Um clássico infantil torna-se palpável. Pedro desta vez vem acompanhado de vários lobos, feitos de objectos do quotidiano, que sobem ao palco para dar corpo aos medos, raivas e alegrias de quando somos crianças. A Trupe Fandanga, companhia portuguesa de teatro de marionetas, traz a Macau “Os Lobos de Pedra”, uma peça que vai em direcção oposta as convenções do teatro infantil, ao propor menos respostas e mais perguntas. Com direcção artística de Sandra Neves, o espetáculo estreia este fim-de-semana no Centro Cultural, integrado no 3.º Festival Internacional de Artes para Crianças, com sessões de 14 a 17 de Agosto, em versões em cantonense e português
Há qualquer coisa de profundamente
arcaico na relação entre uma criança e um objecto. Um pau pode ser uma espada,
uma concha pode ser um tesouro, uma caixa de cartão pode ser uma nave espacial.
É essa capacidade “infantil” de ver para além da forma, de transformar o que
está à mão em algo que habita o imaginário, que Sandra Neves, criadora de
marionetas e directora artística da Trupe Fandanga, explora em Os Lobos de
Pedra. A peça, que a companhia portuguesa apresenta em Macau no âmbito do
3.º Festival Internacional de Artes para Crianças, não é um espetáculo que
oferece respostas ou lições. Antes, convida o público a um palco onde as
certezas se dissolvem e onde cada espectador, criança ou adulto, encontra a sua
“moral da história”.
O espetáculo, com aproximadamente 40 minutos de duração,
é apresentado no Estúdio I do Centro Cultural de Macau, com sessões em
cantonense nos dias 14, 15, 16 e 17 de Agosto e em português nos dias 15 e 16
de Agosto.
A peça acompanha o conhecido Pedro. Não o mentiroso, mas
uma criança que mergulha no seu próprio ser, onde encontra lobos que
personificam os seus sentimentos mais primordiais. O cenário, uma ilha feita de
madeira e metal, que se transforma constantemente, é habitada por objectos
encontrados na oficina que vão ganhando vida. Não há, no entanto, uma narrativa
linear. O que existe é uma sucessão de metáforas visuais que se desdobram à
medida que Pedro se confronta com os seus próprios fantasmas.
Em entrevista, Sandra Neves descreve a sua criação como o
resultado de um processo intuitivo, onde cada objecto se transpõe como emoção,
e cada emoção pede uma forma. “Normalmente vou para a oficina, rodeada de
muitos objectos e vou seguindo a intuição do que é que cada objecto sugere, do
que é que cada momento me pede emocionalmente”, explica a criadora.
Os lobos do título, contudo, não são lobos nem literais
nem físicos. São escorpiões feitos com utensílios antigos, tartarugas
construídas a partir de puxadores de portas e travões de bicicleta, híbridos
que, nas mãos da “manipuladora” das marionetas sem fios, se transformam em algo
estranhamente familiar. “Nós somos de uma geração que cresceu a ver desenhos
animados japoneses, Miyazaki e tantas outras coisas. Então, na nossa cultura
ocidental, temos muitas coisas que fomos ver à cultura oriental”, reflecte
Sandra.
Para a criadora, a simbologia do lobo é de “uma figura
ambígua que normalmente é muito maltratada e na verdade é um animal muito
nobre, mas que funciona com instintos básicos muito crus, e eu vejo um paralelo
nessa forma de ser com o que é uma criança”, afirma Sandra. O nome Pedro, que
em latim significa pedra, reforça a metáfora. “Se os lobos forem de pedra, a
pedra é uma coisa também muito curiosa porque é dura, parece que é
intransponível, mas nós conseguimos moldar a pedra. A água consegue, que é a coisa
mais líquida, moldar a pedra de uma forma incrível”.
Sandra encontra na história de Pedro e o Lobo de
Prokofiev uma das suas principais inspirações. Na versão do compositor russo,
Pedro captura o lobo que devorou o seu pato de estimação, mas, no momento em
que os caçadores adultos se preparam para o matar, Pedro escolhe libertá-lo.
“Isso revela uma certa nobreza de carácter”, explica Sandra. Este gesto de
libertação, que contrasta com a vontade de vingança dos adultos, é o que a
fascina na personagem. O Pedro da sua peça é essa mesma criança rebelde e incompreendida,
que se recusa a seguir as regras impostas e que, ao confrontar os seus lobos
interiores, aprende a ultrapassar as suas próprias dores de crescimento.
A peça nasceu da observação de uma criança real. Neves
conta que “este projecto vem muito do facto de eu ter conhecido uma criança
muito complexa, que era o meu filho, muito dada às emoções”. A criadora insiste
que a função do teatro infantil não é dar respostas. “Nós, como adultos,
educadores ou artistas, tendemos a dar respostas todas às crianças, e na
verdade não precisamos. A nossa função é dar-lhes pistas, apoiá-los, dar-lhes
ferramentas. Depois, são eles que falam. São suficientemente inteligentes para
serem até mais espertos do que nós”.
Sandra Neves concluiu dizendo que não sabe o que esperar
do público de Macau, uma vez que “a linguagem das marionetas é quase como a
música, é universal”, e por isso, está “muito curiosa” para receber as
diferentes reacções. Depois do espetáculo, a conversa com o público será uma
forma de feedback e de continuação da própria experiência, deixando que
o público manipular as suas criações, numa troca de interpretações sobre o que
cada um viu, sentiu e projectou naqueles lobos de pedra que, afinal, são feitos
das próprias memórias e emoções.
A criação da Trupe Fandanga leva música original de
Carlos Adolfo, texto de Ricardo Alves, cenografia de Sandra Neves e Miguel
Cantante, desenho de luz de Mariana Figueroa, vídeo de Patrícia Viana Almeida,
e voz off de Rita Cantante (português) e Lai Ho Yi (cantonense). A produção tem
direção de Ana Carvalhosa e direção de cena de João Gravato, sendo uma
co-produção do Teatro Municipal do Porto e da Circolando – Central Eléctrica. Elói
Carvalho – Macau in “Ponto Final”
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