Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Lusofonia - Como as remessas de migrantes unem o mundo lusófono

Enquanto o Brasil se destaca como o maior destino absoluto dessas verbas para o bloco lusófono, ultrapassando os US$ 4,7 milhões em 2025, pequenas economias como Cabo Verde, Timor-Leste e Guiné-Bissau enfrentam uma dependência profunda

A ONU lançou nesta segunda-feira o relatório Enviando Dinheiro para Casa, em tradução livre. O estudo global revela que remessas quase dobraram numa década, atingindo US$ 729 mil milhões em 2025.

O estudo do Fundo Internacional para a Agricultura, Fida, calcula que 220 milhões de pessoas sustentam 1,1 mil milhão de familiares com remessas, conectando uma em cada seis pessoas no mundo.

Crescimento económico ao nível das famílias

A análise traz à tona um retrato das transferências representando o que se considera uma espinha dorsal do bem-estar, abarcando desde o acesso à educação até a capacidade de superação de crises para inúmeras famílias em quatro continentes.

Pedro de Vasconcelos é o gestor do Mecanismo de Financiamento de Remessas do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, Fida. Em relação ao tema, ele destaca haver lições de décadas que continuam perfeitamente aplicáveis hoje.

“Há outros países, nomeadamente o sul da Europa, onde as remessas nos anos 60, 70, 80, eram muito importantes e permitiram o crescimento económico ao nível das famílias, mas do país também. E aprendeu-se muito. Quando se fala de vincular estas remessas a produtos financeiros, estamos a falar de experiências vividas. Por exemplo, no caso de Portugal, chegavam as remessas e muitos imigrantes, claro, gostavam de construir casa ou de ajudar os familiares. E com as remessas conseguiu-se incluir de maneira financeira muitos dos receptores que não estavam incluídos no sistema financeiro formal. Isto são lições com já mais de 20, 30 anos que se podem replicar.”

Brasil como polo receptor

Entre os países lusófonos, o Brasil liderou o volume absoluto ao receber mais de US$ 4,75 mil milhões em 2025, confirmando-se não apenas como um forte receptor global, mas também como um polo de acolhimento para a migração intrarregional na América do Sul.

Sobre a oportunidade de integração no sistema bancário dessas famílias, Vasconcelos complementa:

“Para este poder oferecer serviços vinculados a remessas, quem recebe remessas de maneira frequente e não tem acesso a serviços financeiros, pois podia ficar a ter e poder criar poupança ou ter um crédito, criar um historial de crédito, por exemplo, para quem recebe remessas de maneira regular, o que pode fazer é poupar parte dessas remessas e se pode criar um historial de crédito. E isso com uma carteira digital, por exemplo, pode ser facilitado. Então, isto são todas lições do passado com tecnologia moderna que se pode adaptar e pode levar desde então a maximizar o esforço. Porque, no fim e ao cabo, trata-se de um esforço tremendo que os imigrantes fazem para sustentar as famílias nos países de origem. E, outra vez, isto é uma realidade para a África, para todos os continentes e, claro, e para os países lusófonos.”

O peso real do dinheiro enviado pelos migrantes para casa revela-se nas pequenas economias insulares e em desenvolvimento. Em Cabo Verde, o total atinge a marca de 12% de todo o Produto Interno Bruto, PIB, nacional, figurando entre as taxas de dependência mais altas de todo o continente africano.

Timor-Leste e Guiné-Bissau seguem esse mesmo caminho de forte conexão externa, com as remessas correspondendo a 10% das suas economias, enquanto em São Tomé e Príncipe a fatia chega a 8% do PIB.

Total das exportações nacionais

Em Timor-Leste, os valores remetidos pela diáspora equivalem a 96% do valor total das exportações nacionais. Em São Tomé e Príncipe e na Guiné-Bissau, essa proporção alcança 62%.

Os migrantes geram para essas nações um fluxo de divisas que compete com ou supera quase tudo o que esses países conseguem produzir e vender para fora das suas fronteiras.

Ao longo da última década, o dinamismo desse movimento registrou saltos extraordinários. Angola é um caso que chama atenção em termos de aceleração, com a explosão de quase 1200% no volume de remessas recebidas entre 2016 e 2025.

Trajetória firme de expansão

São Tomé e Príncipe e Moçambique também viram os seus fluxos mais do que triplicarem no mesmo período, enquanto a Guiné-Bissau e Timor-Leste registaram crescimentos superiores a 100%, e o Brasil e Cabo Verde mantiveram uma trajetória de firme de expansão, em torno de 60%.

No centro dessa teia de mobilidade global, Portugal desempenha um papel duplo e fundamental. O país é considerado um dinâmico cruzamento de caminhos e de livre circulação na Europa.

Rendimento das comunidades lusófonas

Portugal está ancorado em corredores migratórios consolidados que ligam, por exemplo, trabalhadores portugueses à França e, ao mesmo tempo, serve de ponte para as comunidades dos países africanos de língua portuguesa e para Timor-Leste.

Barreiras e custos desiguais também marcam esse processo. Enquanto o envio de dinheiro para São Tomé e Príncipe ou para o Brasil envolve taxas médias em torno de 4% em serviços não bancários, o corredor angolano sofre com um custo médio de quase 23% por operação.

Para o Fida, o grande desafio atual é reduzir essas tarifas, pois cada ponto percentual economizado na taxa de envio faz uma diferença significativa no rendimento das comunidades lusófonas. ONU News – Nações Unidas