Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 2 de abril de 2024

Moçambique - TP50 interpreta Bossa Nova na Fundação Fernando Leite Couto

O agrupamento TP50 apresenta, quinta-feira, às 18 horas, um espectáculo de revisitação aos clássicos da Bossa Nova. Intitulado, “TP50 Canta Bossa Nova” vai acontecer na Fundação Fernando Leite Couto (FFLC), em Maputo, e representa uma renovação da lealdade do grupo às suas origens em termos de ritmos e sonoridades, a Bossa Nova.


No concerto, TP50 vai evocar 14 clássicos interpretados por uma banda de oito músicos, quatro vozes e uma declamadora. “A nossa visão é essencialmente de uma Arte associada ao Humanismo e a Bossa Nova contêm não apenas uma inexplicável estética como uma poesia que toca e eleva o humanismo, incluindo uma ampla gama de emoções e razões como a resistência a repressão, ao amor, o ciúme, a paixão para citar alguns exemplos”, justifica António Prista, director do TP50, citado na nota de imprensa da FFLC.

“TP50 Canta Bossa Nova” não tem uma dedicatória específica, mas carrega na Alma todos os amigos que tornaram possível o surgimento do colectivo “em todos esses anos de violadas repletas de amizade e humanismo. Em particular os que já não estão como o Hortêncio Langa e o Calane da Silva que trazemos sempre para dentro dos nossos espectáculos”, reforça Prista.

Para TP50 fazer da Bossa Nova uma ferramenta de comunicação é fundamental para os dias de hoje, não só pelo contexto actual de Moçambique, mas do mundo em geral.

“No tempo que vivemos hoje em quase todo o mundo, a poesia da Bossa Nova e a beleza das harmonias e melodias são de novo muito oportunas”, diz o nosso interlocutor. In “O País” - Moçambique


Moçambique - Mau tempo volta a deixar autoridades em alerta

As autoridades do setor de Meteorologia monitorizam possível impacto de um sistema de baixa pressão formado em Madagáscar conhecido como Gamane. A comunidade humanitária aponta falta de meios de auxílio de entidades atuando no sul e centro


As autoridades de Moçambique dizem acompanhar o sistema de baixa pressão Gamane pelo potencial de ter impacto no Canal de Moçambique e no continente. A comunidade humanitária fala de necessidades críticas para a prestação de auxílio.

Nas próximas semanas, a expectativa é que chuvas significativas caiam na região norte que compreende as províncias de Cabo Delgado, Niassa  e Zambézia.

Crise climática no sul e centro

A mais recente atualização do Escritório da ONU para Assistência Humanitária, Ocha, alerta que a crise climática no sul e centro do país gerou necessidades muito acima da capacidade das organizações humanitárias no terreno. Os suprimentos e capacidades são limitados e uma expansão requer recursos adicionais.

O Gamane tem potencial para evoluir para uma tempestade tropical moderada, mas ainda “não representa perigo para a costa moçambicana após ter sido formado em Madagáscar, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia.

As agências humanitárias apontam grandes necessidades cobrindo setores como agricultura, educação, abrigo, artigos não alimentares e de água, saneamento e higiene. Foram também identificadas necessidades de reconstrução e reabilitação de infraestruturas.

Desde o início da época chuvosa e ciclónica 2023/2024, Moçambique teve um total de 131 915 afetados, incluindo 135 mortos e 195 feridos.

Danos às infraestruturas

A cidade e província de Maputo foram atingidas por fortes chuvas que afetaram um total de 93 240 pessoas provocando cinco mortos e três feridos entre 23 e 24 de março.

Os danos atingiram infraestruturas públicas e privadas e afetaram o acesso rodoviário às províncias da Matola e Maputo. Cerca de 174 casas foram parcialmente danificadas, 99 totalmente perdidas e 11 133 inundadas.

Nesta semana retomam aulas após terem sido paralisadas devido ao mau tempo que afetou pelo menos 19 escolas. Cerca de 932 hectares de culturas também foram perdidos, bem como 275 km de estradas danificadas.

Dias antes, a tempestade tropical Filipo provocou a morte de duas pessoas e dezenas de feridos nas províncias de Gaza, Inhambane, Maputo e Sofala.

O mau tempo causou danos às infraestruturas que incluem 1674 casas de forma parcial e outras 456 totalmente destruídas. ONU News – Nações Unidas

UCCLA - Lançamento do livro “Sendo Eu” de Cutana Carvalho

Vai decorrer, dia 5 de abril, às 16 horas, no auditório da UCCLA, o lançamento do livro “Sendo Eu” da autoria de Cutana Carvalho. Na ocasião, será feita a estreia do videoclipe do seu mais recente tema musical, “Futuro Seguro”.

A entrada é livre.


Sinopse do livro:

“Sendo Eu” é uma obra de autoajuda disponível para os amantes da literatura e não só, onde qualquer pessoa poderá descobrir a importância de conhecer a si próprio e a origem de vários dilemas na fase adulta.

Neste livro, Cutana Carvalho apresenta ferramentas para a resolução de alguns problemas, bem como histórias emocionantes de sentimentos, próprios de uma jovem mulher em direção aos sonhos. Narra também o passo a passo de algumas conquistas pessoais e profissionais.

Biografia de Cutana Carvalho:

Isabel Paula Cutana de Carvalho nasceu no município das Ingombotas em Luanda, Angola. Filha de pais angolanos, Fortunato Jacinto de Carvalho, natural de Kakulo Kazongo, província do Bengo, e de Laurinda Cardoso Cutana, natural de Luanda.

Cutana Carvalho é uma mulher multifacetada. Escritora, cantora, empreendedora, foi técnica comercial na banca por 6 anos e outras facetas. Começou a sua carreira artística aos 17 anos de idade. Em 2019 lançou, nas plataformas digitais, o seu álbum de estreia 4eventos. Em 2020, já a viver em Lisboa, estreou-se como produtora, realizadora e apresentadora do programa radiofónico “Tudo Posso” - atualmente disponível no seu sítio www.cutanacarvalho.com.

É também embaixadora evangélica da maior plataforma angolana de streaming Musickool, responsável do projeto ATITUDE DE UM ADORADOR e ainda foi responsável da área administrativa e comercial da Rádio Victor on-line em Portugal.

Estreou-se no mundo da literatura com o audio book “Sendo Eu” a 16 de abril de 2022, data que assinala o “Dia Internacional da voz”. É a primeira artista angolana a lançar um audio book. Em 2022 criou o seu próprio sítio www.cutanacarvalho.com onde mantém disponível os seus trabalhos. Em 2023 recebeu o PRÉMIO DE MÉRITO MIGRANTE na Assembleia da República de Portugal, pela Associação Lusofonia Cultura e Cidadania (ALCC).

Já foi capa da revista mulher africana e tem as suas matérias publicadas em vários órgãos de comunicação e portais de notícias entre os quais a FORBES.


segunda-feira, 1 de abril de 2024

25 de Abril: Marcas do passado colonial continuam vivas em ideias, emoções e acções

As marcas do passado colonial português “continuam vivas” em ideias, emoções e ações, considera o pintor afrodescendente Francisco Vidal, para quem “descolonizar o pensamento contemporâneo português” continua a ser importante, passadas cinco décadas da Revolução de Abril


“Temos de fazer isto, passados 50 anos, porque ainda há marcas”, conclui o artista plástico nascido em Lisboa, em 1978, já depois da Revolução dos Cravos, como faz questão de sublinhar, numa entrevista à agência Lusa, a propósito da efeméride.

Francisco Vidal – cuja pintura é dominada por cores vivas e linhas caligráficas que lhe conferem movimento – sente-se, ao mesmo tempo, cidadão português, angolano e cabo-verdiano, por ser descendente de pais africanos, que o educaram numa “cultura de paz”. “Eu já nasci num Portugal que vai do Minho até ao Algarve, não vai até Timor, mas sou descendente de um pai e de uma mãe que vêm de outros territórios que eram chamados colónias”, ressalvou o pintor que se tem interessado por descobrir a história dos movimentos anti-colonialistas, sobretudo na figura de Amílcar Cabral (1924-1973), político e intelectual guineense, envolvido na luta antifascista e contra o colonialismo português.

Amílcar Cabral, nascido na Guiné, um dos fundadores do então partido clandestino PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, foi assassinado em 1973. “Nasci depois do 25 de Abril, mas estudo bastante o passado colonial porque tenho de perceber de onde venho e para onde vou”, comentou o artista que em 2014 apresentou o projeto de pintura “Utopia Luanda Machine” na 56.ª Bienal de Veneza, no Pavilhão de Angola, com curadoria de António Ole, e também na Expo Milão, com curadoria de Suzana Sousa.

O artista plástico considera que ainda hoje é importante “descolonizar” o pensamento, as emoções e as ações da sociedade portuguesa: “Ainda vivemos, todos nós, numa estrutura que vem do espaço colonial, portugueses, angolanos, cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses, todo o nosso universo lusófono pensa em português. Este tipo de pensamento ainda existe no pensamento contemporâneo português”, sublinha. “Eu percebo a necessidade de sair dessa mentalidade e entender essa estrutura mental colonizada, e trazê-la para um presente e um futuro mais consciente”, defende, lembrando um passado que “deixou marcas” que “continuam vivas e activas”.

No Festival Iminente, Francisco Vidal apresentou uma performance com batucadeiras cabo-verdianas para recordar e homenagear o ator Bruno Candé, assassinado em 2021 em pleno dia, em Lisboa, por um ex-combatente da guerra colonial, que ficou registado como ataque de ódio racial.

Para a performance, Vidal disse ter-se apercebido que falou com as batucadeiras para explicar que era importante fazer aquela iniciativa, “embora Bruno Candé fosse guineense e não cabo-verdiano”. “Só mais tarde refleti sobre essa necessidade minha de lhes justificar”, disse, referindo-se às suas experiências de infância, e a certas crenças que continuam na mente de muitos africanos e afrodescendentes. “Ultimamente estive a ver o documentário sobre a guerra colonial do Joaquim Furtado e percebi que, nessa altura, existiu uma estratégia do exército português de ‘dividir para reinar’ nas antigas colónias. A ideia, colocada em prática, era pôr os guineenses contra os cabo-verdianos, porque foram aqueles que, no espaço colonial, da ditadura, tinham sido instrumentalizados para que esse espaço existisse em África”, apontou o artista que usa também o desenho e instalações no seu trabalho.

Quando era criança, nos anos 1980, Francisco Vidal recorda-se de ouvir várias pessoas dizerem-lhe que “ser filho de pai angolano e mãe cabo-verdiana era uma mistura terrível”. “’O teu pai e a tua mãe não se vão dar bem, não vai dar certo’, diziam-me. Isto foi e é ainda um traço da cultura colonial que temos de descolonizar” passadas várias décadas, defende o artista licenciado em Escultura pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, e que estudou Artes Visuais na Escola de Artes Visuais Maumaus, em Lisboa.

Vidal viveu durante algum tempo nos Estados Unidos, obtendo o mestrado na School of Visual Arts da Columbia University, em Nova Iorque. Começou a pintar profissionalmente em 2000, e a expor com regularidade a partir de 2005, em mostras individuais e coletivas, em Lisboa, Luanda, Paris, São Tomé, Joanesburgo, São Paulo, Londres, Macau, Lagos e Chile. “Essa cultura anti-guerrilha do exército português, de dividir para reinar, existiu realmente no passado. Não acredito que na nossa cultura isso aconteça ainda. Já não queremos dividir os cabo-verdianos para ter domínio sobre eles, mas ainda há resquícios dessas marcas”, avaliou, em entrevista à Lusa.

Tendo nascido em Portugal, “no pós-guerra colonial ou guerra das independências do ponto de vista africano”, e “sendo também angolano e cabo-verdiano, que é outro espaço de pensamento”, Francisco Vidal sente que é, ao mesmo tempo, “português, europeu e africano”, culturas sobre as quais tem refletido, e que derramam uma conotação histórica e política na sua obra, na qual aborda temáticas como a diáspora africana, miscigenação cultural e identitária, e as correntes transculturais. “Eu não vejo nenhuma diferença entre ser europeu ou africano. Sou completamente não binário, e vejo-me como uma pessoa. Mas há artistas brasileiros afrodescendentes que têm uma ideia completamente diferente, porque estão mais perto dos afro-americanos, do lado de lá do Atlântico. Dizem que não conhecem o seu passado, o nome de família, as suas raízes. Sentem um vazio muito grande no preenchimento da sua biografia”, disse.

Francisco Vidal também encontra no passado português ligado à ditadura um “culto do único, do primeiro, de só poder existir um, melhor do que todos, como no tempo do Salazar”: “Acredito que temos esta ‘síndrome Fernando Pessoa’ na nossa cultura”, no sentido de ter de haver uma referência acima de todas as outras, maior que todas as outras, “que inibe a cultura artística de crescer e de evoluir, como na altura do Estado Novo”. “Ao mesmo tempo, a nossa cultura é comum, é nossa, partilhada, e enriquece com os pontos de vista diferentes de todos estes lugares” nas ex-colónias, sublinha o artista cuja obra está representada em várias coleções públicas e privadas, como as da Fundação EDP, da Fundação PLMJ e a Coleção Sindika Dokolo. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


Macau - Académica da Universidade de Macau aborda direitos de autor das criações feitas com tecnologia IA

“Arte de IA para Negócios: Assuntos Legais” foi o tema que Célia Matias, professora da Universidade de Macau (UM), apresentou em mais uma sessão de pequeno-almoço da Câmara de Comércio França Macau, elucidando os presentes sobre o contexto histórico e implicações legais do uso artístico da Inteligência Artificial (IA), revelando a forma como a questão tem estado a ser gerida pelos tribunais dos Estados Unidos, Europa, Japão, Singapura ou China

As criações artísticas desenvolvidas a partir de programas de geração de imagens de Inteligência Artificial (IA) e respectivas implicações legais foram o foco da última palestra apresentada pela Câmara de Comércio França Macau no Hotel Sofitel.

A oradora convidada, a académica e jurista Célia Matias, começou por comentar que já há algum tempo que o tema da tecnologia “IA” deixou de ser novidade, e o seu uso é agora bastante comum. Contudo, a questão permanece – quais são as implicações legais, e que limitações devem ser impostas em termos de direitos de autor no regulamento desta ferramenta? A professora assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Macau (UM) fez um enquadramento da situação, dando a conhecer alguns exemplos de soluções que têm sido propostas em diferentes países.

Na sua apresentação, Célia Matias quis destacar quatro questões legais centrais que, a seu ver, surgem quando lidamos com este tipo de tecnologias. A primeira prende-se com os direitos de autor de quem cria imagens ou textos a partir destes programas. A segunda questão, é de saber se o uso destas imagens em contextos profissionais pode “causar problemas” legais a quem as utiliza. Inversamente, também é pertinente perguntar se o recurso a uma imagem de base para depois criar uma segunda imagem através de IA constitui uma violação dos direitos de autor, lembrou. A quarta questão de direitos de autor destacada pela académica relacionava-se com os “prompts”, os textos que dão instruções a estes programas.

Começando por referir que a lei em Macau ainda não se debruçou muito sobre estas questões, a professora de Estudos de Direito indicou que, no geral, quanto a direitos de autor, a lei exige que a criação seja uma obra consumada que foi concebida pelo intelecto do autor. Recordando um caso dos Estados Unidos, país onde se exige um pré-registo do direito sobre uma criação para que essa fique protegida, a advogada partilhou que foi considerado que as imagens individuais de um livro de banda desenhada criado a partir de IA não eram abrangidas pelos direitos de autor, mas a criação, no seu todo, essa sim era protegida pela lei. Célia Matias referiu-se ainda a um outro caso mais recente, o famoso caso “Spring Breeze”, que ocorreu no ano passado, em que o Tribunal da Internet de Pequim decidiu que uma imagem que tinha sido criada através de IA, por ter envolvido um “investimento intelectual” por parte do utilizador do sistema de IA, tinha direitos de autor, e não podia ser usada sem autorização. Este caso, argumentou, prende-se com a questão maior das obras de arte derivativas, um tema que “não é novidade”, como é o caso da “fan art”, em que, de todo o modo, se costuma aplicar a conhecida “regra geral” de que o dono da arte original tem de autorizar que se possa usar a sua arte como base. Isto envolve também as excepções que se fazem quando alguém faz uma paródia a partir de uma obra original, algo que é tolerado em muitos contextos legais, mas não em Macau, quis sublinhar a especialista, onde a lei é mais restritiva porque não contempla a excepção.

A jurista abordou ainda alguns processos contra companhias de IA em que se apresentou queixa por estes programas terem violado direitos de autor sobre algumas imagens, casos em que se apresentou queixa contra as companhias de IA em si e não contra os utilizadores, já que “normalmente procuramos processar quem tiver capacidade de nos pagar compensação”, brincou.

“Data mining”

Um destes casos envolvia uma artista de banda desenhada, em que o programa de IA era capaz de recriar tiras de cartoon num estilo semelhante ao da artista. Ainda nos tribunais, o caso levanta várias questões relacionadas com a necessidade que estes sistemas têm de se “treinarem”, recorrendo a cópias. Alguns países encontraram soluções, com excepções feitas no campo das leis do direito de autor, para permitir que este “treino” IA possa acontecer. Na Europa, por exemplo, em 2019 passou-se a permitir que se faça “mining” de textos e dados para efeitos comerciais, mas os autores das criações que alimentam esse “data mining” têm a opção de exclusão. “Isto quer dizer que se não exercerem o direito de dizer que não querem que o seu trabalho seja usado, ele pode por lei ser usado”, esclareceu a académica.

A solução, para já, é razoável, avaliou, especialmente se se encontrar forma de “imbuir” os direitos nas imagens e textos para que esse controlo seja feito de forma imediata. Célia Matias também fez referência a dois países que optaram por ser permissivos quanto ao uso de “data mining” – o Japão e a Singapura. Estes países autorizam o seu uso para efeitos comerciais ou não, e sem direito a pedido de exclusão. “Vamos ver que modelos serão aplicados em outros lugares do mundo”, comentou, acrescentando que quanto à China, antevê que o país irá também abraçar uma solução “pró-IA”, em que os direitos de autor “não se metam no caminho do desenvolvimento da tecnologia IA”.

História da IA

Na sua palestra, a académica aproveitou para enquadrar historicamente o percurso da arte feita através da inteligência artificial, elucidando os presentes com exemplos como o programa de software “Aaron” de Harold Cohen, de 1970, que desenhava e imprimia imagens a partir de instruções, ou o mais recente quadro “The Next Rembrandt”, de 2016, inteiramente criado por computador.

A oradora quis também destacar a tecnologia de Generative Adversarial Networks (GAN), de 2014, que na sua perspectiva é uma técnica percursora e mais próxima da IA actual. A tecnologia recorre a dados que são inseridos no sistema, criando-se assim uma imagem nova que depois é comparada com as cópias antecedentes, fazendo-se deste modo uma triagem que vai aperfeiçoando e tornando “mais realista” a imagem final. Célia Matias fez ainda referência a outros exemplos de obras de arte “GAN”, com alguns casos de quadros a serem vendidos por quantias elevadas.

Referindo-se também à tecnologia dos “Modelos de Difusão”, a especialista esclareceu que esta inovação veio dar ainda mais forma à tecnologia IA tal como a conhecemos hoje em dia, graças à capacidade de criar imagens de “ruído” que depois servem de base à criação de imagens realísticas. “Esta é a tecnologia que é utilizada pela maioria dos geradores de imagens que conhecemos actualmente, como por exemplo a Midjourney, a Dalle, e a Stable Diffusion, que possuem uma grande diferença em relação aos exemplos prévios, no sentido em que o utilizador não precisa de fazer qualquer tipo de preparação, para alcançar o resultado final, precisando apenas de um texto prompt”, explicou. Antes, havia um processo de curadoria de dados, de estabelecimento de parâmetros técnicos, algo que agora já não acontece. “O sistema agora é ‘ready-made’, e pronto para que qualquer pessoa o use”, razão para a sua popularidade, frisou. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”


França – Procura no Leste da Europa o que não consegue na África Ocidental

A França está totalmente empenhada em conquistar a linha da frente dos esforços de punição internacional da Rússia no contexto da guerra na Ucrânia e, depois de ameaçar enviar militares para o terreno, procura agora "explodir" as sólidas relações entre Moscovo e Pequim


Após um longo período, mais de dois anos, em que o Presidente francês, Emmanuel Macron, era visto como a pomba da paz entre os falcões ocidentais, há menos de um mês, tudo mudou em Paris e o "galo" francês não parou de tentar espetar as garras afiadas no dorso do Kremlin.

Alguns analistas colam esta mudança de estratégia do Palácio do Eliseu ao que se está a passar na África Ocidental, onde a Rússia ganha terreno geoestratégico e a França perde influência de forma acelerada, sendo que Moscovo parece ser o antidoto para o fim de uma era.

E, depois de "perder" o Mali, o Níger, o Burquina Faso e a Guiné-Conacri, após golpes militares, a "France Afrique" está prestes a ver também o Senegal sair do seu "mapa", com a eleição para Presidente de Bassirou Faye, que já anunciou como objectivo afastar Dacar de Paris.

Impotente para travar esta sangria de influência no Sahel, Paris, cada vez mais referido pelos media internacionais, inclusive franceses, claramente com Moscovo a emergir como o novo aliado preferencial destes países, virou-se para a Ucrânia na procura da sua "vingança".

Penas de falcão nas asas da pomba da paz francesa

Há pouco mais de mês e meio, o Presidente francês iniciou uma surpreende reviravolta no seu discurso, passando de defensor de um diálogo, firme, mas diálogo, com Vladimir Putin, para chefe de fila da ideia de enviar tropas da NATO para a Ucrânia.

Macron viu esse plano de agudização do discurso ocidental para com Moscovo travado pela Alemanha, EUA e Polónia, as grandes potências no pódio dos aliados de Kiev nesta guerra, que recusaram de forma liminar a ideia de enviar forças militares para o campo de batalha.

Sem novos trunfos na manga, além de anunciar o envio de mais lotes de material militar para as forças ucranianas, incluindo novos misseis de médio-longo alcance Scalp-EG (Storm Shadow) e dezenas de veículos blindados antigos mas funcionais, Paris encontrou uma nova forma de "ferrar" os russos.

E isso passa por procurar desvitalizar as relações entre russos e chineses, embora Pequim e Moscovo as considerem mutuamente indestrutíveis, agora e no futuro observável, até porque no contexto alargado da geoestratégia do Indo-Pacífico, são biunivocamente vantajosas e insubstituíveis.

Para dar início a essa reformulada estratégia de ferir a capacidade global russa, o Presidente Macron enviou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Stéphane Séjourné, a Pequim, para se encontrar com o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, onde a guerra na Ucrânia foi tema de topo.

Paris quer o impossível de Pequim

Segundo a France 24, o canal de televisão estatal francês em inglês, o chefe da diplomacia francesa foi claro ao dizer ao seu homologo chinês que Paris espera que "a China envie uma mensagem clara à Rússia" que passaria, segundo Paris, por Moscovo perceber que não pode haver paz sem que esta seja definida nos termos ucranianos.

Stéphane Séjourné explicou que essa paz tem de ser negociada com Kiev e que tem de ser definida de acordo com a "lei Internacional" e nos "termos

ucranianos", que é como quem diz, a Rússia aceitar sair incondicionalmente de todos os territórios anexados na Ucrânia, uma condição que Moscovo já disse não estar, sequer enquanto possibilidade, no lote dos temas negociáveis.

Face a isto, é facilmente perceptível que Paris procura colocar a China e a Federação Russa numa rota de colisão, porque é isso que significa exercer

pressão sobre Pequim para convencer Moscovo a negociar termos sobre os quais já disse serem impensáveis.

Nos dois pratos da balança, como Paris está disso consciente, e é esse o seu "trunfo", está a necessidade estratégica de Pequim manter relações diplomáticas e comerciais sólidas com o ocidente, sendo a França um dos grandes "players" europeus e um dos mais abertos a Pequim e menos sensíveis à impetuosidade sancionatória norte-americana contra o gigante asiático.

Por outro lado, coisa que Paris também está ciente, a China e a Rússia têm vindo, anos após ano, e mesmo antes da invasão russa da Ucrânia a 24 de

Fevereiro de 2022, a consolidar relações que ambos os lados definem como "sólidas como uma rocha" e "indestrutíveis".

E a razão é simples de perceber:

- a China é o novo grande parceiro para as exportações da energia russa - gás, carvão e crude - sancionada pelo ocidente, e grande fornecedor dos bens que deixou de poder importar da Europa e dos EUA, viaturas, maquinaria diversa e tecnologia, principalmente.

- a China tem em suspenso um confronto inevitável, só não se sabe quando, como todos os analistas sublinham, com os Estados Unidos pela liderança

do comércio mundial que tem na vasta região do Indo-Pacífico o seu tabuleiro e em Taiwan a peça mais importante deste xadrez.

E quando esse confronto chegar, devido à vasta rede de bases militares dos EUA em torno da costa da China continental, um bloqueio à importação de petróleo e de alimentos seria devastador para a economia e a sociedade chinesa mas que já não é assim enquanto a Rússia, que tem continuidade geográfica com a China, mantiver os oleodutos abertos e a sua vasta produção agrícola disponível para o amigo chinês.

Como definiu com clareza o diplomata dos diplomatas, o norte-americano Henry Kissinger, o "pai" da real politique, entre Estados não há amizade, há

interesses, e no conjunto dos interesses chineses, Paris espera que possa prevalecer a ligação comercial da China ao ocidente em detrimento das ligações "sólidas como uma rocha" à Rússia de Vladimir Putin.

Até ver, a mestria diplomática de Pequim permitiu manter ambas as portas abertas, até porque o caudal comercial e investimento ocidental na economia de 1,4 mil milhões de pessoas da China a isso aconselha.

"Poder de fogo" de Paris

A questão agora é saber se a França tem suficiente "poder de fogo" para impor a Pequim um desvio neste padrão de actuação e obrigar a China a sair da neutralidade que procura evidenciar quanto ao conflito na Ucrânia, opondo-se às sanções ocidentais a Moscovo.

Ambos os países caminham sobre uma fina camada de gelo com águas geladas sob os seus pés, mas a China, devido ao entrelaçado da sua economia com as restantes economias globais, incluindo a dos EUA, poderá ter mais lastro que Paris para lidar com as pressões de Emmanuel Macron, que acaba de descobrir que tem um problema interno de grande complexidade com o gigantesco défice de 5,5% do Produto Interno Bruto francês.

Face a este cenário, como vai Pequim responder à exigência do ministro dos Negócios Estrangeiros francês, que está de visita oficial à China, para que envie "sinais fortes" a Moscovo sobre a guerra na Ucrânia, especialmente na questão de negociar a paz nos termos ucranianos, que, recorde-se, o Kremlin já disse serem "impensáveis".

Stéphane Séjourné está a apostar as fichas todas nesta visita a Pequim como o demonstram as suas declarações citadas pelos media franceses, dizendo ao seu homólogo Wang Yi que Paris está convencida de que não pode haver paz duradoura sem ser nos termos ucranianos e sob os auspícios da Lei Internacional.

E colou ainda mais a Chiba a essa saída, a dos termos ucranianos, sublinhando que para Paris conseguir esse resultado é muito importante manter um diálogo de grande proximidade com Pequim, que tem um papel fundamental para levar Moscovo a respeitar a Lei Internacional.

Recorde-se que Macron caiu nas boas graças de Pequim durante a sua última visita à China, no ano passado, onde defendeu que a União Europeia não deve seguir o plano dos Estados Unidos para a China, salientando a importância de os europeus terem o seu caminho próprio.

Como vai a diplomacia chinesa lidar com estas duplas forças tectónicas, só se saberá com o correr do tempo, mas se há algo que o "Império do Meio" já habituou o mundo é que nada é impossível e os interesses acabam sempre por sobressair face aos incómodos políticos e éticos.

Teste de fogo

Alias, esta questão vai ser posta à prova já nas próximas semanas, face à inevitável ofensiva de grande envergadura que os russos vão lançar, como denotam vários especialistas militares, incluindo o português major-general Agostinho Costa, aproveitando a vantagem que estão a conseguir no campo de batalha.

Com as defesas ucranianas à beira do colapso, principalmente por quebra do fluxo ilimitado de armas do ocidente, mas igualmente devido à incapacidade de recrutar para as fileiras das suas forças armadas, a Rússia está por cima nesta guerra e deverá aproveitar o início do Verão, com a solidificação do terreno, para avançar de forma decisiva sobre as linhas ucranianas.

E o argumento para esse avanço já está a ser desenhado, com a acusação directa de Moscovo a Kiev pelo ataque ao Crocus City Hall, exigindo mesmo ao regime de Volodymyr Zelensky que entregue à Rússia todos os responsáveis pela organização da mortandade.

Entre os nomes que Moscovo quer ver nas suas prisões, está o chefe do serviço de segurança interna, o SBU, Vasyl Maliuk, que recentemente assumiu publicamente que a Ucrânia esteve por detrás das mortes na Rússia de elementos próximos do Kremlin, como Darya Dugin, filha do filósofo e aliado de Putin, Alexander Dugin ou dos ataques à ponte da Crimeia.

Apesar da saída a público dos EUA e da França a garantirem que o ataque foi reivindicado, pelo `estado islâmico", o Kremlin não descola da versão de que foi uma encomenda de Kiev.

E essa ligação é a justificação que faltava para Putin mudar o chip da operação militar especial para uma guerra aberta com a Ucrânia e, em consonância, aumentar o poder de fogo, enviar novas armas, como os misseis Zircon, para o campo de batalha e lançar uma nova e vasta campanha de recrutamento, aumentando mesmo o intervalo etário dos novos mancebos. Ricardo Bordalo – Angola in “Novo Jornal”

Portugal - Chocolate preto com mais benefícios para a saúde está a nascer na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Chocolates enriquecidos com vitaminas e minerais estão entre os produtos inovadores que a faculdade está a desenvolver no âmbito do projeto VIIAFOOD


Boas notícias para os apreciadores de chocolate preto e também para quem almeja um estilo de vida saudável. É possível juntar o melhor de dois mundos e, tanto é, que uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) está a trabalhar no enriquecimento deste alimento com vitaminas e minerais, numa parceria com a Imperial – Produtos Alimentares, S.A.

“Foi idealizado um produto com propriedades funcionais, no sentido de acrescentar benefícios em termos de saúde ao consumo de chocolate”, conta Iva Fernandes, docente e investigadora do Departamento de Química e Bioquímica da FCUP, que coordena na FCUP, este trabalho de parceria desenvolvido no âmbito do projeto VIIAFOOD.

As ações estimulante e antioxidante estão associadas aos benefícios do chocolate. A primeira devido à presença de teobromina, uma substância da família da cafeína, que exerce um efeito ligeiramente estimulante no organismo e a segunda por ser rico em polifenóis, que têm atividade antioxidante e podem ajudar a promover a saúde, nomeadamente, ao nível cardiovascular. Para além disso, o chocolate preto contém menos açúcar do que o de leite e apresenta elevado teor de sólidos de cacau. É também uma fonte rica em minerais como o magnésio, cobre e manganês e em vitaminas B2 e B6.

No entanto, apesar das suas reconhecidas vantagens, “grandes quantidades deste género alimentício não devem ser ingeridas com o objetivo de torná-lo uma fonte viável de vitaminas e minerais na dieta”, destaca a investigadora.

Por este motivo, acrescenta Iva Fernandes, “deve ser consumido no âmbito de uma dieta alimentar variada e equilibrada”. É com este objetivo que surge esta iniciativa de enriquecer o perfil nutricional do chocolate, com recurso a micronutrientes.

O trabalho da FCUP com o chocolate

Na FCUP, os investigadores receberam e estão a testar diferentes protótipos com adição de vitaminas e minerais, desenvolvidos pela Imperial, empresa líder do projeto. “Neste momento, estamos a quantificar o teor de vitaminas e minerais e compostos fenólicos e metilxantinas [pseudoalcalóides com alto poder estimulador do sistema nervoso central]”, conta Iva Fernandes.

Deste trabalho na FCUP, sairão também a(s) formulação(ões) mais adequadas para o scale-up industrial com a definição dos melhores micronutrientes a incorporar neste novo chocolate.

Depois do scale-up industrial, os protótipos industriais serão caracterizados nutricionalmente. “Serão subsequentemente avaliadas as condições de estabilidade e a bioacessibilidade e a biodisponibilidade dos bioativos, e, ainda, dos micro e macronutrientes por simulação do processo de ingestão. Ou seja, será avaliada a resposta do organismo perante a ingestão do alimento e o seu funcionamento em função dos nutrientes disponíveis”, explica a investigadora.

E quando teremos estes chocolates mais saudáveis no mercado? Este projeto, que está a ser desenvolvido no âmbito do VIIAFOOD, termina em 2025, seguindo-se todo um processo associado às restantes fases de projeto no âmbito industrial.

Sobre o VIAAFOOD

A equipa da FCUP, no âmbito do projeto VIAAFOOD (Plataforma de valorização, industrialização e inovação comercial para o setor agroalimentar), é liderada pelo docente e investigador Victor de Freitas. O VIIAFOOD que vai desenvolver mais de 130 novos produtos saudáveis e sustentáveis.

Um ou mais destes produtos sairá então desta colaboração com a Imperial liderada no Foodphenolab, grupo de investigação da unidade de Química Orgânica Aplicada (QUINOA) do LAQV-REQUIMTE, pela investigadora Iva Fernandes. Universidade do Porto - Portugal