O escritor moçambicano Miguel Luís lançou na cidade da Beira, o seu primeiro romance, intitulado A terra ainda está zangada, na Livraria Fundza, numa sessão que marcou o início de um roteiro literário que leva o autor às províncias de Manica e Maputo.
Ambientado no universo da mineração, particularmente na
província de Manica, o romance acompanha Francisco, um adolescente que vê o seu
sonho de continuar os estudos ameaçado depois de o pai desaparecer num
desabamento ocorrido num campo de mineração. Ao lado do amigo Eurico, o jovem
acaba por descobrir que uma empresa mineira, alegadamente protegida por
autoridades e homens armados, pretende apoderar-se das terras, do ouro e das
águas do rio Púnguè.
A narrativa aborda temas como a perda, os conflitos
familiares, a ganância, a injustiça e a resistência de comunidades confrontadas
com a exploração dos seus recursos naturais. Para Miguel Luís, o interesse pela
mineração não está apenas no fenómeno económico ou técnico, mas sobretudo nas
consequências que esta actividade produz sobre as pessoas, as famílias, os
afectos e o território.
O escritor, que actualmente vive em Portugal, explica que
a obra resulta também de uma ligação permanente a Moçambique e da necessidade
de reflectir sobre as dores e transformações do país. O processo de escrita
começou entre 2018 e 2019, quando a exploração de rubis despertou a sua
atenção. No entanto, o projecto ganhou novo impulso depois de uma passagem por
Maputo, em Dezembro de 2024, experiência que, segundo o autor, o levou a
confrontar-se com um país marcado pela dor.
Mais do que um simples romance, Miguel Luís considera A
terra ainda está zangada uma espécie de oração à sua terra natal. O título,
explica, reflecte as feridas que permanecem na sociedade moçambicana depois de
diferentes períodos de conflito e instabilidade, incluindo a luta de
libertação, a guerra civil, os conflitos militares e a violência registada em
2024.
A ensaísta Fátima Mendonça considera a obra um romance de
formação, destacando a capacidade narrativa do autor e uma escrita ancorada na
realidade social moçambicana.
Depois da apresentação na Beira, Miguel Luís seguiu para
Manica. Na cidade de Chimoio, o escritor esteve na Escola Mwana Unerufaro, no
dia 14, para uma conversa com alunos do ensino secundário. No mesmo dia a obra foi
apresentada aos leitores na UniPúnguè pelo escritor e editor Dany Wambire.
O programa incluiu ainda um encontro com o Clube do Livro
da Beira, no dia 15 e uma apresentação em Maputo, no dia 20, pelo músico
Stewart Sukuma, além de uma conversa com estudantes de Ensino de Português da
Universidade Eduardo Mondlane, marcada para o dia 25.
Nascido em Maputo, Miguel Luís é escritor e advogado. É
licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e
mestre em Estratégia de Investimento e Internacionalização pelo Instituto
Superior de Gestão. Tem textos publicados em antologias e na imprensa
moçambicana e portuguesa e foi distinguido em diferentes prémios literários. Em
2023, publicou O Desamparo das Flores, obra que foi finalista do Prémio
Nacional de Literatura Infanto-juvenil de Moçambique em 2024. In “O País”
- Moçambique
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