Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 2 de junho de 2025

China e Portugal são “velhos amigos que compartilham os mesmos ideais”, afirma O Lam

Num discurso proferido na cerimónia de abertura do Fórum dos Think Tanks entre a China e os países de língua portuguesa, a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura defendeu que Macau deve actuar como um “elo de ligação” entre a China e a comunidade lusófona, para além de assumir a responsabilidade de “divulgar ao mundo” as histórias de Macau e da China


A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, assinalou que pretende potenciar o papel de Macau como plataforma de conexão e intercâmbio entre os países de língua portuguesa e a China, consolidando o seu “carácter único” como ponto de confluência das culturas oriental e ocidental.

No discurso de abertura do Fórum dos Think Tanks entre a China e os Países de Língua Portuguesa, que arrancou ontem na Universidade de Macau, a governante começou por recordar um antigo provérbio chinês: “Aqueles que compartilham os mesmos ideais não vêem distâncias como barreiras”. Da mesma forma, e apesar da larga distância geográfica, as “relações amistosas” entre ambos os países perduram desde os “tempos antigos” da Rota da Seda Marítima até aos actuais intercâmbios económicos, comerciais e culturais. “A China e os países de língua portuguesa são velhos amigos e bons amigos que compartilham os mesmos ideais”, sublinhou.

O Lam revelou que a edição deste ano do fórum, subordinada ao tema “Alcançar o consenso sobre o desenvolvimento global, unir esforços para a modernização mundial”, incide em dois tópicos principais: “Partilha de Experiências sobre os Processos de Modernização em Diversos países” e “Visão Conjunta do Rumo para a Modernização”. A intenção da governante é que os debates levados a cabo pelos participantes permitam compreender como alcançar vantagens e benefícios mútuos e, ainda, contribuir para a partilha do “percurso de modernização ao estilo chinês” com os países lusófonos.

“Enquanto testemunha, participante e beneficiária da modernização ao estilo chinês, Macau tem a responsabilidade de divulgar ao mundo a história de Macau e a história da China”, afirmou O Lam. Por sua vez, também o lado chinês está disposto a “adoptar uma postura ainda mais aberta” no aprofundamento das relações com Portugal, nomeadamente nos domínios do comércio e investimento, da investigação académica, da cooperação entre ‘think tanks’ e dos intercâmbios culturais, cada vez mais frequentes.

O estatuto de Macau como ponte entre dois mundos viu-se intensificado no final do ano passado, com a visita de Xi Jinping a Macau e vários discursos em que o Presidente chinês descreveu a região como “uma janela muito importante para o exterior”. A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura considera que o reconhecimento da posição estratégica de Macau acentua a “responsabilidade” do território em assumir-se como um centro de confluência de ideias e união entre diferentes civilizações, como contemplado no princípio “um país, dois sistemas”.

A cerimónia de abertura do Fórum dos Think Tanks decorreu no Centro de Convenções Ho Yin da Universidade de Macau (UM). Para além dos representantes chineses e do Governo da RAEM, o evento reuniu também especialistas e académicos de oito países de língua portuguesa: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e Timor-Leste. In “Ponto Final” - Macau


Portugal - Morreu António Barbedo de Magalhães, um dos principais defensores da causa timorense

Professor Emérito da Universidade do Porto foi uma das principais vozes de defesa da independência de Timor-Leste durante o período de ocupação indonésio daquele território


António Barbedo de Magalhães, Professor Emérito da Universidade do Porto, faleceu aos 82 anos. O também Professor Jubilado da Faculdade de Engenharia (FEUP) foi uma figura incontornável no ensino da engenharia e uma voz forte na defesa da independência de Timor-Leste durante o período de ocupação indonésio no território.

A sua ligação à causa timorense remonta a 1974, ano em que cumpriu o serviço militar em Timor. Já doutorado em Ciências Aplicadas pela Universidade de Ghent, na Bélgica, em 1973, na área da Metalurgia, coordenou o trabalho de uma equipa luso-timorense que elaborou um projeto para a reestruturação do ensino em Timor, com vista a uma eventual independência a médio prazo.

Membro da Comissão para os Direitos do Povo Maubere, da Associação Paz e Justiça para Timor-Leste e da Comissão Organizadora das Jornadas de Timor da Universidade do Porto, além de ter organizado numerosas conferências em Portugal, Alemanha, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Brasil e outros países, é autor de sete livros sobre Timor-Leste, o último dos quais, editado pela Afrontamento em 2007, tem 3 volumes (1000 páginas) e cerca de 10.000 páginas em documentos anexos, sobre a história política de Timor-Leste desde 1942 até 2007.

Em 2017, a Biblioteca da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) acolheu a apresentação pública dos acervos documental e bibliográfico relacionados com a história de Timor-Leste e com a política internacional acumulados ao longo de décadas pelo Professor António Barbedo de Magalhães. A iniciativa promovida pelo Serviço de Documentação e Informação da FEUP surgiu na sequência de um tratamento inicial de preservação do acervo documental realizado no âmbito de um projeto financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

António Barbedo de Magalhães foi condecorado pelo Estado Português (Ordem do Infante D. Henrique) e pelo Estado Timorense (Ordem de Timor-Leste) pelas suas ações em defesa dos direitos do povo timorense. Desde 1989, teve nessas atividades o apoio da Universidade do Porto, a qual representou em múltiplas iniciativas em diversos países, levando a questão de Timor até ao ‘Caucus’ dos Direitos Humanos do Congresso Americano.

A pedagogia como base no ensino da engenharia

António Barbedo de Magalhães começou a lecionar no Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) em 1968, ano em que terminou o curso. Antes disso, foi membro da Comissão Instaladora da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP), que nunca conseguiu legalizar-se durante a vigência do Estado Novo. Formou-se em Engenharia Mecânica, em julho de 1968, com 17 valores, apesar de ter trabalhado durante parte do curso como desenhador e, depois, na fundição de uma empresa metalomecânica.

Doutorou-se em 1973, na área da Metalurgia, com a Máxima distinção. Foi professor da FEUP até à sua jubilação, quando fez 70 anos, em fevereiro de 2013, e diretor de um centro de investigação e apoio à indústria de fundição, do INEGI (instituto de interface entre o Departamento de Engenharia Mecânica da FEUP e a indústria), criado em 1986 quando era diretor do DEMec.

Autor de cinco patentes de invenção na área das tecnologias da fundição, propôs em 2004 uma componente pedagógica inovadora na FEUP, de projetos liderados por estudantes e realizados por equipas multidisciplinares de estudantes de diferentes cursos e idades, podendo incluir alunos do ensino secundário. Estes projetos, com a designação de PESC (Projetar, Empreender, Saber Concretizar), envolveram centenas de estudantes e dezenas de professores da FEUP e numerosas pessoas ligadas a empresas e organismos públicos. Em 2008 estes projetos interdisciplinares foram generalizados a toda a Universidade do Porto, com a designação de Projetos Lidera e em 2008/09 envolveram mais de 450 estudantes, dos quais cerca de 80 do ensino secundário.

Dirigiu o Programa Doutoral em Segurança e Saúde Ocupacionais da U.Porto, fruto da colaboração de 12 das 14 faculdades da Universidade do Porto, e do qual resultaram, em dois anos, mais de 100 publicações dos respetivos estudantes.

Ciclo de Debates “Novos Paradigmas”

Em 2010, com mais dois colegas da Faculdade de Engenharia, Rui Azevedo e Alcibíades Guedes, Barbedo Magalhães propôs a realização semestral de debates sobre “Novos Paradigmas” sobre os temas mais diversos. Entre março de 2012 – data em que foi lançado publicamente o seu e-book «A evolução dos modelos educativos e a formação de engenheiros-cidadãos para o mundo» – e finais de 2016 grande parte destes debates teve como tema central a Educação.

Na sequência destas iniciativas, foi criada, a Rede para o Desenvolvimento de Novos Paradigmas da Educação (RedeNPEdu), mediante um Memorando de Entendimento, com sede na Faculdade de Engenharia.

O funeral de Barbedo Magalhães realizou-se na passada quinta-feira, dia 29 de maio, na cidade do Porto. Universidade do Porto


UCCLA - Conferência “Desafios do Emprego”

No âmbito do Ciclo de Conferências “Desafios Atuais da Imigração Lusófona: Portugal e União Europeia”, vai ter lugar, no dia 11 de junho, às 14h30, no auditório da UCCLA, a conferência surdinada ao tema “Desafios do Emprego”.


Esta conferência - moderada pelo Professor Doutor Pedro Gois, da Universidade de Coimbra - contará com as intervenções de:

- Professor Doutor Bernardo Sousa (Garantia Jovem);

- Professora Doutora Cátia Batista (Nova SBE);

- Dra. Ana Paula Costa (Casa do Brasil);

- Dra. Mariana Hancock (CEPAC - Centro Padre Alves Correia).

Estas conferências, organizadas pela Universidade de Lisboa e pela UCCLA, pretendem ser um espaço de diálogo e partilha de experiências, promovendo uma reflexão crítica sobre as dinâmicas da imigração no espaço lusófono.

A entrada é livre.


domingo, 1 de junho de 2025

Brasil - Falece Evanildo Bechara, um dos maiores gramáticos do país

A nossa comunidade linguística perdeu um de seus mais brilhantes expoentes com o falecimento do professor Evanildo Bechara em 22 de maio de 2025, aos 97 anos, no Rio de Janeiro. Bechara deixou um legado indelével no estudo e ensino da nossa língua, sendo reconhecido como “o maior especialista em língua portuguesa, com fama que ultrapassa nossas fronteiras”, nas palavras de Merval Pereira, presidente da Academia Brasileira de Letras.



A sua produção intelectual foi vasta e influente. A “Moderna Gramática Portuguesa”, publicada pola primeira vez em 1961, alcançou as 37 edições, sendo continuamente atualizada polo autor. Outros trabalhos fundamentais incluem a “Gramática Escolar da Língua Portuguesa” (2001) e “Lições de Português pela Análise Sintática” (2004), obras que formaram gerações de estudantes e professores.

Bechara teve uma atuação académica destacada como professor titular e emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense, além de ter lecionado em prestigiadas instituições internacionais como as universidades de Coimbra (Portugal) e Colónia (Alemanha). A sua abordagem combinava o rigor científico com a acessibilidade didática, sempre enfatizando a importância de relacionar pesquisa linguística com o ensino prático.

Atuação institucional e reconhecimentos

Eleito para a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras em 2000, Bechara assumiu a posição em 2001 e tornou-se uma figura central na instituição. Exerceu funções como Diretor Tesoureiro e Secretário-Geral, além de presidir a importante Comissão de Lexicologia e Lexicografia, responsável por obras de referência como o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp).

Como representante brasileiro nas negociações do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, Bechara desempenhou um papel fundamental na padronização da escrita nos países lusófonos. A sua atuação nesse processo refletia a sua visão de uma língua unificada na sua diversidade.

Ao longo da carreira, recebeu inúmeras honrarias, incluindo o título de Doutor Honoris Causa pola Universidade de Coimbra e a medalha Oskar Nobiling da Sociedade Brasileira de Língua e Literatura. Foi membro de prestigiadas instituições como a Academia Brasileira de Filologia, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Galega da Língua Portuguesa.

Relação com a Galiza e visão sobre a língua

Ainda que a sua principal contribuição foi no campo da gramática brasileira, Bechara manteve um diálogo frutífero com pessoas estudiosas galegas que defendem a reintegração do galego no universo lusófono. Em 2008, como representante da Academia Brasileira de Letras, participou ativamente do lançamento da Academia Galega da Língua Portuguesa em Santiago de Compostela, onde proferiu palavras marcantes: “do ponto de vista linguístico, o galego é uma vertente desta realidade da língua histórica que se chama língua comum […] o galego nunca se separou do português”

Esta participação não foi isolada. Bechara já colaborava com o movimento reintegracionista galego desde as décadas finais do século XX, tendo participado de congressos e publicado na revista Agália da Associaçom Galega da Língua (AGAL).

A morte de Evanildo Bechara encerra um capítulo nos estudos linguísticos no Brasil, mas o seu legado permanecerá através das suas obras fundamentais e das gerações de professores e pesquisadores que formou. Como afirmou a Academia Brasileira de Letras em nota oficial: “Nos despedimos de um dos maiores nomes da educação e da linguística brasileira, mas o seu legado segue imortal”. In “Portal Galego da Língua” - Galiza


Luxemburgo - Joaquim Prazeres: o rosto do ensino português abre o livro

Depois de 28 anos no Grão-Ducado, Joaquim Prazeres reformou-se. A partir do Luxemburgo, coordenou o ensino da língua portuguesa em todo o Benelux. Conversa na hora da despedida, para avaliar as vitórias que alcançou, tudo o que falta fazer e esta capacidade única que a educação tem de mudar vidas

Em 2017, parecia mesmo que o caldo estava entornado. É isso que Joaquim Prazeres, 67 anos, recorda quando se lhe pergunta o momento mais difícil que viveu em quase três décadas como professor e coordenador do ensino do português no Luxemburgo. “Na altura houve um acordo entre os dois países e a nossa língua deixou de fazer parte do sistema integrado. Ou seja, ficou de fora do horário escolar e passou a ser uma atividade complementar. Isto afastou muita gente da vulgarmente chamada ‘escola portuguesa’, até porque os pais, geralmente de classes trabalhadoras - e muito trabalhadoras, com horários difíceis -, não tinham na maior parte das vezes disponibilidade para levar as crianças de um lado para o outro”, conta agora. “Foi um retrocesso enorme e um golpe duro para o trabalho que estávamos a tentar erguer.”

O caso foi badalado na altura e teve eco ao mais alto nível. Em visita oficial, aliás, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa acabaria por apelar à comunidade que insistisse e inscrevesse os seus filhos no ensino do português. “Foram as próprias escolas que passaram a escolher os currículos e as disciplinas que queriam. Então nós tínhamos de tentar organizar-nos ao mesmo tempo com seis ou sete estabelecimentos de ensino diferentes para poder dar aulas a todos os alunos inscritos. Isto acabou por reduzir imenso a participação”, diz com um encolher de ombros, e, nota-se sem sombra para dúvidas, esta é uma frustração que ainda carrega nos ombros.

“Quando temos tanta gente que já fala português neste país, era bom ver as pessoas investirem no potencial delas mesmas e desenvolverem a escrita. Porque isso só as vai beneficiar.”

Mas Joaquim Prazeres é lutador pela sua causa – e mesmo depois da reforma recusa-se a baixar os braços. Ou os argumentos. “Aqui no Luxemburgo já vamos na terceira geração da emigração”, diz Prazeres. “Temos números que nos dizem que 28 por cento da população fala a língua de Camões em casa. Mas às vezes há esta ideia de que basta o português de casa, não é preciso muito mais do que isso. A aprendizagem da escrita, da gramática, é importantíssima, até porque o português é uma língua de futuro.”

Fala do papel do português no mundo. Tem 300 milhões de falantes e é uma das línguas mais falada do planeta. Alguns registos apontam-na como a quinta língua mundial, atrás do inglês, do mandarim, do espanhol e do hindi. Outros colocam-na na oitava posição, atrás do árabe e do francês. “Seja como for, é um património vasto, com um potencial incrível para abrir portas, criar pontes, desenvolver negócios”, sublinha Prazeres. “Quando temos tanta gente que já fala português neste país, era bom ver as pessoas investirem no potencial delas mesmas e desenvolverem a escrita. Porque isso só as vai beneficiar.”

Nos anos que comandou os destinos do ensino da língua, tentou fazer perceber a importância do português ao Grão-Ducado. Dentro da comunidade portuguesa, mas fora dela também. Orgulha-se de ver agora muitos professores do sistema educativo luxemburguês a quererem aprender a língua, para melhor ensinarem os seus alunos – algo que o jornal Contacto recentemente reportou. Orgulha-se de ver o interesse que cresce nos estrangeiros, mesmo nas crianças. Vitórias suas, também. E, mesmo que o cartão de cidadão diga o contrário, Prazeres tem um esgar de infância, de quem se atreve a dar alimento aos sonhos. “Há muito trabalho para fazer”, diz quase em tom de aviso.

Gostaria de ver o português ser ensinado como língua estrangeira, com o mesmo estatuto que o inglês, por exemplo. Gostaria que várias disciplinas pudessem ser lecionadas na língua de Camões, como as ciências ou a cidadania, de forma opcional. E se há hoje escolas internacionais no Luxemburgo com sistemas educativos em francês e inglês porque não criar uma instituição em português, também? “O Luxemburgo é um dos países do mundo onde o português não é língua oficial, mas mais gente o fala e aprende. Os espanhóis fizeram da sua língua uma prioridade política, defendida pelas altas esferas. E está na altura de nós fazermos o mesmo”, atira para cima da mesa, bebendo um golo de água para aclarar a garganta. A conversa ainda agora começou.

Grandes mudanças na comunidade lusófona

Quando fala da comunidade portuguesa no Grão-Ducado, Joaquim Prazeres não consegue deixar de se emocionar. “Eu já tinha trabalhado em França e Espanha como professor de português e, quando cheguei ao Luxemburgo, percebi imediatamente que a emigração aqui era diferente. Era uma comunidade mais fechada do que é hoje, porque provavelmente ainda havia pouca gente de segunda geração. Mas tinham uma grande vontade de aprender”, conta. “E sobretudo de aprender português.”

Os miúdos que apanhou por aqui, no final dos anos 1990, provinham normalmente de duas circunstâncias. “Ou tinham nascido em Portugal e tinham algumas bases da língua ou então tinham nascido aqui e as famílias tinham o desejo de voltar a casa, de levar os miúdos para fazerem o liceu e a universidade lá em baixo”, explica. “Mas uma coisa era certa. Todas as famílias aqui percebiam que a educação era uma ferramenta importantíssima para as gerações seguintes. Para saírem do círculo de trabalho duro e sacrifício a que eles, os pais e os avós deles, tinham estado votados.”

Em 1998 havia 40 professores de português no Luxemburgo. No ano letivo 2005/06, atingiu-se o pico: eram 54. “Hoje há 29, e isso também se explica pelas mudanças estruturais que houve na comunidade”, avança o antigo coordenador de ensino. “É que foram nascendo segundas e depois terceiras gerações, que foram integradas no sistema luxemburguês. Falam em casa com os pais, mas comunicam entre si numa mistura de vários idiomas. E, seja porque as escolas não ajudam ou os pais não promovem, não têm o mesmo interesse em aprender verdadeiramente a língua portuguesa.”

Não será também isso reflexo de uma má promoção do lado português? “Sim, também. Tivemos embaixadores que não estavam interessados na defesa estrutural do idioma, os sucessivos governos também desenvolveram muitas políticas desadequadas e desligadas da realidade a partir de Lisboa. Mas, também acho natural que haja uma certa dispersão da comunidade, à medida que ela cresce, que têm filhos e netos aqui”, e abre os braços para explicar a sua ideia. “O interesse no regresso tornou-se mais longínquo, a integração é mais efetiva, vieram muitas pessoas de outros países que falam português. E com isso os laços, de alguma forma, dispersaram.”

A ligação às terras de origem foi uma das suas lutas, e muitas vezes sacrificou-se pessoalmente para o conseguir fazer. Mas também tem memórias que lhe trazem o sorriso de volta aos lábios, como daquela vez em que levou 75 alunos e dez professores durante uma dezena de dias a Portugal. “Eu estava num liceu de Esch-sur-Alzette e fazia parte do conselho da escola. Então consegui implementar esta ideia, arranjar patrocínios, custear a excursão por quase nada. Mas o mais extraordinário foi que não foram apenas portugueses, foram miúdos de todas as nacionalidades, muitos deles luxemburgueses. O orgulho com que os portugueses mostravam as suas origens aos outros foi qualquer coisa de que nunca me conseguirei esquecer”, avisa, e o fio de voz a cortar-se outra vez.

“A escola tem de ser um espaço de diálogo, de fraternidade. Bati-me por isso toda a minha vida.”

Muitos dos gaiatos nunca tinham viajado de avião. À chegada de Lisboa, deram de caras com uma comitiva do Benfica, que haveria de convidá-los a visitar o estádio da Luz. Depois rumaram uns dias a Setúbal, apanharam o barco para Troia, e os golfinhos vieram cumprimentá-los ao estuário do Sado. “Os garotos foram todos para um lado do barco e quase que virávamos. Tivemos de fazer grupos, ir rodando, mas nada paga ver aqueles rostos tão felizes”, diz com uma gargalhada.

Joaquim Prazeres reformou-se a 1 de fevereiro deste ano. Vinte dias depois, recebeu das mãos do embaixador de Portugal no Luxemburgo, Pedro Sousa e Abreu, as insígnias de Comendador da Ordem de Instrução Pública. O Estado português prestou-lhe homenagem pelos 45 anos que dedicou ao ensino, 39 deles no estrangeiro. Mas, como bom professor, aquilo que o comove verdadeiramente é quando encontra um dos seus antigos alunos e ouve o elogio de ter ajudado alguém a mudar de vida, abrir a cabeça, encontrado luz em estrada de sombras. Não se pode tratá-lo de outra forma que não esta, em letras maiúsculas: Senhor Professor.

Uma vida dedicada à educação

Joaquim Reduto Prazeres nasceu em 1958 na aldeia da Pêga, concelho da Guarda. Era filho de agricultores e neto de comerciantes de gado. A sua terra era de feirantes e artesãos, o que permitia aos pais mandar os filhos estudar. “Era uma circunstância rara naquele tempo, mas em quatrocentos habitantes havia 50 professores ali”, conta.

A capital do distrito era conhecida por albergar um Magistério, “então dizia-se que a Guarda era boa a produzir duas coisas: professores e batatas”, lembra-se ele com mais uma gargalhada. No entanto, no início dos tempos, a vida parecia levá-lo em todas as direções, menos ao ensino. “Quando eu tinha seis anos o mau pai emigrou para França e nós fomos todos atrás dele”, conta. “Os meus primeiros anos de alfabetização foram em Paris. Mas, quando fiz dez, a minha família quis que eu estudasse em Portugal e puseram-me num colégio interno na Guarda. Tinha a quarta classe, fiquei na segunda. Era a atração da escola, o afrancesado”, e volta a rir das memórias.

Lembra-se do 25 de Abril como se fosse hoje. “Naquele tempo era habitual os alunos terem um pequeno rádio nos quartos, para ouvirem música e as notícias. Vieram confiscar-nos isso e impediram-nos de abandonar o colégio”, lembra. “No dia seguinte, vieram os alunos do liceu da Guarda ‘libertar-nos’. Foi uma alegria.” Nos tempos seguintes viu a gente da cidade chegar aos campos, alfabetizar as aldeias, e isso fascinava-o. “Houve muitas crianças que só sabiam pegar numa sachola e agora aprendiam a pegar num lápis, e num instante já sabiam escrever o nome, ler, escrever.”

Nesses tempos percebeu nos professores uma arte que podia mudar vidas. Então concorreu ao Magistério. E entrou. “Havia 600 candidaturas para 90 vagas, os meus pais ficaram muito orgulhosos”, lembra com alguma saudade. Contra todas as probabilidades, Joaquim Prazeres formou-se em 1980 como professor e, desde o primeiro dia, percebeu que ia usar essa arma para conhecer o mundo.

Nos primeiros seis anos esteve em Setúbal, onde ensinou português a adultos. “Tenho muito boas memórias desse tempo, da força daquela gente que lutava contra a pobreza, mas queria aprender. Queriam recuperar as oportunidades que não tinham tido quando eram jovens e isso é qualquer coisa de especial”, diz, dando exemplos concretos. “Havia trabalhadores das salinas que vinham à noite. Havia peixeiras que vendiam na praça e mesmo assim iam de noite estudar, quase sem poderem dormir. Que respeito guardo por aquela gente”, suspira.

Em 1986, abriu um concurso para ensinar português no estrangeiro e ele concorreu para França. Entrou. “Passados 20 anos, voltei a casa dos meus pais. Fiquei numa escola dos arredores da capital, onde vivia gente muito humilde. Trabalhadores da construção civil, da agricultura, das limpezas, com algumas dificuldades de integração. Então comecei a pensar como haveria de ajudar a resolver isso na geração mais nova, como podia ajudá-los a fintar o destino”, e enrodilha os dedos enquanto fala, como se fosse hoje que está a estabelecer o plano.

Então fez nascer uma fórmula que haveria de utilizar, muitos anos mais tarde, no Luxemburgo: levar os miúdos a Portugal. Duas semanas, entre Porto e Coimbra, envolvendo ministérios dos dois países, embaixadas e assistentes sociais, para que ninguém deixasse de ir por falta de fundos. “Foi um sucesso, desde o primeiro dia. Aqueles miúdos, habituados a sentirem-se no fim da linha, sentiam-se assim valorizados, podiam fazer-se valer aos outros da sua cultura. E isso dá resultados diretos de integração.”

Passou sete anos assim, nas escolas dos arredores da capital francesa, até um dia o ministério da Educação reformular o ensino português no estrangeiro e ele perder lugar no sistema. “Concorri novamente e fui parar a Espanha. Estive um ano em Miranda del Ebro, em Castela e Leão, e três em San Sebastian, no País Basco”, diz. No primeiro caso foi dar aulas a crianças de etnia cigana, que viviam em tendas e sem acesso a cuidados básicos de higiene. “Consegui convencer a escola a deixá-los vir meia hora mais cedo, tomarem banho nos balneários, tomarem pequeno-almoço. Depois arranjei roupas, pu-los a falar da cultura cigana, de Portugal, e a integração melhorou”, conta.

Em San Sebastian os problemas eram outros. “Era sobretudo gente que vinha da Póvoa do Varzim para trabalhar na indústria da pesca de arrasto. O grande problema ali era a língua, porque as escolas ensinavam em euskera (basco) e havia um grande sentimento anti-espanhol”, e Joaquim Prazeres põe as coisas em contexto. “Foi entre 1993 e 1996, altura em que o terrorismo da ETA estava no auge. Chegou a haver atentados à porta da escola onde eu dava aulas. Era difícil integrar os alunos portugueses.”

Usou a fórmula do costume: trazer as turmas a Portugal, com miudagem de todas as nacionalidades. Depois ainda teve uma ideia que funcionou às mil maravilhas: organizar umas jornadas multiculturais na escola. As crianças traziam comida, danças, falavam das tradições de cada país e, com isso, comunicavam umas com as outras. “A escola tem de ser um espaço de diálogo, de fraternidade. Bati-me por isso toda a minha vida”, advoga Prazeres.

Em 1998, mudou de ares. Estava na dúvida se haveria de seguir caminho para Genebra ou Luxemburgo, mas a mulher, que já tinha passado por aqui, dissera-lhe que o Grão-Ducado era um lugar adorável. Então veio, sem grandes planos, ao sabor do destino. O resto é história. “Sorte a minha”, diz Joaquim Prazeres, em jeito de despedida. Não, não, Senhor Professor. Sorte a nossa. Ricardo Rodrigues – Luxemburgo in “Contacto”


Baía da Lusofonia – 13.º aniversário

Treze anos é algum tempo para um blogue como o “Baía da Lusofonia” criado sem fins lucrativos e procurando levar artigos escritos em língua portuguesa, nos mais diversos pontos do globo, com o objetivo de os dar a conhecer a outras latitudes.

Estando num planalto de informação, com 120 artigos publicados por mês nos últimos seis anos, o blogue levou à criação de um acervo com mais de 13 mil publicações procuradas diariamente por visitantes de todos os países e territórios do mundo, numa pesquisa que percorre os treze anos do “Baía da Lusofonia”.

Universalidade

Os intentos na sua criação foi de alcançar o maior número de países e territórios, tendo há muito ultrapassado as duzentas origens de visitantes, com a América do Norte, (Canadá, Estados Unidos e México) a corresponder a 67,2% dos visitantes, dois terços. Continuando por regiões a Ásia e Oceânia (Arábia Saudita, Austrália, China, Coreia do Sul, Emirados AU, Filipinas, Hong Kong, Índia, Indonésia, Irão, Israel, Japão, Singapura, Tailândia, Uzbequistão e Vietname) apresenta 14,8% do total de visitantes, seguem-se a Europa (Alemanha, Áustria, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Países Baixos, Portugal, Reino Unido, Roménia, Rússia, Suécia, Suíça e Ucrânia) com 13,6%, a América Central e do Sul (Argentina, Brasil, Equador, Suriname e Venezuela) com 2,7% e a África (África do Sul, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Marrocos, Moçambique, Nigéria, Quénia e Senegal) com 1,7%. Os visitantes dos três principais países lusófonos que mais procuraram o blogue (Portugal, Brasil e Moçambique) apenas corresponderam a 5,2% das visualizações.

Um destes países, o Japão, com visitas consistentes ao blogue “Baía da Lusofonia”, tem a decorrer neste momento a exposição universal Expo Osaka 2025 onde as entidades oficiais portuguesas se esqueceram da língua portuguesa no pavilhão nacional, que levou entre várias reações à situação, o jornalista Pedro Almeida Vieira diretor do jornal Página Um e que passo a citar: “Numa era em que o multiculturalismo é brandido como bandeira, Portugal é dos poucos países que insiste em esconder a sua Cultura para parecer moderno. Mas não há modernidade possível sem memória. E não há presença internacional digna quando se abdica da própria língua — sobretudo quando essa língua é um dos maiores legados da presença portuguesa no Japão.”

Temas

Os temas que percorrem as notícias aqui publicadas são a ciência, na maioria são apenas sinopses e que os dirigentes dos países de língua portuguesa de África reclamam da falta de estudos científicos em português, a cultura, música, literatura, cinema, história, arqueologia, o meio ambiente.

Já falámos há precisamente um ano sobre a ausência da língua portuguesa no domínio da ciência, agora a Presidente do Camões Instituto da Cooperação e da Língua, Florbela Paraíba, veio afirmar e passo a citar: “Queremos aqui ensinar todos os dias um português que permita às pessoas, não só expressarem-se no básico, mas poderem ler livros, poderem escrever poesia ou apresentar peças de teatro ou escrever, que é muito importante também, as suas teses científicas em língua portuguesa.”

Últimos doze meses

O Brasil é o 10.º país com mais visitas, Portugal é o 11.º e Moçambique o 19.º, perfazem 1,6% dos visitantes e são os 3 principais países lusófonos



Nos últimos doze meses o blogue “Baía da Lusofonia teve 521.046 visualizações, uma média mensal de 43.421 visitantes.

Neste período foi de Singapura que vieram mais visitantes, 28,0%, seguiram-se os Estados Unidos 25,3%, Hong Kong 17,0%, Alemanha 5,8%, Áustria 5,7%, México 2,8%, França 2,1%, Canadá 1,8%, Países Baixos 1,6%, Brasil 1,0%, Portugal 0,6%, Israel 0,3%, China 0,2% e Reino Unido 0,2%.

Música

Iniciou-se em 2014 a rubrica musical “Vamos aprender português, cantando”, desde 2016 com uma apresentação regular todos os domingos, com a música apresentada hoje são 520 canções já exibidas e totalizam 26,5% das visualizações no blogue “Baía da Lusofonia”, com uma procura universal coloca em ridículo todos os artistas que procuram a língua inglesa para a sua internacionalização quando a procura por canções em língua portuguesa a nível mundial é extraordinária. Baía da Lusofonia


Sem ti











Vamos aprender português, cantando

 

Sem ti

 

Fiquei à espera de fita na mão

eu queria conclusão, não esta confusão.

Senti no peito

inverno desalento

virei-me para dentro

eu sou o começo.

 

Sem ti

eu vou seguir sem ti

eu vou olhar p’ra mim.

 

Sem ti

eu vou seguir sem ti

eu vou olhar p’ra mim.

 

Ninguém me avisou

que era a revolução

eu queria descansar

e começou a discussão

 

Andava a concordar

p’ra te fazer feliz

mas há um corpo que avisa

tantas noites sem dormir.

 

Cartas em cima da mesa,

à procura de um futuro.

No fundo eu sabia o fado

só não queria fazer o luto.

 

Sem ti

eu vou seguir sem ti

eu vou olhar p’ra mim.

 

Sem ti

eu vou seguir sem ti

eu vou olhar p’ra mim.

 

Virei silêncio p’ra te ouvires

à espera de cada palavra

onde eu respirava, eu respirava.

 

Fui o teto e as paredes da casa

servi o tempo até quando não estavas.

 

Sem ti

Sem ti

 

Sem ti

eu vou seguir sem ti

eu vou olhar p’ra mim.

 

Sem ti

eu vou seguir sem ti

eu vou olhar p’ra mim

 

Sem ti

eu vou seguir sem ti

eu vou olhar p’ra mim

 

Sem ti

eu vou seguir sem ti

eu vou olhar p’ra mim

 

Sinto o medo de te perder

já não sei não saber de ti.

Respiração a falhar

mas se eu não te largo eu perco-me a mim.

 

Eu vou seguir sem ti.

 

Matilde Leite - Portugal