O estabelecimento da RAEM constitui “um exemplo de países que resolvem o problema da soberania através de negociações pacíficas”, realçou o embaixador da China em Portugal, considerando que o processo de Macau ajudou a solidificar a confiança entre Pequim e Lisboa
O
embaixador da China em Portugal destaca “a confiança sólida” entre os dois
países, resultante da transferência pacífica da administração de Macau, e
afirma que a “compreensão” prevalece mesmo na “mais crítica” situação global
actual. “Temos uma confiança política bastante sólida entre os dois países
porque o tema de regresso de Macau à República Popular da China é um exemplo de
países que resolvem o problema da soberania através de negociações pacíficas”,
considerou Zhao Bentang, em entrevista à agência Lusa.
Por
isso, adiantou, são mantidas relações de “intercâmbio, coordenação e apoio à
estabilidade e desenvolvimento de Macau”.
Além
da avaliação positiva do processo de Macau, o diplomata elencou os contactos
frequentes e visitas entre governantes dos dois países, como aconteceu na
recente troca de mensagens entre presidentes e os chefes de Diplomacia no
âmbito da celebração dos 45 anos de relações diplomáticas oficiais entre Lisboa
e Pequim. “Podemos dizer que os 45 anos [de relações diplomáticas oficiais] têm
tido resultados muito positivos. E agora, frente à situação mundial mais
crítica, os dois países unem-se, comunicamos e compreendemo-nos para encarar
desafios e temos uma estratégia parecida de desenvolvimento da economia”.
A
China, frisou, tem agora novos conceitos de desenvolvimento”, ao trocar o
modelo antigo de “velocidade, de quantidade” por um de “qualidade”. O novo
modelo inclui ainda inovação, de tecnologia e de recursos renováveis e, assim,
há também “pontos de consenso para cooperar” com Portugal.
O
embaixador indicou as “mais de 30 empresas” chinesas em Portugal cobrem
sectores de “quase todas as áreas, desde a energia à banca, e “há uma
cooperação muito boa” no sector da cultura, como provam as actividades agora
programadas no âmbito do Festival da Primavera (ano novo chinês), além de “três
laboratórios conjuntos” ao abrigo da estratégia da “nova rota da seda”. As 40
universidades chinesas que ensinam a língua portuguesa e as “13 escolas
portuguesas que ensinam chinês” também foram enumeradas.
A
China quer iniciativas para um “mundo de futuro compartilhado”, tendo Zhao
Bentang recordado as propostas do Presidente Xi Jinping para a
“multipolarização e globalização económica”. “Uma multipolarização [assente]
sobre princípios da igualdade e ordem”, sublinhou o embaixador fazendo eco da
visão chinesa de que “todos os países são iguais, pequenos ou grandes, pobres
ou ricos” e que a globalização económica deve “respeitar princípios de
benefícios mútuos e também deve ser inclusiva”.
Lisboa
e Pequim partilham visões comuns, segundo Zhao Bentang, sobre o “conceito de
desenvolvimento económico” e acerca de “manter a amizade e cooperação com
princípios reconhecidos por ambas partes”. “Temos um fundamento e uma
complementaridade muito grande e acreditamos que o futuro de relações será
ainda maior”, considerou o diplomata, que participou na sessão que assinalou,
no Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, no passado dia 8, o 45º
aniversário das Relações Diplomáticas Portugal-República Popular China.
No
evento, Zhao Bentang, notou a dupla comemoração dos 45 anos das relações
diplomáticas e do novo ano chinês e destacou como a amizade entre os dois
países “remonta a longa data” e se tem “renovado”, ao “manter a tendência de
desenvolvimento saudável” em diversos âmbitos como a política, economia,
tecnologia ou cultura. A cooperação, segundo o diplomata, acarreta “benefícios
tangíveis para os dois países e povos”, ao contribuir para a paz e prosperidade
quer a nível regional, como global.
Zhao
Bentang salientou a “cooperação exemplar”, a evolução do comércio e
investimentos, uma vez que às áreas tradicionais se têm juntado, por exemplo,
as renováveis, a protecção ambiental e a economia digital, assim como a
simplificação no processo de atribuição de vistos e a colaboração em termos de
língua.
Torres Pereira diz que processo em Macau “está a correr
bem”
Também
presente na sessão, Jorge Torres Pereira, ex-embaixador português na China
(2013-2017), disse “ser muito importante para a saúde da relação Portugal,
enquanto país europeu, e para ele próprio com a China” que vários pontos sejam
tidos em conta. “Nós queremos obviamente a paz no estreito de Taiwan, no mar do
Sul da China. Nós, obviamente gostaríamos que a China não fosse marcar esta
grave crise, que nós temos na Europa com a invasão da Ucrânia, de uma forma
negativa. E também gostaríamos que nas áreas em que nós também temos
interesses, nomeadamente, em África ou na América do Sul, a China também
tomasse em linha de conta, obviamente os seus interesses, mas também que
tomasse perfeitamente em conta que os outros países também têm os seus
interesses nessas áreas”, argumentou, em declarações à Lusa.
Torres
Pereira recordou que da parte de Portugal há aspectos distintivos em relação a
outros países europeus, começando por Macau, e que a “China tem consciência que
aquilo que se passa em Macau se repercute na opinião pública portuguesa”. “A
maneira como a população portuguesa, a sociedade portuguesa olha e olhará para
a China nos próximos anos também terá muito em atenção do que tudo corra bem no
que nós acordámos com a China sobre este período em Macau”, numa referência à
transferência da administração do território e criação da RAEM.
O
antigo embaixador opinou que o processo em Macau “está a correr bem”,
acrescentando que o “contexto internacional é muito mais complexo hoje em dia”
e a existência de “forças de fragmentação da economia global” e “tendências de
estreitar as cadeias de produção”, além de “questões de bifurcações das
tecnologias dos semicondutores”.
“Pessoalmente,
acredito que nós ainda conseguiremos, digamos, voltar a uma forma mais saudável
da globalização sem que estejamos a criar duas áreas globais de competição,
digamos assim, mas as responsabilidades por evitar isso são das duas partes,
como é evidente”, concluiu.
Por
seu lado, José Manuel Duarte de Jesus, embaixador de Portugal na República
Popular da China entre 1993 e 1997, recordou que Portugal foi o primeiro país
europeu a iniciar um diálogo oficial com Pequim e como há “condições muitos
especiais” para entender a “nova rota da seda”, um “paradigma único da nova
ordem mundial, baseado no multiculturalismo, diálogo e paz”.
Duarte
de Jesus destacou o “paralelo” entre esta estratégia e a globalização
portuguesa” baseada no multiculturalismo” e como as negociações para a
transferência de Macau são tidas como “exemplares”, designadamente pela
Universidade de Harvard.
A
ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Elvira Fortunato, encerrou o
evento notando a colaboração entre Portugal e China nos domínios da sua tutela.
In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”
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