Enquanto o Brasil se destaca como o maior destino absoluto dessas verbas para o bloco lusófono, ultrapassando os US$ 4,7 milhões em 2025, pequenas economias como Cabo Verde, Timor-Leste e Guiné-Bissau enfrentam uma dependência profunda
A
ONU lançou nesta segunda-feira o relatório Enviando Dinheiro para Casa, em
tradução livre. O estudo global revela que remessas quase dobraram numa década,
atingindo US$ 729 mil milhões em 2025.
O
estudo do Fundo
Internacional para a Agricultura, Fida, calcula que 220
milhões de pessoas sustentam 1,1 mil milhão de familiares com remessas,
conectando uma em cada seis pessoas no mundo.
Crescimento económico ao nível
das famílias
A
análise traz à tona um retrato das transferências representando o que se
considera uma espinha dorsal do bem-estar, abarcando desde o acesso à educação
até a capacidade de superação de crises para inúmeras famílias em quatro
continentes.
Pedro
de Vasconcelos é o gestor do Mecanismo de Financiamento de Remessas do Fundo
Internacional de Desenvolvimento Agrícola, Fida. Em relação ao tema, ele
destaca haver lições de décadas que continuam perfeitamente aplicáveis hoje.
“Há
outros países, nomeadamente o sul da Europa, onde as remessas nos anos 60, 70,
80, eram muito importantes e permitiram o crescimento económico ao nível das
famílias, mas do país também. E aprendeu-se muito. Quando se fala de vincular
estas remessas a produtos financeiros, estamos a falar de experiências vividas.
Por exemplo, no caso de Portugal, chegavam as remessas e muitos imigrantes,
claro, gostavam de construir casa ou de ajudar os familiares. E com as remessas
conseguiu-se incluir de maneira financeira muitos dos receptores que não
estavam incluídos no sistema financeiro formal. Isto são lições com já mais de
20, 30 anos que se podem replicar.”
Brasil como polo receptor
Entre
os países lusófonos, o Brasil liderou o volume absoluto ao receber mais de US$
4,75 mil milhões em 2025, confirmando-se não apenas como um forte receptor
global, mas também como um polo de acolhimento para a migração intrarregional
na América do Sul.
Sobre
a oportunidade de integração no sistema bancário dessas famílias, Vasconcelos
complementa:
“Para
este poder oferecer serviços vinculados a remessas, quem recebe remessas de
maneira frequente e não tem acesso a serviços financeiros, pois podia ficar a
ter e poder criar poupança ou ter um crédito, criar um historial de crédito,
por exemplo, para quem recebe remessas de maneira regular, o que pode fazer é
poupar parte dessas remessas e se pode criar um historial de crédito. E isso
com uma carteira digital, por exemplo, pode ser facilitado. Então, isto são
todas lições do passado com tecnologia moderna que se pode adaptar e pode levar
desde então a maximizar o esforço. Porque, no fim e ao cabo, trata-se de um
esforço tremendo que os imigrantes fazem para sustentar as famílias nos países
de origem. E, outra vez, isto é uma realidade para a África, para todos os
continentes e, claro, e para os países lusófonos.”
O peso
real do dinheiro enviado pelos migrantes para casa revela-se nas pequenas
economias insulares e em desenvolvimento. Em Cabo Verde, o total atinge a marca
de 12% de todo o Produto Interno Bruto, PIB, nacional, figurando entre as taxas
de dependência mais altas de todo o continente africano.
Timor-Leste
e Guiné-Bissau seguem esse mesmo caminho de forte conexão externa, com as
remessas correspondendo a 10% das suas economias, enquanto em São Tomé e
Príncipe a fatia chega a 8% do PIB.
Total das exportações
nacionais
Em
Timor-Leste, os valores remetidos pela diáspora equivalem a 96% do valor total
das exportações nacionais. Em São Tomé e Príncipe e na Guiné-Bissau, essa
proporção alcança 62%.
Os
migrantes geram para essas nações um fluxo de divisas que compete com ou supera
quase tudo o que esses países conseguem produzir e vender para fora das suas
fronteiras.
Ao
longo da última década, o dinamismo desse movimento registrou saltos
extraordinários. Angola é um caso que chama atenção em termos de aceleração,
com a explosão de quase 1200% no volume de remessas recebidas entre 2016 e
2025.
Trajetória firme de expansão
São
Tomé e Príncipe e Moçambique também viram os seus fluxos mais do que
triplicarem no mesmo período, enquanto a Guiné-Bissau e Timor-Leste registaram
crescimentos superiores a 100%, e o Brasil e Cabo Verde mantiveram uma
trajetória de firme de expansão, em torno de 60%.
No
centro dessa teia de mobilidade global, Portugal desempenha um papel duplo e
fundamental. O país é considerado um dinâmico cruzamento de caminhos e de livre
circulação na Europa.
Rendimento das comunidades
lusófonas
Portugal
está ancorado em corredores migratórios consolidados que ligam, por exemplo,
trabalhadores portugueses à França e, ao mesmo tempo, serve de ponte para as
comunidades dos países africanos de língua portuguesa e para Timor-Leste.
Barreiras
e custos desiguais também marcam esse processo. Enquanto o envio de dinheiro
para São Tomé e Príncipe ou para o Brasil envolve taxas médias em torno de 4%
em serviços não bancários, o corredor angolano sofre com um custo médio de
quase 23% por operação.
Para o
Fida, o grande desafio atual é reduzir essas tarifas, pois cada ponto
percentual economizado na taxa de envio faz uma diferença significativa no rendimento
das comunidades lusófonas. ONU News – Nações Unidas

