Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Macau - Alcateia de emoções em apresentação inédita de “Os Lobos de Pedra” no Centro Cultural

Um clássico infantil torna-se palpável. Pedro desta vez vem acompanhado de vários lobos, feitos de objectos do quotidiano, que sobem ao palco para dar corpo aos medos, raivas e alegrias de quando somos crianças. A Trupe Fandanga, companhia portuguesa de teatro de marionetas, traz a Macau “Os Lobos de Pedra”, uma peça que vai em direcção oposta as convenções do teatro infantil, ao propor menos respostas e mais perguntas. Com direcção artística de Sandra Neves, o espetáculo estreia este fim-de-semana no Centro Cultural, integrado no 3.º Festival Internacional de Artes para Crianças, com sessões de 14 a 17 de Agosto, em versões em cantonense e português


Há qualquer coisa de profundamente arcaico na relação entre uma criança e um objecto. Um pau pode ser uma espada, uma concha pode ser um tesouro, uma caixa de cartão pode ser uma nave espacial. É essa capacidade “infantil” de ver para além da forma, de transformar o que está à mão em algo que habita o imaginário, que Sandra Neves, criadora de marionetas e directora artística da Trupe Fandanga, explora em Os Lobos de Pedra. A peça, que a companhia portuguesa apresenta em Macau no âmbito do 3.º Festival Internacional de Artes para Crianças, não é um espetáculo que oferece respostas ou lições. Antes, convida o público a um palco onde as certezas se dissolvem e onde cada espectador, criança ou adulto, encontra a sua “moral da história”.

O espetáculo, com aproximadamente 40 minutos de duração, é apresentado no Estúdio I do Centro Cultural de Macau, com sessões em cantonense nos dias 14, 15, 16 e 17 de Agosto e em português nos dias 15 e 16 de Agosto.

A peça acompanha o conhecido Pedro. Não o mentiroso, mas uma criança que mergulha no seu próprio ser, onde encontra lobos que personificam os seus sentimentos mais primordiais. O cenário, uma ilha feita de madeira e metal, que se transforma constantemente, é habitada por objectos encontrados na oficina que vão ganhando vida. Não há, no entanto, uma narrativa linear. O que existe é uma sucessão de metáforas visuais que se desdobram à medida que Pedro se confronta com os seus próprios fantasmas.

Em entrevista, Sandra Neves descreve a sua criação como o resultado de um processo intuitivo, onde cada objecto se transpõe como emoção, e cada emoção pede uma forma. “Normalmente vou para a oficina, rodeada de muitos objectos e vou seguindo a intuição do que é que cada objecto sugere, do que é que cada momento me pede emocionalmente”, explica a criadora.

Os lobos do título, contudo, não são lobos nem literais nem físicos. São escorpiões feitos com utensílios antigos, tartarugas construídas a partir de puxadores de portas e travões de bicicleta, híbridos que, nas mãos da “manipuladora” das marionetas sem fios, se transformam em algo estranhamente familiar. “Nós somos de uma geração que cresceu a ver desenhos animados japoneses, Miyazaki e tantas outras coisas. Então, na nossa cultura ocidental, temos muitas coisas que fomos ver à cultura oriental”, reflecte Sandra.

Para a criadora, a simbologia do lobo é de “uma figura ambígua que normalmente é muito maltratada e na verdade é um animal muito nobre, mas que funciona com instintos básicos muito crus, e eu vejo um paralelo nessa forma de ser com o que é uma criança”, afirma Sandra. O nome Pedro, que em latim significa pedra, reforça a metáfora. “Se os lobos forem de pedra, a pedra é uma coisa também muito curiosa porque é dura, parece que é intransponível, mas nós conseguimos moldar a pedra. A água consegue, que é a coisa mais líquida, moldar a pedra de uma forma incrível”.

Sandra encontra na história de Pedro e o Lobo de Prokofiev uma das suas principais inspirações. Na versão do compositor russo, Pedro captura o lobo que devorou o seu pato de estimação, mas, no momento em que os caçadores adultos se preparam para o matar, Pedro escolhe libertá-lo. “Isso revela uma certa nobreza de carácter”, explica Sandra. Este gesto de libertação, que contrasta com a vontade de vingança dos adultos, é o que a fascina na personagem. O Pedro da sua peça é essa mesma criança rebelde e incompreendida, que se recusa a seguir as regras impostas e que, ao confrontar os seus lobos interiores, aprende a ultrapassar as suas próprias dores de crescimento.

A peça nasceu da observação de uma criança real. Neves conta que “este projecto vem muito do facto de eu ter conhecido uma criança muito complexa, que era o meu filho, muito dada às emoções”. A criadora insiste que a função do teatro infantil não é dar respostas. “Nós, como adultos, educadores ou artistas, tendemos a dar respostas todas às crianças, e na verdade não precisamos. A nossa função é dar-lhes pistas, apoiá-los, dar-lhes ferramentas. Depois, são eles que falam. São suficientemente inteligentes para serem até mais espertos do que nós”.

Sandra Neves concluiu dizendo que não sabe o que esperar do público de Macau, uma vez que “a linguagem das marionetas é quase como a música, é universal”, e por isso, está “muito curiosa” para receber as diferentes reacções. Depois do espetáculo, a conversa com o público será uma forma de feedback e de continuação da própria experiência, deixando que o público manipular as suas criações, numa troca de interpretações sobre o que cada um viu, sentiu e projectou naqueles lobos de pedra que, afinal, são feitos das próprias memórias e emoções.

A criação da Trupe Fandanga leva música original de Carlos Adolfo, texto de Ricardo Alves, cenografia de Sandra Neves e Miguel Cantante, desenho de luz de Mariana Figueroa, vídeo de Patrícia Viana Almeida, e voz off de Rita Cantante (português) e Lai Ho Yi (cantonense). A produção tem direção de Ana Carvalhosa e direção de cena de João Gravato, sendo uma co-produção do Teatro Municipal do Porto e da Circolando – Central Eléctrica. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”


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