Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 30 de julho de 2025

Macau - Finalizados trabalhos de reparação da estátua de Luís Vaz de Camões

Já foram concluídos os trabalhos de renovação do busto de Camões, indicou o Instituto para os Assuntos Municipais ao Jornal Tribuna de Macau, acrescentando que o Instituto Cultural já inspeccionou o local. Recorde-se que a terceira estrofe de “Os Lusíadas” que consta na parte detrás do pedestal onde assenta o busto de Luís Vaz de Camões estava praticamente ilegível


O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) indicou que “os trabalhos de renovação da estátua [de Camões] já foram terminados”. Recorde-se de que a terceira estrofe de “Os Lusíadas” que consta na parte detrás do pedestal onde assenta o busto de Luís Vaz de Camões estava praticamente ilegível.

Confrontado com esta situação em Julho do ano passado, o IAM tinha dito ao JTM que “já tinha verificado que as inscrições estão a desaparecer” e que estava a “acompanhar” a situação, tendo acrescentado que seriam realizados trabalhos de manutenção. Agora, o organismo indicou também ao Jornal Tribuna de Macau que “já foi feita uma inspecção pelo Instituto Cultural”.

A estrofe que já estava praticamente incompreensível era a número 81 do Canto VI:

“E ainda, Ninfas minhas, não bastava/ Que tamanhas misérias me cercassem,/ Senão que aqueles que eu cantando andava/ Tal prémio de meus versos me tornassem:/ A troco dos descansos que esperava,/ Das capelas de louro que me honrassem,/ Trabalhos nunca usados me inventaram,/ Com que em tão duro estado me deitaram”.

Num artigo de opinião publicado neste jornal no ano passado, o investigador António Aresta alertou para esta questão, dizendo que a estância precisava de ser reescrita. “Luís de Camões merece este desvelo, 500 anos depois”, defendeu.

Os dois primeiros excertos que constam do pedestal em pedra na Gruta de Camões ainda se conseguiam ler. Dizem respeito à estrofe 95 do Canto VI e à estância 42 do Canto VIII.

O Jardim de Luís de Camões, um dos mais antigos de Macau, foi criado em meados do século XVIII. Na Gruta, constituída por três grandes rochedos facetados, encontra-se então o busto de Camões, da autoria do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro.

Diz-se que, em meados do século XVI, Camões (1524-1580) viveu em Macau durante dois anos, onde terá terminado, na Gruta que tem hoje o seu nome, a obra “Os Lusíadas”. “Com o patrocínio de 600 francos de um rico comerciante português de Macau, Lourenço Marques, genro de Manuel Pereira, a gruta foi renovada em 1849, sendo aí colocado um busto do poeta. Foi também erigido um pavilhão sobre a gruta, o qual já não existe. O último restauro da gruta data de 1866 e o busto do poeta foi refundido em bronze”, pode ler-se na página do património cultural de Macau. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sexta-feira, 6 de junho de 2025

UCCLA - Olivença celebra o 10 de Junho com inauguração do busto de Camões

No âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a cidade de Olivença prepara-se para uma celebração especial este 10 de junho. A data, que homenageia o poeta Luís Vaz de Camões e a língua portuguesa, será marcada pela inauguração de um busto em sua honra, oferecido pela UCCLA, simbolizando a forte ligação cultural entre Portugal e a comunidade oliventina.


A cerimónia ocorrerá na Rua Lope de Vega, um espaço emblemático da cidade, e contará com a presença de autoridades locais, representantes da UCCLA e membros da comunidade. O busto, esculpido em bronze e da autoria de Diogo Munõz, foi concebido para refletir a importância de Camões como exponente máximo da literatura portuguesa e da lusofonia.

O início das festividades está marcado para as 12 horas, na Praça da Constituição, com a intervenção do Alcalde de Olivença, Manuel González Andrade, e do Secretário-Geral da UCCLA, Luís Álvaro Campos Ferreira.

O programa inclui, também, a leitura de “Os Lusíadas” por alunos dos Centros Educativos de Olivença, uma degustação de petiscos portugueses e uma visita guiada à exposição “Camões - Pilar de Identidade Cultural”.

A finalizar as comemorações, terá lugar, pelas 21h30, na Praça de Espanha - Terreiro de Chão Salgado, a atuação musical de Princezito, de Cabo Verde, e de Rhodália Silvestre, de Moçambique.

Esta iniciativa, que assinala também os 40 anos da UCCLA, reforça o compromisso de Olivença em preservar e promover a herança cultural portuguesa, estreitando laços com as comunidades lusófonas e celebrando a riqueza da língua e da literatura que unem os povos.

As comemorações do 10 de Junho em Olivença representam um momento significativo de união e celebração da língua portuguesa, reafirmando o compromisso da cidade com a preservação e promoção da sua rica herança cultural.



Princezito

Carlos Alberto Sousa Mendes, de nome artístico Princezito, nasceu em Cabo Verde, quatro anos antes da independência, na ilha de Santiago, vila do Tarrafal - Monte Iria, zona onde a lendária cantadeira de Finason - Bibinha Kabral -viveu os últimos anos de vida, senhora de quem Princezito cobiçou a arte de cantar.

Estudou na escola da vila onde nasceu, desde muito cedo despertou a admiração dos professores e dos colegas, pela originalidade na escrita e declamação dos seus próprios poemas, arte que aprendera em casa com os irmãos mais velhos.

Durante os oito anos que viveu em Cuba, Princezito absorveu a grande diversidade cultural daquele país, dos ritmos e cantos afro cubanos passando pela música popular e contemporânea.

Foi o preceptor do projeto “AYAN”, registo discográfico que evidenciou a nova tendência do estilo Batuku e projetou a chamada geração Pantera. Uma produção que contou com a participação de Tcheka, Vadu, Djingo e do próprio Princezito que trouxe à terra uma réplica de “Lua”, a composição de sua autoria que tem vindo a marcar o sentido e a alma dos muitos que a escutam. Registada por Mayra (CD) e Lura (DVD).

Rhodália Silvestre

Filha de pais moçambicanos, nascida em Mbabane, na Swazilândia, em 1986. Desde muito cedo Rhodália mostrou talento para a música, não fosse o seu pai o Maestro Faustino António Chirute, um dos poucos africanos formados em regência de orquestras na ex-URSS e mentor do Majescoral - Maputo Jazz Espiritual Coral. Embora o progenitor tenha sido um dos principais influenciadores da sua carreira musical, nos fins de semana, o seu exercício musical balançava entre harmonias e ritmos que iam desde a música clássica, ao R&B, ao jazz, ao reggae, notando-se uma enorme influência dos ritmos africanos que, conjugados com afro-jazz, influenciaram a sua notável criatividade, através das suas composições musicais e sentido das suas letras.

Rhodália é por isso uma cantautora moçambicana, vencedora de vários prémios, destacando-se o prémio revelação Ngoma Moçambique 2017, a melhor voz de Moçambique no Ngoma Moçambique 2018, de novo a melhor voz no Ngoma Moçambique em 2022 e ainda o prémio Vibratoques da Vodacom. De referir que Rhodália Silvestre foi finalista na edição de 2025 do programa “Got Talent Portugal”.

Esta voz poderosa lançou o seu álbum de originais, Wansati, com 12 temas, editado em 24 de julho de 2020 pela produtora Modigi, com a colaboração do consagrado baixista moçambicano Sacre que, tal como ela, foi integrante do agrupamento moçambicano Banda Azul, sensação dos anos 2000 que tinha Rhodália (2006), como vocalista principal.

Possuidora de uma personalidade forte que se impõe com naturalidade, além de ser uma grande cantora, possui também outras capacidades em que, mais uma vez, sobressai a sua resiliência de grande lutadora. Canta em inglês, português, Zulu, Xhosa, Shangane, Swati e Chichewa, comunicando fluentemente nestas línguas.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Portugal - Festival Literário Correntes d’Escritas assinala legado de Camões e Camilo

O Festival Literário Correntes d’Escritas, que se realiza na Póvoa de Varzim, distrito do Porto, vai dedicar parte da programação da sua 26.ª edição ao legado das obras de Luís de Camões e Camilo Castelo Branco.



O certame, que acontece entre 15 e 22 de fevereiro nesta cidade do litoral norte, reúne, desta vez, 100 autores de expressão ibérica, sendo 30 estreantes no evento, numa lista de convidados onde figura o cabo-verdiano Germano Almeida, Prémio Camões de 2018 e autor do novo livro “Crime nas Correntes d’Escritas”.

“Estando a festejar os 500 anos [do nascimento] de Luís de Camões tínhamos de o assinalar no Correntes d’Escritas como o grande poeta português. Já Camilo Castelo Branco, que tinha uma grande ligação à Póvoa de Varzim, onde passava grandes temporadas, é um dos grandes artífices da nossa língua, e quando se comemora os 200 anos do seu nascimento não poderíamos ficar indiferentes”, explicou hoje Luís Diamantino, vereador com o pelouro da Cultura da Câmara da Póvoa de Varzim, na apresentação do evento.

O autarca, que foi um dos obreiros da criação do Correntes d’Escritas, está em final de mandato e mostrou-se satisfeito por o festival se ter, nestes anos, estabelecido no panorama cultural português

“O importante é ter ajudado a que o Correntes exista por si só, independentemente das pessoas que o organizam. Sempre acreditei que isso iria acontecer, e ver um recente estudo que aponta que 30% da população portuguesa já teve contacto com o evento através da Comunicação Social é muito gratificante e importante para uma cidade que tem como desígnio a cultura, o lazer e o turismo”, acrescentou Luís Diamantino.

Um dos momentos altos do Correntes d’Escritas será a atribuição do Prémio Literário Casino da Póvoa de Varzim, no valor 25 mil euros, e que este ano tem a concurso 11 obras, de autores de língua portuguesa, de países como Portugal, Brasil e Angola.

A concurso estão livros de João Luís Barreto Guimarães, Luísa Freire, Andreia C. Faria, Adília Lopes (1960-2024), Jorge Gomes Miranda, João Melo, Ricardo Gil Soeiro, Paulo Tavares, Eucanaã Ferraz, Bernardo Pinto de Almeida e Nuno Júdice (1949-2024), sendo o vencedor conhecido no dia inaugural do evento.

Ainda nesse primeiro dia terá lugar, no Cine-Teatro Garrett, palco central do evento, a conferência de abertura, proferida, este ano, por Hélder Macedo, poeta, romancista, professor e investigador literário português, radicado há vários anos em Inglaterra, que vai subordinar a sua intervenção ao tema “Luís de Camões: conhecer não ter conhecimento”.

Nesta 26.ª edição do Correntes d’Escritas serão reforçadas algumas das atividades âncora do certame, como a feira do livro, exposições, sessões nas escolas e também a ida do evento às freguesias do concelho da Póvoa de Varzim, com a presença de escritores.

“Finamente vamos conseguir levar o Correntes d’Escritas a todas as freguesias da Póvoa de Varzim, é um grande desafio, mas que estamos certos que vai aproximar, ainda mais, as pessoas a este evento”, sublinhou o vereador Luís Diamantino.

Segundo números divulgados pela organização, desde a primeira edição, no ano de 2000, já passaram pelo Correntes d’Escritas 1000 autores, num evento que totaliza um número total de 200 mil espectadores, tendo sido, nos últimos 25 anos, lançados mais 500 livros durante o festival. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


terça-feira, 12 de novembro de 2024

Galiza – Associação de Docentes de Português na Galiza (DPG) lança atividade escolar para celebrar os 500 anos do nascimento de Camões

Para celebrar os 500 anos do nascimento de Camões, a DPG lança uma proposta de atividade para as escolas galegas

Este ano comemora-se o quinto centenário do nascimento de Luís de Camões (1524-1580), e está a ser celebrado em Portugal e em várias comunidades lusófonas, em reconhecimento da sua importância para a literatura e, até, identidade portuguesas. E a associação de Docentes de Português na Galiza também quer fazer parte da celebração.

A proposta é para trabalhar nas aulas de português, e nas de galego ou outra qualquer se alguém assim quiser. O exercício para o alunado é escolherem um poema, treinarem a sua leitura e depois gravarem-se a o recitarem, a o declamarem ou a o lerem simplesmente. O resultado disso será um vídeo que produzirá a DPG com todas as pessoas que participem a lerem os versos do maior poeta da língua portuguesa que era tataraneto de um galego. 

Camões, autor de Os Lusíadas, é uma figura central na literatura e cultura de Portugal, e, por extensão, de todo o mundo de expressão portuguesa. Apesar de não se saber a data exata de seu nascimento, 2024 foi escolhido para marcar os 500 anos da sua vida e salientar a sua contribuição literária.

As comemorações começaram no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebrado a 10 de junho e continuam ao longo de todo o presente ano. Sendo que, no dia 1 de dezembro também se comemora a Restauração da Independência de Portugal da coroa espanhola de 1640, depois de 60 anos de «União Ibérica», da DPG lançam uma proposta de comemoração da vida e obra desta tão importante personagem que, aliás, tem uma origem galega quinhentista, pois o seu tataravô era um fidalgo e trovador da Costa da Morte. In “Portal Galego da Língua” - Galiza




quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Moçambique - Centros de Língua Portuguesa realizam Olimpíadas Camonianas na cidade de Maputo

No âmbito das celebrações do quinto Centenário do Nascimento de Camões, os Centros de Língua Portuguesa – Camões, instalados na Universidade Pedagógica de Maputo e na Universidade Eduardo Mondlane realizam, sábado, entre as 9h00 e as 10h30, as Olimpíadas Camonianas.


A actividade consiste na realização de uma prova online composta por questões que testam o conhecimento dos concorrentes sobre a vida e a obra de Luís de Camões.

Através da realização das Olimpíadas Camonianas, pretende-se incentivar o conhecimento sobre a vida de Luís de Camões, promover uma postura reflexiva sobre a obra e o legado literário do escritor e desenvolver o gosto pela literatura e pelos estudos literários.

A participação nas Olimpíadas Camonianas está aberta aos estudantes moçambicanos de todos os níveis de ensino, através de uma ligação de acesso à prova disponibilizada pela organização.

Os vencedores receberão prémios monetários e em material bibliográfico num valor total de 18.000,00 meticais, distribuídos pelos primeiros três classificados. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 29 de outubro de 2024

Macau – Entrevista com José Cardoso Bernardes, presidente da Comissão Nacional de Portugal para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís Vaz de Camões

O ano de 2024 tem sido pródigo em várias celebrações de uma efeméride que muito toca a identidade lusitana: os 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões. Foi à volta do tema que o Jornal Tribuna de Macau entrevistou José Cardoso Bernardes, presidente da Comissão Nacional de Portugal para as Comemorações do V Centenário do Nascimento do poeta. Como parte do programa, que será apresentado em Lisboa dentro de dias, foram feitos contactos para a participação de Macau nas comemorações. “Acreditamos na resposta das entidades locais”, disse o professor catedrático, que se encontra no território para proferir algumas palestras. O académico salienta que a grande aposta no ensino de Camões tem de ser feita nos professores. “Eles são os mediadores e necessitam de formação camonística”, frisou


- Qual é o objectivo desta sua deslocação a Macau?

- Esta vinda estava prevista há um ano, quando eu ainda não exercia este cargo. O convite foi-me feito pela Universidade de Macau para vir proferir uma série de palestras e só lateralmente é que viria a falar de Camões. Entretanto, assumi o cargo em 12 de Setembro passado e a visita transformou-se numa espécie de cruzada camoniana. Portanto, não foi um convite que possa integrar-se no âmbito das comemorações.

- Sabemos que irá proferir várias palestras. Que temas vai abordar?

- Vou falar sobre o ensino de Camões, o ensino de Camões em Portugal, o ensino do poeta nas escolas portuguesas espalhadas pelo mundo. De resto, as comemorações camonianas vão ter uma grande componente dedicada ao ensino. Porque é na escola que os portugueses se encontram com Camões, é aí que se decide tudo. É aí que os portugueses guardam ou não guardam uma imagem boa do contacto com as obras do poeta e a percepção que nós temos é que a escola está em mudança profunda.

- E de que forma é possível levar a efeito essa reforma no ensino sobre Camões?

- Adaptar conteúdos que normalmente não causam estranheza a alunos portugueses, mas causam uma estranheza enorme a alunos de culturas muito diversas. E, portanto, as acumulações vão acentuar muito a dimensão do ensino. É preciso intervir, discutir, debater se realmente da maneira como estamos a ensinar Camões hoje se adequa às realidades novas. Se não for assim, é preciso ter a coragem de mudar, de ajustar.

- O que pode e deve ser feito para divulgar a obra de Luís de Camões nas escolas portuguesas no estrangeiro?

- É nosso propósito deslocarmo-nos a cada uma das escolas portuguesas no estrangeiro. Aqui em Macau, eu próprio vou fazer isso, vou falar para alunos, vou falar para professores e tenciono depois prolongar essa excursão pelas outras escolas, em Moçambique, Dili, Luanda, etc.

- Isso acontecerá ao longo do próximo ano?

- Será durante 2025 e 2026, porque as comemorações vão até 2026. Temos também programadas acções em todas as cátedras portuguesas espalhadas pelo mundo e nas universidades onde, não existindo cátedras, o departamento de português ou o ensino de português tem alguma importância.

- Há, então, uma grande vontade em falar do poeta aos alunos que se encontram fora de Portugal?

- Vamos empenhar-nos muito em falar de Camões para os portugueses da diáspora.

- O que está pensado para Macau?

- Macau tem muitas vantagens em relação a isso, porque tem a língua portuguesa e os alunos da Escola Portuguesa. Todos eles sabem ou julgam que já têm muito conhecimento de Camões, ainda que neste momento a Escola Portuguesa tenha mais alunos que não falam português, que não são de língua portuguesa materna, do que os que são oriundos de Portugal, o que havia antigamente. Eu costumo dizer que Camões é o primeiro poeta que incorpora a ideia de mundo na sua obra, ou seja, é possível falar de Camões a qualquer interlocutor independentemente de ele ser português ou não, independentemente de ele estar em Macau ou em Lisboa, porque as personagens e as situações que Camões criou, tanto n’ “Os Lusíadas” como na lírica, interpelam a espécie humana no seu todo.

- Houve algumas críticas porque o programa das comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões tardava em aparecer. O que levou a que fosse delineado tão tardiamente? Não é quase como que uma desconsideração por Camões?

- Tenho dificuldade em responder a essa questão. Eu fui nomeado no dia 12 de Setembro deste ano e foi-me confiada uma tarefa que estou a procurar executar. O que aconteceu é que, entre 2021, data em que o Governo da altura nomeou uma pessoa para programar as comemorações, e a data da minha própria nomeação, eu não consigo dizer-lhe. Imagino e quero crer que essa pessoa fez o que pôde. Terá havido algum descaso do Governo, pelo menos foram as declarações que vieram a público. O Governo nomeou a pessoa, mas depois não lhe deu os meios. Eu quando assumi o lugar falei com a ministra que me convidou e coloquei condições.

- Que condições?

- Uma delas era dispor de meios, ainda que não abundantes, desde já lhe digo, mas meios para levar por diante um programa digno, e é isso que estou a procurar fazer. O programa está pronto, vai ser anunciado nos primeiros dias de Novembro e envolve muitas vertentes, académica, universitária, digamos convencional. Vamos organizar um dia para Camões em cada capital, distrito, território nacional e nas regiões autónomas. É um padrão. Já temos algumas confirmações, esse programa vai arrancar em Coimbra, no dia 12 de Fevereiro de 2025 e continuar no Funchal, no dia 31 de Março desse mesmo ano, e vai continuar pelas restantes capitais. O que nós queremos é envolver as comunidades educativas nesse dia.

- Como pretende estabelecer esse envolvimento?

- É muito importante para nós envolver os jovens, é muito importante para nós que os jovens guardem de Camões uma imagem prazerosa do seu contacto na escola. E esses dias para Camões têm como objectivo chegar ao grande público, mas com especial incidência nas escolas, nas comunidades educativas, nos jovens. É possível e necessário falar de Camões num congresso universitário, mas também é possível, e é muito desejável e muito necessário, falar de Camões de forma acessível a um rapaz, a uma menina, que tenham hoje 14 ou 15 anos. Não é fácil, mas é necessário.

- Em concreto, o que é que o programa prevê para Macau?

- Nós temos como princípio dirigirmo-nos às entidades locais, é isso que temos estado a fazer e acreditamos na resposta das entidades locais. Acredito que as universidades, o Instituto Cultural, o Instituto Português do Oriente, a Escola Portuguesa de Macau, se organizem. Estamos a aguardar respostas.

- Quais são as suas ideias?

- As comemorações têm de ser feitas de acordo com a escala, com as aspirações, com os desejos, com as necessidades que cada entidade local entende que se ajusta mais. Aqui em Macau já foi feito um congresso sobre Camões. A Rede da Ásia vai fazer agora o segundo congresso em 2025 na Ilha de Moçambique, mobilizando, no entanto, pessoas de Macau, mas eu confesso que valorizo muito uma ida de um professor à Escola Portuguesa de Macau, isso é como morar em Camões. Valorizo muito uma conferência que é proferida no Instituto Português do Oriente, na Fundação Rui Cunha, que é o que eu vou fazer. Não é preciso que haja uma sessão solene sobre Camões. São maneiras convencionais de o celebrar. Eu valorizo mais as pequenas iniciativas que chegam aos jovens, mas que sejam frequentes, regulares. Por exemplo, uma iniciativa que tenha impacto junto dos professores, porque eles são os mediadores e necessitam de formação camonística.

- Esse papel deve, então, caber às escolas?

- Em Portugal é assim, eu não sei o que acontece na Escola Portuguesa de Macau, que não conheço. Em Portugal nós organizamos acções de formação para os professores comparecerem, às vezes centenas de professores de Português, e uma grande percentagem desses docentes que ensinam Camões no 9º e 10º ano, nunca aprenderam Camões nas universidades. Isto tem de ser corrigido. Se uma pessoa vai ensinar Português a vida inteira, alguma vez tem de ter ouvido falar em Camões, porque depois o vai ensinar. E o problema é que Camões não pode ser ensinado como outro escritor qualquer. Um aluno de 14 ou 15 anos, que se abeira de “Os Lusíadas” sem um mediador qualificado, não consegue entender nada. Ou consegue entender pouco. Por isso é preciso apostar na formação de professores.

- Como é que Macau deveria comemorar Camões? Com uma sessão solene, com muitas flores, com grande aparato, ou com acções pontuais?

- Eu diria que com acções que sensibilizem os professores que têm essa missão. A missão de contagiar os alunos com o seu próprio entusiasmo. Eu optaria por esta modalidade. Camões disse sempre de si próprio que nunca teve sorte, mas nós tivemos sorte daquilo que ele deixou, que já não é mau. A sorte de Camões joga-se na escola. Para as pessoas que não tiveram a sorte de ir à escola, o poeta é uma espécie de ícone da pátria. E quanto mais longe se está da pátria, mais se valoriza esse ícone. Camões está na escola e é lá que os portugueses e aqueles que frequentam escolas portuguesas, o conhecem.

- Em relação ao poeta e à vida dele, há muitas incertezas e contradições. No que toca a Macau, o que há de concreto?

- À luz daquilo que hoje se sabe, e sabe-se mais hoje do que há cinco ou 10 anos, a presença de Camões em Macau é pelo menos muito provável. Claro que não está documentada com nenhuma certidão, mas é muito provável. Há documentos, pelo menos do século XVIII, que aludem àquele lugar como as pedras de Camões. Isto não é probatório, quer dizer, não certifica, mas o que prova é que há 250 anos a tradição que hoje existe já existia na altura.

- Aqui escreveu parte de “Os Lusíadas”?

- Isso também não se sabe, porque não há um único autógrafo de Camões, mas eu acho que ele nunca deixou de escrever os Lusíadas estivesse onde estivesse.

- Aquando da sua primeira deslocação a Macau, em 2014, visitou a gruta e o busto de Camões. As diferenças para o que ali se encontra hoje são pequenas. Com que impressões ficou do local?

- Tal como hoje se encontram, as lajes com o busto do poeta assinalam uma memória camoniana intensa e comovente. A tradição e também alguns documentos antigos associam aquele lugar à passagem de Camões por Macau. Ora, se o poeta esteve naquele ou noutro lugar, algures na década de 60 do século XVI, é certo que aí pensou e escreveu parte d’ “Os Lusíadas”. Pelo menos nessa fase da sua vida, ele estava sempre a escrever o seu poema. A escrever literalmente ou mentalmente. Não podia deixar de ter os versos a ressoar na sua cabeça. Para além da base histórica que parece ter, aquele lugar tem, por isso, uma força evocativa incomparável.

- Que conhecimento tem sobre o ensino do Português no estrangeiro? Na China, por exemplo?

- Diz-se que há um número crescente de universidades chinesas a desenvolver o ensino do Português, que antes estava confinado a Macau e hoje existe uma multiplicidade. Compreende-se que assim seja, a China tem uma grande presença em África e quer acentuar, há indicadores muito claros de que assim será. Portanto, tem muito interesse.

- Mas há também o inverso. Portugal recebe muitos estudantes chineses que querem aprender e aperfeiçoar o Português…

- Eu falo-lhe especificamente de Coimbra, que é onde vivo e dou aulas. Nós recebemos, mas em outras universidades do país também, contingentes crescentes de alunos que se deslocam a Coimbra para frequentar cursos anuais, já não apenas cursos de férias, para adquirirem proficiência no Português, e quando lhes perguntamos porquê, respondem que depois querem ir para África, para Moçambique, Angola, para o mundo lusófono, que é um mundo com potencialidades económicas enormes. E há muitos alunos de Macau que vão fazer esses cursos.

- Por tudo isso, a relação entre Macau e Coimbra parece forte e duradoura. Isso é uma realidade?

- Posso dizer-lhe que Coimbra sempre teve uma ligação muito forte ao território de Macau, até pela via desportiva, nós tivemos jogadores macaenses, como o Rocha, e depois o filho. Jogaram os dois na Académica de Coimbra e ainda hoje têm, que eu saiba, um restaurante famoso em Coimbra, onde se serve, dizem, a melhor comida macaense. Portanto, Coimbra tem uma relação tradicional com o território de Macau. Entretanto, vai chegar a Macau um vice-reitor da Universidade de Coimbra. O circuito Coimbra - Macau está sempre a funcionar. Está sempre aberto.

Quem é José Augusto Cardoso Bernardes?

José Augusto Cardoso Bernardes, de 66 anos, é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde tem sobretudo regido cadeiras no âmbito da Literatura Portuguesa do século XVI e da Didáctica da Literatura. Foi membro do Conselho Nacional de Educação, tendo coordenado o Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos e o Centro de Literatura Portuguesa. Publicou “O Bucolismo Português”, “Sátira e Lirismo no teatro de Gil Vicente”, “História Crítica da Literatura Portuguesa Vol. II – Humanismo e Renascimento”, “Revisões de Gil Vicente” e “A Literatura no Ensino Secundário”. Assumiu, há pouco mais de um mês, o cargo de presidente da Comissão Nacional de Portugal para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Camões, autopsiado por Aquilino Ribeiro

As comemorações nacionais do V Centenário do Nascimento de Camões deverão constituir uma efeméride de incontestável relevância cultural e cívica. Entre outros acontecimentos já em curso, destaca-se a reedição num único volume da obra de Aquilino Ribeiro, Camões Fabuloso e Verdadeiro (1950), onde procedeu à clarificação de análises deturpadas e ao esclarecimento de situações romanescas para conseguir efeitos de exaltação patriótica e de arrebatamento sentimental.

Aquilino provocou, na altura, uma das polémicas literárias mais ruidosas que marcaram a segunda metade do século XX: pretendeu esvaziar os mitos, os lugares-comuns, as ideias convencionais que se consolidaram, ao longo dos séculos. Capítulo a capítulo foi “varrendo teias de aranha”, “removendo entulhos”, “demolindo túmulos”. Em suma: todo um “romance mal urdido, falso no que respeita à pessoa e destituído de senso quanto à verdade local”. Também era um ataque direto aos intelectuais e aos políticos que zelavam pela continuidade do regime de Salazar, a mais antiga ditadura da Europa. Aquilino não escondeu o objetivo de romper não apenas com “aquilo que se ensinava na escola”, mas desmontar a imagem de um filme de Leitão de Barros, destinado a “inebriar as almas simples e megalómanas dos portugueses”, a fim de exibir um Camões “fidalgo, palaciano, valente, denodado, heróico, belo homem”.

Foi ainda muito mais explícito: Camões Fabuloso e Verdadeiro representava uma oposição frontal às efabulações publicitárias dos que se “sentam à mesa do Círculo Eça de Queiroz, hóspedes de António Ferro” para fazerem em Portugal e, sobretudo, no estrangeiro, a propaganda política e cultural do salazarismo que fabricava um Camões, tão diferente do que fora, pois “viveu pobre e miseravelmente e assim morreu, segundo a legenda gravada na sua sepultura”.

As três cartas

Aquilino declarou, sem margem de equívocos, que não se alicerçara em materiais inéditos. Limitara-se a “ler com olhos atentos” o que escreveram Teófilo Braga, José Maria Rodrigues, Willerm Stork (traduzido por Carolina Michaelis), Hernâni Cidade e José Régio. A principal fonte – assim o declarou – residiu nas “três cartas particulares que restam do poeta”. “Não foi empresa fácil” – confessou – “são verdadeiras e intrincadas charadas, naquela forma criptográfica de dizer coisas qui ferait rougir un singe, e porque esse hermetismo era de moda nas letras”.

Desmontou, através de Camões Fabuloso e Verdadeiro, a origem aristocrática da família para retratar o “espadachim de vielas de má nota nas horas vagas, com entrada no paço, tu cá, tu lá com os grandes, amante feliz de umas açafatas, enamorado de outras, estro sempre pronto para glosar um mote, numa palavra um gentil homem pobre, mas invejável”. Examinou, em pormenor, tudo quanto respeitava às primeiras edições d’ Os Lusíadas e à atividade profissional do editor. Salientou algumas questões prioritárias: “o livro sempre foi uma indústria precária em Portugal”. Os nomes celebrados n’ Os Lusíadas e os seus descendentes, na esmagadora maioria “interessavam-se por cavalos, galgos e mulheres e não sabiam cortar letra redonda. Nas escrituras e atos tabelionais assinavam de cruz. O Padre Capelão supria-lhes a ignorância em tudo o que contendia com as necessidades do espírito”. Vivia-se uma época, “propícia à floração das letras”, pois “estava no choço a grande e louca aventura” que terminaria na tragédia de Alcácer Quibir.

Existiam – recorda Aquilino – “54 livreiros com balcão de venda em Lisboa; esta designação compreendia os mestres afins, como cartonadores, brochadores, tendeiros de folhetos de cordel, papeleiros etc. Cada exemplar d’ Os Lusíadas foi taxado à razão de um cruzado, o que era um preço alto, proibitivo, acessível apenas às bolsas endinheiradas”.

Camões optou por António Gonçalves com oficina própria, na Costa do Castelo. Não tinha o prestígio de outros impressores que lançaram obras de personalidades de relevo oficial. Os Lusíadas, publicados em 1572, não incluíram qualquer prefácio ou dedicatória. Apenas se lê na primeira página: “Com privilégio real. Impressos em Lisboa com licença da Sancta Inquisição e do Ordinário: em casa de António Gonçalvez, Impressor”. Outro pormenor comentado até à exaustão pelos investigadores e analisado por Aquilino: a disposição do pelicano, no alto da portada, o pelicano com o bico voltado para a direita de quem olha; na outra edição possível do mesmo ano o pelicano tem o bico voltado para a esquerda.

Vinte mil diferenças

Logo nas primeiras estrofes, verifica-se que houve alterações. Possivelmente erros de impressão ou modificações que o poeta quis introduzir no texto? José Maria Rodrigues (1930) e Gondim da Fonseca (1972) detetaram numerosas gralhas e desacertos. Trinta anos após a morte de Aquilino, numa pesquisa efetuada por David Jackson – professor da Universidade de Yale – ao consultar 34 exemplares d’ Os Lusíadas de 1572 existentes não só em Portugal e no Brasil, mas em bibliotecas públicas e privadas dos Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Espanha, França e Alemanha, encontrou mais de duas mil diferenças. Numa longa entrevista que me concedeu para o Diário de Notícias, David Jackson, concluiu que apesar da colocação do pelicano para a direita ou para a esquerda, houve uma única edição em 1572, possivelmente interrompida, devido a correções realizadas pelo próprio punho de Camões.

Duas censuras

Vivendo Aquilino num regime de censura, que cortava ou proibia indiscriminadamente o conteúdo dos livros, dos jornais e revistas, as peças de teatro e as produções do cinema – tal como no tempo da Inquisição – ocupou-se da atitude dúplice do censor d’ Os Lusíadas, o dominicano Frei Bartolomeu Ferreira que adotou dois comportamentos diferentes: por sua iniciativa ou por ordem da Inquisição. Para a primeira edição, no entender de Aquilino, houve conversações e reajustamentos entre o censor e o autor. No despacho que exarou Bartolomeu Ferreira pode ler-se: “não achei neles (Os Lusíadas) cousa alguma escandalosa, nem contrária à fé e aos bons costumes”.

A propósito das narrativas pagãs, de versos incendiados de exaltação sexual, nomeadamente no Canto IX, relativo à ilha dos Amores, o censor escreveu: “como, isto é, poesia e fingimento, e o autor, como poeta, não pretende mais que ornar o estilo poético, não tivemos por inconveniente ir esta fábula na obra. E por isso me parece o livro digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas”.

Contudo, já depois da morte de Camões, numa segunda censura para a chamada “edição dos Piscos”, publicada no domínio espanhol, no reinado de Filipe I denunciou-se escandalosamente “a mão imperiosa e teologal” do mesmo Bartolomeu Ferreira (...) que “emendou, transcreveu, suprimiu” (...), introduzindo n’ Os Lusíadasversos aleijados e de mau gosto”.

Camões: antes e depois

Aquilino não se cansa de enaltecer “o poeta de sopro universalista e de alma multimoda e eterna”. E também assinalava que, até Camões “nunca a língua fora manejada com aquela agilidade e limpidez, aqueles ritmos de avena culta, com flexões novas, pedidas ao latim, que lhe imprimiram elegância, sem perda de vigor e com ganho de harmonia”. Portanto: estamos perante duas línguas portuguesas – antes e depois de Camões.

Considerava Os Lusíadas o “tombo poético da pátria portuguesa e um monumento à nacionalidade”, “o poema da energia máscula, pagão e sensualista”, tendo inscrito essa energia voluptuosa, e erótica na “ilha dos Amores”. Considerava, ainda, que Luís de Camões nos legou “os sonetos mais admiráveis da nossa língua” e as líricas “que, quanto mais se leem, mais perfume de beleza se exala, daqueles ritmos de ouro e de cristal”.

A obra de Aquilino, agora reeditada, pela Bertrand, num único volume, coordenado por Eduardo Boavida, capa de Álvaro Carrilho e um prefácio da minha autoria, integra um índice onomástico e um índice toponímico, para facilitar a consulta e a leitura deste livro e localizar muitos aspetos primordiais. Os Lusíadas, além da narrativa histórica, geográfica e mitológica, é um exemplo, a todos os títulos notável, da sobriedade e nitidez dos conceitos, sem resvalar na profusão de minudências e futilidades, na exuberância de jogos vocabulares.

Ao contrário de todas as outras epopeias universais, Os Lusíadas oferecem-nos uma visão crítica das situações concretas do quotidiano, que por motivos políticos, religiosos e literários têm sido, voluntariamente, desfigurados. As palavras em Camões têm o poder de dialogar com os outros, de estabelecer as aproximações necessárias para resistir às adversidades, e promover os valores cívicos e culturais a fim de contribuir para a formação de uma consciência coletiva. António Valdemar – Portugal in Blog de São João del-Rei” com “O Figueirense”

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António Valdemar - Jornalista-carteira profissional número Um e investigador;  sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente português para a ABL-Academia Brasileira de Letras-cadeira nº 3



terça-feira, 24 de setembro de 2024

Camões é herói, mito ou símbolo imperialista a abater nos países que falam português

Camões continua vivo nos países lusófonos, onde é herói, mito e também símbolo de um imperialismo, mas reconhecido por quem o ama e odeia e presente nas estantes, nas mochilas escolares, nas letras de fados ou canções hip-hop


Os escritores de língua portuguesa reconhecem o génio de Camões, do Minho a Timor, embora o poeta não tenha o mesmo destaque em todos estes Estados, outrora portugueses. “Camões é entendido como um grande poeta, um grande escritor e, ao mesmo tempo, um aventureiro na vida e na própria literatura”, diz à Lusa o escritor angolano Jorge Arrimar, um confesso admirador deste “poeta intemporal”.

Arrimar reconhece que a apresentação de Camões aos estudantes “nunca foi fácil”, mas acredita que, 500 anos após o seu nascimento, o poeta maior continua a fazer o seu percurso.

No Brasil, Camões é leitura obrigatória e, para muitos, um primeiro contacto com a literatura, segundo a escritora Fernanda Ribeiro, a primeira mulher a vencer o Prémio de Revelação Literária UCCLA-CML, com o livro “Cantagalo”. “Camões é tão entranhado na cultura brasileira, que tem músicas que as pessoas pensam que os versos são de autores, músicos brasileiros, mas estão citando Camões”, disse, exemplificando com o soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”.

Germano Almeida, escritor cabo-verdiano vencedor do prémio com o nome do poeta, lamenta que no seu país Camões não seja “sequer um autor conhecido”.

“Neste momento, Camões não existe e é uma pena”, disse, classificando-o como “uma figura importante, um grande poeta”. “É natural que, no princípio, Camões tenha sido visto como um representante do imperialismo e nunca mais ninguém se lembrou de ver que Camões é realmente importante para o cultivo da língua que precisamos, de facto, de ter em Cabo Verde”, afirmou.

Germano Almeida, que adorou Camões “desde a primeira hora”, diz que sabia “de cor” os Lusíadas, cujas primeiras palavras faz questão de declamar: “As armas e os Barões assinalados / Que da Ocidental praia Lusitana / Por mares nunca de antes navegados”.

Para o escritor guineense Tony Tcheka, “uma coisa é o que os guineenses pensam e sentem e outra coisa é o que o atual poder desenvolve como posicionamento e como prática”.

Considerando Camões como uma “figura grata, que tem de ser devidamente contextualizada e transportada no tempo”, Tony Tcheka lamenta que este e outros poetas não tenham “espaço na escola guineense, nem na vida política guineense”. “A língua portuguesa é tão portuguesa, como é guineense, como é angolana e temos o dever e a necessidade de a preservar, sem complexos. O próprio Amílcar Cabral sempre foi claro nisso. Foi ele que a classificou como a grande herança”, observou.

Em Moçambique, onde Camões viveu, o poeta “é um nome, um arquétipo, é quase uma instituição que se respeita, mas está de alguma maneira nas nuvens”, afirmou o poeta moçambicano Luís Carlos Patraquim.

E acrescenta: “Camões não é aquilo que ficou. O que ficou no imaginário, tanto em Portugal como nos outros países, é o Camões construído pelo Estado Novo. O que é preciso é ler ele mesmo e os contextos de grandes pensadores sobre Camões, como Jorge de Sena”. “Quem está interessado em escrever na língua portuguesa, e sem fantasmas identitários, lendo Camões percebe o que ali está de grande universalidade”, afirma, emocionado, recordando que o primeiro registo da palavra Moçambique aparece nos Lusíadas: “E por que tudo enfim vos notifique / Chama-se a pequena ilha Moçambique”.

Em Portugal, “Camões está presente”, mesmo quando não parece, como disse a escritora Inês Barata Raposo, autora de vários romances infantojuvenis premiados. “Muitas das expressões que nós utilizamos e muitas vezes ouvimos – jogos de palavras, pequenos versos, coisas que ficaram na nossa língua – foram herdadas de Camões e as pessoas muitas vezes não têm essa noção”, afirmou. Esta presença estende-se ainda à música, com vários fados a musicarem as letras do poeta.

A autora não descarta a possibilidade de incluir nas suas obras uma personagem inspirada em algumas das vozes imaginadas e cantadas por Camões, como o velho do Restelo, que simboliza a resistência ao novo.

Para a escritora são-tomense Olinda Beja, em São Tomé sempre existiu “muitíssimo orgulho em falar corretamente a língua portuguesa. Os pais são-tomenses proibiam os seus filhos de falar crioulo, que era considerada uma língua de segunda, terceira ou quarta”.

“Os jovens ouvem falar de Camões, mas não se dá a importância que se dava”, disse, acrescentando: “Fala-se muito mais de uma Alda Espírito Santo, de uma Maria Manuela Margarido, de um Francisco José Tenreiro, do que de um Luís Vaz de Camões”. “A juventude está desmobilizada e o nosso país, de há uns anos a esta parte, tem descurado muito a cultura. A palavra cultura está muito arredada dos eventos”, lamentou.

Camões pode não ter estado em Timor, mas Timor está na obra de Camões, nomeadamente no canto X dos Lusíadas: “Ali também Timor, que o lenho manda / Sândalo, salutífero e cheiroso…”, como recordou o escritor Luís Cardoso. “É impossível falar da língua portuguesa sem falar de Camões”, disse o autor, lembrando que esta foi “uma arma de combate da resistência durante a invasão indonésia”. “À medida que em Timor vamos reconstruindo a língua portuguesa, desbaratada durante a presença indonésia, podemos fazer com que os símbolos máximos desta língua estejam presentes quando falamos da língua portuguesa”, disse.

Macau é “um caso muito especial” no universo camoniano, como sublinhou o escritor Jorge Arrimar que, nascido em Angola, é também um poeta de Macau. No território existe a gruta de Camões, onde se diz que o poeta terminou os Lusíadas, um mito que tem sido alimentado com romagens ao local e ao busto ali erigido.

Autor “muito consumido na Escola Portuguesa em Macau”, Camões é sobretudo valorizado pela comunidade macaense, de origem portuguesa, disse. In “Ponto Final” - Macau


domingo, 1 de setembro de 2024

XII Encontro de Escritores de Língua Portuguesa na cidade da Praia

"Literatura, Liberdade e Inclusão" é o tema que irá assinalar a XII edição do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa que decorrerá na cidade da Praia, de 5 a 8 de setembro, na Biblioteca Nacional de Cabo Verde e no Hotel Trópico.


A abertura oficial contará com a intervenção do Presidente da República de Cabo Verde, José Maria Neves, e o encerramento do ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Augusto Veiga.

A edição deste ano prestará homenagem ao centenário do nascimento de Amílcar Cabral e ao V centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões.

Esta edição contará com a participação dos seguintes escritores:

Angola e Macau - Jorge Arrimar;

Brasil - Domício Proença Filho (vídeo) e Fernanda Ribeiro (vencedora do Prémio de Revelação Literária UCCLA-CMLisboa - Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa 2024);

Cabo Verde - António Correia e Silva, Arménio Vieira, Augusta Teixeira, Cheila Delgado, Comandante Pedro Pires, Daniel Mendes, Germano Almeida, José Luiz Tavares, Mário Lúcio, Nardi Sousa, Paulo Veríssimo e Vera Duarte;

Galiza - Alfredo Ferreiro Salgueiro;

Guiné-Bissau - Tony Tcheka;

Moçambique - Luís Carlos Patraquim;

Portugal - Inês Barata Raposo, Isabel Alçada (vídeo), José Pires Laranjeira e Rita Marnoto;

São Tomé e Príncipe - Olinda Beja;

Timor-Leste - Luís Cardoso.

Programa do XII Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

O Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP) é uma iniciativa da UCCLA e da Câmara Municipal da Praia (CMP), em parceria com a Empresa de Mobilidade e Estacionamento da Praia (EMEP).

Poderá consultar as edições anteriores aqui. UCCLA




quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Moçambique - Camões – Centro Cultural realiza 33.º Curso de Literaturas em Língua Portuguesa

Entre os dias 16 e 19 de Setembro, das 17h30 às 19h30, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo vai realizar o 33º Curso de Literaturas em Língua Portuguesa.


O Curso de Literaturas é a iniciativa cultural mais antiga do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, realizada em parceria com a Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), que em edições anteriores trouxe a Maputo autores como José Saramago e Lídia Jorge, ou, mais recentemente, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, David Machado, Pedro Mexia, Alexandra Lucas Coelho, Joana Bértholo e Lúcia Vicente.

Pretende-se, com o Curso, promover a leitura e o sentido crítico dos leitores, bem como proporcionar um espaço de debate e contacto com escritores ou académicos convidados.

A 33.ª edição do Curso de Literaturas em Língua Portuguesa destaca o quinto centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões, que viveu dois anos em Nampula, numa abordagem transdisciplinar.

O programa do Curso decorre durante quatro dias, em período pós-laboral, e conta geralmente com um grande número de participantes, entre estudantes, escritores e uma comunidade profissional variada. Para esta edição do Curso de Literaturas, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo convidou o escritor português Afonso Reis Cabral.

No dia 16 de Setembro, a abrir o programa do Curso, o convidado Afonso Reis Cabral partilhará a sua reflexão sobre a obra “Sonetos de Luís de Camões, escolhidos por Eugénio de Andrade”, mostrando um lado contemporâneo e transversal da obra do poeta. O dia seguinte, 17 de Setembro, será dedicado aos temas “A dimensão biográfica da poesia de Camões” e “Camões no Ensino Secundário em Moçambique: O que é que dele se sabe hoje?”, pelos docentes da Faculdade de Letras e Ciências Sociais (FLCS) da UEM, José Camilo Manusse e Lurdes Rodrigues.

No terceiro dia do Curso, dia 18 de Setembro, será apresentada uma nova criação alusiva ao tema do Curso, encenada por Rogério Manjate, num momento que terminará com uma partilha do processo criativo do encenador. A finalizar este programa, o dia 19 de Setembro será dedicado à partilha de leituras de Luís Vaz de Camões, pelos dinamizadores e participantes do Curso.

Todas as sessões do Curso de Literaturas em Língua Portuguesa contarão com a moderação de Mélio Tinga.

A participação no 33.º Curso de Literaturas é livre, mas caso se pretenda certificado de participação no Curso, deverá ser feita uma inscrição prévia, entre 26 de Agosto e 6 de Setembro, e assistir a todas as sessões do Curso.

As inscrições poderão ser feitas na Biblioteca do Camões – Centro Cultural Português em Maputo ou nos Centros de Língua Portuguesa da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane e da Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes da Universidade Pedagógica de Maputo. In “O País” - Moçambique


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Turquia - Mas quem é que lê 'Os Lusíadas', afinal?

Sim, foi esta pergunta que fiz a mim mesmo quando estava a traduzir esta epopeia para turco, língua de um país muito distinto de Portugal, nem só pela distância, mas também pela cultura, religião, visão do mundo etc.… Disse por fim: ao menos leio para mim mesmo. Era essa a minha motivação para desafiar-me a fazer este trabalho.

Hoje, nos 500 anos de nascimento do criador desta obra, já fez três anos desde a sua publicação inédita em turco. Houve interesse? Não posso admitir que criou uma onda gigante de interessados. Mas também seria injusto dizer que não criou entusiasmo em camadas literárias. Tornei-me uma pessoa semiconhecida entre setores intelectuais e literários na Turquia, e, sobretudo no mundo da poesia, ganhei amizades muito valiosas da sociedade culta turca, como o poeta Adnan Özer (era amigo de José Saramago), ou o tradutor Ayçin Kantoglu (tradutor da Divina Comédia).

E, quando recebi novas propostas de tradução e edição, sempre ouvi elogios sobre a minha tradução de Os Lusíadas, e até fiquei surpreendido por esta ter chamado a atenção ao nível mais rico cultural da Turquia. Posso garantir que na Turquia, se alguém se descreve como apaixonado de poesia medieval europeia, obviamente já leu Os Lusíadas em turco, sem exceção.

Algum efeito mais em concreto?

Quando se fala de Portugal na Turquia, pela tamanha desinformação social que o mundo hoje em dia encara, não vem à cabeça mais palavras que não sejam: exploração, escravatura, colonialismo num aspeto destruidor e selvagem, ou Cruzadas. Mas acho que este livro deu lugar em língua turca, no mundo do pensamento em turco, a uma nova abordagem sobre a História dos Descobrimentos e a História de Portugal.

Hoje em dia todos sabemos que o colonialismo teve consequências muito más em relação aos Direitos Humanos em África, ninguém nega isso. Mas, em si, o colonialismo já existia antes de os portugueses chegarem à Índia ou ao sudeste da Ásia, através de comerciantes que falavam árabe, fossem eles árabes, persas ou turcos, em formas mais pacíficas, e contribuiu muito para estas terras se desenvolverem também, seja na área de comércio, também nas áreas de integração global e desenvolvimento agrícola. Descobrimentos geográficos ofereceram ao mundo uma visão muito diferente, que antigamente nunca existiu. Acho que precisamos de mais traduções da época em turco para expandir esta visão na Turquia.

E agora? Mais desafios?

O meu caráter sempre me ensinou a esforçar-me por coisas nunca ousadas, tal como os navegadores portugueses. Iniciei a tradução de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, e completei já 30%. Procurei financiamento e não encontrei, e por falta de recursos tive de parar, mas criei um negócio para poder financiar-me a mim mesmo de modo a poder um dia completar também a tradução desta obra. Esperem, talvez saia num dia mais próximo do que se espera! Ibrahim Aybek – Portugal in Diário de Notícias

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Ibrahim Aybek - Tradutor turco a viver em Portugal, autor da tradução de 'Os Lusíadas'
 

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

XII Encontro de Escritores de Língua Portuguesa na cidade da Praia

"Literaturas, Liberdade e Inclusão" é o tema que irá assinalar a XII edição do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa que decorrerá na cidade da Praia, de 5 a 8 de setembro


A edição deste ano será uma homenagem ao centenário do nascimento de Amílcar Cabral e ao V centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões.

O Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP) é uma iniciativa da UCCLA e da Câmara Municipal da Praia (CMP), em parceria com a Empresa de Mobilidade e Estacionamento da Praia (EMEP). UCCLA


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