Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 20 de junho de 2024

‘Malditos sejam’ revela o cotidiano dos excluídos

Novo livro de Marcos Barrero explora os dramas dos invisíveis da sociedade                                                            

                                                                                                                                                                     I

Os personagens de Malditos sejam, livro de microcontos de Marcos Barrero, são pessoas anônimas e esquecidas pela sociedade de consumo. Ou seja, os excluídos, que vão de vendedores de doces a malabaristas de semáforos e chapeiros de padaria. Em sua maioria, nordestinos, bolivianos, venezuelanos e nigerianos. Enfim, homens e mulheres invisíveis, que tentam sobreviver a qualquer custo na grande metrópole.

Frequentam clubes sociais de bairros paulistanos ricos apenas para fazer entrega de comida ou encomenda.  Avistam baladas, restaurantes e outros recintos finos das janelas dos ônibus, que passam longe e lotados. Vivem atormentados pela sobra de salário no fim do mês. Acumulam carnês, contas de água e luz.  Manter o aluguel em dia é uma epopeia – afinal, o despejo de um quarto de muquifo e a volta para as ruas constituem uma tragédia banalizada e cotidiana.

Depois de dois livros de poemas breves, elípticos e sugestivos – Catchup, mostarda e calorias (2008) e Pra machucar meu coração (2017) –, Marcos Barrero surge agora com Malditos sejam (São Paulo, Editora Almedina Brasil, 2023), um livro de microcontos ou microficções. São verdadeiros flagrantes da vida real de remediados, desajustados e excluídos. A prosa não deixa de ser poética e traz vestígios de lirismo. Mas o caráter de urgência revela, também, certo tom jornalístico, lembrando reportagens de um tempo ruim. O autor usa um recurso parecido com versos não metrificados e reproduz o linguajar das ruas. Um exemplo é “Trilhos da Mooca”:

Não ligamos pro tempo, não. / Queremos ir sentados. / De pé, vc não sabe, é um empurra-empurra. / Cotovelada daqui, um pisão de pé ali. / O trecho é longo. / Se dá pane no trem, se chove, se tem briga. / Vixe. / Ferrou. / É punk, mano. / Só queremos ir sentados. / É mais suave o sofrimento”.

A poetização do cotidiano pode ser vista até mesmo num microconto ao extremo, que reproduz apenas o momento de um assalto na rua, como em “Asfalto selvagem”: “ – Mãos ao alto.  / – Perdeu. / – Ajoelha, filho da puta!/  – Perdeu, playboy! Eis as flores do asfalto”.

 

                                                II

Há personagens que poderiam ser inspirados em tipos que o autor conheceu nas redações de revistas e jornais pelos quais passou. Um caso é “O diagramador”, que traça o perfil de um “inimigo do vernáculo e das boas ideias”. A figura nunca perde a oportunidade de ridicularizar ex-colegas, como os professores que haviam recebido um ultimato na universidade: “ou defendiam tese, obtinham titulação ou caíam fora”. O tipo desprezível “parecia extasiado com o perrengue dos colegas”. O diagramador, diz o microconto, “viveu uma vida em garranchos, arranjado com uma tese mequetrefe – o que é regra na universidade brasileira”.

Nesse mesmo microconto, o autor recorda dois colegas de trabalho de outros tempos, que teriam sido ridicularizados pelo diagramador, pintado como uma espécie de hippie anacrônico. Descreve-os: “... A., um tipo malvestido e mal-humorado, até prestou bons serviços à inteligentsia brasileira ao criar e dirigir uma boa revista. Tentou a literatura, mas foi abatido pela própria mediocridade. Vivia, sozinho, num asfixiante cafofo na Avenida São João. Era um homem sem qualidades. J., comunistão, sindicalista, pragmático, havia sido um bom repórter de jornalões...”

 

                                               III

Os microcontos também são monólogo e diálogo. Quase sempre uma reprodução superligeira de um ato, tendo como protagonista um figurante mais expressivo. Às vezes, surgem outros personagens. Veja-se “Maria da Penha”, que faz alusão à lei federal nº 11.340/2006, que tornou mais rigorosa a punição para agressões a mulheres no ambiente doméstico. Leva esse nome, aliás, em homenagem a uma mulher agredida pelo marido por seis anos, até se tornar paraplégica e sofrer atentado com arma de fogo.

Eis o microconto: “Fiquei prisioneira por tempo demais. / Muita mulher deve estar passando o que passei. / Sofri maus tratos. / Puxava meu cabelo, me xingava, rasgava minha roupa. / Socou meu rosto. / Quebrou meu celular, comprei novo, quebrou. / Quebrou meu braço. / Tinha outra, dois filhos. / Vinha de madrugada. / Me comia. / Pendurou câmeras na casa. /  Ficava com minha chave / Trocava cadeados. / Preso três vezes em flagrante. / Descumpriu a lei. / Voltou, ronda a casa. / Quando vem, ligo 190. / Fica parado no portão. / Ri. / Sabe que a polícia demora. / Sai. E na noite seguinte, volta”.

Em suma, eis um livro de notável crueza, colado na realidade brasileira, que não se entrega a mimimis e vitimizações de personagens. O que é, é – um “papo reto”. Não guarda parentesco com certa literatura bem-comportada, falso moralista, contaminada por modismos e gêneros de ocasião. Também nada tem a ver com autoficção e autopiedade. Pode ser qualquer coisa, ou coisa nenhuma, menos um tedioso mais do mesmo. Os personagens de Malditos não aparecem na TV e não saem nos jornais. São os desvalidos, os merdunchos, como dizia o escritor João Antônio (1937-1996). Essa brava gente brasileira é o mais bem-acabado retrato em preto e branco de outro país – uma nação invisível.

 

           IV

Jornalista, escritor e professor de Jornalismo, Marcos Barrero é autor também dos livros Assis de A a Z, História dos Campeonatos Regionais (esportes), Casa da Fazenda (co-autoria), Dez Décadas – a História do Santos FC (co-autoria) e Empresários Brasileiros (co-autoria).

Foi roteirista e diretor da Rede Globo, tendo escrito roteiros para especiais de vários artistas, como Renato Aragão e Roberto Carlos. Tornou-se o primeiro ombudsman de rádio do mundo na Bandeirantes/AM, em 1996, conforme registra a Organization of News Ombudsman, de San Diego/Califórnia-EUA. Atuou como professor de Jornalismo, Telejornalismo e Radiojornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), de 1990 a 2004. Permaneceu em sala de aula por quase 30 anos em várias universidades.

Foi apresentador, diretor artístico e um dos fundadores da allTV, com a qual ganhou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição ao Telejornalismo Brasileiro em 2005. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Casper Líbero, de São Paulo, e possui curso de especialização em Jornalismo Brasileiro pela mesma instituição.

Foi chefe de redação do extinto jornal Gazeta Esportiva e editor das revistas Placar e Sala de Aula, da Editora Abril. Fez várias coberturas internacionais e ganhou os principais prêmios jornalísticos do País, inclusive o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

Desempenhou ainda as funções de repórter, redator e editor na revista Manchete, nos jornais O Estado de S. Paulo, Gazeta Esportiva e Diário de S. Paulo, na Editora Abril e nas emissoras de rádio Jovem Pan e Bandeirantes. Escreveu artigos e resenhas de livros para as revistas Veja, Isto É e Leia Livros e para os jornais Folha de S. Paulo e Folha da Tarde. Adelto Gonçalves - Brasil

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Malditos sejam, de Marcos Barrero. São Paulo: Editora Almedina Brasil, 136 páginas, R$ 70,00, 2023. Site da editora: www.almedina.com.br E-mails: apoiocliente@almedina.net geral@almedina.net lumarbarrero@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 

         



sábado, 16 de dezembro de 2017

Marcos Barrero, poeta de coração paulistano

                                                           I

A exemplo do que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) disse do poeta argentino Rodolfo Alonso, o poeta Marcos Barrero não usa as palavras pela sensualidade que desprendem, mas pelo silêncio que concentram, procurando com sua poesia tentar exprimir o máximo de valores no mínimo de matéria vocabular. De fato, a poesia de Barrero impõe-se por uma concisão que chega à mudez, como diria Drummond. É o que o leitor pode comprovar em Pra machucar meu coração (São Paulo, Editora Patuá, 2017), sua segunda experiência no gênero, depois da estreia com Catchup, Mostarda e Calorias (São Paulo, Editora Artrífice, 2008).

Nascido em Assis, na região Oeste do Estado de São Paulo, Barrero vive há mais de quatro décadas na capital paulista, embora nunca tenha abandonado suas ligações com a terra natal, como é prova o livro Assis de A a Z – a Enciclopédia do Século 1905-2005 (São Paulo Editora L2m, 2008), em que  reúne verbetes sobre personagens notáveis daquela cidade em seu primeiro século de existência, o que inclui não só figuras locais, mas também nacionais e internacionais,.

Em outras palavras: embora o título deste livro renda homenagem ao compositor carioca Ary Barroso (1903-1964), o coração do poeta é essencialmente paulistano, como mostram vários poemas em que procura reinventar o cotidiano de uma cidade que hoje já pouco tem da paulicéia desvairada de Mário de Andrade (1893-1945). Um bom exemplo é “Bar da Rua do Chora Menino”, que flagra um instante numa artéria situada no bairro do mesmo nome na Zona Norte de São Paulo, distrito de Santana, local inicialmente ocupado por chácaras de imigrantes portugueses e, mais tarde, habitado também por imigrantes armênios:

                        Banha do dono derramada no balcão.
                        Moleque de havaianas sonhando num canto.
                        Sol.
                        Um carro funerário atravessa a rua.
                        Pés empoeirados e flores murchas.
                        Um cão entre as pernas.
                        Cai a tarde.
                        E a viúva da rua de baixo passa com olhos espertos sob a sombrinha.


                                                           II
Se nem todo poema carrega poesia, é verdade que nem toda poesia aparece como poema. Mas, às vezes, é preciso procurar descobrir o que está por trás do poema ou, quem sabe, por dentro do poema. Por isso, mesmo quando se trata aparentemente apenas da apreensão de um flagrante da vida ou de uma tentativa de reprodução de um momento, uma “fotografia” da realidade, ainda assim há poesia por trás dos versos secos. No caso de Barrero, suas peças perfeitas são as pequenas, como disse certa vez Lêdo Ivo (1924-2012) da poesia de Manuel Bandeira (1886-1968). Leia-se, por exemplo, “Manzanero”:

                        O nosso amor quase sempre é fevereiro
                        Às vezes, agosto.
                        Certos meses, incerto
                        Alguns anos melhor do que outros.
                        Nada mais quero
                        Só esse bolero no alto-falante.
                        Me gusta así:
                        o flash, o insight, o instante.

 Em vários seus versos, há também uma nítida preocupação com o ocaso inevitável das coisas, a degeneração ou decadência do ser humano, enfim, o sentimento da aproximação da morte, como se pode ver no poema “PS”:

                        Vai o vulto
                        das dores físicas
                        do desabamento do corpo
                        arrastando o chinelo
                        desenhando com os pés
                        os percalços da carne veterana.
                        A cada passo
                        lento nos corredores
                        o mapa da dor
                        a geografia do fim.

Adepto do verso livre e de poemas breves, elípticos e sugestivos – alguns, até epigramáticos –, Barrero, com esta obra, dá uma demonstração inequívoca do vigor de sua poesia, conduzindo-se sempre de modo harmonioso neste ofício, o que deixa entrever que pode oferecer muito mais em próximos livros, pois, com certeza, há de ter gavetas cheias de textos à espera para saírem à luz.

Resenhista de mão cheia e, portanto, leitor contumaz, além de bibliófilo à la José Mindlin (1914-2010), o que o fez até reservar um imóvel só para abrigar suas preciosidades literárias, Barrero não é um poeta principiante, embora não seja vasta a sua produção poética publicada. Poeta de estilo apurado e profundo conhecedor da vida e da obra dos maiores poetas do Brasil e do mundo, ele, que sempre viveu (e sobreviveu) das palavras, sabe o valor exato que cada uma tem quando precisa manifestar o que lhe vai pela alma. E, por isso mesmo, sempre foi muito rigoroso com sua própria obra.


                                                           III

Jornalista, escritor e professor de Jornalismo, é autor ainda dos livros História dos Campeonatos Regionais (esportes), Casa da Fazenda (co-autoria), Dez Décadas – a História do Santos FC (co-autoria) e Empresários Brasileiros (co-autoria). Foi roteirista e diretor da Rede Globo e o primeiro ombudsman de rádio do mundo na Bandeirantes/AM, em 1996, conforme registra a Organization of News Ombudsman, de San Diego/Califórnia. Atuou como professor de Jornalismo, Telejornalismo e Radiojornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, de 1990 a 2004.

Foi apresentador, diretor artístico e um dos fundadores da allTV, com a qual ganhou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição ao Telejornalismo Brasileiro em 2005. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Casper Líbero, de São Paulo, e possui curso de especialização em Jornalismo Brasileiro pela mesma instituição.

Foi chefe de redação do extinto jornal A Gazeta Esportiva e editor da Revista Placar, da Editora Abril. Fez várias coberturas internacionais e ganhou os principais prêmios jornalísticos do País, inclusive o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Desempenhou ainda as funções de repórter, redator e editor na revista Manchete, nos jornais O Estado de S. Paulo, Gazeta Esportiva e Diário de S. Paulo, na Editora Abril e nas rádios Jovem Pan e Bandeirantes. Escreveu para Veja, Isto É, Folha de S. Paulo e Leia Livros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Pra machucar meu coração, de Marcos Barrero. São Paulo: Editora Patuá, 116 págs., R$ 38,00, 2017. E-mail: barrero@uol.com.br Site: www.editorapatua.com.br


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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os Vira-Latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

sexta-feira, 22 de abril de 2016

A história do capitalismo brasileiro

                                                           I          
Composto pelas histórias pessoais e empresarias de 51 empreendedores em atividade entre 1962 e 2013, o livro Empresários Brasileiros ajuda a compreender a construção do capitalismo no País. Escrita pelo administrador, empresário e poeta Latif Abrão Jr. e pelo jornalista e escritor Marcos Barrero, a obra, luxuosamente produzida em formato mesa (30x25cm) e com capa dura, reúne as biografias de líderes empresariais que, ao longo daquele período, conquistaram o título de Personalidade Nacional de Vendas, instituído pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB). E marca, ao mesmo tempo, não só a contribuição da ADVB para a sociedade brasileira em seus quase 60 anos de existência como reconstitui a história do empreendedorismo, a saga do comércio e da indústria do Brasil.


Obviamente, o leitor arguto irá desconfiado ao encontro deste livro, imaginando que terá pela frente uma obra encomiástica, tal como aquelas que empresas e entidades costumam fazer para comemorar datas redondas, cheias de louvações a capitalistas antigos ou a outros ainda em ação, mas, desde logo, adverte-se aqui para o engano. Na realidade, este é um livro surpreendente da primeira à última linha porque as histórias aqui resgatadas são apresentadas sem nenhuma complacência com seus personagens, mas atreladas apenas à verdade dos fatos.

Mais: foram escritas ao estilo do new journalism norte-americano de Trumam Capote (1924-1984), Gay Talese (1932), Norman Mailer (1923-2007) e Tom Wolfe (1931), levando o leitor a uma viagem pelo Brasil que trabalha e constrói. Até porque um de seus autores, o jornalista Marcos Barrero, é reconhecidamente dono de um dos melhores e mais brilhantes textos de sua geração.

De se observar é que, das 51 personalidades escolhidas pela ADVB, apenas uma é mulher, o que pode significar que o capitalismo brasileiro tem sido majoritariamente obra de homens, deixando concluir que o País ainda está muito distante na luta pela igualdade dos sexos. A honrosa exceção é a empresária Sônia Hess de Souza, sexta filha de uma costureira e de um poeta que, em 1957, criaram uma firma para coser roupas. Com tenacidade e destemor para enfrentar um mundo de homens, Sônia fez da obra dos pais, a Dudalina S.A., a maior camisaria da América Latina.

                                                           II
Seja como for, a leitura destes perfis ajuda também a compreender a própria história do capitalismo brasileiro que nasce, a rigor, depois da morte da Velha República em 1930, com o afastamento do poder de alguns grandes proprietários de terras, especialmente cafeicultores. Mas foi a partir do final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que o Brasil começou a se modernizar, com a abertura de algumas indústrias, que puderam ajudar o governo a colocar em prática a política da substituição das importações.

A essa época, São Paulo já aparecia como o mais importante centro industrial da América Latina. Muitos empreendedores já eram filhos e netos de imigrantes italianos que assumiam e comandavam os negócios de seus ancestrais. No mundo, os Estados Unidos surgiam como os líderes do bloco capitalista, aumentando sua influência sobre os vizinhos latino-americanos. O seu modelo de vida começava a chegar aos brasileiros, através das ondas do rádio, dos jornais e revistas e pelos filmes que vinham de Hollywood.

Adolpho Bloch dono do Grupo Manchete
Como mostra o livro de Latif e Barrero, o principal legado do período que vai de 1945 a 1960 foi o avanço da industrialização do País. Foi a partir de 1962 que a ADVB começou a contemplar os pioneiros na produção de bens, serviços e consumo (Johnson & Johnson, Artex, Pão de Açúcar, Varig, Grupo Gerdau, Eucatex, Duratex e Wallig) e uma poderosa mídia criada para sustentar o avanço da indústria brasileira (Rede Globo, TV Record, grupo Manchete e agência Salles/Interamericana). Sem esquecer, à época da ditadura militar (1964-1984), de destacar empresas vencedoras como Banco Bamerindus, Lojas Marisa, Supermercados Bompreço, Cofap, Fiat, TAM, Sharp e Melita. Ou ainda de homenagear empresas que, mesmo enfrentando os tempos revoltos dos anos 1990/2000, conseguiram sobreviver e crescer, como GM, Nestlé, Vale, Kia Motors, Casas Bahia, Claro, Avon, Sadia, Dudalina e o Grupo Dória.

                                                           III

Samuel Klein
À frente de seus negócios, nem sempre os empreendedores foram exitosos. Quer dizer, se à época da contemplação do prêmio Personalidade Nacional de Vendas viviam o auge de sua vida empresarial, muitos tiveram de conviver mais tarde com decepções e até mesmo enfrentar os caminhos da Justiça comum. Entre as biografias daqueles que são exemplos de empreendedorismo, estão as de Roberto Marinho (1904-2003), Samuel Klein (1923-2014), Abílio Diniz (1936), Mauro Salles (1932), Roger Agnelli (1959-2016), Eugênio Staub (1942), Rolim Adolfo Amaro (1942-2001), Luiz Fernando Furlan (1946), Abram Abe Szajman (1939) e José Luiz Gandini (1957), entre tantos outros. Mas há outros tantos que não tiveram tanto êxito assim, como Victor Pike (1923-1995), executivo norte-americano que veio para montar a divisão da Chrysler do Brasil, mas que acabaria seus dias recolhendo frutas rejeitadas nas feiras-livres do bairro do Brooklin, em São Paulo, depois de ter sido passado para trás por colegas da própria empresa.

Walter Clark
Ou ainda o banqueiro Edemar Cid Ferreira (1943), fundador do Banco Santos e conhecido mecenas das artes, que acabaria punido pela Justiça, acusado de golpes no sistema financeiro, e Paulo Roberto de Andrade (1947), antigo dono da Fazendas Reunidas Boi Gordo, igualmente acusado de fraudes, protagonista do maior escândalo do agronegócio no País, como se lê no livro. Ou ainda o executivo Walter Clark (1936-1997), tido como o criador da TV Globo, que casou e teve filhos com as mais belas atrizes e socialites de sua época, mesmo sendo empregado, sem nunca ter chegado a patrão, a par de exibir um dos mais altos salários do País. E que morreu quase na pobreza, a ponto de ter tido seu funeral custeado por um ex-colega da TV Globo.

O livro, porém, começa com um vendedor de publicidade, Mário Pacheco Fernandes (1928), que, se não chegou a se tornar um gigante empresarial, passou para a história da indústria automobilística nacional como o inventor da Romi-Isetta, uma versão nacional de um exótico carrinho fabricado na Itália que chegou ao Brasil em 1959, depois de uma associação da indústria italiana Isetta com um grupo paulista. A história da Romi-Isetta se confunde com a história da construção de Brasília e com o auge do cinema nacional e do início da TV no Brasil como veículo de massas, já que das campanhas publicitárias do mini-automóvel participaram os grandes artistas da época.

           
                                                           IV
Latif Abrão Jr., nascido em Franca-SP, administrador pela Fundação Getúlio Vargas e bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), é presidente da ADVB e superintendente do Instituto de Assistência Médica dos Servidores Públicos Estaduais (Iamspe). Empresário, sócio-proprietário do Hotel Terras Altas, em Itapecerica da Serra-SP, é autor dos livros de poemas Criado-Mudo (Editora Callis, 2005), ilustrado por ele, e O Sentimento da Pedra (L2M, 2013). É autor também do livro de ensaios Administração & Poesia (L2M, 2013). Como executivo, atuou nas empresas Companhia Energética de São Paulo (Cesp), Corporação Bonfiglioli, Vasp-Companhia Aérea de São Paulo e no grupo Notre Dame Intermédica, onde ocupou a presidência da empresa. Foi professor de Economia Brasileira e Teoria Geral de Administração e consultor nas áreas de Gestão e Saúde.

Marcos Barrero, nascido em Assis-SP, jornalista, é escritor e professor de Jornalismo em São Paulo. Autor dos livros Assis de A a Z – a Enciclopédia do Século, Catchup, Mostarda e Calorias (poesias), História dos Campeonatos Regionais (esportes), Casa da Fazenda (co-autoria) e Dez Décadas – a História do Santos FC (co-autoria). Foi roteirista e diretor da Rede Globo e o primeiro ombudsman de rádio do mundo na Bandeirantes/AM, em 1996, conforme registra a Organization of News Ombudsman, de San Diego/Califórnia. Atuou como professor de Jornalismo, Telejornalismo e Radiojornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, de 1990 a 2004.

Foi apresentador, diretor artístico e um dos fundadores da allTV, com a qual ganhou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição ao Telejornalismo Brasileiro em 2005. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Casper Líbero, de São Paulo, e possui curso de especialização em jornalismo brasileiro pela mesma instituição. Foi repórter, redator e editor na revista Manchete, nos jornais O Estado de S.Paulo, Gazeta Esportiva e Diário de S.Paulo, na Editora Abril, e nas rádios Jovem Pan e Bandeirantes. Escreveu para Veja, Isto É, Folha de S.Paulo e Leia Livros. Adelto Gonçalves


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Empresários Brasileiros, de Latif Abrão Jr. e Marcos Barrero. São Paulo: L2M Comunicação/ADVB, 467 págs., R$ 189,90, 2014. E-mail: advb@advbsp.org.br
Site: www.advbsp.org.br


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Adelto Gonçalves, jornalista,  é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br