Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 7 de junho de 2025

Macau - Campus de Verão da Casa de Portugal contará com cerca de 200 crianças

O Campus de Verão da Casa de Portugal vai voltar a realizar-se este ano, entre Julho e Agosto. Amélia António disse ao Jornal Tribuna de Macau que as inscrições “ainda não estão finalizadas”, mas que a iniciativa deverá contar com cerca de 200 participantes. O local para a realização das actividades continua a ser o “drama” da Casa, vincou


A Casa de Portugal vai voltar a organizar o Campus de Verão, nas duas últimas semanas de Julho, e nas três primeiras semanas de Agosto. Amélia António explicou ao Jornal Tribuna de Macau que as inscrições ainda não estão finalizadas, uma vez que houve pessoas que manifestaram “vontade de se inscrever, mas não tinham as contas em dia ou faltavam documentos”, havendo ainda casos pendentes.

Sem adiantar números finais, a presidente da Casa de Portugal disse que os alunos inscritos na edição deste ano “devem aproximar-se dos 200”. As crianças, com idades compreendidas entre os quatro e os 10 anos, não serão, na sua maioria, de língua materna portuguesa, “uma situação que já vem de há vários anos”.

O Campus vai proporcionar aos participantes actividades “bastante variadas”, segundo a dirigente associativa, que incluem “actividades lúdicas, coisas de ar livre e jogos, para não ser uma actividade aborrecida”.

“Estão de férias, mas apesar de terem que ter um carácter didáctico, [as actividades] também têm de ter um carácter lúdico, para ser agradável”, assinalou. Por norma, os alunos “constroem e fazem coisas que gostam muito de mostrar aos pais” e “têm muito orgulho nos trabalhos que fazem”, afirmou a presidente da Casa de Portugal. Fazem “um bocadinho de tudo de maneira a puxar pelo gosto e pela autoconfiança dos miúdos”.

Por outro lado, Amélia António admitiu que a Casa de Portugal enfrentou algumas dificuldades, sobretudo em relação ao local para as actividades. “O espaço é sempre o nosso drama anual. Agora temos vindo a trabalhar com a Escola Portuguesa de Macau, que nos tem ajudado ao máximo, mas este ano a Escola está em obras”, o que obrigou a Casa de Portugal a coordenar a iniciativa com os trabalhos.

“Chegou a haver anos em que tínhamos tudo preparado para anunciar, só faltava o local. É um problema sistemático que a Casa de Portugal tem que é o local para realizar as actividades, nomeadamente quando são actividades que envolvem crianças”, desabafou Amélia António.

“Mesmo durante o ano, nós temos imensos pedidos dos pais para continuar a fazer determinado tipo de actividades que os pais apreciam e que os miúdos gostam e que eles pensam que é muito importante para o desenvolvimento linguístico deles”, prosseguiu. Contudo, a Casa de Portugal não realiza mais iniciativas “porque não temos onde fazer”, sublinhou Amélia António, admitindo “dificuldades enormes” para responder aos pedidos que lhes são feitos.

O Campus de Verão já se realiza há cerca de 15 anos e a iniciativa vinha crescendo, até que nos anos de pandemia tudo mudou. Em 2018, segundo dados indicados por Amélia António anteriormente a este jornal, houve 400 vagas e um ano depois foram 800. Normalmente, eram oito ou nove semanas de actividades, mas por causa da covid-19 a Casa de Portugal viu-se obrigada, em 2020, a realizar o Campus durante apenas quatro semanas, com 300 inscrições. Na edição deste ano, serão cinco semanas.

Dois workshops pedagógicos para crianças

Amanhã, decorrerão dois workshops para crianças, sendo a ideia promover o gosto pela leitura. As actividades vão realizar-se na sede da Casa de Portugal e serão conduzidas por Bárbara Maria e Carmo, educadora de infância. Entre as 10h00 e as 12h00, a sessão destina-se a crianças com cinco e seis anos, sendo que as actividades são desenvolvidas a partir do livro “Até onde nos leva uma linha?”. Já na segunda sessão, agendada para o período da tarde (15h00 às 17h30), o workshop é direcionado para crianças de três e quatro anos. A actividade para pais e filhos tem como protagonista o livro “Não é uma caixa!”. O programa “Crianças Felizes” conta ainda com apresentações no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes. Pedro Milheirão – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


Cabo Verde - Descoberta histórica na Cidade Velha trava obras para redescoberta do primeiro hospital do Atlântico

As obras de requalificação urbana da Cidade Velha ligadas à escavações das ruínas onde foi descoberto o “primeiro hospital” do Atlântico vão sofrer interrupções temporárias, adiantou o primeiro-ministro durante visita de acompanhamento ao andamento dos projetos


Ulisses Correia e Silva explicou que a descoberta inesperada que envolve as ruínas que já estão a ser trabalhadas com arqueólogos, na área da Misericórdia, vai obrigar a uma pausa, para que se possa fazer todo o trabalho da reabilitação e da redescoberta e possam integrar esta “valência histórica”.

Segundo o chefe do Governo, o antigo hospital. que servia de posto de atendimento aos viajantes transatlânticos, era desconhecido e estava completamente enterrado até agora, pelo que a sua redescoberta impõe uma nova fase de trabalhos, com prioridade para preservar e estudar o sítio.

Apesar do atraso que esta suspensão acarretará em parte dos projetos, o objetivo final para a Cidade Velha permanece inalterado.

O primeiro-ministro reiterou que a conclusão das distribuições globais está prevista para dois anos, para que a localidade "vibre positivamente com a sua história, a sua cultura e a sua identidade".

Esta nova etapa visa garantir que o vasto e inexplorado património da Cidade Velha seja totalmente revelado e integrado na sua narrativa histórica, enriquecendo a experiência dos futuros visitantes. In “Expresso das Ilhas” com “Inforpress”


Cabo Verde - Soraia Ramos regressa a cena musical com Libram


A cantora cabo-verdiana Soraia Ramos lançou o videoclipe oficial da música "Libram", uma poderosa colaboração com o artista luso-angolano Virgul. In “Dexam Sabi” – Cabo Verde

sexta-feira, 6 de junho de 2025

UCCLA - Olivença celebra o 10 de Junho com inauguração do busto de Camões

No âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a cidade de Olivença prepara-se para uma celebração especial este 10 de junho. A data, que homenageia o poeta Luís Vaz de Camões e a língua portuguesa, será marcada pela inauguração de um busto em sua honra, oferecido pela UCCLA, simbolizando a forte ligação cultural entre Portugal e a comunidade oliventina.


A cerimónia ocorrerá na Rua Lope de Vega, um espaço emblemático da cidade, e contará com a presença de autoridades locais, representantes da UCCLA e membros da comunidade. O busto, esculpido em bronze e da autoria de Diogo Munõz, foi concebido para refletir a importância de Camões como exponente máximo da literatura portuguesa e da lusofonia.

O início das festividades está marcado para as 12 horas, na Praça da Constituição, com a intervenção do Alcalde de Olivença, Manuel González Andrade, e do Secretário-Geral da UCCLA, Luís Álvaro Campos Ferreira.

O programa inclui, também, a leitura de “Os Lusíadas” por alunos dos Centros Educativos de Olivença, uma degustação de petiscos portugueses e uma visita guiada à exposição “Camões - Pilar de Identidade Cultural”.

A finalizar as comemorações, terá lugar, pelas 21h30, na Praça de Espanha - Terreiro de Chão Salgado, a atuação musical de Princezito, de Cabo Verde, e de Rhodália Silvestre, de Moçambique.

Esta iniciativa, que assinala também os 40 anos da UCCLA, reforça o compromisso de Olivença em preservar e promover a herança cultural portuguesa, estreitando laços com as comunidades lusófonas e celebrando a riqueza da língua e da literatura que unem os povos.

As comemorações do 10 de Junho em Olivença representam um momento significativo de união e celebração da língua portuguesa, reafirmando o compromisso da cidade com a preservação e promoção da sua rica herança cultural.



Princezito

Carlos Alberto Sousa Mendes, de nome artístico Princezito, nasceu em Cabo Verde, quatro anos antes da independência, na ilha de Santiago, vila do Tarrafal - Monte Iria, zona onde a lendária cantadeira de Finason - Bibinha Kabral -viveu os últimos anos de vida, senhora de quem Princezito cobiçou a arte de cantar.

Estudou na escola da vila onde nasceu, desde muito cedo despertou a admiração dos professores e dos colegas, pela originalidade na escrita e declamação dos seus próprios poemas, arte que aprendera em casa com os irmãos mais velhos.

Durante os oito anos que viveu em Cuba, Princezito absorveu a grande diversidade cultural daquele país, dos ritmos e cantos afro cubanos passando pela música popular e contemporânea.

Foi o preceptor do projeto “AYAN”, registo discográfico que evidenciou a nova tendência do estilo Batuku e projetou a chamada geração Pantera. Uma produção que contou com a participação de Tcheka, Vadu, Djingo e do próprio Princezito que trouxe à terra uma réplica de “Lua”, a composição de sua autoria que tem vindo a marcar o sentido e a alma dos muitos que a escutam. Registada por Mayra (CD) e Lura (DVD).

Rhodália Silvestre

Filha de pais moçambicanos, nascida em Mbabane, na Swazilândia, em 1986. Desde muito cedo Rhodália mostrou talento para a música, não fosse o seu pai o Maestro Faustino António Chirute, um dos poucos africanos formados em regência de orquestras na ex-URSS e mentor do Majescoral - Maputo Jazz Espiritual Coral. Embora o progenitor tenha sido um dos principais influenciadores da sua carreira musical, nos fins de semana, o seu exercício musical balançava entre harmonias e ritmos que iam desde a música clássica, ao R&B, ao jazz, ao reggae, notando-se uma enorme influência dos ritmos africanos que, conjugados com afro-jazz, influenciaram a sua notável criatividade, através das suas composições musicais e sentido das suas letras.

Rhodália é por isso uma cantautora moçambicana, vencedora de vários prémios, destacando-se o prémio revelação Ngoma Moçambique 2017, a melhor voz de Moçambique no Ngoma Moçambique 2018, de novo a melhor voz no Ngoma Moçambique em 2022 e ainda o prémio Vibratoques da Vodacom. De referir que Rhodália Silvestre foi finalista na edição de 2025 do programa “Got Talent Portugal”.

Esta voz poderosa lançou o seu álbum de originais, Wansati, com 12 temas, editado em 24 de julho de 2020 pela produtora Modigi, com a colaboração do consagrado baixista moçambicano Sacre que, tal como ela, foi integrante do agrupamento moçambicano Banda Azul, sensação dos anos 2000 que tinha Rhodália (2006), como vocalista principal.

Possuidora de uma personalidade forte que se impõe com naturalidade, além de ser uma grande cantora, possui também outras capacidades em que, mais uma vez, sobressai a sua resiliência de grande lutadora. Canta em inglês, português, Zulu, Xhosa, Shangane, Swati e Chichewa, comunicando fluentemente nestas línguas.


Angola - FIJE e instituto português firmam parceria para concessão de bolsas de estudo a jovens angolanos

O Fórum Internacional dos Jovens com as Embaixadas (FIJE) assinou um memorando de entendimento com o Instituto Superior Politécnico Pontífice Católico, em Portugal, para a concessão de bolsas de estudo destinadas à formação de quadros angolanos


A parceria integra o projecto “Formar o Meu Filho para Servir o Meu País”, que visa criar oportunidades de formação superior e técnico-profissional para jovens em Angola.

A iniciativa faz parte da missão oficial do FIJE em Portugal e Espanha, onde a organização pretende estabelecer acordos com outras instituições de ensino desses países.

Segundo representantes do FIJE, esta parceria representa um passo importante na qualificação dos jovens angolanos, garantindo oportunidades concretas para a sua formação académica e profissional. In “Jornal de Angola” - Angola


Moçambique - Adelino Timóteo celebra 30 anos de carreira com exposição e lançamento de livro

O escritor e artista plástico Adelino Timóteo inaugurou, ontem, quinta-feira, na Casa do Artista, na Cidade da Beira, a sua nova individual de pintura, “As Meninas da Rua 6 e outras”. No mesmo evento, o autor também lançou o seu mais recente livro: “Regresso ao Sagrado Macurungo”


Há 30 anos, Adelino Timóteo iniciou o seu percurso artístico. Como poeta e escritor, o artista publicou vários livros. Entre os quais, “Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique” (poesia), “Corpo de Cleópatra” (poesia), “A virgem de Babilónia” (romance), “Apocalipse dos predadores” (romance), “Cemitério dos pássaros” (romance) ou “Na aldeia dos crocodilos” (infanto-juvenil).

Para assinalar os 30 anos de carreira artística, com efeito, Adelino Timóteo inaugurou a sua mais recente exposição de pintura, intitulada “As Meninas da Rua 6 e outras”.

A cerimónia de abertura da mostra decorreu na Casa do Artista, na baixa da Cidade da Beira. No local, os apreciadores das artes tiveram a oportunidade de ver obras que, além do estético, atravessam a realidade moçambicana de forma transversal. Afinal, segundo o ensaísta e jornalista José dos Remédios, que assina o texto de apresentação da mostra, “Adelino Timóteo é um artista da sensibilidade, da observação que se mescla com a intuição experimental no território dos afectos”. E o ensaísta acrescenta: “o artista transforma o pó num recurso além do intencional. Ora configurando esperança ao lusco-fusco, ora hipnotizando qualquer coração que possa estar amargurado”.

“As Meninas da Rua 6 e outras” é a 19.ª exposição individual do autor, e reúne dez obras recentes, evocando memórias femininas, infância, resistência e beleza no quotidiano moçambicano.

De acordo com o comunicado de imprensa, as telas, de grande expressividade visual e poética, recriam um universo sensível ancorado nas ruas do bairro onde o artista cresceu: Macurungo.

Adelino Timóteo, que já expôs na Áustria e em Espanha, é autor de uma vasta obra que transita entre as artes plásticas e a literatura, sendo reconhecido como uma das vozes mais activas da sua geração. Talvez, por isso, o artista vai celebrar os seus 30 anos de carreira artística tendo lançado, na mesma cerimónia, na Casa do Artista, o seu mais recente livro, o 24.º da conta pessoal: “Regresso ao Sagrado Macurungo”. Trata-se de uma obra que complementa um exercício anterior, “Nós, os do Macurungo” (2013).

Na nova obra, Adelino Timóteo retoma o fio narrativo das suas raízes, numa escrita que cruza memória, oralidade e devoção ao território emocional da infância.

Na Casa do Artista, o evento, aberto ao público, marcou um ponto alto na celebração da cultura moçambicana, homenageando a Cidade da Beira e o seu universo simbólico. In “O País” - Moçambique


África - Um quintal para jogos de guerra e extração de riquezas

Precisamos de mais vozes. Precisamos de intelectuais que falem, de escritores que denunciem, de estudantes que pensem

12 de Maio de 2025. O norte do Burkina Faso sangra. Mais uma vez. Como sangra o norte de Moçambique, como sangrou o Ruanda, como sangra a Nigéria, o Mali, a RDC e qualquer pedaço de terra onde o cheiro do ouro, da droga ou do petróleo se misture ao sangue de jovens pobres. Dezenas de civis e militares foram executados no domingo na cidade de Djibo, cercados e abatidos como se as suas vidas fossem meros grãos de areia na vastidão da indiferença africana e internacional. Segundo as notícias que circulam e da fonte Lusa vieram de motorizadas e viaturas, centenas deles, os chamados “extremistas islâmicos”, atacando destacamentos, esquadras e lares de famílias anónimas. Mataram homens na frente das esposas e filhos. Deixaram corpos no chão quente da terra vermelha de África. O Burkina Faso é apenas um dos palcos de uma guerra longa, suja, e que quase sempre não tem nome nem rosto. E quando tem, não são os rostos certos.

Porquê África? Por que sempre aqui? Quem ganha com essa dor? E por que os nossos mortos não têm memória?

A pergunta que me atormenta não é só “porquê?” — mas por quem o terrorismo em África, para quê e até quando?

A guerra invisível tem nomes. Muitos. Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI): herança das guerras sujas da Argélia nos anos 90. Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS): explosão do caos após a queda de Kadhafi.

Boko Haram, um movimento que começou denunciando a corrupção na Nigéria e terminou como mercenário religioso de guerras subterrâneas. Ora Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) a aliança jihadista que unificou facções para dominar o Sahel. Entre outros Burkina Faso, Chade, Congo, Nigéria, Moçambique e outros.

Mas raramente contam de onde vieram, quem os ensinou a manejar as armas, quem os financia, e o mais importante: quem ganha com a sua existência. Esses grupos dizem lutar por Deus, mas alimentam-se de ouro, tráfico, miséria e abandono. Alguns começaram como movimentos locais de autodefesa. Hoje são milícias transnacionais armadas até aos dentes, em motos ou pickups, com GPS, drones e metralhadoras ocidentais.

Mas a verdade é que não nasceram do nada. Foram produto de décadas de abandono, má governação, manipulação étnica e religiosa, e sobretudo da geopolítica internacional que continua a tratar África como um quintal para jogos de guerra e extração de riquezas.

Esses grupos não surgem do nada. São filhos bastardos da Guerra Fria, do fracasso dos Estados pós-coloniais e das intervenções “humanitárias” que destroem mais do que salvam. A Guerra Civil da Argélia (1990–2002) deixou desertos cheios de combatentes desempregados, que se espalharam. Quando o Mali caiu em golpe em 2012, o Sahel ficou exposto. O deserto tornou-se estrada da morte. Em 2011, a NATO destruiu a Líbia e, as armas circularam livremente. Armas pesadas, mísseis e milhares de soldados tribais dispersaram-se pelo Sahel. As fronteiras coloniais artificiais feitas a régua e compasso por franceses e britânicos facilitaram. Assim nascia o inferno onde também hoje eterniza o norte de Moçambique.

A religião é só a capa. Por dentro, há ouro, urânio, petróleo, tráfico humano e cocaína vinda da América Latina. O Sahel é rota de tudo. E quem controla a rota, controla o poder.

Hoje, grupos “jihadistas” controlam zonas ricas em ouro, urânio, diamantes e tráfico de drogas, enquanto as capitais africanas fingem governar territórios onde nunca colocaram os pés.

Porquê sempre África?

Porque África continua colonizada, mesmo sem colónia. Porque os Estados são frágeis, porque os sistemas de ensino estão em ruínas, porque metade da população é jovem, sem futuro, sem emprego, e a jihad aparece como única via de sentido e redenção.

As fronteiras foram desenhadas com régua por europeus. Dividiram povos, juntaram inimigos, e criaram bombas-relógio. Agora explodem.

África tornou-se o território perfeito para este tipo de guerra porque aqui o Estado é frágil, a educação falida, as forças armadas mal pagas e as comunidades divididas.

As potências coloniais nunca deixaram de facto os seus interesses. Mantêm-se presentes nos negócios de segurança, petróleo, mineração e consultoria militar. Precisam de zonas instáveis para justificar presenças militares e negócios opacos.

Aqui, o jovem não sonha com a universidade. Sonha com uma Kalashnikov e a promessa de salário mensal ou virgindades prometidas no paraíso. Num continente onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos e vive sem emprego, o terrorismo floresce como planta nativa.

Quem financia? Quem ganha?

Por detrás das siglas jihadistas estão rotas de cocaína sul-americana para a Europa, tráfico de armas da Líbia, e mineração ilegal em zonas sem lei.

Os chamados “extremistas religiosos” controlam minas de ouro e extorquem empresários locais.

Vendem segurança onde o Estado não chega. Alguns governos africanos mantêm acordos secretos para evitar ataques a certas áreas.

Ninguém sustenta uma guerra por décadas sem dinheiro. Os financiadores vêm do tráfico de drogas, do resgate de sequestros, da mineração ilegal. Mas também de grandes silêncios: de Estados que fingem não ver, de multinacionais que exploram recursos em zonas de conflito, de alianças que usam os grupos armados como peões em jogos maiores.

Companhias internacionais de segurança, empresas de exploração de recursos naturais e traficantes internacionais movimentam milhões com esta instabilidade.

E, claro, países estrangeiros mantêm bases militares sob o pretexto de combater o terror — quando o verdadeiro interesse é garantir acesso estratégico a recursos e controlar rotas comerciais.

Em África a morte tem patrocinadores. A miséria tem acionistas. No fundo, este terrorismo é a versão moderna da lógica colonial: dividir para reinar, enfraquecer Estados africanos, garantir zonas de instabilidade que justificam interferência externa e impossibilitam o crescimento de governos fortes.

Essa guerra é também filosófica. Ela reatualiza o controlo colonial sob nova roupagem. A miséria programada, o caos funcional, o terrorismo como estratégia de contenção populacional.

Matam-se jovens pobres para que o sistema rico sobreviva.

A religião é instrumentalizada. A identidade é manipulada. A violência torna-se o idioma das relações internacionais. E o africano comum, sem voz, é o sacrifício contínuo em nome de uma ordem que nunca o inclui.

A religião é apenas um pretexto. O verdadeiro motor desta guerra é económico e político.

As populações locais tornam-se prisioneiras entre o exército nacional corrupto, mercenários privados e jihadistas, sem saber quem é o inimigo e quem é o salvador.

Nestes estados de conflitos os chefes dizem que combatem o terrorismo. Mas o que se vê é militarização, censura e países onde jornalistas e ONG são impedidos de reportar. As mortes desaparecem dos comunicados. A dor é apagada dos discursos oficiais.

As juntas militares não são solução. São mais um sintoma. A população continua refém. Sem Estado, sem proteção, sem futuro.

E se gritássemos mais alto?

Chega de silêncios. Chega de aceitar que a África seja o palco perpétuo da dor do mundo.

Precisamos de mais vozes. Precisamos de intelectuais que falem, de escritores que denunciem, de estudantes que pensem.

A maior tragédia africana não é só a violência. É o silêncio intelectual e académico cúmplice.

Universidades discutem teorias europeias enquanto aldeias desaparecem. Escritores e filósofos calam-se para não incomodar governos militares ou embaixadas financiadoras.

África precisa de uma geração que denuncie, que acuse, que escreva, que nomeie os mentores desta guerra invisível.

Que diga alto: não é guerra santa, é guerra pelo ouro, pela droga e pelo controlo geopolítico. E que convoque a filosofia, a história, a antropologia e a política para desmontar esse teatro macabro.

A guerra invisível é real. E só deixará de existir quando a pensarmos de frente, quando a nomearmos, quando a desmontarmos. Porque o terrorismo é uma construção. E tudo o que é construído pode ser demolido. John Kanumbo – Moçambique in “O País”