É a primeira vez que a língua será ensinada a diplomatas, funcionários e associados ao lado dos seis idiomas oficiais da organização; iniciativa resulta de parceria das Nações Unidas com o Governo de Portugal; número de matrícula em tempo recorde e criação de lista de surpreendeu até mesmo os professores do Instituto Camões, que ministrarão as aulas
A
língua portuguesa começou a ser ensinada neste 28 de setembro no curso regular
de idiomas estrangeiros da Organização das Nações Unidas, com sede em Nova
Iorque. Segundo os organizadores, é a primeira vez que uma língua não-oficial
será compartilhada pela Unidade de Treinamento de Língua e Comunicação da ONU.
Em
entrevista à ONU News, na semana passada, o primeiro-ministro de Portugal, Luís
Montenegro, lembrou algumas credenciais do português que é falado num universo
de mais de 300 milhões de pessoas em quatro continentes, além de ser o maior
idioma do Hemisfério Sul em número de locutores.
Desafio e promoção
O
representante e coordenador do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua nos
Estados Unidos, João Caixinha, explicou como surgiu o projeto.
“Nesta
visão, estratégia de implementar mais cursos de português em organizações
internacionais, o Camões aceitou este desafio da nossa Missão Permanente de
Portugal nas Nações Unidas, nomeadamente o desafio que o embaixador Rui Vinhas
lançou à Coordenação do Ensino do Camões, no sentido de ensinarmos novos cursos
de português junto das Nações Unidas e dos seus funcionários, diplomatas, e
outros funcionários como a Monica referiu. E é muito importante que o português
tenha uma presença cada vez mais forte junto das Nações Unidas. Até porque não
é ainda uma língua oficial, e isto também permite que nós possamos alavancar o
nível que queremos para promoção da língua portuguesa junto das organizações
internacionais.”
O
ritmo recorde com que as vagas foram preenchidas, em menos de 24 horas,
surpreendeu até mesmo os tutores do curso, como explicou a professa Carla Gomes
da Silva que assumirá as turmas de Português Nível 1, para Principiantes.
Interesse crescente pelo
idioma
“E
pelo que nos foi dito, há até uma lista de espera. E neste momento, nós iríamos
começar com 15 alunos por cada turma, e vamos começar por ter 18 alunos em cada
turma. E pelo que foi dito, pelo que entendi, e que foi falado com o dr. João
Caixinha, é que no futuro, se possível, é continuar a alargar, não é? Porque
realmente há muito interesse. E eu penso que o interesse virá dos profissionais
aqui da ONU que realmente querem ter outra ferramenta que é a língua portuguesa
para trabalhar na cooperação, para conversar uns com os outros. E eu penso na
minha opinião que o interesse virá daí: do interesse crescente pela língua
portuguesa.”
A
língua portuguesa já é ensinada, há vários anos, a crianças, como disciplina
opcional, na Escola das Nações Unidas, aberta a filhos de diplomatas e outros
estudantes como língua estrangeira e que tem sede em Nova Iorque.
Este
primeiro curso de português para adultos na ONU é coorganizado pelo Escritório
do Departamento de Apoio Operacional das Nações Unidas. Já o Governo de
Portugal delegou ao Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, a tarefa de
ensinar o português.
Línguas que vêm do latim
O
representante do Camões, João Caixinha explica a abordagem didática para os
novos alunos.
“Eu
acho que a nossa dinâmica, o approach, é um pouco diferente, claro, da
Escola das Nações Unidas porque é um público estudantil para crianças. Aqui, é
um público adulto em que vamos focar, sobretudo, naqueles alunos que ainda não
dominam a língua. Esses são claros, obviamente, iniciação. Apesar de poderem
conhecer outras línguas, vai depender do perfil de cada aluno, é evidente. E
isto a Carla tem experiência para ver quais são as línguas que o aluno já
domina. Se forem línguas europeias talvez mais ligadas ao latim como o francês,
ou o espanhol, ou outras que tenham a base o latim, talvez a base gramatical
seja mais incidente e mais próxima do português.”
Lista de espera e razões para
aprender
Considerada
a “primeira língua a ser globalizada no mundo”, o português lançou-se aos mares
de Norte a Sul com as históricas e pioneiras Grandes Navegações portuguesas
numa altura em que para se negociar, comprar e vender, era preciso fazê-lo em
português.
Hoje,
quem se interessa pelo idioma aponta esta e outras razões: a importância
geoestratégica dos países lusófonos, oportunidades económico-comerciais,
avanços na carreira, cultura, história, redes sociais e ainda laços familiares
como explicaram as estudantes americanas Chanel Jackson e Kristen Antunes,
neste vídeo gravado de Boston para a ONU News.
“Eu
queria aprender a língua porque o meu marido é do Brasil e tenho família dos
Açores. E agora eu estou grávida e queria ensinar ao meu bebé a língua e a
cultura de Portugal.”
Kristen:
“E eu queria aprender o português porque o meu pai é da Madeira. E ele emigrou
para Massachussetts com a minha família. Muitas pessoas em Massachussetts e nos
Estados Unidos falam português no dia a dia.”
A
italiana, Lara Palmisano, que trabalha na ONU em Nova Iorque, entrou na lista
de espera, e explicou o porquê de querer aprender o português.
Lara
conta que escuta bastante música portuguesa e brasileira e que gostaria de
entender a letra das canções. Ela também tem planos de visitar o Brasil e
Portugal e se comunicar diretamente com as pessoas.
E para outros futuros alunos que querem aprender o português, a professora Carla termina com uma dica:
“Bom.
A minha dica é sempre a exposição à língua. Seja ela que maneira for, seja na
leitura. Seja pela à música. Seja pelas férias em Portugal. Eu sou professora
das escolas comunitárias há mais de 20 anos. E realmente, quando os miúdos iam
a Portugal passar férias e voltavam em setembro era uma riqueza. Ouvir todos os
alunos a falarem português de uma forma incrível. Então nós dizíamos que esse
era o melhor remédio: era ir a Portugal, passar umas férias e passar tempo com
a família e falar português. Mas para quem não pode fazer isso, realmente, o
importante é expor-se à língua. Tentar conversar com pessoas que saibam falar
essa língua. Até tentar ler uma notícia, ou um pequeno livro em português. A
exposição à língua é muito importante.”
As
línguas oficiais da ONU já ensinadas na organização são: árabe, chinês,
espanhol, francês, inglês e russo.
O
Instituto Camões lembra que as aulas irão de 28 de setembro até 11 de dezembro
com possibilidade de continuidade para um segundo trimestre.
O
curso é inteiramente gratuito para funcionários da organização, que só pagam
uma taxa simbólica em caso de ausência ou reprovação. ONU News – Nações Unidas

Sem comentários:
Enviar um comentário