Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

"Quem viu Goa..."

Quem viu Goa não precisa ver Lisboa". Assim se dizia no século XVI, perante a maravilhosa cidade do Índico, singular encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente. Porto, onde havia "grande trato de muitas mercadorias de todo o Malabar, Chaul e Dabul, do grande reino de Cambaia...", no dizer do cronista. A memória de Afonso de Albuquerque, de Garcia de Orta, de Camões, de Francisco Xavier ou de Fernão Mendes Pinto, e as tradições ancestrais dos povos do território preenchem a realidade multifacetada de um património cultural singular, que constitui uma identidade própria, complementar das várias referências que lhe deram origem. Assim se compreende como a herança, a memória e a cultura têm características próprias múltiplas que não podem confundir-se com qualquer ilusão unificadora ou autossuficiente. O Museu de Arte Cristã de Goa, criado em 1994, celebrou 29 anos de existência numa cerimónia inolvidável. É um projeto da Arquidiocese de Goa e Damão e a sua constituição deve-se à convergência de vontades entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Indian National Trust for Art and Cultural Heritage de Nova Deli. Apresenta-se a arte indo-portuguesa em todo o seu esplendor, reunindo uma coleção única de Arte Cristã de influência indiana. São cerca de cem obras de arte icónicas, que identificam de modo muito especial uma identidade religiosa própria, abrangendo pinturas, esculturas em madeira e marfim, têxteis, livros, metais preciosos e mobiliário. E não esquecemos o trabalho realizado por Maria Helena Mendes Pinto, de saudosa memória. O Museu encontra-se agora melhorado e enriquecido, como fica demonstrado no magnífico catálogo, coordenado por Natasha Fernandes, com textos de Nascimento de Souza, Avinash Rebelo, Maria Fernanda Matias, Walter Rossa, Jason Keith Fernandes e Ranjit Hoskote. Como afirmou o Cardeal D. Filipe Neri Ferrão, o projeto de reorganização e de valorização museográfica do Museu de Arte Cristã deveu-se a uma cooperação inédita entre o Ministérios da Cultura da República da Índia e de Portugal e da Fundação Calouste Gulbenkian - instituição que acompanhou o Museu ao longo da sua existência, especialmente nos momentos-chave da sua vida e do seu crescimento.

O Museu nasceu em Rachol, em Salcete, nas margens do rio Zuari, e aí esteve até 2001, tendo sido transferido para Convento de Santa Mónica, edificação marcante que assume uma posição particular no contexto da arquitetura religiosa de Goa por ter sido o único convento feminino do território. O monumento de grandes dimensões localiza-se na bela encosta norte do Monte Santo, no lado ocidental de Velha Goa, perto do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, sobranceiro ao Rio Mandovi e à estrada que liga Pangim à velha cidade. A Igreja de Santa Maria, que está contígua a Santa Mónica, é um exemplo único no panorama da arquitetura religiosa cristã de Goa, como igreja de um convento feminino. O convento impressiona pelas suas dimensões e grandiosidade, tanto mais que é dos poucos de Velha Goa que se mantêm em boa parte intacto. Na sequência da visita do então Presidente Emílio Rui Vilar, em 2005, e da disponibilidade de apoio técnico, a Fundação Calouste Gulbenkian elaborou e ofereceu ao Museu, em 2015, o projeto de renovação que incluiu arquitetura, museologia e museografia, seguindo as mais recentes orientações internacionais na matéria. Deu-se assim continuidade a uma cooperação antiga, realizada em nome da salvaguarda de um património cultural de grande valor civilizacional. É um maravilhoso conjunto de peças, avultando o monumental tabernáculo proveniente da Catedral de Nova Goa com a representação de um pelicano que significa o sacrifício de Cristo no Calvário. Cada uma das peças que aqui se apresentam constitui exemplo de um fecundo encontro da arte e da sensibilidade de culturas diferentes, que se completam, numa memória viva e numa síntese de memorável significado. G d’Oliveira Martins – Portugal in Diário de Notícias

Guilherme de Oliveira Martins - Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 

domingo, 4 de setembro de 2022

Brasil ou a outra face de nós…

O Brasil não é produto do acaso. Corresponde a uma convergência de fatores centrípetos e centrífugos, em que a economia, a natureza e o fator humano criaram condições para a afirmação de um território


Parece audacioso o título que encima esta prosa. Poderá ser. É verdade que há muitas simplificações na apreciação das relações luso-brasileiras, como por exemplo a suposta irmandade, a coerência entre o que nos une e nos separa, a relação com o idioma comum. A verdade, porém, é que há uma grande complexidade nos elos que nos ligam. Não esqueço os inesgotáveis diálogos que estabeleci e estabeleço, tantas vezes apenas espiritualmente, com o meu saudoso mestre António Cândido, com Hélio Jaguaribe, mas também com o meu querido confrade Celso Lafer, com Fernando Henrique Cardoso, com Alberto Costa e Silva ou com Marcos Vinicius Vilaça.

Devo dizer que se trata de matéria em que sou suspeito, uma vez que nasci numa família luso-brasileira. Minha avó Leonor nasceu no Estado de Paraná, na cidade de Paranaguá, de uma família de industriais da colonização alemã. Conheci em casa de meus avós Jordão Emerenciano, nos anos 50, quando se vivia uma situação dramática com a morte de Getúlio Vargas, e não esqueço a gravação de poemas de Manuel Bandeira, que eram um regalo para o ouvido, a começar em Recife e no reconhecimento da sabedoria de Totónio Rodrigues. Anos depois, quando estive no Recife, corri à rua do Sol e verifiquei que ainda lá está, e não se chama doutor fulano de tal.

Partilhando muitas preocupações de amigos comuns, como José Carlos de Vasconcelos, gostaria que houvesse maior presença do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil. E recordo saudosamente conversas entusiasmadas com Mário Soares, José Aparecido de Oliveira, António Alçada Baptista, Zélia e Jorge Amado. Era um tempo em que Quincas Berro de Água fazia parte de um certo quotidiano. Com esta recordação bem viva, todos aspiramos a que haja uma maior relevância internacional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Só uma relação biunívoca e uma compreensão das diferenças e complementaridades (ou se se quiser suplementaridades) poderão beneficiar-nos a todos.

Longe de idealizar as relações comuns, trata-se de partir da heterogeneidade, das diferenças e da adaptação para delinear uma agenda de interesses e valores comuns. Se invoquei a experiência familiar, foi para tornar claro que sempre ouvi o teor contraditório dos debates, ora de lá, ora de cá. Tenho à entrada de minha casa a imagem de D. Pedro, enquanto o meu amigo Hélio me levou a admirar o papel desempenhado por D. João VI na preservação da unidade brasileira. Conhecendo praticamente todo o território brasileiro não apenas percorri o roteiro das reduções jesuíticas, mas também o impressionante percurso dos Bandeirantes, com a obra de Jaime Cortesão sobre Raposo Tavares nas mãos. E percebe-se bem a multiplicidade de fatores que contribuíram para a construção deste imenso território – podendo perceber-se a diversidade de fatores, lendo Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Gilberto Freyre e naturalmente António Cândido.

De facto, não há uma lusofonia, mas um mundo da língua portuguesa com muitas diferenças por encontrar e descobrir. E esse mundo da língua comum alberga várias línguas e várias culturas que devemos compreender melhor. Neste ano em que celebramos 200 anos da independência formal brasileira e em Portugal assinalamos a nossa primeira Constituição, não esquecemos que o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves já existia em 7 de setembro de 1822, quando foi dado o grito do Ipiranga, desde 16 de dezembro de 1815. O Rio de Janeiro foi desde então capital de Império e essa circunstância definiu o novo tempo que permitiu ao Brasil definir uma história singular que ainda hoje marca as nossas relações.

Eis por que tem razão de ser a referência ao Brasil como outra face de nós. Não se trata de uma idealização, mas sim relação tornada natural, com todas as dificuldades inerentes a uma proximidade quase familiar, com todos os encontros e desencontros dessa paradoxal proximidade. Por isso, Eduardo Lourenço fala do Brasil como um outro “mesmo quando o pensamos, para reforço da nossa identidade onírica, como o outro sublimado de nós mesmos”. Eis por que precisamos uns dos outros para nos compreendermos melhor.

A colonização portuguesa, o tráfico de escravos e a relação com África e o papel da população ameríndia são os fatores de formação do Brasil. As diversas mediações articulam-se. Lembremo-nos de Diogo Álvares Correia, designado como “Caramuru” pelos tupinambá, casado com uma índia que contribuiu para o enraizamento da sociedade colonial. Mais do que o controlo da costa é a descoberta do ouro que conduz ao desenvolvimento económico, desde a ocupação do interior e aproveitamento dos rios à produção agrícola e abastecimento dos mercados urbanos. Cana-de-açúcar, tabaco, ouro e diamantes definem a evolução do sistema económico, bem como a exploração do pau-brasil que inicia a desflorestação.

O sistema político é inicialmente influenciado pelo português, com adaptações consuetudinárias. Franceses, holandeses e espanhóis constituem uma concorrência que permite alargar as áreas de colonização e influenciar o sistema de transporte. Com os espanhóis há a competição de que é exemplo o caso de Colónia de Sacramento até ao Tratado de Madrid (1750), mas a monarquia dual facilitará a chegada ao Forte Príncipe da Beira, muito para além do meridiano de Tordesilhas. A coesão social do sistema imperial torna-se possível graças à circulação das elites e à influência económica dos cristãos-novos, apesar da ocorrência de tensões – ora influenciadas pela herança holandesa no nordeste, ora entre bandeirantes paulistas e reinóis em Minas Gerais. A Inconfidência Mineira (1789) foi resultado do descontentamento pelo agravamento fiscal e incerteza económica.

O Brasil não é produto do acaso. Corresponde a uma convergência de fatores centrípetos e centrífugos, em que a economia, a natureza e o fator humano criaram condições para a afirmação de um território de grandes dimensões que resistiu à fragmentação hispânica. O Padre António Vieira teve uma influência diplomática e humanista importante. A Universidade de Coimbra foi um fator de coesão e de prestígio para a elite intelectual. A política jesuítica face aos índios foi um elemento estabilizador. A mitologia tupi, o candomblé como rito afro-brasileiro, o cristianismo e o messianismo que chegaria aos Sertões, de Euclides da Cunha, e a António Conselheiro, geraram movimentos híbridos a que se somou a influência puritana holandesa.

Com afirma Francisco Bethencourt: “De uma forma geral, o sistema normativo e a religião cristã deixaram quadros de comportamento e de crença sobre os quais se inscreveram boa parte dos desenvolvimentos contemporâneos” (Público, 8.8.2022). Os legados que permitiram a independência de um Brasil unificado são de caráter plural e misto com consequências contraditórias, no contexto de uma cultura na qual destacamos a herança artística de António Francisco Lisboa (o Aleijadinho) até à literária de Tomás António Gonzaga. G d’Oliveira Martins – Portugal in Visão / Jornal de Letras


domingo, 10 de outubro de 2021

Brasil - Academia Brasileira de Letras elege dois portugueses entre Sócios Correspondentes


A Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu, na quinta-feira, em sessão virtual, os quatro novos Sócios Correspondentes da instituição, entre os quais os portugueses Telmo dos Santos Verdelho, professor catedrático, e Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Gulbenkian.

O Quadro de Sócios Correspondentes da ABL é formado por 20 membros estrangeiros, tendo a eleição de quinta-feira preenchido as cadeiras sete, oito, 18 e 20. Um novo membro apenas é eleito pelos Acadêmicos quando um dos efetivos morre.

O professor Catedrático da Universidade de Aveiro Telmo dos Santos Verdelho foi um dos portugueses eleitos. É autor da obra “As palavras e as ideias na revolução liberal de 1820” (1981) e de diversas outras publicações ao longo da sua carreira. O novo Sócio Correspondente ocupará a cadeira n.º 18, ocupando o lugar anteriormente pertencente a João Malaca Casteleiro, falecido em 2020.

Já o português Guilherme d’Oliveira Martins, formado e mestre na área do Direito, é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e presidente do Grande Conselho do Centro Nacional de Cultura de Portugal. É doutor Honoris Causa pela Universidade Lusíada, pela Universidade Aberta e pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

Nos Governos de Portugal foi, sucessivamente, secretário de Estado da Administração Educativa (1995-1999), ministro da Educação (1999-2000), ministro da Presidência (2000-2002) e ministro das Finanças (2001-2002).

Foi presidente da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Econômico e Social (1985-1995), vice-presidente da Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) (1988-1994) e presidente da Comissão do Conselho da Europa (2005), segundo detalhou a própria ABL.

Guilherme d’Oliveira Martins ocupará a cadeira n.º 20, tomando o lugar do ensaísta Eduardo Lourenço, que morreu em 2020.

Além dos dois portugueses, foram ainda eleitos o norte-americano Benjamin Moser e o uruguaio Julio María Sanguinetti.

Moser formou-se em História na Universidade Brown, nos Estados Unidos, e vive hoje em Utrecht, nos Países Baixos. É o autor de “Clarice”, uma biografia sobre a escritora brasileira Clarice Lispector, finalista do National Book Critics Circle Award e do New York Times Notable Book de 2009.

Pelo seu trabalho, que levou a autora brasileira, de origem ucraniana, a uma posição de destaque internacional, recebeu o primeiro Prémio do Estado para a Diplomacia Cultural do Brasil. Ganhou uma Bolsa Guggenheim em 2017, e o seu último livro, “Sontag: Vida e Obra”, ganhou o Prémio Pulitzer.

O novo Sócio Correspondente ocupará a cadeira n.º 7, substituindo o historiador português Joaquim Veríssimo Serrão, falecido em 2020.

Já Julio María Sanguinetti foi Presidente do Uruguai de 1985 a 1990 e de 1995 a 2000. Desde 1953, atua como editor e colunista de muitas publicações nacionais e internacionais.

De 1967 a 1973, foi presidente da Comissão Nacional de Belas Artes do Uruguai e, em 1972, foi membro fundador da Comissão do Património Histórico, Artístico e Cultural Nacional.

Em 1990, presidiu o Instituto PAX e, em 1997, foi presidente honorário do Centro Latino-Americano de Jornalismo. Foi laureado com o título de doutor Honoris Causa por várias universidades e recebeu diversas outras honras nacionais e internacionais, de acordo com a ABL.

Sanguinetti ocupará a cadeira n.º 8, tomando o lugar de Augustin Buzura, que morreu em 2017. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”