Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Macau - ARTM apresenta exposição com artistas da comunidade lusófona na galeria “Hold On to Hope”

Múltiplas visões no trajecto das origens. A exposição “Traçando Raízes Portuguesas” inaugura este domingo na Galeria Hold On to Hope. Uma organização da ARTM que reúne renomados artistas da comunidade lusófona, numa celebração à identidade partilhada através da língua e das tradições. Parte do programa de eventos e actividades do “Junho, Mês de Portugal” dará início à sua cerimónia de abertura às 16h na Vila de Nossa Senhora, em Ká-Hó


A Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau (ARTM) apresenta uma nova colecção de obras, de artistas residentes em Macau, com ascendência portuguesa ou com ligação à comunidade lusófona. A exposição leva o nome “Traçando Raízes Portuguesas” e pretende divulgar as diferentes visões dos artistas sobre esta identidade e a relação que têm com o espaço em que convivem, o território multicultural que é Macau.

O projecto “Hold On to Hope Project” tem vindo a organizar múltiplas intervenções culturais e projectos sociais no espaço da antiga leprosaria de Ká-Hó. As várias casas em estilo colonial, em tempos, acomodaram a primeira instituição na Ásia direccionada ao tratamento de vítimas de lepra, sob o sistema médico ocidental, estabelecida em 1568 por Melchior Carneiro. Após a restauração das cinco casas amarelas, bem como da Igreja da Nossa Senhora das Dores, os novos espaços encontram-se agora abertos ao público para disfrutarem da loja, café e galeria, organizadas pela ARTM.

A presente exposição será inaugurada na galeria que leva também o nome de “Hold On to Hope”. Marca a 34.ª exposição organizada pela ARTM e reúne obras de arte originais de 11 artistas de Macau, com diferentes estilos e técnicas. Apresentam a diversidade cultural de Macau através da expressão pessoal de cada artista, sobretudo na sua identificação com a comunidade lusófona e na partilha das tradições e características antropológicas dos diversos países que fazem parte da comunidade mundial dos falantes de língua portuguesa.

A celebração da diversidade das várias comunidades será o tema que une as obras desta exposição, que convida o público a “mergulhar na rica tapeçaria cultural que entrelaça a ascendência portuguesa e o espírito vibrante desta única parte do mundo”, descreve a associação. A exposição será “um testemunho da conexão duradoura entre o povo português e a encantadora cidade de Macau”.

Por entre os vários artistas que participam nesta exposição, está a artista multidisciplinar Tchusca Songo, que é natural de Cabinda, em Angola, e vive em Macau desde 2006. Com formação em Design de Produto pela Universidade de São José, Tchusca Songo destacou-se na comunidade artística de Macau após dar início à sua saga contra o desperdício e a poluição encontrada no território. Tem vindo a realizar um trabalho de registo na colecta de lixo, principalmente plásticos, que são espalhados pelas praias e rochedos das costas de Coloane. Numa iniciativa que colabora com os objectivos de criar um planeta mais sustentável, Songo reutiliza os materiais encontradas na produção das suas obras de arte. Em Outubro de 2022 inaugurou, nesta mesma galeria da “Hold On to Hope”, uma exposição com várias obras, de tamanho considerável, todas feitas com redes, plásticos, madeiras e objectos colectados nas costas de Macau.

A lista de artistas em exibição também inclui António Monteiro, Catarina Cottinelli da Costa, Cristina Vinhas, Francisco Ricarte, Gonçalo Lobo Pinheiro, Isabela Lobo, Lúcia Lemos, Luísa Petiz, Raul Martins e Ricardo Meireles.

Esta exposição também serve como mais um elemento na comemoração ao 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, e está incluída no programa “Junho, mês de Portugal na RAEM”.

A abertura está marcada para as 16h, do dia 2 de Junho, na Galeria da Hold On to Hope, na Vila de Nossa Senhora em Ká-Hó, e estará patente até 30 de Junho. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”


terça-feira, 28 de maio de 2024

Angola - Ndaka Yo Wiñi apela ao resgate dos valores ancestrais na música

O músico Ndaka Yo Wiñi apelou, domingo, em Luanda, durante a emissão do programa “Conversa à Sombra da Mulemba”, da Rádio Mais, ao resgate dos valores ancestrais nas composições musicais, sobretudo as cantadas nas línguas nacionais

O artista disse que a música é oriunda da oralidade, da acção humana e do movimento, por isso tem na ancestralidade um valor divino e sagrado, e promete continuar a manter a matriz africana nas suas canções. 

"As línguas nacionais devem fazer parte da nossa composição musical enquanto artistas, porque a música tem uma capacidade de educar, por ser uma arma de construção social, e as escolas não chegam perto”, disse.

Para continuarmos como bons e verdadeiros africanos, prosseguiu, é necessário a prática dos valores, com base na nossa essência. A língua não é apenas uma ferramenta de comunicação, mas é sobretudo um grande instrumento para dinamizar a economia, o intercâmbio entre os povos e as estruturas políticas e sociais.

"Tenho a responsabilidade de investigar para confirmar e ter noção do que estou eu a cantar, e as minhas investigações são predominadas por quatro elementos, com realce para cantos, contos, provérbios e migração dos sotaques. As migrações dos sotaques permitem às pessoas serem tocadas, mesmo que não compreendam o que se canta”, disse.

Ndaka Yo Wiñi considera-se um contribuinte cultural, etno-musical e dinamizador das sociedades. O músico disse, igualmente, que o que está em falta actualmente no continente africano "é a prática dos nossos valores em exercício” diário.

O músico afirmou que não se pode chegar à ancestralidade sem conseguir tocar outrem, porque jamais se fala da ancestralidade e da arte do ponto de vista etno-musical sem que se conheça as origens, por isso, é preciso valorizar o futuro. "O meu conceito sobre o futuro é o passado, porque a maior parte das vezes as pessoas regressam ao passado”, realçou.

Quarteto de artistas participam no concerto

Ndaka Yo Wiñi avançou que tem na agenda a realização de um concerto, denominado "Lundongo”, marcado para o último fim-de-semana do mês de Junho, na Casa de Arte de Talatona, que vai contar com a participação do quarteto de artistas Filipe Mukenga, Mito Gaspar, Ângela Ferrão e Branca Celeste.

Branca Celeste, disse Ndaka, é uma jovem que se tem destacado nos últimos tempos, brindando o público com a txianda, por isso, merece todo o apoio para se firmar no mercado musical angolano. Para cada dia de espectáculo, vão actuar dois convidados. Armindo Canda – Angola in “Jornal de Angola”

Angola - Mais um diamante gigante extraído do Lulo

A Lucapa Diamond Company, que gere a mina do Lulo com a Endiama e a Rosa & Pétala, divulgou mais uma descoberta de peso: um diamante de 195 quilates, o quarto acima dos 100 quilates a ser recuperado no Lulo este ano

Este diamante tipo IIa de 195 quilates é o sexto maior e o 44º diamante com mais de 100 quilates a ser recuperado nas operações aluviais do Lulo desde que a mineração começou, em 2015.

A mina do Lulo, na Lunda Norte, é conhecida em todo o mundo pelas descobertas de diamantes gigantes de grande qualidade desde que abriu, destacando-se o mais importante de sempre desde que há indústria diamantífera em Angola, uma enorme pedra com 404 quilates, em 2016, que foi vendido à então joalharia Grisogono, de Isabel dos Santos, por 16 milhões USD, tendo, depois sido transformado numa joia rara de 163 quilates, que valeu em leilão da Christie"s 37milhões USD.

Mas além deste "colosso" de 404 quilates, o Lulo foi ainda responsável pelos cinco maiores diamantes alguma vez extraídos em solo nacional, todos acima de 200 quilates. In “Novo Jornal” - Angola


Suíça – Investigadores criam chocolate mais saudável e sustentável

Investigadores do Instituto Federal de Tecnologia ETH Zürich desenvolveram um novo tipo de chocolate que é mais sustentável e mais rico em nutrientes do que os métodos de produção convencionais, conforme um estudo publicado


Os investigadores da ETH Zürich substituíram o açúcar granulado no seu chocolate por partes do fruto do cacau que não são usadas no chocolate convencional. Eles apresentaram a nova receita num estudo publicado na revista especializada Nature Food.

Além das sementes de cacau, a polpa e as partes da casca da fruta também são encontradas no chocolate, explica o instituto num comunicado sobre o estudo.

Os investigadores transformaram a casca dos grãos de cacau em pó, que misturaram com a polpa para fazer uma geleia. Com essa geleia extremamente doce, os pesquisadores substituíram o açúcar que normalmente é adicionado.

O chocolate de laboratório contém mais fibras e menos ácidos gordos saturados do que o chocolate normal, o que o torna mais saudável, segundo o estudo. Os pequenos agricultores também poderão beneficiar, de acordo com a ETH. Eles poderão diversificar a sua linha de produtos e aumentar o seu rendimento usando mais partes do fruto do cacau.

De acordo com a ETH, encontrar a receita perfeita para o chocolate de cacau não foi fácil para os investigadores. Como o excesso de suco obtido da polpa faz com que o chocolate se aglomere, a falta dele faz com que não seja doce o suficiente.

Por isso, no laboratório, os cientistas tiveram que testar sistematicamente a consistência das diferentes composições.

As experimentações mostraram que é possível adicionar no máximo 20% de geleia a um chocolate, o que corresponde à doçura de um chocolate com cerca de 5 a 10% de açúcar. Para fins de comparação: 30 a 40% de açúcar é adicionado ao chocolate amargo convencional.

No entanto, ainda levará algum tempo até que o chocolate possa ser comprado nas lojas. Primeiro, toda a cadeia de valor deve ser concluída, explicou a ETH. Mas um primeiro passo já foi dado: a receita do chocolate de frutas de cacau foi patenteada pela ETH. In “Swissinfo” - Suíça


Portugal - iUP25k premeia “farinha funcional” que vai mudar a vida dos diabéticos

O projeto FarFun, que envolve uma equipa de investigação multidisciplinar, venceu a 10.ª edição do Concurso de Ideias de Negócio da Universidade do Porto


São mais de 530 milhões de pessoas que vivem com diabetes em todo o mundo. Esse número é particularmente preocupante se visto na perspetiva de “em 2045, um em cada oito adultos sofrerá de diabetes”. Um cenário que inspirou a equipa FarFun, vencedora da 10ª edição do iUP25k – Concurso de Ideias de Negócio da Universidade do Porto.

Regra geral, quem sofre de diabetes deve seguir uma alimentação mais restrita e tem de evitar ou reduzir o consumo de muitos alimentos que apreciam. Apesar de o pão ser um dos alimentos mais consumidos em todo o mundo, quem sofre de diabetes tem a recomendação de reduzir a sua ingestão devido à ocorrência de picos de açúcar no sangue que o pão provoca. E isso “tem um impacto negativo na qualidade de vida e na autoestima”, referem as mentes por trás do FarFun, até porque as opções alimentares atualmente disponíveis para diabéticos ainda são escassas e a maioria delas consiste “apenas numa redução dos açucares adicionados ou na sua substituição por adoçantes naturais ou sintéticos”. Ou seja, não são ideais e não resolvem o problema de forma plena.

E é com base nessa premissa que surge o projeto FarFun, resultado de uma colaboração multidisciplinar entre várias entidades.

“É uma combinação de cereais (trigo, centeio, milho) com um ingrediente bioativo obtido em algas marinhas, que resultará numa farinha funcional para a produção de pão adaptado às restrições alimentares dos diabéticos”, explica a equipa constituída pelos investigadores Fátima Fernandes, da Faculdade de Farmácia da U.Porto (FFUP) e do LAQV@REQUIMTE, Graciliana Lopes (CIIMAR), Mariana Barbosa (UCIBIO/NOVA Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa), Ricardo Cardoso (FEUP) e Patrícia Valentão (FFUP/LAQV@REQUIMTE).

Os cientistas acrescentam ainda que este ingrediente não é exclusivo para alimentação de quem sofre com esta patologia, sendo também indicado para “quem evita o consumo de pão por questões de peso corporal”. A mais-valia desta inovadora farinha funcional é a sua capacidade de “inibir a absorção de açúcares, evitando a ocorrência de picos de glucose que acontecem com o consumo do pão tradicional”, referem.


A equipa encara o primeiro prémio no iUP25k – que inclui um valor monetário de 3000 euros, um período de pré incubação na UPTEC e consultoria de empreendedorismo – como o reconhecimento do potencial da ideia para a criação do seu negócio. “Os prémios serão fundamentais para nascermos enquanto empreendedores”, referem.

Os próximos passos da FarFun, a curto prazo, são “consolidar parcerias já existentes, procurar investidores e concorrer a programas de financiamento”.

Organizado pela U. Porto Inovação desde 2010, o iUP25k tem como grande objetivo o de promover o surgimento de novas iniciativas empreendedoras na U. Porto e assegurar vantagens àqueles que querem valorizar o conhecimento gerado na instituição.

“Este concurso é o que nós, desde sempre, queremos fazer na Universidade do Porto: trazer o conhecimento e a investigação para mais perto das empresas, dos produtos em concreto e da sociedade em geral”, concluiu Pedro Rodrigues.

Esta edição do iUP25k conta com o apoio da Caixa Geral de Depósitos, novo parceiro bancário da U. Porto, e da UPTEC. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 27 de maio de 2024

Portugal - Universidade de Coimbra avalia impacto ambiental do ciclo de vida de diferentes tecnologias de motores elétricos

Um grupo de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) está a avaliar o impacto ambiental do ciclo de vida de diferentes tecnologias de motores elétricos.

Até ao momento, os resultados obtidos mostram que os motores síncronos de relutância (SynRM) com eficiência IE5 (maior nível de eficiência normatizado) apresentam uma maior eficiência operacional, mas têm maiores impactos ambientais na fabricação.

«Esta questão deve-se fundamentalmente a duas possibilidades: a primeira, é a utilização de mais materiais para a redução de perdas, e a segunda, é pela utilização dos materiais específicos, como os ímanes permanentes de Neodímeo-Ferro-Boro. Para a extração e processamento de neodímio os impactos são elevados, tanto na terra como na água», revela Danilo de Souza, aluno de doutoramento do Institute of Energy and Environment (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), Brasil, de Erasmus no Instituto de Sistemas e Robótica (ISR) da FCTUC.

De acordo com o estudante internacional, «os motores síncronos de ímanes permanentes (PMSMs) apesar de serem os mais eficientes, têm um impacto ambiental mais significativo, especialmente no fabrico e eliminação, devido à extração de metais de terras raras e aos desafios da reciclagem».

Um dos principais objetivos do projeto passou por avaliar os impactos ambientais do ciclo de vida de diferentes tecnologias de motores elétricos, comparando motores de gaiola de esquilo de indução (SCIM), que representam aproximadamente 95% dos motores utilizados na indústria, com eficiência IE3 (nível mínimo de eficiência permitido), motores SynRM e PMSM, com eficiência IE5. 

Desta forma, explica o investigador, «tentámos compreender os impactos ambientais destas tecnologias, desde a extração de matérias-primas, passando pela produção, pela etapa mais impactante, que é eficiência energética do uso, até à fase de fim de vida, sendo considerado o descarte ou os cenários de reciclagem. Tipicamente, analisa-se apenas a etapa de uso, acabando por se negligenciar as demais. Portanto, esta investigação acaba por contribuir para que esta questão seja ultrapassada», acredita.

Além disso, este projeto destaca ainda a necessidade de considerar os impactos ambientais na seleção de tecnologias para sistemas de acionamento de carga, reforçando a eficiência e a sustentabilidade ambiental como critérios relevantes em todas as etapas da vida dos motores elétricos.

«Isto é crucial para promover a adoção de produtos energeticamente eficientes e sustentáveis no mercado europeu, alinhando-se com as metas de eficiência energética e a redução de emissões de gases de efeito estufa», conclui.

Esta investigação contou com a participação ativa da FCTUC, tendo sido orientada por Aníbal Traça de Almeida (ISR), e apoiada pelos investigadores João Fong (ISR) e Carlos Hernandez, do Centro para a Ecologia Industrial (CIE-FCTUC). Universidade de Coimbra - Portugal


Raquel Naveira: crônicas que se avizinham da poesia

Em seu novo livro, a autora reúne textos que primam pela sensibilidade e pela emoção

                                                                                                            

                                                          I

Se para o professor Massaud Moisés (1928-2018) “a crônica oscila entre a reportagem e a literatura, entre o relato impessoal, frio e descolorido de um acontecimento trivial, e a recriação do cotidiano por  meio da fantasia”, como se lê em A criação literáriaprosa II (São Paulo, Editora Cultrix, 2015, p.105), o livro Manacá (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2021), de Raquel Naveira (1957), não só preenche todos esses requisitos como vai além. Reúne crônicas que se avizinham da poesia, reconstituindo passagens e experiências de uma vida multifacetada, sem perder o lirismo que é a qualidade inata de todo grande poeta. E que a colocam entre os melhores prosadores da literatura brasileira de hoje.

Pantaneira, a cronista mostra-se indelevelmente apegada à flora e a fauna, como o leitor pode intuir a partir do título da obra, Manacá, como deixa claro na crônica de abertura do livro. Trata-se de uma “planta do cerrado, de terra árida, de beleza primitiva”, que tem sido reverenciada por muitos poetas, como Fagundes Varela (1841-1875) e Mário de Andrade (1893-1945), e artistas, como as pintoras Tarsila do Amaral (1886-1973) e Anita Malfatti (1889-1964), e que ainda pode ser vista não só no Pantanal e em outras regiões do Centro-Oeste como na Serra do Mar, entre a cidade de São Paulo e o Litoral, apesar do avanço do agronegócio e suas mazelas.

A partir daí, a cronista imagina o que poderia ter sido uma reunião entre esses e outros poetas e artistas na casa do também poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), acontecimento que poderia ter sido o embrião de um salão que haveria de ser o estopim da Semana de Arte Moderna de 1922.   

Dividida em seis seções – Vegetais, Criaturas, Reminiscências, Mistérios, Retratos e Desenlaces –, a obra traz crônicas bem trabalhadas que lembram os mais importantes autores desse gênero no Brasil, pois seu estilo fácil, ágil e poético atrai desde logo o leitor. O jeito escrever da cronista, nada rebuscado, com períodos curtos, sem solenidades, pode ser constatado neste excerto da crônica “Gigantes”:

“Dom Quixote, o célebre personagem de Cervantes (1547-1616), imaginou ver gigantes, mas eram moinhos. Os braços eram as pás que giravam o vento e moviam a mó. Às vezes, como o triste cavaleiro andante, concentro-me nos meus problemas, que são gigantescos. Tenho a impressão de que não suportarei mais, que serei espremida, moída e triturada. Em vão tento esconder com um sorriso as minhas dores. Uma pedra gigante esmaga meu peito. Aí me lembro que devo superar a aversão que me lançam e retribuir com perdão. Posso, afinal, matar gigantes e montar em dragões (...)”.

 

                                                II

Como observa o escritor Ronaldo Cagiano no prefácio que escreveu para este livro, “o quintal naveiriano é um caleidoscópio refletor de muitas andanças, entre as geográfico-territoriais e as afetivo-psicológicas, caminhos por onde o dreno da memória e o ducto da experiência didática, aliados de sua inquieta oficina, fazem e(s)coar páginas de sensibilidade, emoção e projeções estéticas”.

Diz mais o prefaciador: “Em Manacá, a autora dá continuidade a um processo de profunda imersão no que ela compartilha como seu (nosso) espaço de deambulação, na esteira de um sentimento drummondiano do mundo, pois como na voz do itabirano, a sua matéria também quer falar do “tempo presente, dos homens presentes, da vida presente”.

Em outras palavras: ao dominar a arte de escrever crônicas, Raquel Naveira não só mescla a tradição e a modernidade como também prepara o leitor para o futuro, ao avaliar os erros do passado e do presente, levando o leitor, que se torna seu íntimo amigo à medida que se deixa levar por suas deambulações, a refletir sobre suas experiências e aprendizado. Leia-se esta parte final da crônica “Porto geral” em que a autora reflete a partir da decadência do velho porto de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, que antes apresentava um movimento fervilhante, pois por ele passavam “a riqueza, o progresso, os migrantes, a cultura da Europa e do Rio de Janeiro”:

 “Aquele barco no cais do porto poderia ter me levado numa longa travessia. Tremo toda. Haveria prazer em me deixar conduzir pela correnteza, certa de que não naufragaria em meio aos camalotes de flores lilases. Que avançaria em direção à luz. Mas voltei ao silêncio de meu quarto escuro, nesta terra de fronteira”.

Por aqui se vê que os textos de Raquel Naveira, como reconhece a autora na primeira crônica citada, seguem fielmente as instruções ou observações dos autores dos clássicos manuais de literatura que fizeram parte de sua formação – Massaud Moisés, Alfredo Bosi (1936-2021) e o português Vítor Manuel de Aguiar e Silva (1939-2022). O leitor, portanto, só terá a ganhar ao conhecer os textos desta autora.


                                                         III

Raquel Naveira, nascida em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, é professora universitária, escritora, ensaísta, poeta e crítica literária. Formada em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco, na cidade de São Paulo, é mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, também de São Paulo, e doutora em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy, da França. 

Deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa na Universidade Católica Dom Bosco. Residiu no Rio de Janeiro, onde deu aulas na Universidade Santa Úrsula, e em São Paulo, na Faculdade Anchieta. Deu também aulas de pós-graduação na Universidade Nove de Julho (Uninove) e na Universidade Anhembi-Morumbi, de São Paulo. Ministrou palestras e cursos em escolas e em várias instituições culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida e Casa Mário de Andrade, em São Paulo. Na Academia Paulista de Letras, participou do Ciclo de Memória da Literatura, discorrendo sobre o trabalho das romancistas Maria de Lourdes Teixeira (1907-1989) e Stella Carr (1932-2008).

É autora de mais de trinta livros de poesia, ensaios e romances, entre eles: Abadia, poemas (Editora Imago,1996), e Casa de tecla, poemas (Editora Escrituras, 1999), indicados ao Prêmio Jabuti de Poesia, pela Câmara Brasileira do Livro. Escreveu ainda o livro infanto-juvenil Pele de jambo e o de ensaios Fiandeira. Além de Manacá, publicou outro livro de crônicas, Leque aberto, pela Editora Penalux.

Publicou também os romanceiros Guerra entre irmãos, poemas inspirados na Guerra do Paraguai (1864-1870), e Caraguatá, poemas inspirados na Guerra do Contestado (1912-1916), conflito armado entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, a partir de luta entre posseiros e pequenos proprietários pela posse de um território, livro que se transformou no filme de curta-metragem Cobrindo o céu de sombra, monólogo com a atriz Christiane Tricerri, sob a direção de Célio Grandes. Lançou o CD Fiandeiras do Pantanal, em que declama seus poemas, acompanhada pela voz e a craviola da cantora Tetê Espíndola.

Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras, de São Paulo-SP, à Academia de Letras do Brasil, de Brasília, à Academia de Ciências de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil. Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado-MS, Jornal de Letras-RJ, Linguagem Viva-SP, Jornal da ANE-DF, e O Trem-MG, entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Manacá, crônicas, de Raquel Naveira, com prefácio de Ronaldo Cagiano. Guaratinguetá-SP: Editora Penalux, R$ 42,00, 130 páginas, 2021. Site: www.editorapenalux.com.br E-mail da editora: penalux@editorapenalux.com.br 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br