Em novo
livro, Silas Corrêa Leite reconstitui na imaginação o que teria sido uma
colônia secreta de imigrantes perto dos Campos Gerais do Paraná
I
Talvez o mais profícuo e produtivo dos
escritores brasileiros contemporâneos, Silas Corrêa Leite (1952) publicou,
entre suas obras mais recentes, o romance Porto Garcia: no
quarto escuro de meu ego sem respostas
(Ouro Preto-MG, Caravana Grupo Editorial, 2025), em que volta às origens,
reconstituindo e recuperando histórias de uma colônia secreta que teria
existido perto dos Campos Gerais do Paraná, uma região no Centro-Leste do
Estado, famosa por suas paisagens de campos nativos, relevo de arenito, forte
agronegócio e rica herança do tropeirismo.
Como sugere o subtítulo que reproduz uma frase de uma
música de sucesso da cantora e compositora Roberta Miranda, conhecida como
Rainha do Sertanejo, Silas Corrêa Leite, nascido em Monte Alegre-PR, hoje Telêmaco Borba, cidade
localizada nos Campos Gerais, e criado em Itararé, na divisa entre São Paulo e
Paraná, surpreende com histórias que
ouviu e viveu em seu tempo de juventude, buscando o que definiu como “Pasárgada
ao Sul do Equador”, referindo-se ao nome da antiga cidade persa que levou o
poeta Manuel Bandeira (1886-1968) a idealizá-la como refúgio imaginário de
liberdade. E que o autor define como “um lugar feito paraíso tropical, onde se
tenta fugir de um mundo conturbado, para um recanto em que se plantando tudo
dá”.
II
São narrativas dentro de narrativas, inspiradas no universo
mágico de As mil e uma noites, clássico literário
que não possui um único autor ou compositor, mas é uma coletânea de contos
folclóricos de origens indiana, persa e árabe, reunidos ao longo dos séculos
por narradores anônimos, que exploraram temas como amor, coragem, mistério,
sabedoria e destino. E que levaram o autor a buscar a possível localização
dessa cidade imaginária entre Cerro Azul, recanto mais ou menos perto de Sengés,
no Noroeste do Paraná, adjunto ao Vale do Ribeira, já em território paulista, e
“a mais de três horas de viagem dificultosa” de Itararé, beirando os cânions
dos Campos Gerais.
Segundo o autor, teria sido o local em que se fixaram as
primeiras levas de imigrantes europeus, especialmente polacos, “fugindo do
anarquismo ou mesmo do fascismo”, que desembarcaram no porto de Santos e
seguiram em carroças e depois pela estrada de ferro Sorocabana, chegando a
Itararé, mas depois, “bem depois, sabe-se lá como, vagando, sondando, com
síndrome de fugas e de se esconderem de ser o que eram, sapeando que fosse,
deram naqueles ermos sem eira e nem beira”. Como diz o autor:
“O lugarejo era feito assim um recanto perdido de nunca se
achar, mas que, territorialmente, era especial. Enorme e fértil extensa
planície de terras com larguezas de quilômetros. Lugar bonito demais. Que se
firmou com aquela gente simples e branquela. Em seguida, os contínuos
descendentes dos imigrantes, e outros novos chegando atiçados com a novidade do
que seria uma terra prometida (...).
III
Com um estilo solto, em que não faltam muitas expressões
populares, Silas Corrêa Leite constrói um romance-raiz, focado em gestos
simples do cotidiano, mas que foge aos padrões tradicionais, sem personagens
marcantes, no qual se sobrepõem testemunhos de antigos moradores daquele burgo
nascente, como se lê às páginas 179/180:
“Pois bem, lembrei ainda que, em Porto Garcia, simulacro
que seja desse aventado paraíso moreno tropical tão sonhado, os habitantes de
raças, etnias, credos e culturas díspares professavam várias ideias de
religiões resumidas num único culto ecumênico só, com sincretismo. Mistura de
rezas, orações, cantorias. E sem falsas imagens, sem falsos milagres, sem
falsos santos, sem falsos concílios, sem idolatrias vis, sem a materialização
da era do declínio do cristianismo ortodoxo puro. Em tese, aboliram o preceito
da propriedade individual, pois tudo era cooperativamente comunitário, e todos
consumiam do bom e do melhor com fartura e sustância (...).
Neste romance atípico, o autor não deixa, inclusive, de se
fazer historiador e pesquisador, ao discorrer sobre o nascimento de Porto
Garcia, lembrando que “ali teria havido um forte movimento de colonização,
desde o distante 1853, quando então a província do Paraná foi emancipada de São
Paulo”. E criada na ocasião uma colônia agrícola na região, bancada pela
princesa Isabel Cristina (1846-1921), filha do imperador Dom Pedro II
(1825-1891), onde se alocaram também “alguns sobreviventes de malocas de tribos
indígenas dizimadas por antigos jagunços e mineradores”. E também “bastardos
filhos espúrios de bandeirantes bandidos, mais alguns afrodescendentes fugidios
de quilombos e senzalas que, finalmente, eram livres e felizes”. E “alguns
bugres pobres coitados escapulidos da guerra do Contestado, se somando à
polacaiada em sua maioria alegre, festiva e pacífica, justa e ridente”.
A rigor, trata-se de um romance que se pretende epopeia,
procurando reconstituir o que teria sido o nascimento e florescimento de um
logradouro para além do seu tempo histórico. E que, de certa maneira,
reconstitui também o que foi a formação do povo brasileiro, originário de
múltiplas etnias, que não europeias. Para tanto, o autor recorre a uma
linguagem inovadora, carregada de neologismos, palavras de múltiplo sentido. E,
dessa forma, procura recontar a história de Porto Garcia.
Dentro desse cadeirão étnico, ressalta a história exemplar
do negro Reinaldo, “filho de pai de descendentes de judeu-português-holandês, e
por parte de mãe de negro de origem ancestral angolana e mistura com índio
guarani”. Um preto forte, esmerado nos estudos, que se formou em Direito,
atuando como advogado, chegando a ser jurista com mestrado, doutorado,
professor universitário, concursado em universidade pública, mas que nunca
chegou a ser juiz, “que era seu sonho pessoal”, vítima do preconceito de uma
alta corte que nunca “poderia deixar algum negro ser doutor, ser
desembargador”, principalmente “se não se vendesse de mala, cuia, cartola e
toga para uma branca e podre elite corrupta”. E que, resignado e triste, já
descasado, deixou os pais velhinhos em Porto Garcia e “converteu-se ao
neoevangelismo luterano numa cidade do chamado Grande ABC paulista”,
tornando-se um pregador, “verdadeiro missionário de envergadura cristã,
pescador de almas”.
IV
Além de contista e romancista, com mais de 30 livros
publicados, Silas Corrêa Leite é poeta, letrista, professor, bibliotecário,
desenhista, jornalista, ensaísta, blogueiro e membro da União Brasileira de
Escritores (UBE). Começou a escrever aos
16 anos, passando a produzir crônicas para o jornal O Guarani, de
Itararé, tendo apenas o curso primário. Foi garçom num botequim e aprendiz de
marceneiro, além de engraxate, boia-fria e vendedor de doce de groselha. Ainda
em Itararé, foi aprovado num concurso para locutor na Rádio Clube local.
Em 1970, migrou para São Paulo, onde morou em pensões,
cortiços, passou fome e dormiu na rua.
Já empregado, formou-se em Direito e Geografia, sendo especialista em
Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de ter cursado
pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional,
Jornalismo Comunitário e Literatura na Comunicação, curso este que fez na
Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). É
professor de Geografia e atuou como professor na rede pública e em escolas
privadas na cidade de São Paulo.
Venceu alguns concursos com seus romances, artigos, poemas,
letras de blues, pensagens (pensamentos-mensagens) e críticas
literárias. Ganhou o Concurso Lygia Fagundes Telles para Professor-Escritor, da
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Foi pesquisador e bolsista em
Culturas Juvenis pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp), vencedor do Primeiro Salão Nacional de Causos de Pescadores e premiado
em outros concursos, como os promovidos pela Fundação Petrobrás, Biblioteca
Mário de Andrade, Instituto Piaget (Portugal) e União Brasileira de Escritores
(UBE), seção do Rio de Janeiro.
Lançou Campo de trigo com corvos (Jaraguá do Sul-SC,
Design Editora, 2007); Gute-Gute, barriga
experimental de repertório (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2015); Goto, a lenda do reino encantado do
barqueiro noturno do rio Itararé (Florianópolis, Clube de Autores Editora,
2013); Tibete, de quando você não quiser ser gente (Rio de Janeiro,
Editora Jaguatirica, 2017); Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter
Editorial, 2018); O Marceneiro – a última tentativa de Cristo (Maringá-PR,
Editora Viseu, 2019), O lixeiro e o
presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019); e Desjardim – muito além do farol do final do mundo
(Belo Horizonte, Editora Caravana, 2023).
Nos últimos tempos, lançou Transpenumbra do Armagedon
(São Paulo, Desconcertos Editora, 2021); Cavalos selvagens, romance
imaginativo (Curitiba, Kotter Editorial/Taubaté, Letra Selvagem, 2021); A
Coisa: muito além do coração selvagem da vida (Cotia-SP, Editora Cajuína,
2021); Lampejos (Belo Horizonte, Sangre Editorial, 2019); Leitmotiv:
a longa estrada de fogueiras da cor de laranja: diário da paixão secreta de
Anne Frank (Curitiba, Kotter Editorial, 2023), Vaca profana: microcontos
(Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); e H2Opus (Cotia-SP, Editora Cajuína,
2023).
É autor ainda de Bendito Filho – romance
sobre a infância do Menino Jesus
(Araraquara-SP, Opera Editorial, 2023); Alucilâminas: poemas plathônicos,
versos atemporais da redoma de vidro de
Sylvia Plath (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2023); Ensaios gerais: compêndio de críticas lítero-culturais
(Belo Horizonte, Editora Caravana, 2024); Alfa & Beto
– da poética das palavras – historial poético
das letras (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2024); Rua Frida
Kahlo (São Paulo, Editora Calêndula, 2024); O ano em
que faremos contato com o elo perdido
(São Paulo, Namíbia Editora, 2024); e O sequestro do sonho
(São Paulo, Editora Calêndula, 2024). É autor do primeiro livro interativo da
rede mundial de computadores, o e-book O rinoceronte
de Clarice (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2024), que foi
tema de teses de mestrado e doutorado na Universidade Brasília (UnB) e na
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Publicou também Porta-lapsos, poemas (São Paulo,
Editora All-Print, 2005); O Homem que virou cerveja, crônicas (São
Paulo, Giz Editorial, 2009); e Favela stories, contos (Cotia-SP, Editora
Cajuína, 2022). Seus trabalhos constam em mais de cem antologias, inclusive no
exterior, como na Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea, de
Treton, Itália, e Christmas Anthology, de Ohio/EUA. Adelto Gonçalves
- Brasil
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Porto Garcia:
no quarto escuro de meu ego sem respostas, de Silas Corrêa Leite. Ouro Preto-MG, Caravana
Grupo Editorial, 209 págs., R$ 80,00, 2025. E-mails do autor: poesilas@terra.com.br; poesilas@gmail.com. Sites do autor: www.poetasilascorrealeite.com.br; www. silascorrealeite.com
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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na
área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga,
um Poeta do Iluminismo (Rio
de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São
Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos,
Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo,
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os Vira-latas da Madrugada
(Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra
Selvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na
capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu
prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends
(Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra.
E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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