Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Nicarágua – Soltos filhotes da espécie tartaruga-oliva que está em risco de extinção

Quase 500 filhotes de tartarugas-oliva, uma espécie ameaçada de extinção, foram libertadas no mar por autoridades ambientais da Nicarágua, na reserva natural Río Escalante-Chacocente, na costa do Pacífico da Nicarágua


As pequenas tartarugas foram soltas na terça-feira na praia de Chacocente, parte do Refúgio de Vida Silvestre Río Escalante-Chacocente – área de floresta tropical seca com mais de 4600 hectares.

Ao todo, durante o mês de Agosto foram soltas em Chacocente um pouco mais de 2000 animais com as quais as autoridades prevêem poder revitalizar esta espécie marítima, apesar dos riscos que vão ter, neste fase inicial.

Esta foi uma segunda fase do projecto que se baseia no facto natural de que milhares de ovos foram depositados em ninhos escavados pelas próprias tartarugas na areia da praia, num espaço de aproximadamente 1500 metros de extensão, enquanto os outros não enterrados são resgatados por guardas-florestais e levados para 250 incubadoras até serem soltos.

O período de nidificação dos ovos das Lepidochelys olivacea, conhecidas como tartarugas-oliva, tartaruga-olivácea ou tartaruga-marinha, demora entre 45 a 50 dias.

Os nascimentos seguem às inúmeras chegadas de tartarugas, que nidificam todos os anos em Chacocente.

As autoridades ambientais locais estimam que cerca de 50 mil tartarugas chegam todos os anos para desovar na areia desta praia. A “temporada de chegada” vai de Julho a Janeiro do ano seguinte.

Se tudo lhes correr bem, os pequenos animais agora soltos regressarão dentro de 15 ou 20 anos à mesma praia onde nasceram para nidificar, uma repetição do seu ciclo biológico, segundo responsáveis da Reserva.

As tartarugas-olivas, de 70 centímetros e cerca de 40 quilos, foram declaradas ameaçadas de extinção em 2006 pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Por este motivo, a caça da espécie foi proibida por tempo indeterminado.

Embora a maior parte seja desta espécie, outras como a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) e a tartaruga-verde (Chelonia agassizii) também são encontradas em menor quantidade.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais, a “chegada” massiva de tartarugas para nidificação na Nicarágua ocorre apenas em duas praias, Chacocente e La Flor, localizadas mais ao sul.

Na América Central também existem outros locais de chegada massiva de tartarugas para nidificar, como a Costa Rica e o Panamá. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


Timor-Leste - Primeiro-ministro destaca vontade de solidificar Estado para servir a população

O primeiro-ministro timorense afirmou ontem o empenho em solidificar as instituições do Governo e do Estado para garantir que são adequadamente dimensionadas para servir a população

Xanana Gusmão disse que o Estado “não tem de ser grande”, mas tem que actuar e trabalhar de forma a “servir a população”, referindo-se ao que considerou ser o excessivo número de empresas e institutos públicos, que representam gastos adicionais. Xanana Gusmão falava aos jornalistas depois do encontro semanal com o Presidente timorense, José Ramos-Horta, no Palácio Presidencial, em Díli, com quem analisou os desafios do país.

Dois meses depois da posse, o Governo já aprovou o Orçamento Geral do Estado (OGE) retificativo para 2023, à espera de promulgação pelo Presidente timorense, continuando a avançar na aprovação das orgânicas de várias estruturas.

O Executivo e as várias instituições do Estado estão já a começar com o processo de preparação do OGE para o próximo ano, devendo ser identificadas e definidas, até 7 de Setembro, as actividades anuais e plurianuais.

O seminário das Jornadas Orçamentais decorre a 8 de Setembro e cinco dias depois prevê-se a aprovação do tecto orçamental, com as propostas de cada Ministério a serem entregues até 29 de Setembro. “Após os necessários ajustamentos às propostas sectoriais, prevê-se que o projecto de Proposta de Lei do Orçamento Geral do Estado para 2024 seja aprovado em Conselho de Ministros a 31 de Outubro e entregue ao Parlamento Nacional no dia 15 de Novembro”, indicou o Governo.

Esta semana, e entre outras medidas, o Governo fez algumas alterações na Saúde, um dos sectores mais complexos do país, especialmente numa altura em que Timor-Leste enfrenta carências de medicamentos. Nesse quadro, o Governo aprovou a criação do Instituto de Farmácia e Produtos Médicos, que substitui o Serviço Autónomo de Medicamentos e Equipamentos de Saúde (SAMES) timorense.

O novo instituto “poderá adquirir, designadamente por importação, produtos farmacêuticos e equipamentos médicos, produzir produtos farmacêuticos e equipamentos médicos, assegurar o controlo de qualidade dos bens adquiridos ou produzidos pelo instituto e assegurar as melhores práticas de armazenamento e distribuição ao Serviço Nacional de Saúde, e a sua revenda às farmácias e unidades privadas de saúde nacionais, quando necessário”, referiu o Governo.

Foi igualmente aprovado o novo regime da Assistência Médica no Estrangeiro, necessário para colmatar as carências ainda existentes no país, de forma a adequá-lo “à atual realidade do país, bem como às práticas vigentes”.

Entre outros aspetos, o diploma clarifica e harmoniza os conceitos com as práticas legislativas actuais, “esclarece-se e reduz-se a linha de atuação dos vários intervenientes nos procedimentos de assistência médica no estrangeiro, evitando redundâncias e atos desnecessários para assegurar uma assistência médica mais rápida e eficaz”. In “Ponto Final” - Macau com “Lusa”


São Tomé e Príncipe e Cabo Verde assinam acordo para formação superior e profissional de jovens são-tomenses

São Tomé – São Tomé e Príncipe e Cabo-Verde assinaram na passada segunda-feira na capital são-tomense, um acordo que garante 150 bolsas anuais para a formação superior e profissional de jovens são-tomenses.



Assinado no Palácio do Governo, o documento foi rubricado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros são-tomense, Gareth Guadalupe e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo-Verde, Rui Figueiredo.

Com esta assinatura Cabo Verde passará a acolher anualmente 100 estudantes são-tomenses para a formação em ensino superior e 50 para a formação profissional, que deverá integrar numa parceria tripartida, incluindo o Luxemburgo.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Gareth Guadalupe, disse que o acordo também se enquadra no âmbito do acordo de mobilidade na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), tendo em conta que “à semelhança de Cabo Verde” São Tomé e Príncipe tem vindo a registar vários jovens “a emigrarem à procura de melhores oportunidades”.

O governante explicou que o acordo vai ajudar na concretização do lema “Juventude e Sustentabilidade” que São Tomé e Príncipe vai desenvolver durante a presidência da CPLP nos próximos dois anos.

A assinatura aconteceu três dias depois do Presidente de Cabo-Verde,  José Maria Neves ter declarado em São Tomé que “espero [a 14ª Cimeira] venha ser uma excelente conferência, o próprio lema, juventude e sustentabilidade sintetiza tudo e nos diz que temos enormes desafios relativamente a criação de oportunidade de esperança e de confiança na juventude dos nossos países”.

Na Cimeira da CPLP que terminou domingo na capital são-tomense, Cabo-Verde esteve representado a mais alto nível pelo Presidente José Maria Neves e pelo Primeiro-Ministro, Ulisses Correia. Ricardo Neto – São Tomé e Príncipe in “STP-Press”


Angola - Semana do Brasil: 14 anos a apostar no intercâmbio cultural

A Semana do Brasil em Angola visa celebrar o 7 de Setembro, Dia do Brasil e segundo os intervenientes é a mais longa comemoração da brasileiridade e que tem mais tempo que o mediático “Brazilian Day”, que acontece nos Estados Unidos


Os organizadores justificaram a festa porque em Angola tem a maior comunidade brasileira em África, com mais de 25 mil cidadãos.

Uma das grandes marcas do evento é o intercâmbio cultural que a AEBRAN leva noutros momentos.

Raimundo Lima falou do compromisso que a AEBRAN tem de trazer artistas brasileiros que reflectem o mosaico cultural do seu país e recordou a presença de artistas como  Jorge Vergílio,  Grupo Olodum, Geraldo Azevedo, Zeca Balero, Jorge Aragão, Luís Melodia, Zezé Mota, dentre outros nomes, que actuaram na Semana do Brasil em Angola.

O também músico falou da gravação de um DVD na passagem de Luís Melodia e Zezé Mota, cuja receita foi revertida para as vítimas da Sida. Regina Mestre, executiva da AEBRAN, partilhou dois concertos que considera memoráveis: "não posso esquecer a presença de Jorge Aragão, na Fortaleza, numa noite de chuva e com alguns constrangimentos administrativos, mas que no final resultaram em alto marcante. A passagem do Olodum, com as batucadas que fizeram no Chá de Caxinde, mostrou a semelhança rítmica entre Salvador e Angola.

A Semana do Brasil em Angola é marcada por coincidências neste ano, porque a AEBRAN de acordo com Raimundo Lima teve o seu embrião há 20 anos, incentivados pela primeira visita do Presidente Lula da Silva a Angola, na época numa residência no bairro Valódia, que depois foi a primeira Casa da Cultura do Brasil em Angola. In “Jornal de Angola” - Angola

Angola - Arranca este mês curso de Curadoria de Exposições a profissionais dos PALOP

A Fundação Calouste Gulbenkian e a Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa promovem, entre 18 de Setembro e 22 de Fevereiro de 2024, a II edição do curso de Curadoria de Exposições destinado aos profissionais dos PALOP


Foram seleccionados 20 profissionais entre 25 e 40 anos que demonstraram apetência pela pesquisa e prática curatorial no campo das artes visuais contemporâneas, sendo que o domínio da língua inglesa foi condição preferencial.

"Este curso tem como finalidade principal contribuir para a capacitação de recursos humanos actuantes nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), designadamente em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe na área curatorial e será realizado on-line, entre 18 de Setembro de 2023 e 22 de Fevereiro de 2024”, lê-se no documento.

Conforme a mesma fonte, pelo menos 80 por cento (%) das vagas são afectas aos candidatos nacionais e residentes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Os 20 profissionais seleccionados, devem ter o mínimo de três anos de experiência profissional ou de aprendizagem em áreas como artes visuais, história de arte, estudos culturais, filosofia ou teorias das artes, museologia, produção e gestão cultural, literatura ou novos media.

"Os candidatos seleccionados deverão comprometer-se a frequentar a totalidade do curso e a apresentar uma proposta de projecto curatorial. A apreciação das candidaturas será feita por um júri independente, podendo incluir uma entrevista final online”, explicou.

"Contexto africano”, "Temas de museologia e história das exposições”, "Temas de curadoria”, "Genealogia das exposições africanas no ocidente”, "Seminário de projectos”, "Conversas com artistas”, "Temas de conservação e documentação de arte contemporânea”, Montagem e instalação de exposições”, "Mediação cultural”, "Comunicação de arte numa era digital”, "Planeamento, Financiamento e Gestão de projectos” e "Mercados de arte” são alguns módulos do curso. A I edição do Curso de Curadoria de Exposições também contou com 20 formandos e decorreu entre Setembro e Dezembro de 2021. In “Jornal de Angola” - Angola


Moçambique – A poesia de Elísio Miambo em Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas

Elísio Miambo oferece-nos “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas” em poesia, pela Editorial Fundza, um livro que divide-se em três partes: primeiro acto designado catarse, o segundo acto desigado kiini e por fim, epístolas. O poeta apresenta este drama poético que purifica-nos a cada cena que o autor representa a cada um de nós nesta poesia.


Na escrita de Elísio Miambo, vê-se o escritor e o movimento dos objectos por via do uso das imagens que movem os sentimentos e os objectos. Vide o excerto da página 16, “sento-me rente à escrivaninha”. Assim começa o movimento do poeta diante do objecto que se move por via das palavras, move o escritor e o que lê.

O poeta fala a língua da fé, cita Saramago para iluminar as palavras de largos horizontes neste engenho que é a arte de escrever em que o autor é resiliente no ofício que outros desfloram. O Poeta começa o seu exercício de escrita cantando e dedicando aos seus irmãos de Xitende, vê-se a prior pela dedicatória feita: “aos meus, do Xitende”; pela menção feita ao belíssimo poema de Andes Chivangue “Alma Trancada Entre os Dentes”, pelo romance sagaz de Dom Midó das Dores “A Biblia dos pretos”, pela “Equidade no Reino Celestial” de Deusa d’Africa, pelas “ilusões” (romance intitulado Ilusão à Primeira Vista) de Almeida Cumbane e pela “A ilha dos mulatos” de Sérgio Raimundo. Faz alusão ao escritor Milan Kundera “a insustentável leveza do ser”, cujas técnicas se reverberam em múltiplos sentimentos adiante apresentados. Cita o Fernando Pessoa no seu poema “Fingidor”, autor considerado como uma tradição que se segue na Xitende e as dúbias de Antero de Quental. Nota-se neste primeiro poema um panegírico em que são cantados os seus irmãos e mestres. Ele mostra que não é só, na solidão da sua alma que devaneia em noites na escrivaninha, o poeta é um conjunto de seus. Vide o excerto da pág 17, “ler é deitar-se de costas numa caixa de espelhos..(…)…Ressonância de expurgação de brumas e escancaro clausuras”.

Com esta poesia o autor nos empresta as chaves para escancarar as clausuras e expurgar as brumas, afinal, que se desfaçam todas as brumas tecidas para que a paz floresça nas famílias de todas as nações. Revisto-me de curandeira que lê a sorte lançada pelo poeta, nesta escrita onde um sonho revestido de metáforas e metalinguagens se oculta, mas porque ninguém se oculta dos ósculos e de sua crença revelo: o poeta sonha com a paz para todos, Homens mais humanos e um mundo aberto para todos.

No poema vácuos da página 19, o autor descreve uma rua migrante que tem por dentro, leva-nos às memórias de Noémia de Sousa, a força de sua escrita que fê-la exilar-se em Paris por opor-se ao sistema político que vigorava. Vide o excerto “Fizera Vera Micaia travestir o poema….(…)… o poema traveste o poeta em mim”. Vemos o poeta travestido em vários outros seres e com vários rostos e géneros, o que faz-nos compreender o poder conferido pela poesia ao qual o poeta não se faz de rogado e governa o seu território com afoiteza.

Elisio Miambo, traz-nos o atleta queniano Abel Mutai, que se equivocara confundido a linha de chegada com alguns sinais próximos e que fora salvo pela bondade do espanhol que gritou e levou o Mutai à vitória nos jogos olimpicos de Londres em 2012. A medida que a poesia aqui se tece, o título do livro, ganha mais significação de ser, vide o excerto “nesses rifles por desarmar” ou mesmo brumas por desfazer’’.

No poema “Tratado” da página 20, denota-se como um mero plano pode conduzir uma sociedade ao cume de inverdades na sublimação de um criador sem criatura alguma. Vide, “neste tempo em que a memória infinda a coincidência. Propõe a referência. Ou o intertexto.”

O poeta faz alusão ao marxismo no poema “revelação” da página 21, onde descreve o povo que se reveste nele próprio, colocado sempre em posição dominada diante de um omnipotente que representa o dominador.

De acordo com Paz (2009), o poeta é linguagem em tensão, denota-se este conceito nas imagens deste texto da página 21, “Com Cachimbo em chamas. Um olhar taciturno. Calções de Ganga. Rotos. E uma túnica castanha. De linho. Cobrindo o tronco nu. As sandálias com três tiras de couro preto. A barba desfeita e grisalha. Como o pouco cabelo que lhe sobra. Um aroma de incenso à mistura…”

O poema “muedas” da página 22, é um grito de socorro em que o poeta que se vê massacrado na manifestação contra a dominação colonial desta pátria ocorrida em 1960, o massacre de Mueda, um ano que é também de África. Entrelaça a palavra no solo de Mueda, berço da moçambicanidade e também palco actual de incessantes massacres terroristas e não encontra as promessas feitas, o fruto do amor plantado, nele vê-se uma alma rota de um homem que não mais encontra os retalhos com que cobriu uma pátria. Enfurece-se e em prantos exorciza a terra que quiçá o mundo por ela não se componha. Vide o excerto, “Goteja em mim, quando eu, aos prantos, vou exorcismando o Mueda em que me deixaste. Como se de outros Muedas o mundo não se compusesse.”

Critica as vozes que sopram como os ventos de Agosto em campanhas eleitorais em que se anunciam os planos quinquenais como um tiro dado no escuro mesmo na incerteza. Aqui o poeta revestido de cidadão apela a uma política racional e em conformidade com as necessidades da colectividade que acima de tudo que seja exequível para que esses ventos de Agosto tenham no seu resquício alguns frutos comestíveis. Vejamos na página 23, “como poeira de Agosto. Revigoram-se as vozes (distintas no timbre e siameses na ausência de escala) no íntimo das gotículas da saliva. …votem, votem, votem…dizem. Porque mesmo no escuro. É preciso dar um tiro certeiro….”

O poeta é comprometido com o seu povo, os clichés ofertados em discursatas que não enchem a barriga do povo, desassossegam o autor, que em seu vaticínio anuncia um futuro em que o povo tenha água e luz, para viver condignamente. Neste texto reencontro-me com Oates (2008), que diz que a escrita é a tentativa de captar a voz humana e o poeta Elísio diz que sonhar é voar, encontramos aqui, uma imagem de captura da voz com todos os incensos que perfumam o hálito humano: se grotesco ou nauseabundo como a fome ou mesmo adorável como os manjares da música jazz que enleva a alma, vide a página 25, o poema “pouso” que diz: “como se sonhar não fosse a experiência do voo. Para quem não tem asas. Fiz, pela janela, preces de água, pão e luz. Ao raio de uma estrela cadente…. É preciso ser muito poeta para vaticinar (ao povo) o que não cabe na bolsa de valores”

No poema Sillicon Valley da página 28, abalroamo-nos com uma sociedade feita por oligarquias em que enquanto uns sonham, outros abrem a porta dos sonhos, entram e neles moram, um ready made em que a miséria é uma obra de arte seja em estado de sítio ou lockdown. Vide o excerto, ‘‘edificava-se plurais. Com o ranger de uma porta. Que se abria para o horizonte…”

O poeta, mostra-se preocupado pelo facto de abandonarmos ritmos tradicionais como o “pandza” que alegra e contangia para aceitarmos de tudo e sobretudo aquilo que não é nosso. Homenageia Jimy Dludlu e Elsa Mangue como músicos conducentes à tradição cultural, porque ’’o regresso às raízes se faz peremptório. Sempre que a leveza consciente da maturidade, pesa mais que o peso inconsciente da infância’’ página 31.

No poema das páginas 42-43, “além da carne” descreve o que à outrora fora belo como um pensamento-imagem vácuo, sem adornos e questiona a justiça feita diante das desigualdades sociais, questiona a força com que à outrora se fez a busca da liberdade, a mesma força que hoje sucumbe no soalho, porque somos todos mortais, ele cita a sapiência como além do tempo e da carne, mesmo que seja para ser aplicada num ambiente em que o poder oprime ao conhecimento e aplaude a quem se prostra e mendiga a quem expulsa de seu reino ou território. Vide o excerto “resguardo-me neste pensamento-imagem de ti: sem peito, sem quadril, sem bunda….com os teus prantos mortos…libertadora e caçadora de equidades. Arrasas-te ante o brio da carne. Que agora se deita no soalho. Sobrando-te só o intelecto que soçobra sem boia que lhe sustente. Ei-la, portanto, a bruma que te enclausura no pranto das equidades… com que tecidos se tece o baile da equidade, que vive na pedincha por aplausos do opressor”.

Neste poema encontramos nesta poesia que a auto-intitula em fala híbrida ou prosódico, este jogo estético de ser um e tanto outros sem se importar com a forma. Encontramos comumente o povo, numa intensa busca pela equidade nas lutas travadas. Pode se notar que esta poesia é o arquétipo de uma arte interventora, em que o uso da língua e da metalíngua para a definição dos objectos, o gosto pela música jazz ou blues, pandza ou marrabenta e a força da escrita, faz com que tudo viva para além da matéria que sobrevive para além do tempo quando a força de querer transpõe as barreiras do tempo.

Após a sua estreia em “retroalimentações do ego” em 2020, Elísio Miambo, regressa trazendo um abraço ou aperto de mão como acerto de contas, pois aquiesce-nos pagar as dívidas ocultas desocultando-as ao expurgar as brumas e escancarar as clausuras. Aqui desfazemos as brumas e enclausurarmo-nos desnudados de todo o poder para que na terra onde encontramos o nosso umbigo, a nossa mãe, vivamos sem nos preocuparmos em lutar pelas facilidades que nos abrem as portas de outros horizontes, apenas sejamos nós mesmos, mais humanos, mais independentes e vivamos a nossa solicitude e uma paz duradoira. In “O País” - Moçambique

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Referências Bibliográficas:

OATES, Joyce Carol. ‘‘A Fé de um Escritor: Vida, Técnica, Arte’’. Lisboa: Casa das Letras, 2008.

PAZ, Octavio. “Signos em Rotação”. São Paulo: Perspectiva, 2009.


Moçambique - Adelino Albano Luís e Timóteo Papel lançam livros na Cidade de Chimoio

Nesta quinta-feira, na Faculdade de Engenharia da Universidade Católica de Chimoio, foram lançadas as obras literárias Estórias trazidas pela ventania (contos), de Adelino Albano Luís, e Deixa-me escrever-te (poesia), de Timóteo Papel.


Segundo uma nota da Editorial Fundza, Estórias trazidas pela ventania é um livro de 25 contos, que, usando uma linguagem simples e coloquial, retrata diversos acontecimentos de fórum social e privado. Por isso mesmo, enquanto lê, o leitor depara-se, não raras vezes, com situações facilmente denotáveis com a realidade de Moçambique.

Ao longo dos enredos dos contos, casas se movem por si mesmas; um natal é comemorado na lixeira; há um sequestro sem um sequestrado; uma psicóloga que precisa ser consolada pela paciente ou um Eusébio que não quer saber de futebol. A proposta literária de Adelino Albano Luís foi apresentada por Inocêncio Albino.

Quanto a Deixa-me escrever-te, avança a mesma nota da Editorial Fundza, é uma obra poética rítmica e cantada. O ritmo, que é a característica intrínseca e peculiar da poesia oral africana, evidencia-se nos poemas com maior propriedade. Isto é, o poeta diz a arte em versos e comunga a sacralidade do amor em um recorte lúdico e potente, no universo de uma realidade que, por vezes, é tão árida, tão inóspita, fazendo ressurgir, até mesmo aos olhos mais cépticos, a existência de afectos que soariam inatingíveis em determinadas circunstâncias.

Deixa-me escrever-te conduz o leitor, portanto, aos detalhes despercebidos do cotidiano, com os momentos e delicadezas que não se revelam aos olhos enevoados de rotina. A proposta literária de Timóteo Papel foi apresentada por Francisco Massambo. In “O País” - Moçambique

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Adelino Albano Luís nasceu em 1998, na Cidade de Chimoio. Licenciado em Filosofia pela UEM, é professor e o conto é seu género literário de eleição. Estreou-se com obra ″Cronicontos da Cabeça do Velho″ (2022), prémio literário Calane da Silva ⁄ Alcance Editores (4ª edição – 2021). Conquistou o primeiro lugar do Concurso de Crónicas da 1ª edição da Feira do Livro da Beira (2021); Conquistou o primeiro lugar do concurso literário Dia Mundial da Língua Portuguesa: estórias pandémicas, e foi finalista do prémio Fundação Fernando Leite Couto (2022), com a obra Estórias trazidas pela ventania. Participou em várias antologias, dentre as quais o volume I de Espíritos Quânticos – Diário de uma Quawwi.

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Timóteo Gentil Papel nasceu em 1990, na Zambézia. É docente, pesquisador, poeta e escritor, licenciado em Ensino de Filosofia com Habilitações em Ensino de História, pela Universidade Pedagógica de Maputo. É Mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local, pela Universidade de Santiago – Cabo Verde. É autor da obra Não sei ser triste (2021). Participou nas antologias Literatura e cultura em tempos de pandemia (2021); As Áfricas dentro de mim (2021); Encontro de gerações (2022); e Antologia Luís Vaz de Camões e convidados (2022).

Os dois livros foram seleccionados na segunda chamada literária da Editorial Fundza.