O
último discurso de António
Guterres como secretário-geral da ONU marcou um momento
de transição: no próximo ano, talvez, seu lugar será ocupado por uma mulher.
Não é certo, existe um movimento nessa direção, porém não se pode esquecer
haver muitos países, onde não é reconhecida a igualdade das mulheres com os
homens. Entretanto, o atual Conselho de Segurança, responsável pela triagem
gradativa dos candidatos, é integrado atualmente por países sem essa restrição.
Essa
situação favorável a uma candidatura feminina, é provavelmente a responsável
pela existência de diversas candidatas e apenas três candidatos. A imprensa em
geral praticamente aposta na escolha de uma primeira secretária geral da ONU,
que deverá ser eleita pela Assembleia Geral em novembro ou mesmo em dezembro.
Na
semana passada, os membros do Conselho de Segurança votaram secretamente, pela
terceira vez, no processo de chegarem a uma maioria para indicação de um só
nome à Assembleia Geral.
Os
resultados dessa terceira votação, que acabam de ser conhecidos, derrubaram o
favoritismo da ex-presidenta do Chile, Michelle Bachelet, ex-Alta Comissária da
ONU para os Direitos Humanos. Diante disso e por ter perdido o apoio de seu
país, agora dirigido pelo presidente de direita José Antonio Kast, Bachelet
retirou sua candidatura. Como se vê, a posição política tem muita importância
nessa eleição, mas existe também o fator de alternância regional, que embora
não obrigatório, favorece desta vez América Latina e Caríbas, por rotação
geográfica.
Por
isso, a tendência, embora por poucos votos, é em direção da escolha da ex vice-presidente
costariquenha Rebeca Grynspan e ex-secretária geral da UNCTAD, seguida de perto
pela ex-ministra das Relações Exteriores da Guiana Carolyn Rodrigues Birkett. Nesta
época de grande antissemitismo, é ainda prematuro contar com a escolha de
Rebeca Grynspan, pois é filha de judeus fugidos da Shoah, nome que designa o
extermínio de seis milhões de judeus pela Alemanha nazista.
São
também candidatas menos votadas Maria Fernanda Espinosa, ex-chanceler
equatoriana, e Ivonne A-Baki, ex-ministra do Comércio do Equador.
Há
ainda três nomes masculinos, no terceiro e quarto lugares: o do ugandês Olara
Otunnu, ex-secretário-geral adjunto da ONU e representante especial junto às
crianças e conflitos armados; segue-se o argentino Rafael Grossi, diretor-geral
da Agência Internacional de Energia Atômica; e por último , o ex-presidente do
Senegal, Macky Sall.
Quem vencer assumirá o cargo
no dia 1 de janeiro de 2027.
Dez
membros não-permanentes do Conselho de Segurança participam da escolha, mas os
cinco países membros permanentes podem se opor utilizando o direito ao veto.
Donald Trump tentou se impor sem conseguir, com um candidato, o coordenador do
Conselho da Paz recém-criado, o búlgaro Nickolay Mladenov, ex-ministro da
Defesa e das Relações Exteriores da Bulgária.
Quem for escolhida (o) irá dirigir uma ONU enfraquecida, dividida, quase inativa e com seus recursos bastante diminuídos depois dos cortes das verbas concedidas pelos EUA, decididas pelo presidente norte-americano. Problemas que a ONU tem pela frente para ajudar o mundo a resolver: a mudança climática, a proliferação das armas nucleares, o respeito dos tratados internacionais com o restabelecimento da paz que as grandes potências não respeitam e os desafios da Inteligência artificial. Rui Martins
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Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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