Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Nações Unidas – Curso de língua portuguesa para funcionários esgota vagas em menos de 24 horas

É a primeira vez que a língua será ensinada a diplomatas, funcionários e associados ao lado dos seis idiomas oficiais da organização; iniciativa resulta de parceria das Nações Unidas com o Governo de Portugal; número de matrícula em tempo recorde e criação de lista de surpreendeu até mesmo os professores do Instituto Camões, que ministrarão as aulas


A língua portuguesa começou a ser ensinada neste 28 de setembro no curso regular de idiomas estrangeiros da Organização das Nações Unidas, com sede em Nova Iorque. Segundo os organizadores, é a primeira vez que uma língua não-oficial será compartilhada pela Unidade de Treinamento de Língua e Comunicação da ONU.

Em entrevista à ONU News, na semana passada, o primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, lembrou algumas credenciais do português que é falado num universo de mais de 300 milhões de pessoas em quatro continentes, além de ser o maior idioma do Hemisfério Sul em número de locutores.

Desafio e promoção

O representante e coordenador do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua nos Estados Unidos, João Caixinha, explicou como surgiu o projeto.

“Nesta visão, estratégia de implementar mais cursos de português em organizações internacionais, o Camões aceitou este desafio da nossa Missão Permanente de Portugal nas Nações Unidas, nomeadamente o desafio que o embaixador Rui Vinhas lançou à Coordenação do Ensino do Camões, no sentido de ensinarmos novos cursos de português junto das Nações Unidas e dos seus funcionários, diplomatas, e outros funcionários como a Monica referiu. E é muito importante que o português tenha uma presença cada vez mais forte junto das Nações Unidas. Até porque não é ainda uma língua oficial, e isto também permite que nós possamos alavancar o nível que queremos para promoção da língua portuguesa junto das organizações internacionais.”

O ritmo recorde com que as vagas foram preenchidas, em menos de 24 horas, surpreendeu até mesmo os tutores do curso, como explicou a professa Carla Gomes da Silva que assumirá as turmas de Português Nível 1, para Principiantes.

Interesse crescente pelo idioma

“E pelo que nos foi dito, há até uma lista de espera. E neste momento, nós iríamos começar com 15 alunos por cada turma, e vamos começar por ter 18 alunos em cada turma. E pelo que foi dito, pelo que entendi, e que foi falado com o dr. João Caixinha, é que no futuro, se possível, é continuar a alargar, não é? Porque realmente há muito interesse. E eu penso que o interesse virá dos profissionais aqui da ONU que realmente querem ter outra ferramenta que é a língua portuguesa para trabalhar na cooperação, para conversar uns com os outros. E eu penso na minha opinião que o interesse virá daí: do interesse crescente pela língua portuguesa.”

A língua portuguesa já é ensinada, há vários anos, a crianças, como disciplina opcional, na Escola das Nações Unidas, aberta a filhos de diplomatas e outros estudantes como língua estrangeira e que tem sede em Nova Iorque.

Este primeiro curso de português para adultos na ONU é coorganizado pelo Escritório do Departamento de Apoio Operacional das Nações Unidas. Já o Governo de Portugal delegou ao Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, a tarefa de ensinar o português.

Línguas que vêm do latim

O representante do Camões, João Caixinha explica a abordagem didática para os novos alunos.

“Eu acho que a nossa dinâmica, o approach, é um pouco diferente, claro, da Escola das Nações Unidas porque é um público estudantil para crianças. Aqui, é um público adulto em que vamos focar, sobretudo, naqueles alunos que ainda não dominam a língua. Esses são claros, obviamente, iniciação. Apesar de poderem conhecer outras línguas, vai depender do perfil de cada aluno, é evidente. E isto a Carla tem experiência para ver quais são as línguas que o aluno já domina. Se forem línguas europeias talvez mais ligadas ao latim como o francês, ou o espanhol, ou outras que tenham a base o latim, talvez a base gramatical seja mais incidente e mais próxima do português.”

Lista de espera e razões para aprender

Considerada a “primeira língua a ser globalizada no mundo”, o português lançou-se aos mares de Norte a Sul com as históricas e pioneiras Grandes Navegações portuguesas numa altura em que para se negociar, comprar e vender, era preciso fazê-lo em português. 



Hoje, quem se interessa pelo idioma aponta esta e outras razões: a importância geoestratégica dos países lusófonos, oportunidades económico-comerciais, avanços na carreira, cultura, história, redes sociais e ainda laços familiares como explicaram as estudantes americanas Chanel Jackson e Kristen Antunes, neste vídeo gravado de Boston para a ONU News.

“Eu queria aprender a língua porque o meu marido é do Brasil e tenho família dos Açores. E agora eu estou grávida e queria ensinar ao meu bebé a língua e a cultura de Portugal.”

Kristen: “E eu queria aprender o português porque o meu pai é da Madeira. E ele emigrou para Massachussetts com a minha família. Muitas pessoas em Massachussetts e nos Estados Unidos falam português no dia a dia.”

A italiana, Lara Palmisano, que trabalha na ONU em Nova Iorque, entrou na lista de espera, e explicou o porquê de querer aprender o português.

Lara conta que escuta bastante música portuguesa e brasileira e que gostaria de entender a letra das canções. Ela também tem planos de visitar o Brasil e Portugal e se comunicar diretamente com as pessoas.

E para outros futuros alunos que querem aprender o português, a professora Carla termina com uma dica:

“Bom. A minha dica é sempre a exposição à língua. Seja ela que maneira for, seja na leitura. Seja pela à música. Seja pelas férias em Portugal. Eu sou professora das escolas comunitárias há mais de 20 anos. E realmente, quando os miúdos iam a Portugal passar férias e voltavam em setembro era uma riqueza. Ouvir todos os alunos a falarem português de uma forma incrível. Então nós dizíamos que esse era o melhor remédio: era ir a Portugal, passar umas férias e passar tempo com a família e falar português. Mas para quem não pode fazer isso, realmente, o importante é expor-se à língua. Tentar conversar com pessoas que saibam falar essa língua. Até tentar ler uma notícia, ou um pequeno livro em português. A exposição à língua é muito importante.”

As línguas oficiais da ONU já ensinadas na organização são: árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo.

O Instituto Camões lembra que as aulas irão de 28 de setembro até 11 de dezembro com possibilidade de continuidade para um segundo trimestre.

O curso é inteiramente gratuito para funcionários da organização, que só pagam uma taxa simbólica em caso de ausência ou reprovação. ONU News – Nações Unidas


Sem comentários:

Enviar um comentário