Marcas portuguesas de mobiliário e decoração estão a apostar no design e no segmento de gama alta para crescer na China, procurando contornar a crise imobiliária através de uma presença conjunta que lhes permita ganhar escala.
Num
dos principais centros de mobiliário e decoração de Xangai, candeeiros
inspirados em formas orgânicas, porcelanas, cortiça, têxteis e outros produtos
portugueses compõem a exposição “Not a Love Story – A Journey Through
Portuguese Contemporary Design”.
A
mostra, patente no Cimen Mall até 7 de Outubro, reúne 12 marcas portuguesas –
Serip, Carolim, Porcel, Cockburn’s, Abyss, Habidecor, Costa Nova, Delta,
Cutipol, Herdmar, Vista Alegre e Healsi –, numa iniciativa que procura
apresentar de forma integrada uma oferta habitualmente dispersa por diferentes
distribuidores e espaços comerciais na China.
“Queremos
mostrar que existe esta quantidade e variedade”, explicou à Lusa, Huang Liu,
representante na China da marca portuguesa de iluminação Serip e uma das
coordenadoras da iniciativa. “Num mercado local, os produtos portugueses ainda
estão bastante dispersos”, observou.
Para
Luís Costa, delegado da Agência para o Investimento e Comércio Externo de
Portugal (AICEP) em Xangai, a dimensão do mercado chinês torna particularmente
importante uma actuação conjunta. Explicou que a iniciativa permitiu
estabelecer contactos entre as empresas portuguesas participantes e
distribuidores e importadores chineses que operam no Cimen, espaço onde lojas
de uma ou várias marcas funcionam como ‘showrooms’ para consumidores,
designers e profissionais do sector.
Apesar
da dimensão do mercado, a China tem ainda um peso reduzido nas exportações
portuguesas de produtos ligados à casa e decoração. Portugal exportou 1,2
milhões de euros em mobiliário para a China no primeiro semestre deste ano,
segundo dados do Instituto Nacional de Estatística fornecidos à Lusa pela
AICEP. Nos têxteis-lar, as vendas atingiram 1,46 milhões de euros, menos 8% do
que no mesmo período de 2025, representando a China apenas 0,4% das exportações
portuguesas do sector. A cutelaria registou, em sentido contrário, um forte
crescimento: as exportações para a China aumentaram 468,1%, para 290 mil euros,
tornando o país o nono maior cliente de Portugal nesta categoria. A exposição
surge numa altura particularmente difícil para o sector chinês de mobiliário e
decoração, após vários anos de crise no mercado imobiliário, que durante
décadas constituiu um dos principais motores da economia do país.
Desde
o pico do mercado, em 2019, os preços da habitação na China caíram cerca de 20%
segundo dados oficiais, embora estimativas não oficiais apontem para uma queda
próxima de 40%. A exposição das famílias chinesas ao sector é particularmente
elevada: perto de 70% da riqueza dos agregados familiares está concentrada em
habitação.
Para
um sector dependente da compra e decoração de habitações, a mudança é
particularmente relevante. Huang Liu, que trabalha com a Serip no mercado
chinês desde 2011, acompanhou de perto essa transformação.
“A
mudança foi muito grande”, afirmou, depois de, entre 2011 e 2019, o sector
imobiliário chinês ter atravessado um período de forte expansão. A responsável
mantém, no entanto, uma perspectiva optimista sobre as possibilidades para
produtos portugueses que ocupem nichos específicos.
No
Cimen, explicou Luís Costa, as empresas não tiveram de deslocar recursos
humanos para manter a exposição e beneficiam da promoção realizada no próprio
espaço, que deverá registar maior afluência durante a “Semana Dourada”. A
exposição transforma os produtos numa narrativa sobre Portugal, dividida em
vários espaços inspirados em Lisboa, na Madeira e no Algarve. O percurso parte
da história de um casal e passa pelo encontro, casamento e início de uma vida
em comum, recorrendo a paisagens, materiais e objectos portugueses para
construir cada cenário. O título “Not a Love Story” joga precisamente com essa
contradição: “Mostramos produtos de design, mas a história que contamos é uma
história de amor”, explicou Huang.
À
entrada do Cimen, candeeiros da Serip inspirados em dentes-de-leão representam
sementes transportadas pelo vento e capazes de voltar a crescer noutro lugar.
Para Huang, a imagem resume também a ambição da iniciativa: levar o design e os
produtos portugueses “para diferentes partes do mundo”. In “Jornal
Tribuna de Macau” – Macau com João Pimenta, delegado da “Lusa” em Pequim

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