Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Mídia errou nas previsões das eleições americanas

Os seguidores de Donald Trump estão felizes, demais mesmo, com a enorme vitória do ex-presidente e podem mesmo rir da imprensa em geral que errou feio nas previsões e que teria carregado nas tintas ao fazer a caricatura do fanfarrão. "Houve um verdadeiro naufrágio da mídia" disse o apresentador da rádio Europe1 ao comentar as previsões anunciadas pela imprensa de que as apurações levariam dias ou mesmo semanas, num clima de tensão, vista a quase paridade de votos entre Donald Trump e Kamala Harris. Naufrágio, segundo ele, porque, muito ao contrário do que previa a imprensa, tudo se resolveu em algumas horas, sem conflitos e Trump ganhou com grande diferença.
Na rádio Europe1, o apresentador Pascal Praud se deu ao luxo de mostrar, em curtos extratos sonoros, como certos comentaristas nas rádios francesas estatais tratavam o candidato Trump, inclusive comparando-o a Hitler. E poderia ter citado também muitos jornais de renome, como o The New York Times, que decidiram apoiar Kamala Harris.
Muitos outros comentaristas de rádios deviam também estar rindo dos comentaristas francamente anti-Trump durante todos estes meses, inclusive no Brasil naquelas rádios que sempre apoiaram Bolsonaro. Ainda na Europe1, um convidado logo depois de anunciada a vitória de Trump, dizia "os Estados Unidos não são a Universidade de Harvard e nem Nova York". Certo, mas tudo isso são juízos de valor, que não invalidam as opiniões dos comentaristas anti-Trump, entre os quais me encontro.
O erro da mídia não foi o de ter desqualificado Trump como candidato à presidência dos EUA, mas o de ter acreditado e divulgado um clima favorável a uma vitória da candidata Kamala Harris, baseando-se em sondagens que ignoravam a América profunda, seu miolo interior com seu patriotismo e seu fundamentalismo religioso. Isso a ponto de discutir a reação dos trumpistas no caso de uma derrota, quando a vitória de Trump foi ampla, decidida em poucas horas e incluiu maioria no Senado e no Parlamento.
Ou seja, embora os democratas não vissem ou não quisessem ver, havia um clima de insatisfação popular, bem explorado pelas redes sociais com suas fake-news e contando com o apoio do especialista na matéria Elon Musk com sua plataforma X. De nada adiantou a tentativa democrata de obter o apoio das mulheres e da população negra. Como disse um dos convidados da Europe1, "Trump ganhou no supermercado" e eu acrescentaria também "nas igrejas evangélicas", mais fortes que no Brasil.
O que poderá ocorrer num governo cujo presidente detém todos os poderes, inclusive o da Suprema Corte, onde três magistrados tinham sido nomeados por Trump no seu primeiro mandato? Essa situação de poder absoluto pode levar a perigosos abusos, sabendo-se das ambições desmedidas do presidente eleito.
Nos EUA, não se pode acumular mais de duas presidências, por exigência constitucional, exceto - vamos imaginar - se um deputado propor, o Senado aprovar e a Suprema Côrte ratificar. Não devo ser o primeiro a pensar, mas isso agora poderá ser possível.
Embora o ucraniano Zelenski tenha sido com o presidente francês Macron um dos primeiros a cumprimentar Trump por sua vitória, isso em nada deve mudar a promessa trumpista de acabar com o apoio americano à Ucrânia e à OTAN, deixando o campo livre para a Rússia.
Trump também prometeu acabar com o problema da imigração ilegal nos EUA, impedindo a entrada dos latinos e de outras nacionalidades no território americano e inovando com a deportação dos imigrantes ilegais para seus países. Como existem muitos brasileiros ilegais nos EUA, a maioria bolsonaristas e trumpistas, seria o caso de se perguntar se Bolsonaro poderá intervir em favor desses imigrantes.
Outra pergunta é a de como serão as relações de Trump e de seu amigo e provável ministro Elon Musk com o Brasil e com Lula que, numa entrevista a uma revista francesa, tinha declarado esperar uma vitória de Kamala Harris. Rui Martins – Suíça
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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Estados Unidos da América - É irrelevante Kamala Harris ser negra e mulher?

É sempre bom dar uma volta pelas redes sociais para saber como elas reagem diante das últimas notícias, pois pode haver surpresas ou temas para discussões. É o caso da desistência da candidatura à reeleição pelo presidente Joe Biden, branco de origem europeia, em favor da atual vice-presidente Kamala Harris.


Kamala, não tem nada a ver com os Pilgrims Fathers, os primeiros colonizadores dos EUA. Bem ao contrário, ela é negra, filha de pai jamaicano, mãe indiana, ambos imigrantes. Os EUA já tiveram um presidente negro por dois mandatos, foi Barak Obama. Já houve uma candidata mulher à presidência dos EUA, foi Hillary Clinton, esposa do ex-presidente Bill Clinton e descendente de famílias brancas tradicionais de origem europeia. Para quem não se lembra, Bill Clinton foi reeleito e deixou o governo com alta popularidade. Mesmo assim, Hillary foi derrotada em 2016 por Donald Trump.

O Brasil já se antecipou aos EUA nessa experiência com a eleição em 2010 de Dilma Rousseff, branca, filha de pai búlgaro e mãe brasileira, reeleita e destituída dois anos depois por impeachment. Marina Silva, negra e filha de pais pobres, foi três vezes candidata à presidência sem sucesso. Que fatores teriam ajudado Dilma Rousseff e prejudicado Marina Silva?

De uma maneira geral, a imprensa internacional se pergunta se o eleitorado dos EUA já está no ponto para eleger uma mulher e, além disso, uma mulher negra. Ou ainda, mulher negra filha de imigrantes, quando o principal programa do candidato opositor, misógino e machista, é a deportação em massa de imigrantes.

Essa é a primeira pergunta genérica que leva a outra mais precisa: existe um significado maior para essa escolha por um dos partidos do país mais rico e mais desenvolvido do planeta? E, no caso de Kamala Harris ser eleita, poderá haver um avanço mundial para a situação das mulheres em termos de paridade com os homens?

Ou o fato de surgir a candidatura de uma mulher negra vinda da imigração com a possibilidade de ser eleita presidente dos EUA "não tem a menor importância, é irrelevante, não é determinante e é apenas uma questão secundária"? É simples assim? Isso não vai mudar em nada a situação mundial - e como ouvi e li - "continuará a exploração e o domínio do mundo pelo imperialismo norte-americano?"

Vou deixar de lado as críticas do Diário da Causa Operária ao texto do sítio Esquerda Online sobre "o caso Kamala Harris". Agora, o mais apropriado é o vídeo do Breno Altman, no Opera Mundi, voltado ao grande público, no qual ele considera "irrelevante e secundária" a candidatura de uma mulher negra filha de imigrantes à presidência dos EUA. "As questões de raça e gênero só têm relevância no que concerne a direitos, preconceitos e privilégios".

Me lembro, durante o caso do treinador Cuca do Grêmio, alvo de um processo na Suíça por estupro coletivo de uma menor, que acabou se demitindo do Corinthians por pressão da torcida feminina, ter ouvido de alguém de esquerda, que a questão de gênero e o feminismo deveriam vir depois e não antes da Revolução. E a recente piada de mau gosto do presidente Lula sobre violência doméstica contra mulher de corintiano vai nessa mesma linha.

"Qual a diferença - pergunta Breno no seu vídeo - se o povo palestino se faz bombardear por bombas enviadas por um homem branco ou uma mulher negra?" Isso não é uma síntese ou uma conclusão um tanto precária e redundante?

Diante da decisão de escolher uma mulher, negra e filha de imigrantes, por um dos principais partidos políticos da maior nação do mundo, minha reflexão é bem diferente. É a de constatar o longo caminho percorrido pelas mulheres norte-americanas até chegarem a esse tipo de conquista e reconhecimento - a de serem consideradas iguais aos homens para dirigirem o país.

Elas estavam no navio Mayflower que, há 400 anos, transportou da Inglaterra os puritanos peregrinos povoadores da primeira colônia permanente na costa leste norte-americana. Chegaram também nos navios vindos da África para viverem a escravidão e muitas delas sofrem ainda o racismo generalizado, mesmo depois do fim de uma guerra civil pondo fim à escravatura. Sem esquecer das mulheres nativas do continente, grande parte massacrada pelos colonizadores, e das imigrantes de todo o mundo.

Enquanto isso, em muitos países, a situação social, econômica e individual das mulheres é de submissão e de privação de direitos, seja em consequência de ditaduras ou de teocracias retrógradas. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.