Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Brasil - De onde veio a bandeira dos EUA?

De onde veio aquele bandeirão "gringo", ali em São Paulo, na avenida Paulista?

Li e ouvi tudo ou quase tudo sobre a presença da enorme bandeira dos Estados Unidos aberta e carregada por uns 300 "patriotas" na avenida Paulista, justamente no 7 de Setembro, data da nossa independência. A quase totalidade dos comentários se atém ao fato de ter sido um desrespeito à soberania brasileira ou uma provocação de "traidores da pátria" para os quais os Estados Unidos seriam a pátria maior dos nascidos nas Américas.

O boné Maga (Make America Greater Again), já usado, numa manifestação anterior na avenida Paulista pelo governador Tarcísio de São Paulo, favoreceu essa confusão pois coloca América no lugar dos EUA. Muitas escolas tinham e talvez ainda tenham entre seus cantos patrióticos a composição cívico-religiosa do norte-americano Irving Berlin, Deus Salve a América, na qual o uso do singular favorece a América do Norte. Porém, um aspecto dessa questão não foi devidamente tratado e merece um destaque especial.

Essa bandeira "gringa", maior que as bandeiras brasileiras na avenida Paulista, não saiu do nada. Ela foi copiada, recortada e impressa sobre o tecido num trabalho de precisão e grande paciência, cuja duração se estendeu, pelo menos, por dois séculos. Porque o trabalho de colonização mais efetivo, que não provoca reações ao contrário de uma invasão militar, é feito pela religião.

Foi assim logo depois da descoberta do Brasil, onde diante dos indígenas curiosos, se rezou a primeira missa. Depois veio a catequização, enquanto os colonizadores limpavam o terreno, os padres iam substituindo os deuses indígenas, na maioria representações da natureza, pelos santos cristãos. E deu certo.

Ora, na segunda metade do século XIX, outros cristãos divergentes dos católicos começaram a desembarcar no Brasil. Eram os missionários norte americanos, os ponta de lanças do país amigo com o objetivo de ir implantando uma outra cultura religiosa no Brasil, já que existia uma leitura diferente da Bíblia pelos protestantes vindos da Reforma.

Os missionários deram sua vida na pregação do Evangelho, nunca teriam imaginado que seus ideais seriam utilizados mais tarde com objetivos políticos e econômicos. No Brasil, os primeiros foram Robert Kalley, escocês, e Ashbel Green Simonton, estadunidense da Pensilvânia. Suas áreas foram Rio, São Paulo e Rio de Janeiro.

O crescimento desse protestantismo no formato europeu era lento. Haveria um melhor acolhimento no Brasil, com a criação das chamadas Assembleias de Deus, em 1911, em Belém do Pará, e em 1918, em Manaus.

Mas, o crescimento dos evangélicos só se tornou realmente visível depois do Golpe de 1964. O clima se tornou favorável com a oposição dos Papas Bento XVI e João Paulo II à Teologia da Libertação, tirando os católicos do combate por reformas sociais, e da ausência da esquerda nas periferias e favelas, por perseguição dos militares.

Pregando um evangelho conservador e fundamentalista, sem combate social, mas fé e submissão ou crença no empreendedorismo com a Teologia da Prosperidade e mais recentemente com a Teologia do Domínio, ou a propagação da fé pelo domínio político, os evangélicos se tornaram a base do bolsonarismo, enquanto são a base do trumpismo nos Estados Unidos. E os Estados Unidos, considerado o melhor país do mundo, são para a maioria dos evangélicos uma espécie de antevisão do céu.

O apoio no Brasil dos evangélicos a Bolsonaro criou a fusão da extrema direita com a religião popular, que nega a tentativa de golpe de Estado, prega a anistia aos golpistas, apoia Eduardo Bolsonaro, Trump no tarifaço e aplaude uma bandeira gigante dos EUA aberta na manifestação bolsonarista pela anistia, justamente no Dia da Independência do Brasil! Rui Martins - Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


 

sexta-feira, 1 de março de 2024

Brasil – Avenida Paulista, um misto de circo, igreja e muita cafonalha

Pela televisão, no celular ou ao vivo, a atração permanece: o povo brasileiro gosta de circo, mesmo se os atores e o palhaço não estão fantasiados. Bom mesmo é o circo com trapézio e picadeiro, mas mesmo em cima de uma jamanta, fechando o trânsito num domingo pode atrair muita gente. E ir ao circo vestido de canarinho excede de longe toda beleza da cafonagem.

A palhaçada da mulher saltitante, do homem que chora, de outros que berram, todos indo e vindo em cima da palco restrito e elevado para saudar o público, como animais encurralados num quadrado de grades (seria premonição?), é melhor do que Morte e Vida Severina no Municipal. Não há mugidos, mas a longa e larga avenida parece um curral.

É mais do que ridículo, grotesco e insano ouvir a periquita Michele Bolsonaro, mas poderia até ser blasfêmia, falar na perseguição sofrida por ter um marido perseguido por exaltar e colocar Deus e acima de tudo! Tudo parece pacífico, mas - poucos crentes devem ter percebido - ali não se fala em mensagem cristã de amor mas no Deus potente e guerreiro do Velho Testamento bíblico, ao qual se deve entregar a política do país. Uma maneira discreta de se semear a perigosa ideia de uma teocracia evangélica.

Nessa altura, o circo já se transformou também em show e igreja, no estilo importado norte-americano, sem procissão mas com oração. Tudo parece irreal, nada do que Michele falou se refere às reais necessidades do povo, são apenas palavras, invocações e glórias, como se o povo sofrido só precisasse mesmo de céu...

A apoteose veio com o pastor Malafaia, cujos gritos a ponto de provocar-lhe uma rouquidão, se confundiam com acessos histéricos de santo ódio, no seu desafio ao poder temporal constitucional e judicial. Seriam assim os gritos de Antônio Conselheiro levando à destruição o crédulo povo em Canudos?

Qual o papel do grito num discurso ou numa pregação? Intimida o ouvinte e provoca o acordo e a adesão? Desejoso de ser preso, imaginando assim se tornar um símbolo e líder, Malafaia lança o desafio a Moraes e ao STF para que venham prendê-lo. Machão ou farsante? Com essa linguagem de ódio, seria um mensageiro de Deus ou do Capeta? Ou de um profeta enfurecido? Seria uma versão soft do Rasputin?

O tom baixa com Bolsonaro fazendo uma confissão golpista e decidido a propor o entendimento e a pacificação, até com Moraes! e mesmo uma anistia geral... Para quem? Para os condenados às duras penas por envolvimento no quebra-quebra de prédios dos Três Poderes. Mas principalmente e por tabela, essa anistia seria para ele mesmo, diante do risco crescente e próximo de prisão.

Terminado o show, vê-se que a força da extrema-direita bolsonarista não acabou, talvez nem tenha diminuído. As últimas declarações de Lula sobre Gaza foram muito exploradas por seus inimigos e parecem ter revitalizado os evangélicos. E custado até uma fatia no eleitorado de Lula.

Durante a queda do comunismo na URSS, alguns líderes procuraram amenizar o discurso anticlerical, porém o resultado foi um fortalecimento da igreja ortodoxa russa dentro de um quadro semelhante ao brasileiro - devoção religiosa com nacionalismo.

Quantos canarinhos encheram algumas quadras da avenida Paulista? Muitos. De acordo com um método e tecnologia usados pela Universidade de São Paulo, implicando uso de drones, fotos dos quarteirões e um software para contar cabeças, havia 185 mil pessoas. A metodologia usada pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, dirigida pelo bolsonarista Guilherme Derrit, o temido ex-comandante do Pelotão da Rota, aponta um resultado exagerado de 750 mil.

Depois de terminada a manifestação, menor do que a esperada pelos bolsonaristas (eles esperavam mais de milhão), apareceu numa rede social anti-bolsonaro uma perigosa hipótese para 2026: Silas Malafaia e Michele Bolsonaro para presidente e vice, com a missão de anistiarem o ex-presidente Bolsonaro e trazerem o Reino de Deus e a teocracia para o Brasil. Com o apoio de Donald Trump, que, nessa altura, já seria de novo presidente.

Depois do circo, show de igreja, oração, gritaria, canarinhos e cafonalha, seria a hora para se sentar e ver a versão apocalíptica de um filme de terror! Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.