tão facilmente das suas responsabilidades
históricas. Há quem não veja o problema nessa perspectiva, mas há dias
agradou-me ler num espaço público o comentário de um cabo-verdiano que
terminava assim: “afinal, os primeiros cabo-verdianos foram os portugueses”.
Isto vinha a propósito da simpatia que os portugueses manifestaram em espaços
públicos para com o desempenho da selecção de futebol da nossa terra no
Mundial. Não foi por acaso que, há alguns anos, quando eu o José Fortes Lopes e
o Arsénio de Pina fomos à Associação de Antigos Alunos de Cabo Verde falar
sobre Regionalização, estando presente o Onésimo Silveira, este afirmou ao usar
da palavra: “foi um erro histórico não ter sido possibilitado a Cabo Verde a
auto-determinação em vez da independência política nas circunstâncias em que
ocorreu.”
Resta-me uma palavra sobre o MFA, uma vez que ele tem
graves responsabilidades no que aconteceu em Cabo Verde. Fui um adepto
consciente do 25 de Abril, mas nunca teria imaginado que alguns oficiais do
quadro permanente tão depressa se metamorfoseassem em marxistas-leninistas. O
protagonismo da ala esquerdista do Movimento contribuiu para que a indisciplina
nos quartéis, sobretudo em alguns, chegasse ao extremo e transformasse a imagem
da instituição castrense em autêntica caricatura. Alguns militares, mesmo uns
poucos profissionais, deixaram crescer cabelos, barbas e patilhas de uma forma
ridícula, como querendo imitar um qualquer Che Guevara ou revolucionário
sul-americano de pacotilha, na aparência, mas também na adopção de condutas e
procedimentos em tudo contrários aos regulamentos militares. Não se deram conta
do anacronismo das suas figuras e da inadequação da tal “sociedade socialista”
que, por influência partidária, apregoavam sem saberem o que isso significaria
como modelo a encaixar de supetão no país e a impor-se contra a vontade
nacional. Até porque a condição revolucionária surgiu, na maioria dos seus
protagonistas, de geração espontânea, sem nada que a atestasse, por
conhecimento teórico ou experiência política anteriormente adquiridos. Só a ignorância
explica uma surpreendente e momentânea sedução por modelos sociais do Leste
Europeu que não levariam muitos anos a claudicar. É como se alguns militares
profissionais tivessem perdido a noção do posicionamento do seu país no quadro
geopolítico europeu e abdicado da formação ética e disciplinar que a vida toda
os norteou.
Ora, é nesse contexto que se movimentaram as
representações do MFA localizadas nas antigas colónias e diligenciaram para que
o poder fosse entregue praticamente de mão beijada aos movimentos de
libertação. Como tu bem os classificas, agiram mais por cobardia do que com a
consciência do dever que se lhes impunha. Costa Gomes foi bem claro quando
exprimiu a sua opinião sobre o que se passava em Cabo Verde, conforme citas.
No entanto, os militares em Cabo Verde não pertenciam
todos a essa célula local do MFA, do mesmo modo que os oficiais designados por
“gonçalvistas” eram uma minoria. Foi enviado para S. Vicente o capitão de
Infantaria Macedo Marques, do quadro permanente, a comandar uma companhia de
caçadores. Ele é do meu tempo e há mais de 40 anos, durante a frequência de um
curso de estado-maior em que ambos participámos, contou-me as atribulações por
que passou, principalmente no episódio da intitulada “libertação da Ribeira
Bote”. Regressou com má impressão dos cabo-verdianos, devido aos excessos que
lá presenciou e a que foi chamado a conter com os seus soldados. Também privei
com o então capitão de Cavalaria Velasco Martins, que foi enviado para S.
Vicente a comandar uma companhia de Polícia Militar na altura de maior
instabilidade cívica. Confessou-me que não esperava certos comportamentos
porque levava a impressão de que os cabo-verdianos eram um povo pacífico e
cordato.
Também sou amigo e correspondente de um oficial da
Marinha que ao tempo era 1º tenente (corresponde a capitão no exército) e
estava colocado no Comando Naval, em S. Vicente. Ao contrário dos dois oficiais
referidos, este, sim, era dos mais activos elementos da célula local do MFA, um
esquerdista convicto. Tanto terá pisado o risco que o Comando Naval o
transferiu em Setembro (1974) para Angola. Não se arrepende do que fez, antes
orgulha-se, imagina, de ter contribuído para o povo de Cabo Verde “escolher o seu
melhor destino”. Hoje capitão de mar-e-guerra reformado, não muda de opinião e
por isso não percebe ou finge não perceber que o povo de Cabo Verde não
escolheu o seu destino, mas que este lhe foi imposto em grande parte por acção
da célula local do MFA. Tendo sido adepto convicto do “gonçalvismo”, alinhando
com os que defendiam que o MFA devia ser o instrumento para a criação de uma
“sociedade socialista”, foi um dos vencidos em 25 de Novembro.
Para terminar, penso que foi um recurso literário
interessante o uso do alter ego Leónidas, que considero um reflexo do
inconsciente da personagem e narrador Leonardo. Imbuído de convicções, ainda
assim ele admite que exista uma ou outra ligeira réstia de dúvida no edifício
das suas certezas, porque no fundo sabe que o contrário fá-lo-ia incorrer em
dogmatismo, tal como os seus adversários ideológicos, e que é mais seguro
questionar-se ele próprio para uma maior clarificação do seu pensamento.
Reitero o meu agradecimento pelo livro e deixo aqui um
abraço amigo. Adriano Lima – Cabo Verde / Portugal in “coral-vermelho.blogspot“
__________________
Adriano Miranda Lima - Coronel reformado do Exército português, natural da cidade
do Mindelo, Ilha de São Vicente, a viver na cidade de Tomar, Portugal. Publicou
Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial e Dr. José
Baptista de Sousa – O Homem, o Médico e o Militar
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