Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Galiza - Lançamento de As histórias do futuro de Machado de Assis no Camões – Centro Cultural Português em Vigo

O evento decorrerá na quinta-feira, dia 18 de dezembro, às 19:30h no local do Camões – Centro Cultural Português, na praça de Almeida s/n, do casco velho viguês. No lançamento falarám o professor Carlos Paulo Martínez Pereiro e a professora Alva Martínez Teixeiro, acompanhados do poeta e gestor cultural brasileiro André de Oliveira.


O clássico que inaugura a coleção Através do Brasil compila “uma novela e 24 contos que contam”, sendo aquela o mítico relato machadiano “O alienista”. A seleção, a edição dos textos e o posfácio foram trabalhados pelas professoras da Universidade da Corunha, Alva Martínez Teixeiro e Carlos Paulo Martínez Pereiro.

“Este livro seleciona vinte e cinco ficções da melhor e mais representativa narrativa curta de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), em concreto aquelas que possuem uma maior potência de atualidade e em que, desde o passado, o genial escritor conseguiu dizer e narrar para os sucessivos futuros por vir; aquelas, enfim, que nos ajudam sempre a melhor nos compreender.

A gigantesca vertente ficcional da obra breve de um tão genial escritor, mais de cem anos volvidos, continua a falar por extenso da umana cosa bocacciana para os nossos corações e para as nossas mentes, merecendo, a rigor, figurar na nossa sensibilidade moderna pelas numerosas ocasiões em que se referiu com autenticidade aos nossos sentimentos, grandezas, contradições e limitações”.

Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 – Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908), foi um dos maiores escritores da literatura brasileira. Era filho de um operário e de uma lavadeira. Autodidata, destacou-se como romancista, contista, poeta, dramaturgo e cronista. Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, é autor de obras-primas como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Sua escrita irónica e profunda revela crítica social e análise psicológica refinada. Apesar das origens humildes e do preconceito racial da época, tornou-se uma referência incontornável da literatura em língua portuguesa. Morreu em 1908, consagrado nacional e internacionalmente. In “Portal Galego da Língua” - Galiza


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Moçambique – Cidade de Quelimane acolhe lançamento do primeiro livro de Varello Chivale

No próximo dia 6 de Outubro, pelas 16 horas, o Auditório da Universidade Licungo, em Quelimane, será palco do lançamento do livro A Ilha da Solidão, a primeira obra do escritor moçambicano Varello Chivale. A apresentação ficará a cargo do académico Pedro Napido.


Trata-se de uma novela que mergulha num universo marcado por tradições rígidas e silêncios profundos, onde um pai procura preparar a filha de 16 anos para a vida, transmitindo-lhe lições de sabedoria e alegria, fora do ambiente escolar. Contudo, durante uma festa de lobolo, consumido por mágoas e pela fúria de uma injustiça nunca revelada, o pai comete um homicídio que altera para sempre o destino da família.

Natural de Govuro, província de Inhambane, Varello Chivale nasceu a 9 de Junho de 1992. É Técnico de Medicina Geral formado pelo Centro de Formação em Saúde de Massinga (2016), onde exerce funções como docente desde 2017. Actualmente, frequenta a Licenciatura em Medicina Geral na Universidade Licungo, em Quelimane.

Já Pedro Napido, responsável pela apresentação do livro, é Doutor (Pós-Doutorado) em Letras na área de Estudos Literários e docente de Literatura Moçambicana na Universidade Licungo. Coordena o grupo de pesquisa CELLE – Leitura, Literatura e Ensino: História e Ensino, dedicando-se à reflexão sobre as práticas de leitura e a formação de leitores literários em Moçambique. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


terça-feira, 6 de agosto de 2024

Uma história de amor entre mestre e discípulo

Obra polêmica do escritor português Mário Cláudio ganha tradução para o italiano

                                                                                           

                                                                 I

Uma novela que procura reconstituir o que teria sido a relação próxima do pintor italiano Leonardo da Vinci (1452-1519) com Gian Giacomo Caprotti (1480-1524), mais conhecido como Salaì, seu discípulo, é o que leitor vai encontrar em Retrato de rapaz (Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2014), obra do escritor português Mário Cláudio, que acaba de ganhar tradução para o italiano com o título Ritratto di ragazzo. Un allievo nello studio di Leonardo da Vinci (Perugia, Morlacchi Editore, 2024, edição bilingue), de autoria de Brunello Natale De Cusatis, professor (aposentado) de Línguas e Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perugia e grande especialista na obra do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935).

Retrato de rapaz mereceu, no ano de sua publicação, o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, que o autor já havia obtido em 1984 com o livro Amadeo. A princípio, parte de uma polêmica afirmação de pesquisadores italianos segundo a qual Salaì teria sido o modelo do quadro Mona Lisa. Para tanto, destacaram a semelhança de algumas características faciais, especialmente o nariz e a boca, da Gioconda com aquelas que se vê em quadro que retrata o discípulo, conclusão que, no entanto, foi contestada por especialistas do Museu do Louvre, de Paris, onde se encontra exposta a obra-prima do pintor.

No texto de apresentação, De Cusatis lembra que Gian Giacomo Caprotti começou a trabalhar como aprendiz na oficina, em Milão, do grande pintor, ainda muito jovem, em 1490, como consta na primeira folha de um manuscrito anotado pelo próprio Leonardo da Vinci e que hoje faz parte do acervo do Instituto de França, em Paris. Trata-se de um manuscrito que reúne não só notas sobre as atividades do grande mestre toscano como anotações sobre a sua vida cotidiana e sobre o delitos cometidos pelo jovem Gian Giacomo, “como lhe ter roubado dinheiro logo um dia após a sua chegada à oficina”. É de se lembrar que foi o próprio pai de Salaì quem o encaminhou ao estúdio, “ainda com andrajos e piolhos”, para que o grande artista, que também exumaria cadáveres e construía máquinas voadoras, procurasse endireitá-lo e fizesse dele seu criado.

 

                                                II

Bibliotecário e pesquisador meticuloso, Mário Cláudio, a partir da consulta a esse códice, tratou de recuperar, às vezes recorrendo também à imaginação, o que teria sido essa relação tantas vezes conturbada como harmoniosa entre mestre e discípulo. E que, desde o início, fez o grande pintor tratar seu discípulo por Salaì, nome um tanto grotesto que, em língua árabe, pode significar “diabinho”, “ladrão”, “mentiroso”, “teimoso”, “ambicioso”, “irriquieto” e outros vocábulos depreciativos.

No entanto, como se percebe na descrição de Mário Cláudio, Leonardo da Vinci teria sido sempre indulgente com aquele que se tornaria seu discípulo, provavelmente atraído por sua extraordinária beleza angelical e natureza ambígua. Tudo isso sem levar em conta murmúrios que diziam ser Salaì “abusador da inocência de meninos e meninas, e prostituto de padres desdentados desta ou daquela confraria” (pág. 164).

Fosse como fosse, Salaì acabaria por ganhar a confiança do mestre, tornando-se “o seu primeiro modelo e seu discípulo predileto”, acompanhando-o em tudo e até em suas mudanças de residência, pelo menos até 1514, quando o mestre trasladou-se com sua oficina de Milão para Veneza e logo a seguir para Florença, para Milão de novo e, finalmente, para Roma. Ou seja, por duas décadas, Leonardo da Vinci foi seu “protetor infatigável”, como se lê nesta  inovadora novela que, embora construída como ficção, utiliza como personagens indivíduos que, de fato, existiram e algumas passagens que seriam abonadas por documentação manuscrita.      

Em texto ágil, delicado e erudito, Mário Cláudio mostra que, num jogo de pequenas traições mútuas, cria-se entre Salaì e o pintor uma cumplicidade que os aproximará, a princípio, como se fossem pai e filho. E, depois, como amantes, o que fica explícito à página 83 em que o autor trata “esse aspecto, a um tempo fundamental, controverso e escabroso, da vida de Leonardo da Vinci, vale dizer, sua inclinação sexual”, como observa De Cusatis ao final de seu texto de apresentação. Mais adiante, irrompem na vida de ambos Três Graças viciosas que semeiam a discórdia e o ciúme, numa trama que há de enlevar o leitor através de um texto extremamente sedutor.

Retrato de rapaz é, portanto, uma novela sobre a relação entre mestre e discípulo, nem sempre isenta de drama e decepção, e sobre a criatividade de um artista genial em tudo, até mesmo na gestão dos seus sentimentos.


                                                III

Mário Cláudio (1941), pseudônimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nascido no Porto, é autor de vasta e multifacetada obra que abarca ficção, crônica, poesia, dramaturgia, ensaio, literatura infantojuvenil e ainda letras para fado e numerosos artigos publicados na imprensa portuguesa e estrangeira. Suas obras estão traduzidas em inglês, castelhano, francês, italiano, alemão, húngaro, checo, croata e turco.

Filho único de uma família da burguesia, fez no Colégio Almeida Garrett, no Porto, os estudos primário e secundário. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1966, veio a diplomar-se mais tarde com o curso de Bibliotecário-Arquivista, da Faculdade de Letras da mesma Universidade. Como bolseiro do Instituto Nacional de Investigação Científica, frequentou a Universidade de Londres (University College), onde se pós-graduou como Master of Arts in Library and Information Studies, em 1976.

Em 1985, começou a atividade de docente na Escola Superior de Jornalismo do Porto. Foi ainda professor convidado da Universidade Católica do Porto e formador de Escrita Criativa, na Fundação de Serralves e no Politécnico do Porto. Dirigiu a Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia e foi técnico superior da Delegação Norte da Secretaria de Estado da Cultura.

Antes de ser mobilizado para a guerra colonial, em 1968, entregou ao pai, para publicação, a sua primeira obra, de poesia, intitulada Ciclo de Cypris, lançada no ano seguinte. É autor ainda de Guilhermina (1986), Rosa (1988), A Quinta das Virtudes (1990), Tocata para dois clarins (1992), Dois equinócios (1996), O pórtico da Glória (1997), Peregrinação de Barnabé das Índias (1998), Camilo Broca (2006), Boa noite, senhor Soares (2008), Tiago Veiga: uma biografia (2011), Astronomia (2015) e Tríptico da salvação (2019), entre outras obras, que lhe valeram vários prêmios literários.

Foi galardoado com comendas da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (2000), de Chevalier des Arts et des Lettres (2006), atribuída pelo Ministério da Cultura de França, e da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2019). A 11 de dezembro de 2019, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Porto, em cerimônia que contou com a presença do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.


                                                IV

Brunello Natale De Cusatis (1950) nasceu em Fuscaldo Marina (CS) na Calábria, Itália. Formou-se em Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade de Perugia, onde exerceu sua carreira acadêmica – primeiro como assistente responsável, depois como pesquisador e, por fim, como professor associado e chefe das cadeiras de Línguas e Literaturas Portuguesa e Brasileira, de 1976 a 2014, ano em que, por opção própria, decidiu se aposentar.

Tem numerosas publicações, tanto em volumes quanto em revistas e jornais, na Itália, no Brasil, em Portugal e em outros países. De 1996 a 2002, foi editor da série Brasiliana (Roma, Antonio Pellicani Editore) e, de janeiro de 2010 a junho de 2014, das séries Pessoana e Saggistica luso-afro-brasiliana (Perugia, Edizione dell'Urogallo). Desde 2007, dirige uma série publicada pela Morlacchi Editore, de Perugia: Letteratura Luso-Afro-Brasiliana, cujas obras se caracterizam por apresentar sempre, ao lado da tradução italiana, o texto original em português: é o caso tanto de Retrato de rapazRitratto di ragazzo como de outra novela marioclaudiana, Boa noite, senhor Soares / Buona notte, signor Soares, volume editado, na primeira edição, em 2015.

É autor das monografias O Portugal de Seiscentos naViagem de Pádua a Lisboa”, de Domenico Laffi - estudo crítico (Editorial Presença, Lisboa 1998); Tra Italia e Portogallo. Studi storico-culturali e letterari (Roma, Antonio Pellicani, 1999); Esoterismo, Mitogenia e Realismo Político em Fernando Pessoauma visão de conjunto (Porto, Caixotim Edições, 2005); e Riflessioni etico-religiose (Perugia, Associazione Progetto Marianna – Onlus, 2013).

Suas áreas de investigação vão desde a História da Cultura e Literaturas Portuguesa e Brasileira até à Literatura Italiana e Comparada. De Fernando Pessoa, traduziu para o italiano e comentou seus artigos e fragmentos sociológicos, políticos, mito-proféticos e econômicos, reunidos em três volumes: Scritti di sociologia e teoria politica (Roma, Settimo Sigillo, 1994), também em tradução alemã (Karolinger, Wien 1995); Politica e profezia. Appunti e frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pellicani, 1996 / nova edição revisada, Milão, Edizioni Bietti, 2018); e Economia & commercioimpresa, monopolio, libertà (Roma, Ideazione Editrice, 2010 / nova edição revisada, Perugia, Edizioni dell'Urogallo, 2011).

Além disso, publicou a tradução italiana da elegia pessoana À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, acompanhada de um extenso ensaio introdutório (Roma, Antonio Pellicani Editore, 1997 / nova edição revisada, Perugia, Edizioni dell'Urogallo, 2010), e o volume La vita plurale di Fernando Pessoa, do espanhol Ángel Crespo (Roma, Antonio Pellicani, 1997 / republicado em 2014 e editado por Bietti de Milão em nova edição extensamente anotada. Adelto Gonçalves - Brasil

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Ritratto di ragazzo. Un allievo nello studio di Leonardo da Vinci, de Mário Cláudio, tradução para o italiano de Brunello Natale De Cusatis. Perugia, Itália: Morlacchi Editore, 249 páginas, 16 euros, 2024. Site: www.morlacchilibri.com; E-mail: editore@morlacchilibri.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br






domingo, 1 de novembro de 2015

Cinco novelas e algumas surpresas

                                                           I
Com uma linguagem realista que descreve sem nenhum disfarce não só o mundo cão das favelas cariocas como as histórias de algumas das muitas vidas desfeitas pelo turbilhão produzido pela intervenção militar na vida constitucional do País em 1964, Helio Brasil contempla o leitor em Pentagrama acidental (Rio de Janeiro, Ponteio, 2014) com cinco novelas bem estruturadas e arquitetadas, não fosse ele um experiente arquiteto e urbanista, além de professor universitário com vasto currículo e experiência.

No posfácio que escreveu para este livro, o também professor Ivan Cavalcanti Proença, mestre e doutor em Literatura Brasileira, autor de obras clássicas como A ideologia do cordel, Futebol e palavra e O poeta do eu, este último sobre o poeta Augusto dos Anjos (1884-1914), diz que Helio Brasil é, hoje, um dos mais importantes ficcionistas brasileiros, embora não seja dado a procurar a divulgação de seu trabalho na mídia nem frequentar a roda-viva oficial dos intelectuais.

“Seus livros, inclusive o artesanal texto-memória, recente, sobre a infância em São Cristóvão, constituem prova de seriedade intelectual, competência e extrema lucidez na seleção de temas que compõem sua obra”, diz.

Proença aponta a novela “Corte e costura” como o carro-chefe do volume, incluindo-a entre os textos mais significativos da contemporânea ficção brasileira. De fato, poucos ficcionistas hoje no Brasil teriam tanta habilidade verbal e gênio para produzir uma narrativa tão realista como esta, sem perder o compromisso com o fazer literário, tornando os seus personagens figuras inesquecíveis para o leitor.

A novela conta a história de um casal separado pelas consequências nefastas do golpe militar, que tanta infelicidade trouxe para muitas famílias brasileiras. Loreta, 20 anos, dona de casa que fazia da atividade como costureira um meio para reforçar o orçamento doméstico, vivia no Rio de Janeiro com Erasmo, jovem professor universitário, que, de repente, envolvido nas malhas do movimento de resistência pelas armas ao regime militar (1964-1985).

Erasmo é obrigado a abandoná-la sem qualquer aviso ou explicação, à época da Copa do Mundo de Futebol em 1970, auge da repressão política, partindo para o exílio na França, onde constituiria família, depois de um tempo de clandestinidade no Brasil e no Paraguai. Sozinha, depois de inutilmente procurar o corpo do marido desaparecido, Loreta refaz a vida com um vendedor de cadernos de corte e costura, o gaúcho Greco, 20 anos mais velho. O ponto alto da novela é o reencontro daquelas vidas desfeitas no cemitério em 1998, quase três décadas depois, por ocasião do enterro de Greco, vítima de mal súbito.

                                               II
Gustavo Barbosa, na apresentação deste livro, além de ressaltar a perspectiva realista de Helio Brasil na descrição de personagens, destaca a “densidade emocional dos protagonistas e a indicação precisa de quem são, de onde vêm e o mistério de seus destinos, quase sempre essa a motivação das histórias”. É o caso se constata na novela “O bem mais precioso”, que abre o volume, em que o autor reconstitui o dia-a-dia de uma família desestruturada que vive numa favela, descrevendo em detalhes o avanço do amante alcoólatra sobre a enteada de poucos anos de vida, até ser surpreendido pelo irmão da menina, que o despacha para o outro mundo. Eis um trecho:

“Através da cortina que protegia a cama da menina viu a silhueta de Mazinho dobrando-se sobre o corpo da criança, o braço espichado. O rapaz levou a mão à pistola. O estampido, embora não fosse um ruído estranho aos ouvidos dos moradores, chamaria a atenção dos moradores. Olhou em torno. Cravada na carne assada, a faca: lembrança e sugestão. Em gesto rápido, afastou a cortina e empunhando a arma com firmeza mergulhou-a no cachaço de Mazinho. Uma, duas, dez vezes, o sangue escurecendo o vermelho da camisa e fazendo desaparecer o enorme número branco. Um grunhido abafado pelo gargarejo mortal, jugulado pelo braço musculoso do jovem, o homem bambeou o corpo. A menina fez um leve movimento, ajeitou-se na cama e continuou o sono inocente”.

                                                           III
Esse estilo cruento, cheio de violências, erotismo e irreverência, que faz lembrar os contos de Rubem Fonseca (1925), também se constata na novela “Seis vezes seis. Noves fora: nada”, que reproduz a solidão da velhice de alguns tipos bem sucedidos na vida burguesa, não raro em meio a falcatruas, que se reúnem para participar de um bacanal no sítio do mais bem afortunado deles.

Já em “Os riscos da paixão”, o autor deixa à mostra também os seus dotes como historiador e arquiteto, reconstituindo a época do Império numa narrativa em que o protagonista é o adolescente José Augusto, que se apaixona por D. Domitila, a marquesa de Santos, exatamente a amante do imperador, D. Pedro I. Como bem observa Cavalcanti Proença, a história remete para outras “cenas de atração” clássicas na bibliografia de Machado de Assis (1839-1908), como as que se lê em contos como “Uns braços” e “Missa do galo”.

Por aqui, vê-se que o leitor que “descobrir” o ficcionista Helio Brasil, ainda que tardiamente como este resenhista, não vai se arrepender. São novelas (talvez algumas possam ser tidas como contos, ainda que extensos) que, realmente, envolvem o leitor da primeira à última linha, sem deixar de surpreendê-lo com finais insólitos. Ou seja, são novelas que estavam no “fundo da gaveta”, como diz o autor, mas que reúnem tudo o que se poderia esperar de um grande ficcionista. E que mostram que a Literatura Brasileira ainda pode oferecer boas surpresas.

                                                           IV
Helio Brasil (1931), nascido no Rio de Janeiro, é formado em 1955 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi funcionário do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje BNDES), entre 1955 e 1984, tendo realizado projetos para as instalações do banco. Projetou edifícios comerciais, industriais e residenciais no Rio de Janeiro e em outros Estados. Foi professor da disciplina Projeto de Arquitetura, durante vinte anos, nas Universidade Santa Úrsula e nas universidades Federal do Rio de Janeiro e Federal Fluminense (UFF).

É autor de São Cristóvão – memória e esperança (Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2004); O anjo de bronze, contos (Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 1994); A última adolescência, romance (Rio de janeiro, Bom Texto, 2004); Tempos de Nassau: um príncipe em Pernambuco, ficções, com vários autores (Rio de Janeiro, Bom Texto, 2004); e O solar da fazenda do Rochedo – memórias (edição dos autores, 2010). É co-autor com Nireu Cavalcanti de O Tesouro – O Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Pébola Casa Editorial, 2015). Participou ainda de coletâneas de contos das editoras Uapê, Bom Texto e 7Letras. Adelto Gonçalves - Brasil

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Pentagrama acidental, novelas, de Helio Brasil, com pósfácio de Ivan Cavalcanti Proença e apresentação de Gustavo Barbosa. Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará/Ponteio, 200 págs., R$ 35,00, 2014. Site: www.ponteioedicoes.com.br
E-mail: ponteio@ponteioedicoes.com.br

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Novela

                        Para evitar o caos logístico


SÃO PAULO – Do último episódio da longa novela em que se tornou o caos viário nas rodovias e vias de acesso ao Porto de Santos saiu-se como vilã a prefeita de Cubatão, Márcia Rosa (PT), que, em busca de melhoria para o tráfego na cidade, assinou um decreto municipal que impedia os pátios reguladores de funcionar 24 horas e acabou por multiplicar os congestionamentos que se dão nas redondezas do município. Mas, se há culpados, não se pode procurá-los nas redondezas do Porto de Santos porque o fulcro da questão não está na atividade portuária.

Se há culpados por essa situação, são os gestores públicos que não souberam preparar o País para a nova fase do agronegócio. E olhem que não foi por falta de aviso dos analistas. Em outras palavras: quando o Brasil começou a se tornar um grande fornecedor de matérias-primas e insumos, não houve por parte do governo nenhum plano estratégico com o objetivo de criar uma infraestutura no Interior do País para o agrobusiness.

O resultado é que, em razão dessa carência, os caminhões passaram fazer as vezes de silos e as rodovias se transformaram em pátios de estacionamento. As conseqüências dessa falta de planejamento estão à vista de todos, como têm mostrado com insistência as emissoras de TV e os jornais.

Essa mesma falta de visão ainda está presente na recente Medida Provisória nº 595, que autoriza a instalação de terminais-indústria, ou seja, espaços localizados fora dos portos públicos, mas nas suas proximidades. Isso significa que as nove cidades da Região Metropolitana de Baixada Santista deverão atrair mais empresas concessionárias interessadas em arrendamento de terrenos para atividades portuárias. É certo que a população do Litoral paulista, bem mais carente que a do Interior do Estado, precisa de maior número de empregos qualificados, mas é preciso levar em conta também se essa estratégia não irá acarretar maiores impactos no trânsito da região.

Ora, o que é preciso ficar claro é que nem o Porto de Santos nem os demais são locais de armazenagem de mercadorias, mas apenas lugares de embarque ou desembarque de produtos, que, aliás, deveria ocorrer no menor espaço de tempo possível, como se dá em portos de países mais desenvolvidos.

É verdade também que a solução do caos viário no Porto de Santos exige a instalação de pátios reguladores não só na Baixada Santista como no Planalto paulista, permitindo que os caminhões estacionem enquanto aguardam o horário exato para acessar os terminais e descarregar a mercadoria, de preferência com rapidez. Tudo controlado por programas digitais. Mas só isso não bastará, se os caminhões do agrobusiness continuarem a cruzar sem controle o Brasil em direção ao Porto.

É preciso também criar silos e centros de distribuição na Região Centro-Oeste, de modo que a capacidade de armazenagem seja suficiente para abrigar duas safras e ainda cobrir um crescimento de produção que, a se levar em conta o ritmo atual, será inevitável nos próximos anos. Milton Lourenço - Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.