Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 10 de setembro de 2021

A Angola que acontece fora de nós

Lisboa é uma cidade com várias dinâmicas sociais e culturais, uma cidade em constante movimento, uma cidade que acontece e faz acontecer. Tal como consegue ser "menina e moça", também consegue ser uma cidade suave e, ao mesmo tempo, frenética. Estar por cá e de férias é sempre uma oportunidade para ir redescobrir momentos de uma Angola que por cá acontece, uma Angola que acontece fora da terra, mas que consegue mobilizar e reunir pessoas da terra


Estou cá há quase um mês e tenho vivido não só aquela Angola que acontece diariamente no kandandu (abraço) da minha mãe, irmãs e sobrinhas, nas conversas e debates entre kambas sobre as makas da terra. Que acontece também nos cheiros e pitéus da terra, nos saberes, valores, olhares e falares das nossas gentes que por cá residem. É desta Angola que vejo acontecer, que tenho o direito de a ela pertencer e que, como jornalista, tenho o dever de dar a conhecer. Angola que acontece fora de nós, mas que revela muito sobre nós. Sobre a nossa História, sobre a nossa cultura, sobre as lutas, desafios, dificuldades e ambiguidades, alegrias e tristezas, empenho, paixão e dedicação de pessoas que são de Angola ou que escolheram amar Angola e os angolanos. Tenho privado com algumas pessoas, tenho participado em eventos e momentos por cá que são bastante reveladores do que descrevo, e de como a arte, a ciência, a literatura, o cinema e até a gastronomia podem reunir pessoas em torno de coisas positivas e de valor acrescentado.

Pedro Hossi, actor angolano, protagonizou o monólogo Uma Noite na Lua, de João Falção, que esteve em cartaz durante todo o mês de Agosto no Estúdio Time Out, no Mercado da Ribeira, em Lisboa. Foram noites de teatro de qualidade e com uma performance ímpar do actor. Houve grande afluência de um público bastante multicultural, havendo sempre muitos compatriotas de Pedro Hossi e que, por causa da sua arte, se juntavam aí e faziam Angola acontecer. É arte, é talento, é profissionalismo, é classe que por cá dá cartas, mas que a informação tarda a chegar, a ser divulgada em Angola porque ultimamente andamos focados num discurso muito politizado, radical e de extremos. Um discurso de assassínio de carácter, futilidades e promoção/divulgação do negativo, do que não agrega valor. E por cá e em Agosto, o Pedro Hossi deu gosto.

Augusta Conchiglia é uma jornalista italiana nascida em 1948 e que em Abril de 1968 entrou clandestinamente em Angola para, com o realizador Stefano de Stefani, reportar a luta de libertação em curso no País. Até Setembro daquele mesmo ano, guiados por guerrilheiros do MPLA, percorreram por centenas de quilómetros das zonas libertadas do Moxico. "Augusta Conchiglia nos Trilhos da Frente Leste-Imagens (e Sons) da Luta de Libertação em Angola" é a exposição temporária que, desde 22 de Julho e até 31 de Dezembro, estará patente no Museu do Aljube, em Lisboa. Imagens de dinamismo, de espírito de luta, esperança no futuro e crença na libertação, também de angústia e de motivação retratadas documentalmente há mais de cinco décadas e que hoje expostas ao público servem de elemento para a compreensão da luta de libertação nacional, para a clarificação da nossa história, dos factos e dos seus protagonistas.

Sarah Ducados (1929-2020) é filha de pai guadalupense e de mãe francesa, nasceu no Sul de França, adoptou o pseudónimo Maldoror, em homenagem a Lautréamant, o autor de "Os Cantos de Maldoror". Adaptou para o cinema as obras do escritor angolano José Luandino Vieira "Monangambée" (1969) e "Sambizanga" (1973). Durante o mês de Setembro, a sala M. Félix Ribeiro da Cinemateca Portuguesa faz uma retrospectiva integral das suas obras, do seu trabalho associado à luta contra o colonialismo e afirmação da cultura negra, bem como do seu importante papel no desenvolvimento do cinema de Angola. São sessões antecedidas de debates que contaram com a presença no passado dia 01, de Annoucka de Andrade (uma das duas filhas de Sarah Maldoror e Mário Pinto de Andrade) e com Augusta Conchiglia na sessão do passado dia 08. Tem sido um importante espaço para a compreensão da nossa história e culturas, sobretudo também um merecido tributo ao conjunto da obra da cineasta.

João Ricardo é autor e editor da Perfil Criativo e fundador da Authores Club, que conseguiu colocar no seu Stand 77, da Feira do Livro do Porto, obras de 80 autores e escritores angolanos. É obra, é coragem, é trabalho digno de reconhecimento num dos espaços mais visitados do certame que encerra já neste domingo, 12 de Setembro. O seu stand e os debates promovidos pelos autores e as suas obras são importantes momentos para se abordar a terra nas suas diferentes dimensões. Tem havido muitos encontros e reencontros. É interessante como o livro é capaz de reunir gentes e amigos de Angola, como é capaz de fazer matar saudades e partilha de sentimentos. São momentos únicos e que a ousadia e coragem deste amigo João Ricardo têm proporcionado para esta feira do livro. É a primeira vez que Angola consegue juntar tanta qualidade e ter tanta disponibilidade de autores. É uma Angola que acontece.

Termino com a candidata independente ao cargo de presidente da Câmara Municipal de Lisboa, é angolana, tem 43 anos. Lidera o movimento Somos Todos Lisboa e quer fazer história. Seja qual for o resultado das eleições de 26 de Setembro, o certo é que a sua coragem, tenacidade, espírito de luta e de iniciativa já venceram. Tem garra e determinação e tem também um jeito bué mwangolé. Essa é apenas uma pequena parte de uma Angola que vai acontecendo em terras lusas. Uma Angola que acontece fora de nós, mas não muito distante. Uma Angola que precisa de ser institucionalmente apoiada e jornalisticamente mais divulgada. Armindo Laureano – Angola in “Novo Jornal”

 

 



sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Espanha - 26,1% da população vive sob risco de pobreza ou exclusão social


A Espanha, quinta maior economia da Europa, tem um dos níveis mais altos de pobreza do continente. Este dado gera perguntas sobre quem estaria a beneficiar do crescimento económico recente e quem está a ser esquecido.

Esta declaração é do relator especial de direitos humanos sobre pobreza extrema, Philip Alston, que visitará a Espanha, no dia 27 de janeiro.


Década

Alston disse ainda que “apesar de uma recuperação económica impressionante, uma década após a crise financeira, muitos indicadores de pobreza e desigualdade na Espanha permanecem altos e superiores aos níveis antes da crise.

O relator especial deve passar 10 dias no país, concluindo a visita oficial em 7 de fevereiro.

Atualmente, a Espanha tem 26,1% da população vivendo sob risco de pobreza ou exclusão social. Em 2008, esta taxa era de 23,8%.  Philip Alston afirma que esta é uma das taxas mais altas da União Europeia. Segundo ele, metade dos espanhóis teve dificuldade para fechar o orçamento do mês e as pessoas mais expostas à pobreza são crianças, migrantes e os povos Roma e Sinti, conhecidos como ciganos.

Com mais de 14% de pessoas sem trabalho, em novembro passado, a taxa de desemprego no país representa o dobro da média europeia. O relator afirma que a Espanha também investe menos que os países da União Europeia em programas de apoio social.

Oportunidade

Philip Alston lembrou que o novo governo comprometeu-se a melhorar o bem-estar socioeconómico da população e que a visita dele no início do governo também é uma oportunidade de avaliar a situação e fazer recomendações.

Alston viajará à Galiza, ao País Basco, a Andaluzia, Extremadura e à Catalunha.

Ele vai reunir-se com as autoridades locais e com as pessoas afetadas pela pobreza, além de ativistas, académicos e representantes da sociedade civil.

Antes de chegar ao país, a equipa do relator realizou mais de 60 entrevistas por telefone e recebeu 40 textos de pessoas diretamente afetadas pelo tema.

No fim da visita, em 7 de fevereiro, Philip Alston concederá uma entrevista a jornalistas na sede da Organização Mundial do Turismo, em Madrid.

O relatório final deve ser apresentado ao Conselho de Direitos Humanos em junho deste ano. ONU News – Nações Unidas

sábado, 23 de junho de 2012

Grandella

Francisco Maria de Almeida Grandella nasceu a 23 de Junho de 1853, faz hoje 159 anos, em Aveiras de Cima no concelho da Azambuja. Filho de um médico de aldeia com o mesmo nome, Francisco Grandella cedo desejou abandonar os estudos e ir à conquista da capital do Reino, tendo chegado a Lisboa com apenas 11 anos, iniciando uma carreira como caixeiro.

Quinze anos depois, Francisco Grandella começou a sua actividade de empresário na baixa lisboeta, criando inovadores conceitos comerciais, muito avançados para a época e actualmente praticados pelas grandes superfícies, que lhe permitiu rapidamente conquistar o exigente cliente de Lisboa.

A Baía da Lusofonia recorda hoje este ilustre português que pautou a sua vida pelo maior respeito pelo ser humano, na figura dos seus empregados, construindo um bairro social para os trabalhadores em S. Domingos de Benfica, instituiu o descanso dominical, a assistência médica gratuita, a jornada de trabalho passou a ter um tempo máximo de 8 horas e os empregados do escritório, beneficiaram de uma semana de férias pagas, todas estas regalias no princípio do séc. XX, em plena monarquia, quando hoje em dia, são postas em causa, passados mais de cem anos!

Francisco Grandella que aproveitava o descanso aos domingos, para acompanhado da família, fazer piqueniques com os seus empregados e familiares, ficou seduzido pela Lagoa de Óbidos, construindo um palacete na Foz do Arelho, actualmente instalações do Inatel, uma creche e uma escola primária, que ainda hoje, 103 anos passados sobre a sua inauguração, continua a cumprir o seu ideal, a educação das crianças da Foz do Arelho. 

Amante dos comboios, não chegou a ver o caminho-de-ferro que o Eng.º Trigueiros de Martel projectou entre as Caldas da Rainha e a Foz num percurso aproximado de dez quilómetros. Este meio de transporte nunca saiu da gaveta e a única obra construída, a estação da Foz do Arelho, mesmo em frente à entrada do palacete de Francisco Grandella, ainda lá se encontra, tendo sido em tempos passados, um restaurante. Grandella que viu o seu nome perpetuado no coração de Lisboa até ao incêndio que deflagrou precisamente nos Armazéns Grandela em 25 de Agosto de 1988 faleceu na sua terra adoptiva, Foz do Arelho, a 20 de Setembro de 1934. Baía da Lusofonia