Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 30 de julho de 2025

Macau - Finalizados trabalhos de reparação da estátua de Luís Vaz de Camões

Já foram concluídos os trabalhos de renovação do busto de Camões, indicou o Instituto para os Assuntos Municipais ao Jornal Tribuna de Macau, acrescentando que o Instituto Cultural já inspeccionou o local. Recorde-se que a terceira estrofe de “Os Lusíadas” que consta na parte detrás do pedestal onde assenta o busto de Luís Vaz de Camões estava praticamente ilegível


O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) indicou que “os trabalhos de renovação da estátua [de Camões] já foram terminados”. Recorde-se de que a terceira estrofe de “Os Lusíadas” que consta na parte detrás do pedestal onde assenta o busto de Luís Vaz de Camões estava praticamente ilegível.

Confrontado com esta situação em Julho do ano passado, o IAM tinha dito ao JTM que “já tinha verificado que as inscrições estão a desaparecer” e que estava a “acompanhar” a situação, tendo acrescentado que seriam realizados trabalhos de manutenção. Agora, o organismo indicou também ao Jornal Tribuna de Macau que “já foi feita uma inspecção pelo Instituto Cultural”.

A estrofe que já estava praticamente incompreensível era a número 81 do Canto VI:

“E ainda, Ninfas minhas, não bastava/ Que tamanhas misérias me cercassem,/ Senão que aqueles que eu cantando andava/ Tal prémio de meus versos me tornassem:/ A troco dos descansos que esperava,/ Das capelas de louro que me honrassem,/ Trabalhos nunca usados me inventaram,/ Com que em tão duro estado me deitaram”.

Num artigo de opinião publicado neste jornal no ano passado, o investigador António Aresta alertou para esta questão, dizendo que a estância precisava de ser reescrita. “Luís de Camões merece este desvelo, 500 anos depois”, defendeu.

Os dois primeiros excertos que constam do pedestal em pedra na Gruta de Camões ainda se conseguiam ler. Dizem respeito à estrofe 95 do Canto VI e à estância 42 do Canto VIII.

O Jardim de Luís de Camões, um dos mais antigos de Macau, foi criado em meados do século XVIII. Na Gruta, constituída por três grandes rochedos facetados, encontra-se então o busto de Camões, da autoria do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro.

Diz-se que, em meados do século XVI, Camões (1524-1580) viveu em Macau durante dois anos, onde terá terminado, na Gruta que tem hoje o seu nome, a obra “Os Lusíadas”. “Com o patrocínio de 600 francos de um rico comerciante português de Macau, Lourenço Marques, genro de Manuel Pereira, a gruta foi renovada em 1849, sendo aí colocado um busto do poeta. Foi também erigido um pavilhão sobre a gruta, o qual já não existe. O último restauro da gruta data de 1866 e o busto do poeta foi refundido em bronze”, pode ler-se na página do património cultural de Macau. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sexta-feira, 6 de junho de 2025

UCCLA - Olivença celebra o 10 de Junho com inauguração do busto de Camões

No âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a cidade de Olivença prepara-se para uma celebração especial este 10 de junho. A data, que homenageia o poeta Luís Vaz de Camões e a língua portuguesa, será marcada pela inauguração de um busto em sua honra, oferecido pela UCCLA, simbolizando a forte ligação cultural entre Portugal e a comunidade oliventina.


A cerimónia ocorrerá na Rua Lope de Vega, um espaço emblemático da cidade, e contará com a presença de autoridades locais, representantes da UCCLA e membros da comunidade. O busto, esculpido em bronze e da autoria de Diogo Munõz, foi concebido para refletir a importância de Camões como exponente máximo da literatura portuguesa e da lusofonia.

O início das festividades está marcado para as 12 horas, na Praça da Constituição, com a intervenção do Alcalde de Olivença, Manuel González Andrade, e do Secretário-Geral da UCCLA, Luís Álvaro Campos Ferreira.

O programa inclui, também, a leitura de “Os Lusíadas” por alunos dos Centros Educativos de Olivença, uma degustação de petiscos portugueses e uma visita guiada à exposição “Camões - Pilar de Identidade Cultural”.

A finalizar as comemorações, terá lugar, pelas 21h30, na Praça de Espanha - Terreiro de Chão Salgado, a atuação musical de Princezito, de Cabo Verde, e de Rhodália Silvestre, de Moçambique.

Esta iniciativa, que assinala também os 40 anos da UCCLA, reforça o compromisso de Olivença em preservar e promover a herança cultural portuguesa, estreitando laços com as comunidades lusófonas e celebrando a riqueza da língua e da literatura que unem os povos.

As comemorações do 10 de Junho em Olivença representam um momento significativo de união e celebração da língua portuguesa, reafirmando o compromisso da cidade com a preservação e promoção da sua rica herança cultural.



Princezito

Carlos Alberto Sousa Mendes, de nome artístico Princezito, nasceu em Cabo Verde, quatro anos antes da independência, na ilha de Santiago, vila do Tarrafal - Monte Iria, zona onde a lendária cantadeira de Finason - Bibinha Kabral -viveu os últimos anos de vida, senhora de quem Princezito cobiçou a arte de cantar.

Estudou na escola da vila onde nasceu, desde muito cedo despertou a admiração dos professores e dos colegas, pela originalidade na escrita e declamação dos seus próprios poemas, arte que aprendera em casa com os irmãos mais velhos.

Durante os oito anos que viveu em Cuba, Princezito absorveu a grande diversidade cultural daquele país, dos ritmos e cantos afro cubanos passando pela música popular e contemporânea.

Foi o preceptor do projeto “AYAN”, registo discográfico que evidenciou a nova tendência do estilo Batuku e projetou a chamada geração Pantera. Uma produção que contou com a participação de Tcheka, Vadu, Djingo e do próprio Princezito que trouxe à terra uma réplica de “Lua”, a composição de sua autoria que tem vindo a marcar o sentido e a alma dos muitos que a escutam. Registada por Mayra (CD) e Lura (DVD).

Rhodália Silvestre

Filha de pais moçambicanos, nascida em Mbabane, na Swazilândia, em 1986. Desde muito cedo Rhodália mostrou talento para a música, não fosse o seu pai o Maestro Faustino António Chirute, um dos poucos africanos formados em regência de orquestras na ex-URSS e mentor do Majescoral - Maputo Jazz Espiritual Coral. Embora o progenitor tenha sido um dos principais influenciadores da sua carreira musical, nos fins de semana, o seu exercício musical balançava entre harmonias e ritmos que iam desde a música clássica, ao R&B, ao jazz, ao reggae, notando-se uma enorme influência dos ritmos africanos que, conjugados com afro-jazz, influenciaram a sua notável criatividade, através das suas composições musicais e sentido das suas letras.

Rhodália é por isso uma cantautora moçambicana, vencedora de vários prémios, destacando-se o prémio revelação Ngoma Moçambique 2017, a melhor voz de Moçambique no Ngoma Moçambique 2018, de novo a melhor voz no Ngoma Moçambique em 2022 e ainda o prémio Vibratoques da Vodacom. De referir que Rhodália Silvestre foi finalista na edição de 2025 do programa “Got Talent Portugal”.

Esta voz poderosa lançou o seu álbum de originais, Wansati, com 12 temas, editado em 24 de julho de 2020 pela produtora Modigi, com a colaboração do consagrado baixista moçambicano Sacre que, tal como ela, foi integrante do agrupamento moçambicano Banda Azul, sensação dos anos 2000 que tinha Rhodália (2006), como vocalista principal.

Possuidora de uma personalidade forte que se impõe com naturalidade, além de ser uma grande cantora, possui também outras capacidades em que, mais uma vez, sobressai a sua resiliência de grande lutadora. Canta em inglês, português, Zulu, Xhosa, Shangane, Swati e Chichewa, comunicando fluentemente nestas línguas.


sexta-feira, 23 de maio de 2025

França - Encontrado busto de Jim Morrison roubado há 37 anos de cemitério de Paris

O busto do cantor Jim Morrison, figura icónica da banda The Doors, roubado há 37 anos do famoso cemitério parisiense Père Lachaise, foi descoberto acidentalmente durante uma operação policial.



A polícia de Paris anunciou na segunda-feira, através das redes sociais, a descoberta da escultura, criada pelo artista croata Mladen Mikulin, que foi roubada durante a noite, sem pistas sobre os criminosos.

Jim Morrison foi um cantor, compositor e poeta norte-americano que era o vocalista principal e letrista da, também ela icónica banda de rock The Doors, com enorme sucesso desde que foi fundada em 1965.

Devido à sua personalidade carismática, letras poéticas, voz marcante e performances imprevisíveis, para além das circunstâncias dramáticas que rodearam a sua vida e morte prematura, Jim Morrison é considerado pelos críticos musicais e fãs como um dos vocalistas mais influentes da história do rock.

Segundo a Wikipédia, desde a sua morte, em 1971 a sua fama perdurou como um dos principais ícones rebeldes e frequentemente exibidos da cultura popular, representando a diferença de gerações e a contracultura jovem.

Embora a sua morte tenha sido oficialmente atribuída a uma paragem cardíaca no seu apartamento na rua Beautreillis, várias testemunhas sugeriram posteriormente uma overdose numa discoteca que teria sido ocultada pelas autoridades e amigos.

O túmulo de Jim Morrison é um dos mais famosos do cemitério de Père Lachaise, apesar de ser o lar de muitas grandes figuras, como Oscar Wilde, Frédéric Chopin, Yves Montand e Sarah Bernhardt.

O busto foi colocado em 1981 para celebrar o décimo aniversário da morte do músico, no entanto, apenas sete anos depois, foi roubado.

Segundo a agência Lusa, a busca policial, conduzida pela Brigada Financeira e Anticorrupção da polícia de Paris encontrou o busto na casa parisiense de um executivo de uma empresa que estava sob investigação por falsificação de documentos contabilísticos.

As autoridades ainda não esclareceram se o busto será devolvido ao seu local original, mas os fãs de Jim Morrison, certamente que vão pressionar para poderem ir ao cemitério Père Lachaise prestar as suas homenagens a uma figura mítica dos anos 60, desaparecida na flor da idade… In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 18 de julho de 2024

Macau - Instituto para os Assuntos Municipais promete reparar estrofes de “Os Lusíadas” no Jardim de Camões

O Instituto para os Assuntos Municipais revelou ao Jornal Tribuna de Macau que irá realizar “trabalhos de manutenção” nas estrofes de “Os Lusíadas” que constam da parte detrás do pedestal onde assenta o busto de Camões, naquele que é um dos mais antigos jardins do território. O organismo liderado por José Tavares não indicou, contudo, mais detalhes, nomeadamente calendarização e procedimentos


A terceira estrofe de “Os Lusíadas” que consta na parte detrás do pedestal onde assenta o busto de Luís Vaz de Camões, no Jardim de Camões, está praticamente ilegível. Confrontado com a situação, o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) disse ao Jornal Tribuna de Macau que “já tinha verificado que as inscrições estão a desaparecer e está a acompanhar a situação”. Mais ainda, o organismo liderado por José Tavares acrescentou que “serão realizados trabalhos de manutenção”.

Às perguntas que se seguiram – “quando serão iniciados os trabalhos de manutenção?” e “quais os procedimentos a seguir, uma vez que as estrofes estão escritas em português?” -, o IAM disse que, por enquanto, “não há mais detalhes a acrescentar”.

De notar que os dois primeiros excertos que constam do pedestal em pedra na Gruta de Camões ainda se conseguem ler. Dizem respeito à estrofe 95 do Canto VI e à estância 42 do Canto VIII.

A estrofe que já está praticamente incompreensível é a número 81 do Canto VI: “E ainda, Ninfas minhas, não bastava/ Que tamanhas misérias me cercassem,/ Senão que aqueles que eu cantando andava/ Tal prémio de meus versos me tornassem:/ A troco dos descansos que esperava,/ Das capelas de louro que me honrassem,/ Trabalhos nunca usados me inventaram,/ Com que em tão duro estado me deitaram”.

Num artigo de opinião publicado neste jornal, o investigador António Aresta alertou recentemente para esta questão, dizendo que a estância precisa de ser reescrita. “Luís de Camões merece este desvelo, 500 anos depois”, defendia. O IAM referiu agora ao JTM que vai avançar com esse trabalho, mas não se sabe ainda quando terá início.

O Jardim de Luís de Camões, um dos mais antigos de Macau, foi criado em meados do século XVIII. Na Gruta, constituída por três grandes rochedos facetados, encontra-se então o busto de Camões, da autoria do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro.

Diz-se que, em meados do século XVI, Camões (1524-1580), viveu em Macau durante dois anos, onde terá terminado, na Gruta que tem hoje o seu nome, a obra “Os Lusíadas”. “Com o patrocínio de 600 francos de um rico comerciante português de Macau, Lourenço Marques, genro de Manuel Pereira, a gruta foi renovada em 1849, sendo aí colocado um busto do poeta. Foi também erigido um pavilhão sobre a gruta, o qual já não existe. O último restauro da gruta data de 1866 e o busto do poeta foi refundido em bronze”, pode ler-se na página do património cultural de Macau.

Este ano, recorde-se, celebram-se os 500 anos do nascimento de Camões. Em Macau, o Instituto Cultural realizou, durante o mês de Junho, uma série de actividades, incluindo um concerto, palestras e visitas guiadas. A Associação dos Jovens Macaenses levou também a cabo uma palestra intitulada “500 anos da língua de Camões e a evolução de Portugal em Macau”. Anteriormente, a Rede Camões na Ásia & África organizou o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, iniciativa que incluiu uma série de comunicações de várias partes do mundo.

Consulado em Cantão inaugurou Sala Camões

O Consulado-Geral de Portugal em Cantão criou uma Sala Camões nas suas instalações, em mais uma homenagem inserida nas comemorações dos 500 anos do nascimento do poeta. O novo espaço foi inaugurado recentemente por ocasião de uma visita a Cantão do Embaixador de Portugal na China, Paulo Jorge Nascimento. A cerimónia contou ainda com a presença da Cônsul-Geral Ana Menezes Cordeiro, que concluiu, entretanto, a missão de três anos no posto diplomático, sendo substituída por Tomás van Asch de Azevedo. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Macau - Investigadora reencontra busto de Tamagnini Barbosa perdido em armazém

A escultura, da autoria de Oseo Acconci, estava em paradeiro desconhecido. Jane Lei, estudante de doutoramento da MUST, encontrou o busto de bronze, durante a sua investigação em 2020, envolto em plástico-bolha, numa arrecadação fechada na Escola Oficial Zheng Guanying. A obra está agora em exibição no segundo andar do Museu de Arte de Macau, que ficou com ela no seu acervo

O busto de bronze do antigo Governador de Macau Artur Tamagnini de Souza Barbosa foi encontrado, em 2020, embrulhado em plástico-bolha numa arrecadação subterrânea da Escola Oficial Zheng Guanying, por Jane Lei, na altura estudante de doutoramento da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa). “Nem queria acreditar no que estava a ver. Encontrei o busto numa arrecadação subterrânea, perto do estacionamento da escola, mas não quero estar a apontar o dedo à escola, porque acredito que, na verdade, eles não sabiam o que fazer com a escultura”, explicou Jane Lei ao Ponto Final, que aproveita a conversa com o nosso jornal para agradecer a autorização que lhe foi concedida para ter visto a escultura.

Erigido em 1940 junto ao antigo Asilo de Mendicidade Maria Ana Accioili Tamagnini Barbosa, o busto de bronze foi moldado pelo escultor italiano Osseo Acconci e colocado num pedestal de mármore, com inscrições em português e em chinês. Na altura, a obra não foi encomendada pelo Governo, mas sim por um grupo de pessoas que pagaram a Acconci 2750 patacas. O asilo foi construído com o propósito de receber refugiados oriundos da China na altura.

Posteriormente, quando o asilo foi encerrado, o busto foi armazenado no Leal Senado até ser “resgatado” por um funcionário público, responsável pelos jardins da cidade, Alfredo Augusto de Almeida (1898-1971), que o colocou no Jardim da Flora, após a sua renovação, onde esteve muitos anos.

Depois disso, por iniciativa do filho Mariano Tamagnini Barbosa, o busto foi colocado, em 1997, na Escola Primária Luso-Chinesa de Tamagnini Barbosa, onde, actualmente, existe a Escola Oficial Zheng Guanying, desde 2011.

Para a investigadora, a culpa deste património da história de Macau ter chegado ao ponto de ficar embrulhado em plástico-bolha numa arrecadação “é exclusiva do Governo de Macau”. “O importante frisar aqui é que o Governo não tratou dessas esculturas como devia. Não prestou a devida atenção a estas obras de arte, a este património. Se não fossem algumas pessoas ligadas ao Instituto Cultural, mas apenas na esfera privada, a mostrar interesse no busto, ele continuaria perdido. Pelo menos, agora pode ser visto no Museu de Arte de Macau”, congratula a investigadora.

Artur Tamagnini de Souza Barbosa (1880-1940), que desempenhou o cargo por três vezes (1918 a 1919, 1926 a 1930 e 1937 a 1940), foi um governador bem visto pela comunidade chinesa do território, tendo sido diversas vezes agraciado pelo seu trabalho durante os três mandatos. Um jornal chinês, datado de 24 de Setembro de 1940, noticiou que “ele tinha um notável historial de feitos políticos, especialmente no que às necessidades efectivas da população dizia respeito”. O seu último mandato foi o mais difícil de todos, pois Tamagnini Barbosa teve que preparar Macau para enfrentar a Segunda Guerra Mundial e negociar com os japoneses a neutralidade, anteriormente garantida por António de Oliveira Salazar na metrópole.

A investigadora, actualmente a residir em Taiwan, estava, como se disse anteriormente, em trabalhos de pesquisa para a sua tese de doutoramento que versou sobre o trabalho do escultor do busto, o italiano Oseo Acconci. Entretanto terminado e defendido este ano, o doutoramento de Jane Lei merece uma leitura mais abrangente que trataremos de abordar numa próxima oportunidade.

Jane Lei interessa-se, não só pelo trabalho de Acconci, mas, em geral, por algum património de Macau, com especial destaque para a arquitectura e arte mural. “Interesso-me bastante pelo Hotel Estoril, por exemplo. Apesar de ter terminado e defendido a minha tese este ano, pretendo continuar a investigar este tipo de coisas”, prometeu.

A investigadora vai dar uma palestra online sobre a obra de Oseo Acconci, via Zoom, no próximo dia 22 de Outubro, entre as 20h e 21h30. O evento, em língua chinesa, é promovido pela Artistry of Wind Box Community Development Association e terá um custo de 40 patacas por pessoa. Mais informações podem ser retiradas na ligação: https://awb.mo/onlinetalk. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”



sexta-feira, 16 de junho de 2017

Portugal – Busto de Beja em mármore retrata Júlio César

A cabeça em mármore que Beja guardou durante 117 anos sem saber quem tentaria retratar reúne “todas as características” que o biógrafo romano Suetónio associou a Júlio César: “rosto um pouco cheio e olhar vivo e calvo, mas para disfarçar puxava para a testa os poucos cabelos que ainda tinha”



Durante 117 anos, foi mantido num nicho do Museu Regional de Beja, afastado da observação directa e completa, um busto que tinha a seguinte inscrição: “Cabeça de mármore romana achada em Beja”. E assim permaneceu no anonimato até que, ao longo da última década, vários investigadores colocaram como hipótese de trabalho a possibilidade de se tratar de uma das raras cabeças esculpidas em mármore que existem a nível mundial contemporâneas de Júlio César, nascido no ano 100 a.C. e assassinado no ano 44 a.C.

A arqueóloga Conceição Lopes, que liderou com Jorge Alarcão uma equipa de especialistas do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património da Universidade de Coimbra, confirmou ao Público que se trata de uma peça esculpida em mármore há cerca de dois mil anos, um “retrato que reúne todas as características que Suetónio (biógrafo e escritor romano) atribuiu a Júlio César”. E acrescenta que terá sido a cabeça de “uma grande estátua” exposta na então Pax Iulia.

Para alicerçar estas conclusões, para além das características físicas expressas no busto, os investigadores analisaram e interpretaram “argumentos de especialistas em arte”, associaram os resultados de uma “reanálise” de toda a escultura e os novos dados arqueológicos entretanto surgidos, explicou ao Público Ana Paula Amendoeira, directora regional de Cultura do Alentejo (DRCAlentejo), a entidade coordenadora do projecto.

A descoberta do busto agora atribuído a Júlio César foi descrita na edição de Outubro/Novembro de 1902 de “O Archeologo Português”, publicado pelo Museu Etnográfico Português. Em Dezembro de 1900, o etnólogo e arqueólogo José Leite de Vasconcellos, recebe uma carta do conservador do Museu Municipal de Beja a comunicar-lhe que, meses antes, quando decorria a demolição de parte da muralha que circunda o centro histórico da cidade alentejana para ser construído o Palácio das Repartições Públicas (edifício do antigo Governo Civil de Beja), foram encontradas “várias antiguidades romanas”. De entre os achados, “fragmentos de capitéis, frisos e fustes de colunas, restos de pedras tumulares e outras”, materiais que teriam sido reutilizados na construção da muralha, apareceu “uma cabeça de estátua de mármore”.

Em Outubro de 1901, Leite de Vasconcellos desloca-se Beja para observar os achados arqueológicos recolhidos e observar uma fotografia da cabeça de mármore, oferecida ao Museu de Beja em Fevereiro de 1900. Foi então comunicado a Leite de Vasconcellos que o busto tinha sido encontrado por um trabalhador quando procedia à recolha dos entulhos durante os trabalhos de demolição “no 2.º baluarte da 2.ª ordem de muralhas da cidade, metido na vedação das ruínas do Convento da Esperança”.

Da consulta que então fez a Salomon Reinach, especialista de estatuária greco-romana, o etnólogo conclui que a peça pertencia ao final do século I. d.C. Em 1903, e após nova deslocação a Beja, publica no “O Archeologo Português” os pormenores da cabeça de mármore que definiu com um “retrato que apresenta no lado direito do osso frontal uma cicatriz feita com instrumento cortante (provavelmente espada). (...) a orelha esquerda quase toda esmoucada. A orelha direita está esmurrada em cima, assim como o lábio inferior. A parte anterior do crânio apresenta-se calva e só a parte posterior tem cabelo, que rodeia as orelhas”.

A arqueóloga Conceição Lopes refere que os trabalhos de limpeza e análise da cabeça agora atribuída a César refutaram o argumento de que o imperador romano era calvo. “Nós verificámos que tinha cabelo ondulado. O problema é que a sua colocação num nicho não permitia observar parte da escultura”.

Nos anos 50 do século passado, o busto ainda se encontrava exposto num pedestal em gesso e em lugar bem visível até que, não se sabe quando, foi transferido para um nicho, numa ala do claustro do Museu Regional de Beja, “onde também está a designada 'Vénus de Beringel', outra escultura de grande qualidade”, refere Conceição Lopes.

A importância da peça já foi objecto de várias análises ao longo das últimas décadas. Na referência que é feita no Portal do Arqueólogo ao busto de Beja, o professor Luís Jorge Rodrigues Gonçalves referia, em 2007, que os autores que analisaram peça “são unânimes em considerar que se trata de um retrato privado”.

Leitura diferente foi apresentada pelo historiador Vasco de Souza que, nos anos 80 do século passado, fez um trabalho de síntese da escultura romana em Portugal no qual adiantava que, “na concepção geral, o busto recorda César. No entanto, a simetria das formas é já elemento do classicismo de Augusto”.

Vasco de Souza refere ainda um dado interessante: os “retratos romanos imperiais encontrados em Portugal são, na sua maioria, cabeças de encaixe elaboradas para serem inseridas numa estátua”, isto é, corpos aos quais se acrescentavam as cabeças consoante o imperador que estivesse no poder.

Outro dado importante veio reforçar a intervenção dos investigadores em relação a este busto. Em 2007, no rio Ródano, em Arles, França, foi encontrado um outro busto anunciado como a mais antiga representação conhecida de Júlio César e o único que teria sido feito com o imperador ainda vivo, excepto o Tusculum, que está no museu de Turim, realizado imediatamente antes ou logo após a sua morte. O debate que entretanto ocorreu em torno da identificação com César do busto saído do Ródano “deixou claro que não há dele nenhum retrato oficial, que nunca houve nenhuma organização para difundir a sua imagem com cânones bem definidos e standartizados, deixando aos artistas liberdade para fazerem as suas interpretações”, vincou Conceição Lopes, acrescentando ser muito difícil “procurar dois retratos exactamente iguais”.

Comparando a cabeça de Beja com a de Tusculum, “são claras as semelhanças no formato dos lábios e covas nos cantos, nas rugas profundas, no enquadramento dos olhos em sobrancelhas arqueadas, mas o retrato de Beja manifesta mais evidentes semelhanças com o de Arles, nomeadamente no formato do rosto e nariz”, descreveu a arqueóloga responsável pelo estudo do busto de Beja. As semelhanças entre os retratados de Arles e Pax Iulia “deixa aberta a possibilidade de o personagem retratado nas duas cidades romanas ser o mesmo”, admite Conceição Lopes explicando que “a hesitação do reconhecimento de César” no exemplar existente no Museu Regional de Beja se deve, em grande parte, ao facto de até há muito pouco tempo se afirmar que Pax Iulia “era uma fundação ex-nihilo do tempo do imperador Augusto (por volta de 31/27 a. C), o que tornava pouco provável um retrato de César nesta cidade romana”.

Contudo, as recentes escavações na Praça da República em Beja vieram revelar que a cidade já era “próspera e importante” no tempo de César. Os dados recolhidos reforçaram a sua importância histórica como centro político e administrativo, que lhe advinha do facto de ter sido “a única cidade de estatuto colonial fundada no Sudoeste peninsular” – um estatuto que justifica plenamente a presença de estátuas ou bustos alusivos a César, acentua Conceição Lopes.

A importância da descoberta justifica a deslocação do ministro da Cultura a Beja no próximo sábado, dia 17, para, ao meio-dia, inaugurar o novo pedestal no Museu Regional de Beja, onde passará a estar exposta a escultura que ficará identificada como sendo contemporânea de Júlio César.

A investigação que conduziu à identificação da peça arqueológica descoberta no ano 1900 foi apoiada e financiada com base num protocolo estabelecido entre a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, a DRCAlentejo, Universidades de Coimbra e de Évora e a Fundação Millennium BCP, que doou uma verba de 18 mil euros. Carlos Dias – Portugal in  "Público"