Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Moçambique - Paulina Chiziane e Mia Couto inspiram tese de doutoramento de docente da UniLicungo em Portugal

Os escritores moçambicanos Paulina Chiziane e Mia Couto tornaram-se tema de uma investigação de doutoramento defendida pelo docente Joel António Tiago, da Faculdade de Educação da Universidade Licungo, na Universidade de Aveiro, em Portugal.


A tese, intitulada “A Identidade Cultural, Política e Religiosa em Paulina Chiziane e Mia Couto”, foi defendida na tarde de 6 de Maio de 2026, no âmbito do Doutoramento em Estudos Literários, especialidade em Literaturas em Língua Portuguesa, sob orientação científica do Professor Doutor António Manuel Ferreira.

Segundo a UniLicungo, a investigação procurou analisar a representação da identidade cultural, política e religiosa de Moçambique através das obras O Sétimo Juramento, de Paulina Chiziane, e Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, de Mia Couto.

O estudo teve ainda como objectivo identificar e descrever as principais marcas da moçambicanidade presentes nas obras dos dois autores, explorando questões ligadas à cultura, religião, política e construção da identidade nacional no período pós-colonial.

De acordo com a nota divulgada pela instituição, Joel Tiago destacou que Moçambique apresenta uma riqueza cultural marcada pela coexistência de vários grupos culturais e religiosos, factor que abre espaço para múltiplas abordagens científicas e literárias.

A investigação também abordou o sincretismo religioso presente na sociedade moçambicana, analisando a convivência entre religiões tradicionais africanas e outras crenças, como o cristianismo, islamismo e hinduísmo, elementos frequentemente retratados nas narrativas de Chiziane e Mia Couto.

Além dos Estudos Literários, a tese incorporou contribuições de áreas como Estudos Culturais, Ciências Políticas, Antropologia e Sociologia, reforçando o carácter multidisciplinar da pesquisa.

Com esta conquista académica, a Faculdade de Educação da UniLicungo passa a contar oficialmente com mais um doutor, num feito que a instituição considera importante para o fortalecimento da investigação científica e valorização da literatura moçambicana. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Moçambique - Paulina Chiziane distinguida como “Melhor Escritora de África” no African Award 2026

A escritora moçambicana Paulina Chiziane foi distinguida como “Melhor Escritora de África de 2026” no African Award – Creators and Directors Excellence 2026, prémio que reconhece figuras de destaque na promoção da cultura africana através da literatura, arte e criatividade.


A distinção reforça o impacto do percurso literário de Paulina Chiziane, considerada uma das vozes mais influentes da literatura africana contemporânea e referência na valorização das identidades, memórias e narrativas do continente.

A cerimónia de premiação decorreu na noite de 28 de abril, no EPIC SANA, reunindo personalidades ligadas ao cinema, moda, música e outras áreas criativas, numa celebração dedicada a talentos que têm contribuído para a afirmação cultural de África.

O reconhecimento surge como mais um marco na trajectória da autora, cujo trabalho continua a projectar a literatura moçambicana além-fronteiras e a consolidar o seu nome entre os maiores expoentes culturais do continente. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


terça-feira, 30 de setembro de 2025

Moçambique - Novo EP de Paulina Chiziane mistura espiritualidade e memória africana

A escritora e artista moçambicana Paulina Chiziane acaba de lançar um novo EP intitulado Afro-Fado: O Regresso das Caravelas, uma obra musical que resgata memórias, ancestralidade e espiritualidade através da fusão entre o fado e sonoridades africanas.


Segundo Paulina, o fado tem raízes profundas no sofrimento africano, uma vez que chegou à Europa e ao Brasil pelos navios negreiros que transportavam escravos. “As caravelas portuguesas que invadiram a África vinham cheias de ganância, mas vazias de cantigas da alma. Regressaram cheias de escravos negros que, cantando, elevavam a sua oração ao transcendente”, explicou numa nota enviada à Moz Entretenimento.

Para a autora, cantar o afro-fado é uma forma de recuperar a alma negra espalhada pelo mundo durante séculos de colonização e escravidão

Composto por 3 faixas produzidas por N Records, o EP é apresentado como um acto de despertar de consciências, com cantos de louvor à Mãe África, descrita como “o sal que dá sabor à vida”, “o sol eterno que ilumina o mundo” e “a cidade edificada sobre o monte que nunca pode ser escondida”. Mais do que música, trata-se de um manifesto cultural e espiritual que celebra a identidade africana e denuncia as injustiças históricas sofridas pelo continente.

O Afro-Fado: O Regresso das Caravelas já está disponível online. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


sexta-feira, 12 de maio de 2023

O Português de Moçambique no Mundo da Lusofonia

O dia 5 de Maio foi oficializado em 2009, com o propósito de promover o sentido de comunidade e de pluralismo dos falantes do português na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Desde então, esta data celebra este idioma como parte da identidade de todos estes países e povos. Num dia comemorativo tão especial como o de hoje, gostaria de fazer uma menção especial a dois feitos extremamente marcantes.

O primeiro, de efeito extraordinário, é o da premiação da escritora moçambicana Paulina Chiziane, a vencedora do Prémio Camões 2021, escolha unânime anunciada no dia 20 de Outubro de 2021 e que só hoje, dia 5 de Maio de 2023, finalmente, chegou às mãos da legítima dona. Este prémio reconhece a vasta produção e recepção crítica da Paulina Chiziane, como também o reconhecimento académico e institucional da sua obra, sobretudo a importância que dedica nos seus livros aos problemas da mulher moçambicana e africana.

Esta escritora, a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, tem desenvolvido uma relação muito próxima com a UP-Maputo, a quem já atribuímos, num passado muito recente, um título Honoris Causa e que tem tido presença regular nos eventos científicos e culturais organizados pela nossa universidade. A Paulina Chiziane escreve em português, língua que aprendeu a falar na escola de uma missão católica como muitos outros moçambicanos da sua geração o faziam pela primeira vez. Ela é, indubitavelmente, a prova viva de que, mesmo sendo de origem humilde e sem nenhum arcaboiço linguístico de berço, é possível fazer grandes coisas e chegar a tão destacado reconhecimento no espaço lusófono global.  Hoje celebramos, mais uma vez, este feito que projecta e faz brilhar todo o nosso país e o nosso povo na arena internacional.

O segundo feito, não menos importante e também de efeito extraordinário, é o da Ludmila Bata, estudante do 2° ano do curso de Jornalismo, ministrado pela Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes (FCLCA) da UP-Maputo, que foi declarada vencedora do Prémio Eloquência Camões do ano 2023. Esta vitória tem um sabor especial para a UP-Maputo, especialmente se se tomar em consideração que a Ludmila Bata, nossa estudante, destacou-se num universo extremamente competitivo de 49 estudantes pertencentes a 6 universidades nacionais. É importante frisar que o Prémio Eloquência Camões, organizado, em parceria, pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo e pelo Camões – Centro de Língua Portuguesa em Maputo, pretende ser uma alavanca institucional para a descoberta de novos talentos na redacção e na oralidade em língua portuguesa.

A Ludmila Bata demonstrou, com a sua vitória, que é possível fazer história, ainda em tenra idade e sendo também mulher, como a Paulina Chiziane. Num dia especial como o de hoje celebramos, também, este feito que projecta e faz brilhar os nossos estudantes e a nossa comunidade universitária na arena nacional.

Destacar estes feitos, num dia que exaltamos a língua portuguesa, como nosso património cultural e histórico, faz a nossa celebração mais especial e simbólica. Aliás, tornou-se uma tradição – uma boa tradição, diga-se! – que nos juntemos na UP-Maputo, no dia 5 de Maio de cada ano, para comemorar o dia Mundial da Língua Portuguesa e, igualmente, para celebrar a amizade entre os povos que partilham esta língua.

A língua portuguesa é uma das mais ricas e influentes línguas do mundo e, como Reitor desta universidade, tenho orgulho em fazer parte de uma comunidade académica que valoriza e celebra a sua riqueza e diversidade. Nestas salas e corredores revisitamos a língua portuguesa como factor de unidade nacional.

A língua portuguesa é uma língua viva, dinâmica e em premente transformação, falada por mais de 265 milhões de pessoas em todo o mundo. É a língua oficial de 9 (nove) países e de organizações como a CPLP, a SADC, a União Europeia, o Mercosul e a Organização dos Estados Ibero-americanos.

Mas, a língua portuguesa é muito mais do que uma língua falada ou escrita. É um património cultural e histórico que representa a rica herança e a diversidade das sociedades e culturas que a falam, cantam, dançam, escrevem e declamam poesia. Na essência, em português se comunicam. É, por isso, necessário que olhemos para a língua portuguesa sem preconceitos. Que assumamos esta língua como nossa! Nenhum angolano, cabo-verdiano, português ou brasileiro fala a língua portuguesa como nós. O nosso português moçambicano é único. Nós, moçambicanos, soubemos tornar o português numa língua melodiosa, poética e sensual. Neste momento, a língua portuguesa não pode ser mais vista como a língua do outro. O outro não consegue falar um português tão belo como o nosso!

Neste simpósio, debatemos a especificidade do Português de Moçambique na diversidade da língua portuguesa. Temos, hoje, a oportunidade de conhecer melhor a língua em que nos comunicamos diariamente e de compreender o contributo de Moçambique para a afirmação da língua portuguesa no Mundo, mas, não menos importante, temos também uma oportunidade para perceber de que modo o Português de Moçambique pode contribuir para o nosso desenvolvimento individual e colectivo. Jorge Ferrão – Moçambique

Discurso em torno da celebração do 5 de Maio, dia da língua portuguesa, por ocasião da realização do Simpósio “O Português de Moçambique no Pluricentrismo da Língua Portuguesa”, na Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo)

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

Moçambique - “É preciso quebrar o tabu de que África não tem ópera”, diz Paulina Chiziane


Com vista a quebrar este tabu, a escritora apresenta, hoje, dia 10 de Março, o concerto “Msaho”, uma ópera africana desenhada por si há seis anos, com o objectivo de mostrar as valências culturais moçambicanas.

Inspirada no seu livro de poesia, intitulado “O Canto dos Escravizados”, Paulina Chiziane desenhou uma ópera à maneira moçambicana há seis anos.

Segundo conta, ao expor a ideia teve pouco apoio, mas não desistiu, caso para dizer que nem só de livros viverá Paulina.

Com o espectáculo, pretende-se juntar várias manifestações artístico-culturais, como teatro, poesia e canto, para apresentar a história de opressão e libertação do povo africano ao mesmo tempo que se quebram alguns tabus.

“Há várias coisas, uma das quais é quebrar esse tabu de pensar que África não tem ópera. [Quero] quebrar esse tabu de dizer que os moçambicanos não têm ópera. Ópera é uma manifestação cultural, assim sendo, todos os povos têm ópera”, argumentou a escritora.

Ao aderir ao espectáculo, segundo Paulina Chiziane, o público terá uma experiência equilibrada entre o entretenimento e reflexão sobre “a sua interioridade”.

O evento terá lugar no Centro Cultural Universitário, em Maputo, hoje, sexta-feira 10. Regina Ernesto – Moçambique in “O País”

 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Moçambique - Homenageadas duas “embaixadoras” da raça e culturas negras no mundo


Graça Machel diz que está na hora de os negros afirmarem-se pelo seu contributo para o desenvolvimento da humanidade, fazendo soar e ouvir a sua voz. A activista falava num evento alusivo à sua homenagem, junto a Paulina Chiziane.

Foi perante antigos governantes, membros dos órgãos de justiça e soberania que Graça Machel e Paulina Chiziane foram, pela primeira vez, homenageadas na terra que as viu nascer.

A homenagem organizada pela Folha Verde e parceiros tinha a razão de ser, afinal, estas duas mulheres são um orgulho afro-moçambicano.

“É sobejamente conhecido por toda a sociedade moçambicana que Paulina Chiziane e Graça Machel são as nossas referências. As melhores conservadoras da nossa integridade como mulheres. Achamos que era oportuno, apesar de todas as vicissitudes que estamos a passar, agora, homenageá-las e agradecer-lhes por tudo que elas têm sido para nós, os moçambicanos”, indicou Esperança Mangaze, promotora da iniciativa.

Aliás, Graça e Paulina já foram laureadas internacionalmente, por isso, para Esperança Mangaze, “nada melhor que fazermos isso cá, em casa, para que elas sintam que o esforço que têm estado a fazer e as lutas que têm estado a travar não são em vão”.

E uma das lutas que Graça Machel e Paulina Chiziane têm travado estão ligadas à afirmação da raça e cultura negras pelo mundo, em particular no Brasil.

Chamada ao pódio, a antiga Primeira-Dama de Moçambique e da África do Sul começou por trazer uma abordagem sobre como os negros são vistos pelo mundo.

“Em que instituições que os negros, sejam eles em África, nas Américas e em todo o mundo, são representados pelo que são. Nós somos representados pelo que sofremos. A nossa visibilidade é por aquilo que sofremos”, afirmou a activista social, Graça Machel, citando alguns exemplos: “Somos refugiados, os pobres que estamos sempre a receber a caridade de toda a gente, somos aqueles que são analfabetos e morrem mais quando houver uma calamidade”.

Uma situação que, segundo Graça Machel, devem ser os próprios negros a colocar o basta!

“Sermos nós a pintar com as nossas próprias cores, a definir com o timbre da nossa voz sobre o que é ser cidadão do mundo, mas que coincide ser de raça negra”, exortou Graça Machel.

E foi por causa desta defesa pelos seus que fez com que a activista social fosse homenageada pelo Troféu Raça Negra, no Brasil, em Novembro do ano passado. Graça Machel só precisou de fazer perguntas para merecer o prémio.

“Apenas no futebol e na cultura é que os negros têm visibilidade. Só visibilidade. Não estou a dizer que têm reconhecimento e eu fiz perguntas porque me incomodava, claramente. E porque violentam a minha mente. Porquê?”, questionou, retoricamente, a activista social.

Pauliana Chiziane esteve ausente no evento, mas foi representada pelo ensaísta Dionísio Bahule, que não poupou elogios a estas duas vozes da raça e cultura negras.

“Graça e Paulina, dois rostos com uma eucaristia do povo, isto é, dois rostos que se dão pelo povo. De um lado Graça, que luta para que a dignidade humana seja respeitada e tenha o básico. Doutro lado, temos a Paulina, que, independentemente das críticas, nos desperta a reflectir sobre quem somos nós a nível cultural”, descreveu Dionísio Bahule, ensaísta e crítico literário.

O antigo presidente do Conselho Constitucional enalteceu, também, o papel dessas duas mulheres na valorização da africanidade.

“Graça Machel é um farol que brilha e ilumina a todos nós. Eu diria, em suma, tem luz própria e só os astros têm luz própria e a Dra. tem luz própria e é, de facto, um orgulho para todos nós, moçambicanos, e temo-la como guia. O prémio Camões [a Paulina Chiziane] é a consagração, reconhecimento e afirmação da cultura africana e da mulher no mundo”, elogiou Hermenegildo Gamito, antigo presidente do Conselho Constitucional.

De resto, foram a dança e a música moçambicanas que marcaram o dia de homenagem a Graça Machel e a Paulina Chiziane, embaixadoras da raça e cultura negras no mundo. Dario Cossa – Moçambique in “O País”


 

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Moçambique - Paulina Chiziane recebe título de Doutora Honoris Causa

A Universidade Pedagógica de Moçambique, através da Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes atribuiu o título Doutora Honoris Causa à escritora Paulina Chiziane. A cerimónia teve lugar no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, na cidade de Maputo.

De acordo com a instituição, a atribuição do título honorífico ocorre em reconhecimento dos seus feitos na pesquisa literária, cultural e antropológica, pelas actividades de produção e publicação literárias e pelas realizações relevantes, visando o desenvolvimento académico, cultural e de cidadania do país e do mundo.

Recorde-se que Paulina Chiziane é autora de uma vasta obra literária. É a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, em 1990, intitulada “Balada de Amor ao Vento”.  Da sua obra fazem ainda parte “Ventos do Apocalipse”, “O Alegre Canto da Perdiz” (2008), “As Andorinhas” (2009), “Na mão de Deus” e “Por Quem Vibram os Tambores do Além” (2013), “Ngoma Yethu: O Curandeiro e o Novo Testamento” (2015), “O Canto dos Escravos” (2017), “O Curandeiro e o Novo Testamento” (2018), entre outras. Recebeu vários galardões, sendo O Prémio Camões (2021) um dos mais emblemáticos reconhecimentos no mundo da literatura! Idnórcio Muchanga – Moçambique in “Jornal de domingo”

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Moçambique - 8ª edição da Feira do Livro de Maputo

A 8ª edição da Feira do Livro de Maputo, na comemoração dos 100 anos de José Craveirinha, celebra o autor do emblemático Nós Matámos o Cão-tinhoso como o Escritor Homenageado desta edição. Luís Bernardo Honwana lançou o seu livro de estreia há 58 anos


A Feira do Livro de Maputo arranca esta quinta e termina sábado.

A realizar-se na Praça da Independência e no Átrio Municipal, o evento irá homenagear o escritor Luís Bernardo Honwana, o autor do célebre Nós matamos o cão-tinhoso.

De acordo com uma nota de imprensa, a Feira do Livro de Maputo vai se materializar em diversas disciplinas artísticas. A música com o Coro Xiquitsi, teatro, oficinas de escrita e leitura, debates, concursos literários, palestras e outras atracções literárias

Citando na nota da feira, para Ungulani Ba Ka Khosa, homenagear Luís Bernardo Honwana, significa consolidar o papel fundacional do pai da modernidade da literatura moçambicana.

A Feira do Livro, graças a parceria com o Camões – Centro Cultural Português em Maputo e com Instituto Guimarães Rosa – Centro Cultural Brasil-Moçambique, traz a Maputo duas vozes da literatura portuguesa e brasileira respectivamente, nomeadamente, Lúcia Vicente, em residência literária, e Tatiana Pequeno, autora do livro Tocar o Terror que será lançado na Feira do Livro.

De Moçambique, pontificam nomes tais como: Ungulani Ba Ka Khosa, Paulina Chiziane, Marcelo Panguana, Sónia Sultuane, Aurélio Rocha, Jorge Ferrão, Licínio Azevedo, Jaime Munguambe, Hirondina Joshua e Matilde Chabana.

A Feira do Livro de Maputo, entre 20 e 22 de outubro, vai contar com a participação de vozes imprescindíveis da literatura lusófona e hispânica. A Feira vai contar este ano com a participação de escritores de 24 países, nomeadamente: Moçambique, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Brasil, Portugal, Bolívia, Argentina, Espanha, Itália, Cuba, República Dominicana, Guiné-Equatorial, Honduras, Rússia, Finlândia, Inglaterra, Colômbia, Venezuela, El Salvador, Chile, Mali, Uruguai.

O evento, que contará com 12 mesas de autores e debates, vai contar com um espaço dedicado aos escritores e editoras, na Praça da Independência, decorrendo em simultâneo com actividades lúdicas e criativas para o publico infanto-juvenil, lançamentos de livros, oficinas de leitura, sessões de autógrafos e conversas entre escritores e leitores. In “O País” - Moçambique


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Lusofonia - Escritora moçambicana Paulina Chiziane vence Prémio Camões

A escritora moçambicana Paulina Chiziane é a vencedora do Prémio Camões 2021, numa escolha feita por unanimidade, anunciou hoje a ministra portuguesa da Cultura, Graça Fonseca



"No seguimento da reunião do júri da 33.ª edição do Prémio Camões, que decorreu no dia 20 de outubro, a ministra da Cultura anuncia que o Prémio Camões 2021 foi atribuído à escritora moçambicana Paulina Chiziane", lê-se na nota informativa hoje divulgada.

“O júri decidiu por unanimidade atribuir o Prémio à escritora moçambicana Paulina Chiziane, destacando a sua vasta produção e receção crítica, bem como o reconhecimento académico e institucional da sua obra”, pode ler-se na nota.

O júri referiu também a importância que dedica nos seus livros aos problemas da mulher moçambicana e africana. O júri sublinhou o seu trabalho recente de aproximação aos jovens, nomeadamente na construção de pontes entre a literatura e outras artes.

Paulina Chiziane "está traduzida em muitos países, e é hoje uma das vozes da ficção africana mais conhecidas internacionalmente, tendo já recebido vários prémios e condecorações", conclui-se na mensagem.

Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, Moçambique, em 1955. Estudou Linguística em Maputo. Atualmente, vive e trabalha na Zambézia.

Ficcionista, publicou vários contos na imprensa.

Publicou o seu primeiro romance, "Balada de Amor ao Vento" (1990), depois da independência do país, que é também o primeiro romance de uma mulher moçambicana.

"Ventos do Apocalipse", concluído em 1991, saiu em Maputo, em 1993, como edição da autora e foi publicado em Portugal, pela Caminho, em 1999, antecedendo a publicação de "Balada de Amor ao Vento", em Portugal, pela mesma editora, em 2003.

A Caminho possui aliás os títulos da autora publicados em Portugal: "Sétimo Juramento" (2000), "Niketche: Uma História de Poligamia" (2002), "O Alegre Canto da Perdiz" (2008).

Da sua obra fazem igualmente parte "As Andorinhas" (2009), "Na mão de Deus" e "Por Quem Vibram os Tambores do Além" (2013), "Ngoma Yethu: O curandeiro e o Novo Testamento" (2015), "O Canto dos Escravos" (2017), "O Curandeiro e o Novo Testamento" (2018).

O júri da 33.ª edição do Prémio Camões foi constituído pelos professores universitários Ana Martinho e Carlos Mendes de Sousa (Portugal), pelo escritor e investigador Jorge Alves de Lima e pelo professor universitário Raul César Fernandes (Brasil), e pelos escritores Tony Tcheka (Guiné-Bissau) e Teresa Manjate (Moçambique).

No Brasil, está editada apenas a obra "Niketche: Uma História de Poligamia".

O Prémio Camões de literatura em língua portuguesa foi instituído por Portugal e pelo Brasil, com o objetivo de distinguir um autor "cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento do património literário e cultural da língua comum".

Segundo o texto do protocolo constituinte, assinado em Brasília, em 22 de junho de 1988, e publicado em novembro do mesmo ano, o prémio consagra anualmente “um autor de língua portuguesa que, pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum”.

Foi atribuído pela primeira vez, em 1989, ao escritor Miguel Torga.

Em 2019, o prémio distinguiu o músico e escritor brasileiro Chico Buarque, autor de "Leite Derramado" e "Budapeste", entre outras obras; em 2020, o professor e ensaísta português Vitor Aguiar e Silva.

Portugal e Brasil lideram a lista de distinguidos com o Prémio Camões, com 13 premiados cada, seguindo-se Moçambique, agora com três laureados, Cabo Verde, com dois, mais um autor angolano e outro luso-angolano.

A história do galardão conta apenas com uma recusa, exatamente a do luso-angolano Luandino Vieira, em 2006. In “Sapo Mag” – Portugal com “Lusa”




quarta-feira, 15 de maio de 2019

Paulina Chiziane, autora que toda mulher deveria conhecer

                                                            I
A exemplo do que já fizera em Dicionário de personagens da obra de José Saramago (Blumenau-SC: Editora da Fundação Universidade Regional de Blumenau – EdiFurb, 2012), levantamento de 354 protagonistas que perpassam os romances e peças teatrais do Prêmio Nobel de Literatura de 1998,  feito a partir de pesquisa que durou 15 anos e contou com a colaboração de mais de oito dezenas de seus alunos, a professora, contista, ensaísta e crítica Salma Ferraz acaba de lançar Dicionário de personagens da obra de Paulina Chiziane (São Paulo: Todas as Musas, 2019), publicado com recursos do Ministério da Cultura, através da Lei de Incentivo à Cultura.

A obra é resultado de um trabalho coletivo que durou cinco anos e foi realizado por uma equipe coordenada pela professora Salma Ferraz, incluindo 53 alunos de graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o auxílio de duas alunas da Pós-Graduação em Literatura Brasileira da mesma UFSC, Patrícia Leonor Martins e Márcia Mendonça Alves Vieira. Como diz na apresentação que escreveu para este livro Tania Macedo, professora titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e diretora do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (USP), este trabalho constitui uma espécie de “mapa” da escrita da autora moçambicana Paulina Chiziane (1955) que vai muito além daquilo que o título da obra deixa entrever.

Além de relacionar personagens que aparecem em vários livros de Paulina, o Dicionário traz uma fortuna crítica e uma biografia da autora, bem como duas entrevistas concedidas por ela para órgãos de imprensa do Brasil e do exterior e dois ensaios de especialistas. Um dos responsáveis por um desses ensaios é este articulista, autor de “O feminismo negro de Paulina Chiziane”, originalmente publicado em Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macedo, organizadoras (Maputo: Marimbique Conteúdos e Publicações, 2012, pp. 33-41). O outro ensaio é “Adão e Eva na obra de Paulina Chiziane”, de António Manuel Ferreira, professor associado com agregação do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. Ao final, o livro traz ainda uma fortuna crítica de textos acadêmicos dedicados à obra da autora moçambicana.

Como Paulina Quiziane é autora de mais de dez livros publicados em Portugal e Moçambique, incluindo obras em co-autoria (dois volumes de ensaios e um livro de poemas), as autoras decidiram concentrar os estudos nos cinco romances da escritora: Balada de amor ao vento (1990), Ventos do apocalipse (1993), Sétimo juramento (2000), Niketche: uma história de poligamia (2002) e O alegre canto da perdiz (2008), além dos personagens dos contos “As andorinhas” (2013) e “As mãos dos pretos” do livro As Cicatrizes do amor, este último incluído também na Antologia do conto moçambicano, organizado por Nelson Saúte (2007).

                                                           II
Para quem não sabe, é preciso que se diga que Paulina, entre as escritoras de todo o mundo, é uma das vozes mais fortes e lúcidas em favor da emancipação feminina, pois denuncia com todas as letras “as ideologias ditadas pelo poder sob a máscara da criação divina que permitem ao homem ser governador dos destinos da mulher”. No artigo “Eu, mulher... por uma nova visão do mundo”, que serve de apresentação para este livro, a escritora conta que foi a condição social da mulher que a inspirou a escrever seus contos e romances.

Ela conta que, quando começou a escrever, muitas pessoas a consideraram uma mulher frustrada, desesperada, destituída de razão. “Foi um momento terrível para mim. Mas, por outro lado, estas atitudes tiveram um efeito positivo porque forçaram-me a demonstrar pela prática que as mulheres podem escrever e escrever bem”. Aliás, como este articulista já escreveu há tempos, a literatura produzida por mulheres mostra outros ângulos que os escritores homens não conseguem ver.

Nascida em Manjacaze, na província de Gaza, região Sul de Moçambique, Paulina viveu no campo até os sete anos de idade, quando se mudou para os subúrbios da cidade de Maputo, onde frequentou estudos superiores de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane, sem concluí-los. Nasceu numa família de protestantes onde se falava as línguas chope e ronga. Aprendeu a língua portuguesa na escola de uma missão católica. Participou ativamente da política à época da independência de seu país como membro da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), tendo sido eleita em 1994. Depois, trocou a vida partidária para se dedicar à escrita e ao trabalho na Cruz Vermelha. Hoje, vive em Matola, cidade próxima a Maputo, onde escreveu sua obra debaixo de estrondos e ameaças de morte por causa de confrontos entre tropas governamentais e rebeldes.

Em Balada de amor ao vento, seu primeiro romance, Paulina recupera a história dos povos rongas e chopes, que ouviu em sua infância, principalmente pela voz de sua avó. A narrativa ocorre exatamente nessa região, a de Gaza, considerada a mais machista do Moçambique, onde a mulher, além de cozinhar e lavar, para servir uma refeição ao marido tem de fazê-lo de joelhos. Por isso, pode-se dizer que a literatura que Paulina produz traz o olhar do feminismo negro, que é diferente do feminismo branco, especialmente o europeu, porque muito mais trágico.

                                                           III
Entre as centenas de personagens da obra Paulina, uma das mais carismáticas é Rami, narradora e protagonista de Niketche: uma história de poligamia, livro que recebeu o Prêmio José Craveirinha de 2003. Tanto que, entre todos os verbetes, é o que mais espaço ocupa no livro (cinco páginas). O nome verdadeiro de Rami é Rosa Maria, uma mulher do Sul, bela e inteligente, que durante a juventude havia sido disputada por vários homens, mas que se casou com Tony que, seguindo a tradição local, sempre teve muitas mulheres, ainda que a esposa sempre lhe tivesse sido fiel.

Neste livro, aliás, o leitor pode encontrar o ponto central da literatura questionadora do mundo produzida por Paulina. Aqui se pode ler o seguinte: “Até na Bíblia a mulher não presta. Os santos, em suas pregações antigas, dizem que a mulher nada vale, a mulher é um animal nutridor de maldade, fonte de todas as discussões, querelas e injustiças. É verdade. Se podemos ser trocadas, vendidas, torturadas, mortas, escravizadas, encurraladas em haréns como gado, é porque não fazemos falta nenhuma. Mas se não fazemos falta nenhuma, por que é que Deus nos colocou no mundo? E esse Deus, se existe, por que nos deixa sofrer assim? (...)”.

                                               IV
Com mais de uma dezena de livros publicados, Salma Ferraz, professora titular da UFSC em Florianópolis, é graduada em Letras pelas Faculdades Integradas Hebraico-Brasileira Renascença de São Paulo (1987), com mestrado (1995) e doutorado (2002) pela Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho (Unesp). Foi bolsista da Fundación Carolina na Universidad Autónoma de Madri (2009). Fez pós-doutoramento na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2013. Dirige o Núcleo de Estudos Comparados entre Teologia e Literatura (Nutel) da UFSC.

É autora de O quinto evangelista: o desevangelho segundo José Saramago (Brasília: UNB, 1988); Maria Madalena: das páginas da Bíblia para a ficção, org. (Maringá-PR: Eduem, 2011); As malasartes de Lúcifer: textos críticos de Teologia e Literatura, org. (Londrina-PR: Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2012); As faces de Deus na obra de um ateu: José Saramago (Blumenau-PR: EdiFurb, 2012); Dicionário machista: três mil anos de frases cretinas contra as mulheres (São Paulo: Jardim dos Livros, 2013); Sobre o vampirismo: de Drácula a crepúsculo: a saga do vampiro na cultura ocidental, org. (São Bernardo do Campo-SP: Todas as Musas, 2017); e Teologia do riso: humor e mau humor no Cristianismo, org. (João Pessoa-PB: Eduepb, 2017), entre outras obras.

Patrícia Leonor Martins, graduada em Letras pela UFSC (2005), tem mestrado em Literatura (2017) e é doutoranda em Literatura na UFSC. Foi professora nas disciplinas de Comunicação e Expressão e Metodologia Científica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC), de 2011 a 2013. Pesquisadora do Nutel e bolsista do programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), elabora estudo sobre a diabo enquanto personagem na literatura russa.

Márcia Mendonça Alves Vieira, graduada em Letras pela UFSC, é mestranda na mesma universidade. Pesquisadora das obras e das vidas de Friederich Nietzsche, Walter Benjamin e Martim Heidegger, é revisora crítica e textual da Revista UOX, do curso de Letras do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC. Tem contos e poemas publicados na Revista Mafuá (2016). Adelto Gonçalves - Brasil
       
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Dicionário de personagens da obra de Paulina Chiziane, de Salma Ferraz, Patrícia Leonor Martins e Márcia Mendonça Alves Vieira.  São Paulo: Editora Todas as Musas, 1ª ed., 320 págs., 2019. E-mail: todasasmusas@gmail.com Site: www.todasasmusas.org


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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Moçambique – Paulina Chiziane apresentou o seu novo livro

“Ngoma Yethu: O Curandeiro e o Novo Testamento” é o título da nova obra literária lançada ontem, 10 de Setembro de 2015, em Maputo, no Museu de História Natural, pela conceituada escritora Paulina Chiziane, produzida em co-autoria com a experiente curandeira Mariana Martins.

Com mais de 300 páginas, a obra que conta com o alto patrocínio da mcel-Moçambique Celular e do Banco de Moçambique, foi escrita com base numa pesquisa social realizada pela romancista, onde aprofunda assuntos relativos à intercepção entre o curandeirismo e o cristianismo.

Aliás, no prefácio, Rosita Alberto Valoi considera “Ngoma Yethu”, um arrojado "rufar que nos convida a uma reflexão, tão delicada e profunda quão premente e descomplexada, sobre dois aspectos sócio-culturais importantes, nomeadamente o cristianismo europeu e o curandeirismo africano".

Abordado momentos após o lançamento do livro, o Administrador para a Área Técnica da mcel, Arlindo Mondlane, referiu que o novo livro da escritora Paulina Chiziane não constitui o primeiro projecto dela que a operadora apoia.

“Já nos envolvemos nas outras obras anteriores, porque é uma escritora que aborda a realidade do nosso País e este tipo de iniciativas, que projectam a moçambicanidade, merecem o apoio de todos nós, particularmente da mcel”, indicou, realçando que “achamos ser pertinente abraçarmos projectos daqueles que são a voz do povo e da cultura moçambicana”, realçou Arlindo Mondlane.

À margem da cerimónia de lançamento do “Ngoma Yethu”, Paulina Chiziane explicou que a obra é um resgate à nossa identidade, à nossa História: “Somos independentes há 40 anos, e por mim, o trabalho da libertação nacional é um processo contínuo. Então todo este trabalho de ir às raízes ouvir as pessoas que lidam com as questões tradicionais, para mim foi muito apaixonante e acredito que vai contribuir para uma nova visão da moçambicanidade”, disse.

Acrescentou ter sido muito difícil procurar apoios para a obra “Por Quem Vibram os Tambores do Além”, porque as pessoas não acreditavam que o curandeiro tinha sabedoria.

“Mas a mcel me acolheu e financiou o trabalho. Devido ao sucesso desta obra tive a coragem de voltar a trabalhar novamente com uma curandeira, para aprofundar outras questões e a mcel de novo contribuiu para que o livro “Ngoma Yethu” seja acessível e recebido pelo povo”, referiu a escritora.

Paulina Chiziane iniciou a sua actividade literária em 1984, com contos publicados na imprensa moçambicana. Com o seu primeiro livro, “Balada de Amor ao Vento”, editado em 1990, tornou-se a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. In “Olá Moçambique” - Moçambique

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Moçambique – Paulina Chiziane em co-autoria com Maria do Carmo da Silva

Os recentes livros da irreverente escritora Moçambicana Paulina Chiziane em co-autoria com Maria do Carmo da Silva, “Na mão de Deus” e “Por quem vibram os tambores do Além” não se ajustam nos moldes da literatura de ficção.

Quebrando as fronteiras entre o autor textual e o autor empírico, Na mão de Deus é um relato da experiência de vida da personagem principal da história, de nome Alice, quando acometida por uma crise mental que a levou a passar alguns dias internada no Hospital psiquiátrico de Infulene.

Trata-se de uma obra que aborda a questão da mediunidade, isto é, a incorporação dos espíritos em seres humanos passando estes a mediar o mundo dos vivos e dos mortos.

Por Quem vibram os tambores do Além, agudiza ainda mais esta tendência de escrita, ao adentrar em histórias reais do curandeirismo, num exercício em que a autora procura salvaguardar uma “sabedoria” Africana que considera marginalizada, ignorada pela Ciência bem como por muitas crenças religiosas ditas “sagradas”.

Sobre o livro Na mão de Deus, escreve o escritor Moçambicano, Calane da Silva, no prefácio; “é rica e minuciosa na narração e descrição do que acontece com uma personagem, melhor dito, com a personagem principal de nome Alice que vai contando ao longo da história todo o seu drama vivencial, todos os sintomas físicos e psíquicos que a levaram à psiquiatria, mas que, fundamentalmente era o aflorar da sua mediunidade, infelizmente, não compreendida pelos familiares e amigos, e tratada medicamente como se de uma mera doente mental se tratasse.”

Trata-se, considera, de um exercício de busca de explicação de fenómenos que escapam às soluções científicas racionais, através daquilo que hoje é conhecido como ciência espiritual, a parapsicologia, “que eminentes espiritualistas e espíritas – sem medo das religiões – foram investigando e desvendando com a colaboração, inclusive, de ousados homens e mulheres ligados à chamada ciência formal (revelando, assim, os tais mistérios e milagres de que falam algumas religiões) como, igualmente e de modo mais profundo, pelo Amor, pela Energia do Amor, que contém em si o perdão, a humildade, a caridade e a própria cura e também, essencialmente, pela descoberta do Criador Quântico dentro de cada um de nós que nos pode ajudar a resolver com sucesso todas essas questões e perturbações bio psíquicas.”

Estamos, escreve, perante uma narrativa que nos remete para “o conceito de uma literatura multidimensional e holística, de uma literatura para e do Terceiro Milénio, um Milénio que será caracterizado pelas grandes descobertas sobre o funcionamento da mente, como preconizou Michel Foucault”.

Por quem vibram os tambores do Além, segundo o professor universitário, Nataniel Ngomane, é uma reflexão que instiga o leitor a revisitar e questionar conceitos e crenças e caminhos de vida julgados firmes e consolidados”.

“Tomando como referência espaços geopolíticos do actual território de Moçambique e suas milenares figuras mitológicas – até agora desconhecidas de muitos de nós – Pita e Chiziane conduzem o leitor pelas sinuosas e múltiplas veredas das cavernas africanas, derramando sobre alas incontáveis feixes de luz de um saber (curandeirismo) sobre o qual urge questionar se oculto, escamoteado ou, pura e simplesmente, reprimido e votado à margem ou ao esquecimento”, escreve o académico. In “Debatemoz” - Moçambique

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Chiziane e Khosa condecorados


Os escritores moçambicanos Paulina Chiziane e Ungulani Ba Ka Khosa, foram ontem, dia 04 de Fevereiro de 2014, condecorados com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, uma atribuição do Presidente da República de Portugal, que teve lugar no salão nobre do Hotel Polana na cidade de Maputo, capital de Moçambique.



Para um melhor conhecimento destes dois escritores moçambicanos, convidamos a ler os textos aqui publicados no “Baía da Lusofonia” da autoria do Professor Doutor de Literatura Portuguesa Adelto Gonçalves, a 23 de Setembro de 2012, Ungulani Ba Ka Khosa e a 09 de Dezembro de 2012, Paulina Chiziane. Baía da Lusofonia


Fotos:txiling.sapo.mz

domingo, 3 de novembro de 2013

Libertação espiritual

Paulina Chiziane
A escritora moçambicana Paulina Chiziane, natural de Manjacaze, Gaza, onde nasceu a 04 de Junho de 1955, tem quase trinta anos dedicados à escrita e no passado dia 30 de Outubro de 2013, apresentou no Centro Recreativo da Universidade Politécnica (CREISPU) na capital de Moçambique, Maputo, a sua última obra literária, em co-autoria com Rasta Samuel Pita, intitulada “Por quem vibram os tambores do além?”, sob a chancela da Índico Editores.

Rasta Samuel Pita
“Se Deus é o único que criou a todos de maneira igual, deu a Moisés o poder da magia, também deu aos curandeiros, o mesmo poder. Por que é que hoje, os curandeiros são condenados e Moisés é louvado? As pessoas que criticam os curandeiros não conhecem as suas normas e nem os seus princípios. O conceito de ‘Deus único’ saiu de um africano, chamado Moisés, para o mundo. Como é que de repente aparecem religiões do ocidente a afirmar que África está nas trevas e os curandeiros são os diabos”. Palavras de Paulina Chiziane abordando que a opinião generalizada sobre o curandeiro africano e particularmente o moçambicano é negativa.
O Prefácio do livro coube ao Prof. Nataniel Ngomane que fez a apresentação. Aqui ficam as suas “Poucas palavras”:
Poucas palavras
Depois da publicação de Na mão de Deus (2012), em co-autoria com Maria do Carmo da Silva, livro em que Paulina Chiziane, a pretexto de discorrer - e com reconhecida e meritória ousadia - sobre uma dramática experiência de vida, levanta o véu a toda uma série de questões fortemente marcadas pela discriminação, exclusão e consequente marginalização dos doentes mentais, quer pelas famílias quanto pelos hospitais e pelo Estado - assunto, aliás, que mereceu a minudente atenção de Michel Foucault, levando-o a dissecá-lo na sua Histoire de la Folie à l’ Âge Classique (1972) e em Maladie Mentale et Psychologie (1975) -, a longínqua autora de Balada de Amor ao Vento (1990), Ventos do Apocalipse (1995), O Sétimo Juramento (2000), Niketche (2002), As Andorinhas (2008) e O Alegre Canto da Perdiz (2008) parece estar, de facto, a optar por um novo paradigma de escrita não propriamente ficcional mas contemplativo e reflexivo, ao nos presentear, desta vez, com este Por quem vibram os tambores do além?
Tal como Na Mão de Deus, livro posterior a este, mas que razões circunstanciais levaram a que fosse publicado primeiro, e cujas narrativas inquietam visceralmente o leitor - quer seja pela sua autenticidade, pinçada da experiência vivencial da autora, quer mesmo pelo facto de remeterem, amiúde, a uma crescente realidade que, para a nossa infelicidade, se vem assistindo no quotidiano moçambicano -, este “Por quem vibram os tambores do além?” apela também a uma reflexão que provoca profundamente o leitor, particularmente aquele leitor enraizado na tradição do pensamento e visão sociocultural de base ocidental, instigando-o a revisitar e questionar conceitos, crenças e caminhos de vida julgados firmes e consolidados. Este livro coloca esse leitor, em particular, em confronto com outros e sólidos sistemas culturais e de pensamento.
A assistência na apresentação do livro
Aqui, em co-autoria com Rasta Samuel Pita - e através de diversas frestas -, Paulina Chiziane põe o leitor em contacto com diversas tradições do pensamento africano, em especial as dos povos bantu, alicerçando-as com o crivo da sua visão crítica, tudo com base numa lógica impressionante, em meio a um destemido exercício comparativo assente no cruzamento de perspectivas filosóficas diferentes e de sistemas de pensamento igualmente diferentes.
Tomando como referência espaços geopolíticos do actual território de Moçambique e suas milenares figuras mitológicas – até agora desconhecidas de muitos de nós -, Pita e Chiziane conduzem o leitor pelas sinuosas e múltiplas veredas das cavernas africanas, derramando sobre elas incontáveis feixes de luz de um saber sobre o qual urge questionar se oculto, escamoteado ou, pura e simplesmente, reprimido e votado à margem ou ao esquecimento.
Iniciando com uma invocação aos espíritos, feita por Rasta Pita, a porta de entrada deste livro sugere, à partida, e em perfeita sintonia com os modelos estruturais da narrativa, a provável presença dessas entidades no texto, que, efectivamente, acabam sendo encontradas, embora não realizem aquela série de proezas habituais ao mundo da ficção. Todavia, ao mesmo tempo em que assim procede, essa invocação passa a constituir o principal mote, uma espécie de janela ampla que se abre e por meio da qual se tem acesso ao mundo estruturado do conhecimento e dos espíritos africanos sobre os quais a obra se tece.
Os espíritos africanos, neste livro, devem ser entendidos no sentido antropológico da ancestrolatria conceptualizada por Ribeiro (1998, p.25)1, como a religião dos bantu, o culto aos antepassados que “informa toda a vida familiar e social. Religião sem profetismo, fundada na tradição dos antigos, [em que] as suas manifestações principais são concretizadas em sacrifícios cruentos de animais, oferendas e orações, junto de um altar rudimentar, [e nela] só se temem e imploram os próprios antepassados”.
Não deve causar espanto, por conseguinte, que ao mesmo tempo em que essa janela ampla se abre, se abra outra similar, por via da mesma invocação, apontando para a existência de um “ser supremo” apresentado como autor espiritual do trabalho de Rasta Samuel Pita e Paulina Chiziane, e não só. Esse ser vai se desdobrando em múltiplas teias, consubstanciado nesse culto aos antepassados, assim conferindo estrutura e consistência a todo um modo de ver, pensar e viver o mundo totalmente diferente do que nos foi habituado pela filosofia e pensamento ocidentais. Em última instância, esse outro paradigma é apresentado como a força que informa as sociedades tradicionais dos bantu, num percurso em que o canto, o rufar do tambor e a força da natureza constituem elementos centrais. Nataniel Ngomane – Moçambique
  
1  Ribeiro, Pe. Armando. Antropologia. Aspectos culturais do Povo Changana e Problemática Missionária. Maputo: Paulinas
Quem deseje perceber as tradições africanas e os seus próprios conceitos, crenças, sistemas de pensamentos e visões do mundo, deverá ler o livro de Paulina Chiziane e Samuel Pita “Por quem vibram os tambores do além?”  Baía da Lusofonia

Paulina Chiziane – Escritora, “Balada de Amor ao Vento” (1990), “Ventos do Apocalipse” (1993), “O Sétimo Juramento” (2000), “Niketche: Uma História de Poligamia” (2002), “O Alegre Canto da Perdiz” (2008), “Na Mão de Deus” (2012), “Por Quem Vibram os Tambores do Além?” (2013). Prémio José Craveirinha 2003.
Nataniel Ngomane - Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde defendeu a tese A escita de Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa e a estética do realismo maravilhoso (2004), Nataniel Ngomane é Licenciado em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), com a defesa da dissertação Alguns aspectos da coesão e coerência textuais no romance Terra Sonâmbula de Mia Couto (1994).
Professor de Literatura Comparada e de Metodologia de Investigação na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM, tem textos dispersos em capítulos de livros, revistas e jornais, além de participação diversa em eventos científicos nacionais e internacionais.
Membro do Conselho Consultivo da revista Portuguese Literary & Cultural Studies (do Center for Portuguese Culture and Studies da University of Massachusetts-Dartmouth) e do Conselho Editorial Científico da revista Recorte (da Universidade Vale do Rio Verde, de Minas Gerais, Brasil), os seus interesses em pesquisa integram a Literatura Moçambicana e Latino-Americana, o Cinema e a Música moçambicanos. Director da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane